Cachorros E Cachorradas

História do Tio Patinhas, de 1972.

Além do Primo Nadinhas, parece que o Patinhas tem mais alguns primos pobres, incluindo um certo Harpagão Mac Shato, um chato que é a ovelha negra da família e filante pedinchão que jamais conseguiu poupar um tostão… “apesar de seu nome”, nos diz papai em uma fala do velho muquirana, e isso é uma pista para o leitor pesquisar um pouco.

“Harpagão, O Velho Avarento” é o nome de uma peça de teatro, uma comédia de Moliére, famoso dramaturgo francês do século XVII. Apesar de ser muito rico e esconder dinheiro pela casa, ele submete a uma penúria extrema todos os que vivem com ele, até mesmo o seu próprio filho. A peça do autor francês pode inclusive ter servido de inspiração para “Um Conto de Natal”, livro de Charles Dickens que deu origem ao próprio Tio Patinhas.

Por falar em pistas, a história está cheia delas. O cão Mac Drog, uma droga de cachorro treinado para impedir que seu dono gaste dinheiro, é o primeiro mistério. De onde veio esse bicho? O comportamento do primo escocês, um tanto reticente em alguns momentos e com alguns atos falhos, fará o leitor atento ficar com a pulga atrás da orelha. Será que ele é realmente quem diz ser? E se não for, quem será ele?

Patinhas cachorradas

Depois de feitas as “apresentações”, papai começa a brincar de gato e rato com o leitor, plantando algumas pistas falsas no meio da trama. No momento em que a Maga Patalójika aparece, preparando uma super poção para arrombar cofres, o leitor acha que matou a charada. Afinal, as bruxas também chamam o Patinhas de “pato” (sinônimo de bobo), e a Maga é uma notória mestra em disfarces. Não seria a primeira vez que ela mudaria de aparência para melhor se aproximar do Patinhas e da Moedinha Número Um.

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Quando a Maga é expulsa pelo cão de guarda e os Irmãos Metralha entram em cena, somente para serem rechaçados eles também, o leitor provavelmente já estará meio tonto de tanto não entender nada. Quem é o vilão, afinal? Uma sequência de silhuetas na quinta página da história vai dando mais pistas. A primeira se parece um pouco com o Bruxinho Peralta, mas logo também esta confusão será desfeita.

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No final, o Harpagão não é o Harpagão, mas o cão Mac Drog pertence na verdade ao verdadeiro Harpagão, e foi roubado pelo falso para servir a um elaborado plano de roubo (Entendeu? Não? Ótimo!). Estes três personagens (Harpagão, o cachorro e o ator ladrão Ígor) só aparecem nesta história e são, portanto, criações exclusivas de papai. A história é uma das primeiras escritas por ele para a Disney, e tem uma forte influência do estilo de Carl Barks.

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Um Presente Para Tio Patinhas

História do Tio Patinhas, publicada em 1976.

O dia do aniversário do quaquilionário está se aproximando, e ele está chateado porque nesse dia ninguém dá a ele presentes de valor material, porque consideram que ele já tem tudo, ou pode facilmente comprar o que desejar. Mas o Patinhas pensa diferente. Afinal, um presente de valor seria mais uma adição à sua vasta fortuna, e isso é o objetivo de vida dele.

Mas, para sua surpresa, de repente começam a chegar à Caixa Forte presentes e mais presentes. Eletrodomésticos, móveis, o conteúdo de uma casa completa, e até mesmo as chaves de um carro, a ser buscado na concessionária.

Patinhas presente

Mas quem teria enviado esses objetos caros todos? E por quê? Num primeiro momento ele e o Donald suspeitam de mais um golpe da Maga Patalójika, mas logo o verdadeiro responsável se revela: um milionário da vizinha Gralhópolis (a cidades das gralhas, ao que tudo indica. Assim, a região metropolitana de Patópolis vai ficando maior) de nome Aramis Ântropo.

Este é mais um jogo de palavras baseado em um cacófato. “Misantropo” é sinônimo de alguém que sente uma antipatia geral por todos os seres humanos. Em nosso caso, trata-se de um misantropo “em recuperação”, que decidiu tentar fazer algo de bom pelo próximo, mas não exatamente o Tio Patinhas. O destinatário da boa ação era originalmente o Primo Nadinhas, parente pobre do pato mais rico do mundo.

