O Primo Meio-Quilo

História dos Irmãos Metralha, de 1977.

E temos aqui mais um adotado: criado no ano anterior por Mark Evanier e Pete Alvarado, o Metralha Meio Quilo é um baixinho muito chato que se acha esperto e quer se arvorar a líder do bando, especialmente quando o Intelectual e o Vovô não estão por perto. Mas não podemos nos esquecer, como sempre, de que toda maldade é burra.

Não que ele não tenha seus momentos de lucidez (seus planos de roubo são certamente melhores do que os planos de seus primos mais altos), mas o Patinhas, como sempre, é mais esperto (e infinitamente mais sutil) ao lidar com possíveis ameaças. Ele não ficou quaquilionário à toa, e sabe, como ninguém, se fazer de bobo à espera da hora certa de agir.

O interessante é como alguns símbolos (e ideias preconcebidas) parecem ser universais: desde sua história de criação, feita no exterior, o personagem leva nos lábios um charuto. Isso, é claro, não é coincidência. O símbolo fálico relacionado a certas crenças comuns sobre homens de baixa estatura é uma referência mais “adulta” que papai conhecia e também usou, de diversas maneiras, em seus personagens baixinhos.

Isso demonstra, aliás, que havia uma preocupação quase universal dos autores Disney da época em fazer quadrinhos a princípio infantis, mas que pudessem ser lidos de maneiras diferentes por pessoas de idades diferentes.

E novamente, se não fosse pelas quatro histórias que papai fez para o Meio Quilo ao longo de quase uma década, ele teria sido mais um “personagem de uma história só”. Ao que parece, criar personagens é mais fácil do que encontrar maneiras de usá-los mais de uma vez.

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Os Novos Chapéus Voadores

História dos Irmãos Metralha, de 1975.

Como sempre, o plano maligno de fuga e assalto é bom. Na verdade, é quase perfeito. E o problema, é claro, é esse “quase”.

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O chapéu voador é invenção de papai para o Professor Pardal, e não é por acaso que os planos para a invenção estavam na gaveta dos “inventos recusados”. Quem realmente acompanhou as histórias onde ele aparece e conhece o aparelho (com seus usos e suas limitações) logo vai adivinhar qual será o final da história.

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E o melhor de tudo é que não será preciso acionar nem a polícia, nem o inventor, e muito menos algum herói para fazê-los fracassar em mais este plano. Os Metralhas farão tudo sozinhos, da fuga à própria recaptura.

A presença do Azarado 1313 é meramente uma garantia de que tudo dará errado, é claro. Mas os vilões são tão burros, na verdade, que o resultado seria o mesmo de qualquer maneira.

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Duelo Na Cidade-Fantasma

História do Zorro, de 1973.

Parte da graça em ser escritor de histórias em quadrinhos é poder colocar o herói em apuros aparentemente insuperáveis, só para depois inventar uma maneira de fazer com que ele escape espetacularmente.

(Eu sei que dia é hoje e que tipo de história eu me propus a comentar às sextas-feiras, mas é também meu aniversário e eu gosto do Zorro. Pronto.) 😉

Ao libertar o que parece ser um prisioneiro político e depois tentar fugir (lembrando novamente que, em 1973, em plena ditadura militar, qualquer alusão a presos políticos era uma afronta ao sistema), o Zorro comete um erro de julgamento e vai parar em uma cidade fantasma. Se fosse qualquer outro lugar, especialmente se ele fosse bem povoado, seria mais fácil se misturar aos simpatizantes e sumir na multidão. Mas em um lugar perfeitamente vazio há anos, qualquer presença humana pode ser notada facilmente.

Depois de propor o problema, papai começa então a trabalhar a solução. A premissa, aqui, é que os soldados são tão burros e supersticiosos quanto o herói é astuto e inteligente. Apesar do maior número e do poder das armas, eles não serão páreo para o Zorro, que consegue enganar até mesmo o rastreador indígena que está a serviço dos soldados.

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Certos povos, como os indígenas no continente americano e os nômades do Oriente Médio, especialmente os beduínos em Israel, foram e são parte valiosa de qualquer exército (e também de equipes de arqueólogos e pesquisadores em geral). Eles conhecem com absoluto domínio o terreno, cada pedra, cada árvore, o clima, sabem se guiar pelas estrelas, e sabem notar qualquer distúrbio que possa indicar que alguém tenha passado ou esteja se escondendo por ali.

