Papagaio Disco Clube

A pedidos, abro as atividades deste ano com uma história do Zé Carioca publicada originalmente em 1980.

Consta que papai foi o primeiro a levar para os quadrinhos este conceito de se “puxar” energia elétrica por meio de ligações improvisadas de uma casa a outra, muito comum nas favelas em geral desde aquele tempo e até os dias de hoje. Na época em que esta história foi escrita papai costumava visitar a favela do Morro do Pavão, próxima à redação de O Pasquim, onde conversava com os moradores e colhia ideias para as histórias do papagaio, e onde certamente ficou sabendo desta popular “solução energética”.

Assim, para fornecer energia para a sua discoteca, inspirada no estabelecimento paulistano/carioca quase homônimo de propriedade de Ricardo Amaral (aqui chamado de Ricardo Amarelo), o Zé aceita a oferta do Pedrão e faz um “gato” de energia da casa do amigo até o seu estabelecimento comercial. Até aí, tudo bem, se o Pedrão não tivesse puxado a sua energia do Afonsinho, que puxou a luz de um tal de Cebola, que estava usando a eletricidade de um certo Mané. Ou seja, algo assim não pode dar lá muito certo.

ZC Discoteca

A “arquitetura” da discoteca do Zé é inspirada numa discoteca ao ar livre que ao que parece existiu no Morro da Urca, mas o detalhe interessante é que o lugar onde está localizada a Vila Xurupita, nesta altura do campeonato, não se chama mais “Morro” do Papagaio, mas sim “Bairro” do Papagaio. Com o sucesso das histórias brasileiras no exterior, a direção da redação resolveu transformar a favela em bairro popular, para não perpetuar estereótipos “lá fora”.

ZC Discoteca1

Com a previsível queda de energia provocada pela sobrecarga das extensões clandestinas o Zé quase vê seu sonho de se tornar o “rei da noite carioca” ruir na sua frente (e quem disse que ele não gosta de trabalhar? Ao longo dos anos, o personagem mostrou o seu lado empreendedor muitas vezes). Mas quem tem amigos baladeiros nunca está sozinho, e uma ideia criativa salva a noite e a festa, ainda por cima sem precisar de energia elétrica, resgatando as tradições brasileiras frente à “americanização” proposta pela discoteca.

Inauguração Com Muita Ação

História do Zé Carioca, de 1981.

Atingido na cabeça por uma máquina fotográfica antiga jogada janela afora pelo Nestor, o Zé se inspira para mais um de seus planos mirabolantes: resolve se infiltrar, juntamente com o amigo, na inauguração da “Boate Aligator”.

Eles aproveitam a chegada do carro do “Jornal de Hoje” para entrar na festa “na cola” dos jornalistas. Este era o nome de um jornal que existia em Campinas, e no qual papai tinha uma coluna na época, chamada “Palavra e Traço”.

“Ricardo Avaral”, chiquérrimo dono da boate na história pode ser uma referência a Ricardo Amaral, o assim chamado “rei da noite carioca”. E o nome que o Zé dá a ele, “Zé de Thormes”, é certamente uma alusão a Jacinto de Thormes, pseudônimo do jornalista Maneco Müller, pioneiro do colunismo social no Brasil.

Era dessa maneira que papai ia aproveitando eventos de sua própria vida nas histórias, além de fazer alusão a grandes nomes e fatos da cultura brasileira.

O resto são as confusões de sempre, que nem por isso deixam de ser engraçadas. A piada final (“precisava ficar tão bravo só porque não sabe a resposta?”) vem de uma piada de salão que papai costumava contar, onde o leão sai perguntando aos outros animais da floresta a respeito de “quem é o rei dos animais”. Os outros, sempre mais fracos, respondem que é o leão, é claro. Até que o leão se depara com o elefante, que por ser mais forte lhe dá uma surra em regra. É aí que o leão sai com essa “conclusão”.