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É claro que ninguém vai ficar sem os seus presentes. E mais: nesse processo o Patinhas finalmente entende a diferença entre os presentes de valor, e o valor dos presentes. Papai gostava muito de puxar por esse lado mais terno do ricaço de Patópolis, que não deixa de ser, ele também, um misantropo. Mas por baixo daqueles quaquilhões todos também pulsa um coração, afinal. E eu desafio o leitor a chegar ao último quadrinho desta história sem nem ao menos uma lágrima no cantinho do olho.

Quanto a mim, o melhor presente que eu posso ganhar neste final de ano é você passar lá no site da Editora Marsupial e reservar o seu exemplar do meu livro sobre papai:http://www.lojamarsupial.com.br/ivan-saidenberg-o-homem-que-rabiscava

O Pé De Feijão

História do Tio Patinhas, publicada uma vez só em 1975.

A trama é uma mistura entre as fábulas “João e o Pé de Feijão” e “O Príncipe e o Mendigo“, em duas linhas que se entrelaçam: ao mesmo tempo em que o pato muquirana está cansado de todos os pedintes que fazem fila na porta da caixa forte e pensando em tirar férias, as bruxas Maga Patalójika e Min estão pondo em prática mais um plano para se apoderar da Moedinha Número Um.

Até o Primo Nadinhas está na fila. Enquanto o pé de feijão mágico plantado pelas bruxas cresce, o Patinhas dá tratos à bola para encontrar um jeito de “escapar” por algum tempo, de preferência despercebido. Ele tem uma ideia, desce as escadas, e quando sobe de volta já está bem diferente, menos ranzinza, delegando tarefas, mais simpático… até folga ele dá aos empregados no final do expediente.

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Mais tarde ele sai para dar uma volta, e finalmente se depara com o pé de feijão em uma versão moderna, com elevador e tudo. Ávido pela galinha dos ovos de ouro ele sobe, e lá nas nuvens encontra o castelo, uma velhinha baixinha e um suspeito gigante de barba e cabelos roxos, que não enganam ninguém.

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O problema é que o suposto Patinhas topa fácil demais trocar “a moedinha” pela galinha, o que deve dar ao leitor, que até aqui já precisa estar com uma séria pulga atrás da orelha, a certeza de que este é ninguém menos do que o primo pobre do velho pato. Ao que parece, os dois são bem parecidos no que diz respeito a gostar de riquezas. Será que é o temperamento mais generoso do Nadinhas que o impediu de ficar rico? Enquanto isso, o verdadeiro Patinhas nem viu o pé de feijão, e está aproveitando seu dia de folga por aí, disfarçado de mendigo.

“Os Urubusservadores”

História do Zé Carioca, publicada pela primeira vez em 1973.

Dizem que a sorte é igual para todos, mas nada como ter uma ajudinha. As pessoas sempre tiveram os mais variados métodos para “ajudar a sorte” e tentar adivinhar o resultado da loteria. E para ganhar na loteria, vale tudo, até confiar em sonhos. Esse método, aliás, era muito usado no passado para apostas no jogo do bicho, por exemplo. Talvez até ainda seja.

O interessante aqui é o “sonho profético” do Zé. Papai dizia que os tinha, mas pelo menos nunca com esse efeito.

ZC sonho urubus

No caso desta história, o Zé, além de sonhar, é capaz de interpretar o sonho. E com base no que viu, ele desenvolve um “método” para fazer suas apostas. De acordo com o urubu que pousasse num certo telhado do Morro do Urubu, vizinho ao Morro do Papagaio (cujo nome foi inspirado no Morro do Pavão, no Rio), o Zé foi marcando, ao longo de quatro dias, os 13 palpites da loteria esportiva.

O palpite do Zé se revela correto, no final, mas quem finalmente recebe o prêmio não é ele, e sim um primo pobre o Tio Patinhas. A ambição de ganhar na loteria ameaça o relacionamento com os amigos, e ele acaba jogando o bilhete preenchido fora. Fica a pergunta: o que vale mais, dinheiro, ou amizade/amor sinceros?

ZC amigos urubus

Aviso aos navegantes: estou em semana de férias, com família em casa, e pode ser que não consiga atualizar o blog todos os dias.