Mas esta é a única vantagem dos soldados. De resto, para atrapalhar ainda mais, papai trabalha firmemente a noção de que o lugar pode ser assombrado, de que o lugar é realmente assombrado, e de que um fantasma pode aparecer a qualquer momento.

Esse “pânico” todo que ele vai imprimindo aos personagens tem a finalidade de envolver o leitor para que, quando um nada simpático novo personagem for apresentado, até mesmo este último ficará na dúvida sobre o que está vendo. Será que o fantasma apareceu mesmo?

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O Mancha Cinzenta

História do Mancha Negra, de 1974.

Na história de hoje o Mancha Negra é tudo, menos o vilão. O problema é que ele não pode ser o herói, tampouco… Vai daí que a coisa acaba complicando consideravelmente para o lado dele.

A intenção expressa de papai sempre foi maltratar bandidos de todos os tipos o máximo possível, com especial “zelo” dedicado aos Irmãos Metralha. Mas ele também gostava de ridicularizar o Mancha, e tanto, que acabou se tornando bastante habilidoso nisso.

O problema é que não basta fazer o vilão se dar bem a história toda e depois o mandar para a cadeia no final, como nas novelas da TV. Isso não é dissuasão nenhuma, e só faz o espectador (ou o leitor, no nosso caso) achar que, se ele estivesse no lugar do bandido, se daria melhor, não cometeria erros, e daria um jeito de escapar.

Não importa se ele se deu mal no final, até mesmo porque ninguém sai deste mundo vivo, o que só cria uma glamourização e até mesmo um incentivo (talvez não intencional, mas incentivo do mesmo jeito) ao mau comportamento. Chegamos a um tal extremo dessa deturpação dos valores, que hoje em dia todo mundo sonha em poder viver como um vilão de novela. Assim, a solução é realmente passar a mensagem de que o crime não compensa em vários níveis, e tentar mostrar o vilão como o ser miseravelmente patético, ridículo mesmo, que ele realmente é.

Mancha Cinzenta

Desse modo, vemos que o Mancha, recém escapado da cadeia após o que parece ser um tempo bastante longo, já foi alegremente esquecido pela população de Patópolis (quem precisa se lembrar de coisas ruins, não é mesmo?). O problema é que há um novo “mancha”, um copy cat de cor cinza, que está tocando o terror na cidade em seu lugar, o que só faz aprofundar o esquecimento no qual o vilão caiu.

Mas, apesar do afã de eliminar a concorrência e retomar seu “posto” como pior bandido de Patópolis, ele só vai conseguir se humilhar ainda mais, para seu supremo desgosto e diversão do leitor. Ele passa por várias situações vexatórias durante a perseguição ao rival e até mesmo uma esmola é jogada na direção dele, em um de seus piores momentos na trama, só para reforçar a humilhação. Ele realmente não está com nada, hoje.

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O nome “Mancha Cinzenta” me lembra um clássico dos Quadrinhos nacionais, “A Garra Cinzenta“, mas a referência para por aí.

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Um Monstrengo Incomoda Muita Gente…

História do Morcego Vermelho, de 1976.

Assim como aconteceu com os superamendoins do Superpateta, a poção misteriosa do Doutor Zung também já foi distribuída por papai aos mais diversos personagens. Até o próprio Morcego já tomou uns goles dela, e hoje é a vez de todos os mais perigosos bandidos de Patópolis… juntos!

O plano, arquitetado pelo Dr. Estigma, envolve o uso da poção pelo bando para a realização de mais uma fuga espetacular da prisão, e subsequente onda de crimes pela cidade.

Vai ser um páreo duro para o nosso herói, mas nada que ele não consiga resolver. Afinal, se ele tem aquele jeitão atrapalhado em comum com o Superpateta, ele certamente não é tão bobo quanto o herói voador.

O título da história é uma paródia de uma antiga canção infantil chamada “Um Elefante Incomoda Muita Gente”, que pretende ensinar criancinhas a contar os números de 1 a 10 em ordem crescente e decrescente, enquanto usa o tema potencialmente irritante da repetição como elemento de humor. Hoje, quem canta são os próprios bandidos, mas não por muito tempo, é claro.

