Mancha Negra e a Máquina do Tempo

E assim, meus amigos, chegamos à última revista Disney que eu tenho aqui na coleção. Trata-se da Edição Extra Nº 60, de 1974, que nos traz mais um épico memorável, como muitos outros que papai escreveu para a turma de Patópolis.

Outros exemplos desse tipo de revista especial que ele criou são A Volta Ao Mundo Em 8 Manchas, O Professor Pardal na Atlântida, e Mancha no Espaço. Além disso temos a trilogia de 1983 composta por Uma Aventura No Caribe, Viagem À Patagônia, e Perigo No Pólo Norte. Todas elas mostram seus personagens em grandes aventuras de múltiplas histórias ao redor do mundo, com tramas inspiradas em grandes clássicos da literatura ou em temas de ficção científica.

Hoje a inspiração vem de “A Máquina do Tempo” de H. G. Wells, e de outras histórias similares. O Professor Pardal inventou mais uma dessas máquinas e convida o Mickey, o Pateta, e seus respectivos sobrinhos Chiquinho, Francisquinho e Gilberto, para uma viagem no tempo “educativa”, como se fosse uma excursão escolar. O problema começa quando o Mancha Negra invade o laboratório para fugir da polícia, e acaba caindo, ele também, na máquina ligada.

Com a “transferência automática”, todo dia ao por do sol, papai encontra uma maneira fácil e conveniente de fazer a turma saltar para a próxima etapa, e também para tirá-los das grandes enrascadas nas quais inevitavelmente se envolverão.

Outra “conveniência” usada será um “tradutor universal eletrônico” que, por seu tamanho diminuto, passa a aventura toda sendo confundido com um chiclete ou outro alimento e sendo engolido, ora por um personagem, ora por outro. Quem está com ele tem uma certa vantagem sobre os demais, mas no final nada substituirá o conhecimento de idiomas clássicos do Gilberto. E um viva para os intérpretes humanos!

As seis histórias da série são: Mancha na História (pré história), Mancha no Antigo Egito, Mancha na Grécia Clássica, Mancha em Roma, Mancha na Idade Média, e Mancha na Volta. Em todos os títulos, a palavra “mancha” pode significar uma “mácula”, uma presença negativa.

Todas elas são muito engraçadas e até mesmo educativas. Na pré história eles se verão cara a cara com dinossauros, e no Egito com os guardas do Faraó. É no Egito também que eles pegam as primeiras “passageiras”, duas jovens escravas que lembram bastante os primeiros desenhos do Mickey “das antigas”.

Na Grécia eles passarão um dia com os filósofos enquanto o Mancha vai se ver com o Rei Minos, de Creta. É lá também que o Pateta será considerado um filósofo, por seu jeito “diferentão” de pensar. Será isso um elogio a ele ou uma crítica aos filósofos clássicos?

Mas é com o episódio em Roma que papai realmente se solta e começa a se divertir com a história. Se, até aqui, os idiomas da antiguidade eram retratados com os clichês de costume das HQs, por exemplo, agora ele usará os seus vastos conhecimentos de Latim antigo e da cultura romana para imprimir bastante autenticidade e ainda mais humor às suas piadas. Também nos vemos às voltas com o Imperador Nero, seus legionários e o incêndio de Roma. Além disso recolheremos mais três “companheiros de viagem”, em uma homenagem a Asterix, de Uderzo e Goscinny.

Na Idade Média eles lidam com as superstições e o obscurantismo. É realmente interessante como a História do mundo parece ser uma espiral cíclica, como diziam os antigos filósofos gregos. Essa teoria propõe que a História se repete em ciclos, mas não de modo exatamente igual. Assim, não estaríamos exatamente andando em círculos viciosos, mas subindo por uma espécie de “escada caracol” cósmica. As situações se repetem, mas a cada vez de um modo um pouco diferente.

O que acontece é que, quando a humanidade completou o seu primeiro milênio de Cristandade, com a chegada do ano 1000 depois de Cristo, também havia muitos boatos de que o mundo iria se acabar. As populações da Europa passaram muitos anos sob a nítida impressão de que o fim estava próximo, até que resolveram achar uma “saída honrosa” para desistir da ideia. Será que nós também vamos passar décadas “esperando o meteoro”?

Por fim, na história de volta, papai começa brincando com as percepções do leitor. Tudo leva a crer que eles estão no tempo da fundação de Patópolis, até que o Mancha leva um tiro de uma espingarda de dois canos, que não existia na era colonial. Essa é a primeira dica que papai dá ao leitor de que nem tudo é o que parece e que eles estão, finalmente, de volta aos tempos atuais.

Este é o fim das revistas Disney, mas não do Blog. Eu ainda vou continuar por mais algum tempo, a partir de agora uma vez por semana com as histórias que papai escreveu para o Ely Barbosa, que são as últimas não-Disney que eu tenho na coleção, e em “edição extra” se eu conseguir encontrar alguma revista ou republicação de alguma história Disney que eu anida não tenha comentado.

