A Descoberta Do Garcia

História do Zorro, escrita em 1972 e publicada em 1975.

Esta é a última história de papai para este personagem que eu tenho aqui na coleção. Em compensação, acho que já comentei quase todas as outras. As histórias dele para o Zorro foram publicadas de 1973 a 1976. Curiosamente, esta foi a primeira de todas a ser escrita, mas foi a penúltima a ser publicada.

E ele já começou “causando” (e talvez seja por isso mesmo que ela ficou na gaveta por tanto tempo): uma das características do Sargento Garcia é que ele convive com o Dom Diego o tempo todo, e nunca desconfia de que está na verdade servindo de informante do próprio herói mascarado.

Que ele é um pouco lento de pensamento, todo mundo sabe. Talvez ele até mesmo seja um pouco burro, como o Capitão Monastério vive dizendo. Mas na verdade ninguém é assim tão idiota que não consiga desconfiar do óbvio de vez em quando. Será mesmo que o Garcia é realmente assim tão tapado?

E afinal, quem é mais burro? O Sargento, com seu QI limitado, ou o Comandante, do alto de sua prepotência e abuso de poder?

Já o Zorro hoje será tomado por um sentimento misto de pena pelo sargento boboca e de arrogância ou superioridade em relação aos soldados de Los Angeles que, aliado a um excesso de autoconfiança, quase será a sua ruína logo de saída.

No futuro ele aprenderá a ser mais cuidadoso. Já a solução encontrada pelo Dom Diego para afastar de si as suspeitas só funciona, mesmo, em histórias em quadrinhos. Mas, como é justamente disso que se trata, está valendo.

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Duelo Na Cidade-Fantasma

História do Zorro, de 1973.

Parte da graça em ser escritor de histórias em quadrinhos é poder colocar o herói em apuros aparentemente insuperáveis, só para depois inventar uma maneira de fazer com que ele escape espetacularmente.

(Eu sei que dia é hoje e que tipo de história eu me propus a comentar às sextas-feiras, mas é também meu aniversário e eu gosto do Zorro. Pronto.) 😉

Ao libertar o que parece ser um prisioneiro político e depois tentar fugir (lembrando novamente que, em 1973, em plena ditadura militar, qualquer alusão a presos políticos era uma afronta ao sistema), o Zorro comete um erro de julgamento e vai parar em uma cidade fantasma. Se fosse qualquer outro lugar, especialmente se ele fosse bem povoado, seria mais fácil se misturar aos simpatizantes e sumir na multidão. Mas em um lugar perfeitamente vazio há anos, qualquer presença humana pode ser notada facilmente.

Depois de propor o problema, papai começa então a trabalhar a solução. A premissa, aqui, é que os soldados são tão burros e supersticiosos quanto o herói é astuto e inteligente. Apesar do maior número e do poder das armas, eles não serão páreo para o Zorro, que consegue enganar até mesmo o rastreador indígena que está a serviço dos soldados.

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Certos povos, como os indígenas no continente americano e os nômades do Oriente Médio, especialmente os beduínos em Israel, foram e são parte valiosa de qualquer exército (e também de equipes de arqueólogos e pesquisadores em geral). Eles conhecem com absoluto domínio o terreno, cada pedra, cada árvore, o clima, sabem se guiar pelas estrelas, e sabem notar qualquer distúrbio que possa indicar que alguém tenha passado ou esteja se escondendo por ali.

Mas esta é a única vantagem dos soldados. De resto, para atrapalhar ainda mais, papai trabalha firmemente a noção de que o lugar pode ser assombrado, de que o lugar é realmente assombrado, e de que um fantasma pode aparecer a qualquer momento.

Esse “pânico” todo que ele vai imprimindo aos personagens tem a finalidade de envolver o leitor para que, quando um nada simpático novo personagem for apresentado, até mesmo este último ficará na dúvida sobre o que está vendo. Será que o fantasma apareceu mesmo?

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A Fuga De El Tigre

História do Zorro, de 1975.

O herói é certamente confiante em sua capacidade de enfrentar os militares de Los Angeles e ousado em suas ações, mas isso não quer dizer que tudo o que ele tenta fazer sempre dá certo exatamente como o planejado.

Neste caso, a tentativa de bancar o Robin Hood, tomando o dinheiro dos poderosos para devolver aos pobres (hoje é o preço da recompensa por um bandido que o Zorro prendeu), vai acabar dando a esse mesmo bandido a chance de escapar da prisão e voltar a aprontar das suas pela região.