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O tema “cantigas infantis” continua na solução que o herói encontra para lutar contra os bandidos:

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E papai também aproveita para fazer um pouco de graça com o Telefone Morcego, que o herói atende de uma maneira um pouco coloquial demais para um “telefone de trabalho”, como se estivesse falando com um velho amigo. De quebra, ele acaba sugerindo que o Coronel Cintra pode ter uma vida que vai além da Polícia e da delegacia, inclusive com família e filhos.

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O Superaspirador

História do Superpateta, de 1975.

Os bandidos da vez são os Irmãos Metralha e o Professor Gavião, e o assunto geral da história se concentra nos planos que os bandidos vivem bolando, e que nunca dão certo, por mais elaborados que pareçam ser.

O Metralha Intelectual se acha muita coisa, e fica inconformado em quebrar pedras na cadeia a cada vez que seus planos dão errado. Já o Gavião pode ter a seu favor grandes maravilhas tecnológicas, no mais das vezes roubadas, mas a verdade (e grande moral da história) é que não existe plano perfeito. É nisso que se baseiam, aliás, todas as histórias dos gêneros policial e de mistério, de clássicos da literatura, como Agatha Christie, a humildes histórias em quadrinhos. Aqui não será diferente.

O problema começa com o próprio super aspirador que o Gavião usa para tirar os Metralhas da prisão: ele não discrimina o que aspira, e vai tudo junto pelos ares a cada vez que é acionado. Menos, conveniente e curiosamente, o guarda da prisão. Já o corvo que aparece na cena, sugado “por acaso” junto com todo o resto, será habilmente usado como “running gag”, elemento de ligação entre os personagens, e até como solução para os “Apuros do Superpateta”, representando exatamente a falha no plano do mal.

Superaspirador

Quanto ao Superpateta em si, veremos que ter os poderes concedidos pelos superamendoins nem sempre é uma coisa boa, pois eles podem ser usados contra o herói. Mas também veremos que não ter esses poderes pode ser uma coisa boa, pois nem sempre uma superforça é a solução. Muitas vezes o que vale mais é a inteligência, e um simples Pateta ainda pode ter mais miolos na cabeça do que um bando de bandidos malvadões.

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Já leste o meu livro? Quem ainda não leu está convidado a conhecer minha biografia de papai, à sua espera nas melhores livrarias.

Marsupial: http://www.lojamarsupial.com.br/ivan-saidenberg-o-homem-que-rabiscava

Comix: http://www.comix.com.br/product_info.php?products_id=23238

Cultura: http://www.livrariacultura.com.br/p/ivan-saidenberg-o-homem-que-rabiscava-15071096

Monkix: http://www.monkix.com.br/serie-recordatorio/ivan-saidenberg-o-homem-que-rabiscava-serie-recordatorio.html

Uma Tarde De Altos E Baixos

História dos Irmãos Metralha, publicada uma única vez em 1977.

Difícil é entender como uma história boa dessas nunca foi republicada. A ideia é enganadoramente simples: os metralhas estão tentando fugir da prisão por meio dos túneis que estão escavando sob a penitenciária de Patópolis.

O problema é que nenhum deles tem um senso de direção muito apurado, o que acaba criando algumas situações bem constrangedoras (para eles) e muito engraçadas (para nós). Mas o mais engraçado é que eles conseguem cavar um verdadeiro formigueiro e repetidamente sair na superfície em lugares como a sala da guarda, por exemplo, e assim mesmo passam despercebidos o tempo todo.

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O Metralha Meio Quilo é um personagem criado no exterior e usado apenas uma vez por lá, e alegremente “adotado” e usado por papai em mais quatro histórias. Ele associava o personagem com uma brincadeira popular sobre a letra em português do tema de “O Poderoso Chefão” (Fale baixinho que só Deus irá ouvir). É só colocar a palavra “baixinho” entre vírgulas, e temos a piada pronta.

E por falar em formigueiro, mais ou menos nesta mesma época eu fiz uma “fazenda de formigas” num vidro de maionese com a terra e os insetos do quintal (umas formigonas pretas) para um projeto escolar. Só não me lembro quem influenciou quem: se foi papai que se inspirou no meu formigário, ou se foi ele quem me contou sobre como criar as formigas para poder ver os túneis que elas fazem.

Os “altos” e “baixos” são uma referência múltipla que combina a diferença de altura entre os vários metralhas, os túneis, que levam para cima e para baixo, e a tarde de percalços, entre a esperança de conseguir fugir da prisão e a decepção ao sair cada vez em um lugar diferente, mas ainda assim lá dentro mesmo.