Meu muito obrigada a todos os que me acompanharam até aqui, feliz Dia das Crianças, a comemorar amanhã, e vamos em frente.

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Visitem também o Sebo Saidenberg, na Amazon. Estou me desfazendo de alguns livros bastante interessantes.

As Aventuras De Pen-Hur

História do Peninha, de 1984.

Também poderia facilmente se chamar “As Desventuras de Pen Hur”, pela quantidade de encrencas pelas quais o herói terá de passar, mas “Aventuras” também está ótimo.

A inspiração vem do clássico filme “Ben Hur”, de 1959, estrelado por Charlton Heston. Juntamente com “Cleópatra” e outros do gênero, este foi um daqueles filmes épicos que marcaram várias gerações, chegando aos anos 1970 e 1980 ainda com a mesma fama e capacidade de cativar os espectadores.

A trama de papai como de costume consegue transformar um grande drama em uma comédia, mas ainda assim é razoavelmente fiel ao original. Quem conhecer a história do filme e ler a HQ, ou, ao contrário, ler a HQ e depois for ver o filme, certamente reconhecerá boa parte da história.

Os nomes dos personagens são todos adaptados, é claro, para um maior efeito cômico. Assim, o centurião Messala, principal vilão da história vira “Xatus Pacas”, por motivos óbvios, e o “centurião bom”, de nome Arrios, acaba virando “Arrius Equus”, em uma brincadeira com a expressão “arre, égua” e uma alusão ao amor dos romanos antigos por seus cavalos.

Alguns elementos são mantidos, como a mocinha por quem o herói é apaixonado sendo prometida contra a vontade a outro, as galés e a corrida de bigas, pontos fortes do filme. Outros elementos são atenuados, como a tentativa de suicídio do centurião bonzinho, que vira um acidente de quase afogamento no mar, e ainda outros são totalmente eliminados, como a existência da mãe e da irmã do herói, a doença delas e as referências ao Cristianismo. Essas partes mais trágicas e religiosas não “cabem” no estilo da Disney nem no número de páginas proposto para as histórias.

Como sempre, é um bom ponto de partida para que o leitor vá pesquisar mais um pouco, e de preferência ler um livro ou assistir a um filme ou dois.

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Os Metralhus De Roma

História dos Irmãos Metralha, de 1979.

Trata-se de mais um dos “causos” do Vovô Metralha sobre os antepassados dessa família que também é uma quadrilha.

O ano em que a trama se situa é 64 dC. Isso é importante porque é a primeira e mais importante pista sobre o final da história. Quem prestou atenção nas aulas de História da escola já vai saber o que é logo de cara, e quem não sabe vai aprender, mas só no final.

Uma segunda pista é o nome do Imperador romano, “Nerusca”, que é uma brincadeira com o nome Nero. Mesmo quem não sabe exatamente o que aconteceu em Roma no ano 64 já ouviu falar desse infame imperador e da lira que dizem que ele tocou na ocasião.

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Como papai já fez em outras histórias semelhantes, os números nos peitos dos Metralhas estão em algarismos romanos que podem até ser lidos por quem sabe (e papai sempre confiava que o leitor iria saber, ou pelo menos se interessar em aprender), e ele vai “semeando” palavras e expressões em Latim ao longo do texto na esperança de ensinar mais alguma coisa ou duas ao jovem leitor.

De resto também aqui o Azarado 1313 é o personagem principal e figura central na bagunça toda. Tendo se aliado a uma antepassada da Madame Min (sempre ela e sua predileção por “amores bandidos”) de nome Locusta, e estando sob a proteção dela, ele até começa a história sortudo, mas só começa. Já a bruxa em questão era uma especialista em venenos que existiu de verdade e fornecia suas poções mortais ao próprio Nero, que as usava para eliminar desafetos.

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“Locusta” é também o nome científico (portanto, latino) de um tipo de gafanhoto. Dada a má fama desses insetos destruidores, que atacam aos milhares e costumam comer toda a vegetação que encontram pela frente, é fácil entender o motivo pelo qual a bruxa da História clássica foi associada a eles.

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Cleópata – História Inédita

Como eu já disse antes, em 1993 papai escreveu em Israel algumas histórias novas para os Estúdios Disney da Abril, mas nem todas foram compradas.

Algumas foram compradas e publicadas naqueles tempos mesmo, mas sem os créditos (inexplicavelmente, numa época na qual já se dava os créditos aos argumentistas), outras foram devolvidas para reformulação e acabaram ficando conosco, e outras ainda nem sequer chegaram a ser enviadas ao Brasil.

Esta é uma clássica história na qual algum personagem é enviado a uma época da História, misturando muita ficção e humor com elementos históricos verdadeiros. A Batalha de Attium (Ácio, em português, ou Actium, em Latim), mencionada pela Margarida na terceira página, aconteceu no dia 2 de setembro do ano 31 Antes de Cristo, e está completando 2045 anos este mês. O leitor atento vai notar que papai deixou a data em branco na fala da Margarida, pois pretendia pesquisar melhor antes de enviar a história para avaliação.

