Quem Tem Medo Do Bicho-Papão?

História do Morcego Vermelho, de 1978.

Como toda boa trama de terror (e de “terrir” também), esta história começa com uma paz enganadora. O nosso herói conseguiu vencer e mandar para a cadeia todos os bandidos de Patópolis. Isso é uma coisa boa, é claro, mas também deixa o personagem principal sem ter muito o que fazer.

Mas como esta não é uma história do Pena Kid, quando a paz for quebrada, será em grande estilo. (Eu disse “grande”?) É que “grande”, na verdade, é só o estilo, mesmo. O vilão da vez até que é bem pequeno.

Para o leitor atento vai ficar claro de imediato que não é nenhuma alucinação. Resta tentar adivinhar, então, quem, ou o que, é esse “Bicho Papão”. Pelo tamanho, poderia ser o bruxinho Peralta transformado, ou até mesmo um produto de sua maleta de monstrinhos. Mas qual interesse ele teria no Morcego Vermelho? Ou talvez seja alguma criação robótica de algum dos gênios do mal que o Morcego prendeu? Uma coisa é certa: seres sobrenaturais, como monstros, seres mitológicos e assombrações não existem. Ou será que existem?

Quando a “pulga atrás da orelha” do leitor já está coçando bastante, papai começa a jogar mais pistas nas páginas. A insistência do bicho em sugerir que o herói abandone a carreira é a principal delas. E o fato de na verdade serem três os monstrinhos lembra bastante as histórias do Zorrinho. Só que os sobrinhos do Donald podem ser um pouco levados de vez em quando, mas não cometeriam uma agressão dessas. Assim, quem eles poderiam ser?

A resposta, é claro, será revelada na última página, depois de uma intensa troca de sopapos entre os bons e os maus. Lembrem-se: foram os monstrinhos quem começaram a agressão, e para valer. Mas tenho a impressão de que esta história não seria aceita para publicação nos dias de hoje no formato em que está, justamente por causa da identidade dos vilões.

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Lampadinha Ou Lampiãozinho?

História do Professor Pardal de 1974.

O Professor Gavião, apesar de considerar a si mesmo um gênio tão inspirado quanto o Professor Pardal, não passa de mero copiador de inventos alheios (e roubados).

A coisa toda pode aliás ser comparada com os diversos tipos de artistas que existem por aí: há os verdadeiramente inspirados, que fazem coisas admiráveis, e há os que dominam a técnica, são até bons no que fazem, mas não sabem se soltar e realmente fluir com sua arte. (Há piores, é claro, os copiadores da arte alheia, e é entre o medíocre e a fraude que o Gavião gravita.)

O problema é que, se o artista “menos genial” não souber relaxar e se cobrar um pouco menos, ele pode realmente se tornar amargo e invejoso do trabalho alheio, sabotando a si mesmo no processo e se impedindo de mostrar o seu verdadeiro potencial.

O Gavião é como o cozinheiro que sabe seguir um livro de receitas e, com algum esforço, cozinhar perfeitamente um belo jantar. Mas ele também sabe que o resultado não é exatamente dele, mas sim de quem compôs aquela receita, coisa que ele não saberia fazer (ou não teria coragem de tentar).

É exatamente por isso que o plano do vilão é perfeito. Na verdade, é um pouco “perfeito demais”, e é por isso mesmo que o feitiço vai acabar virando contra o feiticeiro. O leitor atento perceberá imediatamente que o Gavião vai perder a parada de novo assim que vir os dois robozinhos juntos.

O tema das cópias malvadas/imperfeitas e defeitos do Lampadinha foi algo que papai usou várias vezes nas histórias do personagem, sempre de maneiras levemente diferentes mas igualmente hilárias.

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…Fica Assim De Gavião!

História do Professor Pardal, de 1973.

