Penameu E Glorieta

História do Peninha, publicada pela primeira vez em 1985.

Mais do que uma brincadeira com o tema de Romeu e Julieta, de Shakespeare, esta é uma história sobre identidades trocadas. Para começar, o nome do personagem principal é “Pena”. Somente Pena. Mas, do jeito que ele fala quando perguntam, todo mundo entende “Penameu”.

Peninha Glorieta

O nome da cidade de Verona é mantido, por uma questão de se deixar claro sobre o que é a sátira, mas até os sobrenomes das famílias rivais são trocados: os Capuleto viram “Capeletti”, e os Montecchio são os “Macarroni”. A intenção, além de romancear os nomes, é também fazer uma brincadeira com a cultura e a gastronomia da Itália.

Mas o “Pena, Meu” não é integrante de nenhuma das duas famílias. Ele é simplesmente um forasteiro que chega à cidade e de repente se vê no meio da bagunça. Por uma série de coincidências, é “adotado” pelos Macarroni, e é nessa condição que ele acaba indo parar no baile dos Capeletti.

De qualquer maneira, como no Ato II, Cena II da peça, ele não é “nem um, nem outro”, e isso é uma referência à fala do próprio Romeu. Outras referências e citações estão espalhadas ao longo das páginas, algumas de Shakespeare, outras de outros poetas e até mesmo de contos de fadas, como por exemplo uma menção à fábula de Rapunzel, uma brincadeira com a cena do balcão e menções ao rouxinol e à cotovia.

Peninha Glorieta1

Apesar das gargalhadas que a paródia de papai provoca, é preciso lembrar que a peça original é uma tragédia, que no espaço de 5 dias narra um mal fadado romance entre um rapaz de 17 anos de idade e uma menina de 13, e termina com cinco mortos. Por isso é óbvio que esta história também não poderá ter um final feliz, ainda que não termine em morte, coisa que não “cabe” em uma história Disney.

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O Grande Conquista… Dor

História do Pato Donald, de 1972.

Este é um exemplo de mudança do nome da história pelo editor. O título original era, simplesmente, “O Conquistador”. O Inducks, inclusive, colocou um ponto de interrogação na autoria, mas o fato de ser a única história nacional na revista e de estar aqui na coleção é mais do que prova, para mim, de que ela é mesmo de papai.

O “Green-eyed monster”, ou “Monstro dos olhos verdes” é um personagem de Carl Barks, que foi a principal influência de papai no primeiro ano ou dois de produção de quadrinhos Disney. Já a inspiração do Mestre veio muito certamente de Shakespeare, mais exatamente da peça chamada “Otelo, o Mouro de Veneza“.

PD conquistador

A citação exata onde o “monstro” aparece é a seguinte: “Meu Senhor, livrai-me do ciúme! É um monstro de olhos verdes, que escarnece do próprio pasto que o alimenta. Felizardo é o enganado que cônscio, não ama a sua infiel! Mas que torturas infernais padece o homem que, amando, duvida, e, suspeitando, adora.” O temperamento do Donald em seu relacionamento com o Gastão, e na verdade todo esse triângulo amoroso com a Margarida, é claramente inspirado nessa peça.

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Em 1975, na história intitulada “A volta da companhia teatral Peninha” e já comentada aqui, papai usaria mais uma fase de Otelo interpretada pelo Donald: “A ira me agita! A indignação me sufoca! A fúria me atormenta”.

O drama de Shakespeare é uma tragédia clássica, que termina, literalmente, “em morte e facada”, bem ao estilo de “Romeu e Julieta”, aliás. O final da história de papai tem alguma violência, digamos assim, mas não deixa de ser bastante cômico.

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Serenata Ao Luar

História do Zé Carioca, de 1976.

Os homens brasileiros, decididamente, já foram mais românticos. Nos anos 1970 a tradição de se fazer serenatas ao luar sob a janela da namorada já estava se perdendo à sombra dos arranha-céus, mas ainda persistia em algumas cidades menores e na imaginação de papai, que era grande fã desse gênero musical.

A canção que ele aparentemente cita no primeiro quadrinho deve ser tão antiga que não chegou à era da internet. Eu acredito que deve ser uma letra real, porque ele conhecia várias dessas canções, e poderia citar qualquer uma delas. Não precisaria inventar. Mas outras sobreviveram e chegaram até nós, também antigas, como esta, de Vicente Celestino.

O Zé, que até trabalhou hoje para poder comprar flores para a sua namorada, não sabe cantar nem tocar violão, mas está disposto a tudo para agradá-la. O Nestor, como sempre um bom amigo, também não sabe tocar, mas está disposto a ajudar. O resultado é tão romântico quanto hilário.

ZC serenata

(A partir daqui temos um SPOILER sério, mas não dá para comentar esta história sem ele. Esteja avisado.)

 

 

 

No fim o namoro do Zé nunca esteve em risco, e o rapaz sob a janela da Rosinha era um colega de um curso de teatro. Eles estavam apenas ensaiando. O interessante é que a cena da suposta peça de teatro, que tem por nome justamente o título desta história, é uma adaptação de Shakespeare. Mais precisamente, da cena do balcão de Romeu e Julieta, transposta para a tradição brasileira da serenata.

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Mal Me Quer, Bem Me Quer

História do Morcego Vermelho, de 1973.

Por causa de suas aventuras como herói, o Peninha está atrasado para seu trabalho em A Patada. Na pressa, ele acaba pisando na sombra da Bruxa Má, que considera isso ofensa o suficiente para lançar-lhe um feitiço. E o pior de tudo é que o Peninha nem viu a vilã, muito menos a sombra.