E o nome “Cleópata”, obviamente, é uma alusão a Cleópatra, última rainha do Egito Antigo. O interessante é que as falas dos egípcios são vistas pela Margarida, e não ouvidas. Ela está lendo os desenhos nos balões exatamente como nós leitores, numa alusão aos textos escritos dos egípcios antigos, que são tudo o que chegou aos nossos dias. Ninguém se lembra mais como soava o antigo idioma egípcio, quando falado. O novo modelo de chapéu voador do Pardal na página 11 está mais para Hermes do que para Osiris, mas está valendo, porque Hermes também era cultuado no Egito na época de Cleópatra.

Além disso, a cena do Pardal voando na presença dos egípcios e sendo confundido com um deus está de acordo com as teorias de “Eram Os Deuses Astronautas?”, de acordo com as quais os assim chamados “deuses” poderiam ser viajantes do espaço – e neste caso, do tempo – que visitaram povos primitivos que não sabiam defini-los como outra coisa que não fosse sobrenatural.

As páginas estão em estágio de rough (rafe) a lápis, no traço característico e raro de se ver de papai, que aliás não deve nada aos rafes de outros desenhistas Disney. Notem também o logotipo do Instituto de Seguridade Social de Israel, o Bituach Leumi, que graciosamente cedeu o papel para que papai pudesse desenhar, já que na época ele trabalhava lá. (Desculpem se o lápis está um pouco claro, mas eu não quis passar filtros para não correr o risco de adulterar o traço original.)

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Patetus I E Único

História do Superpateta, publicada em 1975.

Nosso herói está voando sobre uns picos nevados em algum lugar do mundo, quando passa o efeito do superamendoim e ele cai, transformado novamente em mero Pateta. Salvo por dois camponeses com roupas estranhas, ele descobre entre as montanhas um lugar que parece saído de um livro de história antiga, mais especificamente a Roma antiga.

Fã incondicional de história clássica, papai não perdia a chance de voltar ao tema, sempre que lhe desse na telha. Só o potencial de criação de trocadilhos e cacófatos com base no Latim já valia algumas boas piadas.

Um bom exemplo, logo no início da história, é este:

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Papai também não perdia a chance de tentar ensinar algum Latim ao leitor, como neste exemplo:

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A geografia do reino perdido retratado nesta história também lembra bastante a da Roma verdadeira, especialmente a do Monte Palatino e seus palácios reais.

O resto da história também lembra grandes dramas da literatura clássica, daqueles que retratavam disputas às vezes sangrentas pelo trono de Roma. Sendo esta uma história Disney, é claro que ninguém pode morrer, mas um “calabouço secreto” pode existir, e é liberalmente usado.

Envolvido sem querer na intriga, o Pateta faz o melhor que pode para solucionar o mistério enquanto tenta encontrar seu chapéu, que contém ainda um superamendoim de reserva, e descobre que não voltou no tempo, mas simplesmente chegou a um lugar onde uma tribo de loucos pratica um tipo de reconstrucionismo romano.

Após encontrar o chapéu, solucionar o mistério do desaparecimento dos imperadores e recusar a coroa romana (mais uma referência à literatura, desta vez o discurso de Marco Antônio no funeral de César), nosso herói ainda institui a república, antes de voltar para casa, em Patópolis.

Como sempre nesse tipo de história de mistério, papai deixa pistas para o leitor atento, como o detalhe da folhinha torta na coroa de louros do imperador, que entrega o verdadeiro culpado por toda a confusão.

1313 No País Dos Azarados

Escrita em 1978, esta história só foi publicada, mesmo, em 1981.

Mais uma da séria “Metralhas Através da História”, esta é dedicada especialmente ao primo azarado e, como todas as outras, narrada pelo Vovô Metralha.

A narrativa se passa na Roma antiga, e o nome do antepassado é “Azaradvs XIII-XIII”. Os diálogos estão todos na segunda pessoa do plural, para simular um modo antigo de falar, com algumas frases em “Latim de gozação”.

Há também uma participação especial do Imperador Nero, e uma ou outra informação histórica correta, como o nome do Gládio, a espada curta de dois gumes usada pelos antigos soldados romanos e que lhes rendeu o nome de “gladiadores”. Além disso, a “Via Appia”, de uma das plaquinhas no caminho, é uma “rua” da Roma antiga que existe até hoje.

(Dica: hoje em dia é inclusive possível “passear” por essa Via no Google Street View, algo que eu recomendo de todo o coração.)

Nesse tipo de história com citações históricas papai era muito exigente a respeito da caracterização dos personagens, caprichando bastante no rascunho e fazendo mil recomendações aos desenhistas. No caso, foi dedicada uma atenção especial às armaduras dos soldados romanos, certamente obrigando o desenhista a fazer alguma pesquisa, também.