A inspiração para o título vem da letra de um antigo samba de Pedrinho Rodrigues, chamado “Ninguém Tasca (o Gavião)”. Mas as semelhanças com a canção (muito machista, por sinal) param por aí. A brincadeira, aqui, será bem mais literal e vai girar em torno do grande número de robôs com a aparência do Professor Gavião que vão circular por Patópolis. (Se um elefante incomoda muita gente…)

Outras noções interessantes que podemos ver são coisas como uma “entressafra” de superamendoins (o que impedirá o Pateta de se transformar e salvar a cidade, no que seria uma solução fácil demais), uma alusão à Cornucópia da Fartura (reza a lenda que quanto mais se tira coisas dela, mais ela produz) na máquina multiplicadora de robôs, e o comportamento limitado e repetitivo característico dos robôs de papai que seria usado novamente pouco tempo depois em “O Invencível Mancha Negra”, já comentada aqui.

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Por fim temos, como em “A Guerra dos Mundos”, outra referência bastante usada por papai, um “monstro” que contém em si a chave para sua própria destruição. Essa é realmente uma solução útil para se lidar com um problema dessas proporções sem precisar recorrer à obviedade de um super herói.

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De todas as referências, para mim a mais original é a da falta de superamendoins. Aqui descobrimos um ponto fraco do Superpateta que é tão óbvio quanto surpreendente. Papai já deixou o Super sem seus amendoins mágicos de muitas maneiras diferentes, mas uma entressafra é coisa que pouca gente imagina, na quase absoluta segurança alimentar deste nosso (quase primeiro) mundo pós-moderno.

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Se formos pensar em termos de amendoins comuns, no estado de São Paulo temos duas safras anuais. Uma de janeiro a fevereiro, e outra de junho a julho. Assim, é preciso ser realmente muito “pateta” para ficar completamente sem eles. Mas talvez os pés de superamendoins sejam diferentes, e produzam uma vez só por ano (ou nem isso, ou não seriam assim tão raros e especiais).

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A Máquina-Relâmpago

História do Zé carioca, de 1974.

Quem nunca sonhou em ganhar na loteria? Além disso, quem nunca sonhou em ter uma máquina do tempo ou, pelo menos, um jornal do futuro? Quando esses elementos se juntam em uma história em quadrinhos, tudo pode acontecer.

A ideia, é claro, não é nova, e é explorada na literatura e na cultura pop desde os tempos do romance “A Máquina do Tempo”, de H. G. Wells, de 1895. Já a noção de se ter o jornal de amanhã entregue em sua porta todas as manhãs foi o tema de uma série de TV de 1996, 101 anos depois.

Como elemento de ligação e “running gag” da história temos o guarda-chuva do Zé, que escapa da mão dele a cada vez que ele é cobrado por algum de seus amigos, com consequências imprevisíveis. Até como arma o objeto é usado pelo Zé.

Outra piada que se repete ao longo das páginas é a do Nestor deixando escapar, a todo momento e nas horas mais impróprias, que o Zé está sem dinheiro.

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No final a máquina do tempo roubada é devolvida pelo Zé ao Professor Pardal em Patópolis, e como recompensa ele pede “apenas” para viajar até a próxima segunda-feira. O plano é simples: comprar o jornal com os resultados da loteca. Conseguirá o nosso herói finalmente ficar rico e pagar o que deve aos amigos?

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Tenho o prazer de anunciar um novo livro, que não é sobre quadrinhos, mas sim uma breve história do Rock and Roll. Chama-se “A História do Mundo Segundo o Rock and Roll”, e está à venda nos sites do Clube de Autores agBook

Inventos Fraudulentos

História do Professor Pardal, de 1983.

O tema, aqui, é definitivamente “fraude”. Não apenas os inventos que estão sendo vendidos na rua são fraudulentos, porque são inventos defeituosos vendidos baratinho como se fossem bons, mas também a própria pessoa que os está vendendo, apesar de se parecer perfeitamente com o Pardal, é um tipo de fraude.

Mas isso é algo que, em um primeiro momento, o leitor não vai saber. Nem o leitor, e nem os personagens, que serão todos levados no bico, e não por acaso. A coisa começa a se esclarecer quando vão, todos os cidadãos lesados de Patópolis, ao mesmo tempo até a porta da casa do inventor para reclamar. É aí que o leitor atento verá uma silhueta que pode muito bem passar despercebida por olhos menos alertas, e que é a chave para tudo.