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Será tarefa do herói recapturá-lo, corrigindo o erro que cometeu. E isso ele fará magistralmente em uma batalha de astúcias contra o bandido, sem esquecer, é claro, de devolver o dinheiro aos pobres, aqui representados pelos padres da missão.

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Nesta história papai faz uma primeira menção à Estrada Real, que ele usaria de novo em uma história do Zorro (“Um Certo Capitão Mendoza”, já comentada aqui) também escrita em 1974, como esta, mas publicada em 1976. Isso ajuda a ambientar e dar autenticidade à história, mostrando ao leitor referências a lugares que existem de verdade, e não apenas a uma Los Angeles “genérica”.

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Tenho o prazer de anunciar um novo livro, que não é sobre quadrinhos, mas sim uma breve história do Rock and Roll. Chama-se “A História do Mundo Segundo o Rock and Roll”, e está à venda nos sites do Clube de Autores agBook

Um Certo Capitão Mendoza

História do Zorro, de 1976.

(O título da  história me lembra qualquer coisa como “Um Certo Capitão Rodrigo”, mas a referência para por aí.)

Da série “planos perfeitos para capturar o Zorro”. Um capitão novo, tido como o melhor espadachim da Califórnia, é enviado a Los Angeles para tentar, pela enésima vez, prender aquele a quem os poderosos chamam de bandido, e o povo humilde chama de herói.

Zorro Mendoza

Os militares tentam todos os truques do livro, desde o desafio barato para um duelo, passando por tentativas de emboscada, perseguições noite adentro, aumento da recompensa, e chegando até mesmo à luta desleal. Obviamente, nada disso adianta. O Zorro está em todos os lugares, seja como Don Diego, ou vestido de capa e roupa preta. Ele sabe de tudo o que se passa, luta melhor que todos, é mais esperto que qualquer um e tem o povo ao seu lado. Ninguém segura o Zorro!

Zorro Mendoza1

A Estrada Real citada pelo Capitão Mendoza na história existe de verdade. Foi aberta pelos espanhóis mais ou menos na mesma época na qual se passa a lenda do Zorro, e um belo mapa antigo feito à mão pode ser visto no link. Vale o clique.

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Zorro Contra Dom Del Oro

História do Zorro, de 1974.

O tema de hoje é uma crítica sutil ao racismo do qual eram vítimas os nativos norte americanos por parte dos conquistadores brancos europeus. Antes o único povo a habitar essas terras, eles acabaram tratados como verdadeiros intrusos em seu próprio território, que ia encolhendo ano a ano como resultado da colonização branca.

Até mesmo guerras aconteceram por causa disso (um povo guerreiro como os “peles vermelhas” não seria conquistado sem luta), e nos filmes de faroeste até a década de 1950 eles eram sempre os vilões, que atacavam cruelmente os acampamentos e vilarejos dos brancos, sempre retratados cheios de inocentes mulheres e crianças.

Antes das histórias do Zorro ganharem popularidade na TV, nos anos 1960, era a história de Davy Crockett, herói nacional, matador e pacificador de índios e “Rei das Fronteiras” (título de um filme – baseado em uma série de TV – de 1955) que tinha maior visibilidade, e com ela, o racismo contra os índios.

Considerados “ladrões, vagabundos e imprestáveis” pelos brancos, e muitas vezes confinados às suas reservas, desempregados, segregados e abandonados a vícios adquiridos dos próprios conquistadores, como o alcoolismo, eles rapidamente se tornaram uma população vulnerável, em situação de risco, e presa fácil de todo tipo de golpe e exploração. Afinal, a quem eles poderiam recorrer, se fossem chantageados ou extorquidos? (Qualquer semelhança, aliás, com a situação dos indígenas brasileiros, desde aqueles tempos do Regime Militar e até os dias de hoje, não terá sido mera coincidência).

São presas fáceis, em suma, para qualquer bandido covarde que apareça. É neste ponto que entra o personagem “Dom Del Oro” (em espanhol “senhor do ouro”, em tradução livre), um pretenso ser sobrenatural que faz aos índios exigências que ele sabe que eles não poderão cumprir, sob pena de terríveis consequências, supondo que eles não poderão se defender, não terão a quem recorrer.