Pardal inventos

Já a pista do que possa ser o “invento secreto”, roubado do laboratório assim que a porta se abre, está nos nomes do cliente que o encomendou e da cidade onde ele mora. “Nitrus” e “Glicerius” vão lembrar, para quem conhece um pouco de química, tem bons conhecimentos gerais, ou era fã de quadrinhos e dos desenhos animados que passavam na TV naqueles tempos, a palavra “Nitroglicerina“, e também não por acaso.

Outro detalhe interessante nesta história, que já é alicerçada em tantos deles, é uma rara trégua entre Donald e Silva. Eles chegam a concordar, enquanto colaboram com o inventor e o resto da turma para tentar entender o que havia acabado de acontecer.

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E como também acontece frequentemente, há toda uma ação secundária protagonizada pelo Lampadinha, enquanto a trama principal se desenrola. Isso tudo junto, com toda certeza, fará o leitor voltar atrás e folhear a história várias vezes, em busca de todos os detalhes que deixou escapar, alguns deles bastante discretos, mas não menos engraçados.

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Tico e Teco e o Teco-Teco

História dos esquilos Tico e Teco, de 1974.

Estes personagens em especial têm uma “pegada” mais infantil, o que demanda um estilo de roteiro bem mais inocente e leve do que a maioria dos outros roteiros de papai. A brincadeira começa com o título da história, que é um jogo de palavras entre os nomes dos bichinhos e o de um tipo de avião monomotor movido a hélice. A própria denominação “teco-teco” é uma onomatopeia do som produzido pelo motor do aparelho.

Os dois pequenos roedores estão cansados de carregar suas avelãs, uma a uma, para sua toca na árvore, e decidem pedir ao Professor Pardal, cujo laboratório fica próximo, uma solução mais prática. O problema é que o inventor viajou, e o Lampadinha está tão triste por ter sido deixado para trás para vigiar o laboratório que nem nota a presença dos esquilos.

Mas alguém nota. No “vácuo” formado pela ausência do inventor do bem, o inventor do mal, Professor Gavião, resolve agir. Sempre em busca de roubar os inventos de seu rival, ele decide usar os esquilos como “inocentes úteis” para entrar no laboratório sem serem notados e tirar de lá um importante protótipo de motor disfarçado de inofensivo aeromodelo.

teco teco

O problema começa quando, para a sorte dos bons e azar dos maus, os dois se revelam muito mais “inocentes” do que “úteis”.

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O Superaspirador

História do Superpateta, de 1975.

Os bandidos da vez são os Irmãos Metralha e o Professor Gavião, e o assunto geral da história se concentra nos planos que os bandidos vivem bolando, e que nunca dão certo, por mais elaborados que pareçam ser.

O Metralha Intelectual se acha muita coisa, e fica inconformado em quebrar pedras na cadeia a cada vez que seus planos dão errado. Já o Gavião pode ter a seu favor grandes maravilhas tecnológicas, no mais das vezes roubadas, mas a verdade (e grande moral da história) é que não existe plano perfeito. É nisso que se baseiam, aliás, todas as histórias dos gêneros policial e de mistério, de clássicos da literatura, como Agatha Christie, a humildes histórias em quadrinhos. Aqui não será diferente.

O problema começa com o próprio super aspirador que o Gavião usa para tirar os Metralhas da prisão: ele não discrimina o que aspira, e vai tudo junto pelos ares a cada vez que é acionado. Menos, conveniente e curiosamente, o guarda da prisão. Já o corvo que aparece na cena, sugado “por acaso” junto com todo o resto, será habilmente usado como “running gag”, elemento de ligação entre os personagens, e até como solução para os “Apuros do Superpateta”, representando exatamente a falha no plano do mal.

Superaspirador

Quanto ao Superpateta em si, veremos que ter os poderes concedidos pelos superamendoins nem sempre é uma coisa boa, pois eles podem ser usados contra o herói. Mas também veremos que não ter esses poderes pode ser uma coisa boa, pois nem sempre uma superforça é a solução. Muitas vezes o que vale mais é a inteligência, e um simples Pateta ainda pode ter mais miolos na cabeça do que um bando de bandidos malvadões.

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