Ou será que terão? Ao ver a injustiça acontecendo bem debaixo de sua janela, Dom Diego, o Zorro, eterno defensor dos fracos e oprimidos, logo se lança escadaria abaixo em defesa de seus amigos.

Zorro DomDelOro

A inspiração vem de mais um seriado cinematográfico, “Zorro’s Fighting Legion”, (ou “A Legião do Zorro” no Brasil), uma produção da Republic Pictures de 1939, na qual Dom Diego luta contra Dom Del Oro no México (se passa quatro anos após a história original, quando a Califórnia estava nas mãos do México). Nesse seriado o Zorro tem, curiosamente, um cavalo branco.

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A Nova Investida Do Águia

História do Zorro, publicada em 1975.

O Águia é um vilão que vem, originalmente, da antiga série de TV. Mas como foi papai quem o trouxe para os quadrinhos Disney brasileiros, ele considerava que o personagem também era “dele”, já que, antes disso, ele não existia em quadrinhos.

Aqui vemos mais uma feroz batalha desse terrível vilão, que quer conquistar Los Angeles à força e se sagrar “Rei da Califórnia”, contra o povo da cidade. Somente a astúcia do Zorro poderá vencer a truculência do bandido, e nesse processo o Sargento Garcia se verá obrigado a colaborar com o herói, praticamente colocando-se sob suas ordens.

Zorro investida

Enquanto isso, Dom Alejandro, que no passado já esteve convencido de que o Zorro seria um bandido e nem desconfiava que ele e seu próprio filho pudessem ser a mesma pessoa, agora já começa a ter outros pensamentos. Ele chega inclusive a defender o Zorro em conversa com Diego. O velho pai não é bobo, e um dia certamente ainda vai descobrir tudo, mas este dia não é hoje.

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O roteiro da batalha não deve nada às velhas histórias de guerra que papai escrevia ou adaptava para os quadrinhos nos anos 1960, e prende o leitor com a respiração suspensa até a vitória final do herói.

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Um Povoado Pacato

História do Zorro, criada em 1973 e publicada uma vez só em 1975.

Papai baseia a trama no fato de que, antes de passar a ser parte dos EUA, Los Angeles era apenas um vilarejo sem muita importância. O que pode acontecer num lugar onde nada acontece, que possa atrair pessoas à cidade, quando é sabido que especialmente os mais jovens gostam de ambientes bem mais movimentados? O que faz a jovem e bela sobrinha de um velho rancheiro naquele fim de mundo?

Dom Diego, que nunca baixa a guarda nem esquece que é o Zorro em nenhum momento, desconfia logo de cara, e o leitor deveria fazer o mesmo, se quiser mesmo se qualificar para a categoria de “leitor atento”, o tipo de leitor predileto de papai. Além disso, a atenção toda que o interesseiro Capitão Monastério dá à moça também é muito suspeita. Esse vilão nem olha na direção de ninguém se não achar que tem algo a ganhar com isso.

Ao longo das páginas o leitor vai percebendo que este é mais um plano para tentar desmascarar o Zorro. Seus inimigos sabem que ele é astuto, mas tentam fazê-lo cair na armadilha de uma fraqueza muito comum aos homens em geral: seu deslumbramento por mulheres bonitas. Conseguirá a pérfida Dolores Sierra (cujo nome é inspirado na letra de uma música de Nelson Gonçalves) fazer o Zorro de bobo?

Mas apesar de toda a sua astúcia e desconfiança, o Diego/Zorro sabe ser grato a quem o ajuda, e logo lembra que o tio da moça uma vez o ajudou a escapar do Sargento Garcia e seus comandados. Será essa a fraqueza do Zorro? Pois logo veremos que apesar de tudo esse rancheiro também faz parte do plano para prender o Zorro, e desconfia que ele e Dom Diego sejam a mesma pessoa.

Zorro pacato

O mistério vai se revelando aos poucos. O Zorro não é à prova de falhas, e até espalha sem querer algumas pistas sobre sua identidade secreta pelo povoado de vez em quando, mas vai saber dar a volta por cima. Mas a vilã está tão certa de que ninguém desconfiará dela que é bem menos cuidadosa, e logo cai em contradição. Isso não passará despercebido ao astuto mocinho.

Apesar de todos os truques, ele saberá mais uma vez confundir seus inimigos e expô-los ao ridículo. Ninguém é páreo para o Zorro, no quesito astúcia.

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