A intenção do feitiço é que quem gosta do pato passe a não gostar dele, e quem não gosta passe a gostar. Mas a coisa é um pouco mais caótica do que isso: as mudanças de tratamento acompanham as mudanças de humor das pessoas, o que leva a uma série de situações hilárias e inusitadas.

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O problema é que a urucubaca não está apenas com o Peninha. Mesmo em sua identidade secreta como Morcego Vermelho ele passa a ser hostilizado pelo povo e amado pelos bandidos. Até o Donald, que também não está entendendo nada, quase revela a identidade do primo, só para melhor maltratá-lo.

A sorte do nosso amigo enfeitiçado é que o feitiço só dura um dia. E não nos esqueçamos da bruxa: ela também terá o seu castigo por atacar um pato perfeitamente inocente, e também não vai entender nada, quando o feitiço virar contra a feiticeira.

O personagem “Dr. Importantino” é uma sátira com os figurões das colunas sociais, aquela gente fútil de Ego inchado que se acha muito importante e adora se ver no jornal, e que fica furiosa com coisas bobas, como pequenos erros de grafia em seus nomes, e coisas assim.

Uma década depois papai voltaria a este tema com “O Feitiço da Vila”, história do Zé Carioca já comentada aqui, onde faz uma variação, melhorando a ideia e misturando o feitiço da inversão dos amores e ódios com as três bruxas de Macbeth e a música de Noel Rosa.

Se estivesse vivo, papai completaria hoje 75 anos de idade. Por favor dedique um momento de oração à sua memória.

As Árvores Ambulantes

História do Tio Patinhas, publicada uma única vez em 1977.

Papai era fã de Macbeth, a “Peça Escocesa” de Shakespeare, e usou o tema em várias de suas histórias. A princípio o leitor tem a impressão que está lendo mais uma história das bruxas, e em especial da Maga Patalójika, mas isso é só uma distração, um artifício baseado nas técnicas usadas para confundir o leitor nos romances policiais que ele também gostava de ler.

Um ponto fraco do Patinhas é a supersticiosidade: ele não apenas acredita que a primeira moeda que ganhou é um talismã poderoso que trouxe a ele toda a sua fortuna, e que perdê-la traria a sua ruína, como também acredita piamente em todo tipo de oráculo e presságio. Isso, é claro, abre “brechas” para muitas confusões.

O leitor atento vai começar a desconfiar que há algo errado com as bruxas quando elas dão a entender que não foram as criadoras do início de tempestade que assustou o velho muquirana logo no início da história. Se elas não têm poderes mágicos, então quem são elas?

Arvores

As coisas começam a ficar mais claras para o leitor quando um dos Irmãos Metralha é preso por um policial muito suspeito:

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Por fim, a atitude e comportamento das árvores ambulantes é mais suspeito ainda. Nesse angu tem caroço, decididamente:

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Papai não gostava muito de ir ao médico. Isso se reflete nesta história no fato que os conselhos dos médicos do Tio Patinhas e do Donald só adicionam à confusão: foi por aceitar a sugestão de caminhar mais que o Patinhas se deparou com as supostas bruxas, e o Donald literalmente dorme em serviço também por causa de seu médico, que receitou calmantes a ele. Apesar disso tudo, todos nós sabemos que médicos são gente boa, e que seus conselhos devem ser seguidos, não é mesmo?

Por fim, são os três sobrinhos do Donald que descobrem o que está errado e salvam o dia: tudo não passava de um muito bem elaborado plano dos Metralhas, baseado nas leituras do Metralha Intelectual.

A Volta Da Companhia Teatral Peninha

Esta história de 1975 é inspirada numa modalidade artística e teatral que estava muito em moda na época, o “happening” ou, na tradução, acontecimento.

Como toda manifestação artística, essas expressões de vanguarda podem fazer sentido para algumas pessoas (principalmente para os artistas envolvidos, e quase sempre só para eles), e não para outras (como o público leigo, na maioria das vezes) geralmente causando uma estranheza que frequentemente acaba em riso.

Vários estilos artísticos hoje consagrados, como por exemplo o Impressionismo, foram a princípio alvo de riso e até de escárnio por parte de quem não entendeu direito a ideia no começo, incluindo críticos de arte renomados na época. Vem daí o clichê dos quadrinhos, onde toda manifestação artística de vanguarda, seja teatro ou pintura, é retratada como algo risível.

Isso, quando a intenção não é, realmente, fazer graça. O que parece não ser o caso, aqui. Eu diria que neste caso a Companhia Teatral Peninha está fazendo uma leitura intencionalmente cômica de grandes obras trágicas da literatura clássica.

O acontecimento está sendo organizado pelo Peninha, com sua companhia teatral, e o Donald é recrutado de última hora para “interpretar Shakespeare”. O pato fica tão lisonjeado com o convite, que esquece de pedir mais detalhes sobre a coisa toda.

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É claro que quando ele descobre qual, exatamente, é a participação dele na peça o caldo entorna, para a diversão da platéia.

O interessante é que todas as citações e referências às peças de Shakespeare na história estão corretas.

O Feitiço Da Vila

História do Zé Carioca, publicada em 1984.

O título da história é inspirado numa canção de Noel Rosa, composta em 1934 para homenagear seu bairro, Vila Isabel, e as três bruxas (na verdade Maga Patalójika, Min e Bruxa Vanda) são inspiradas nas três bruxas de Macbeth, peça teatral de William Shakespeare, considerada “amaldiçoada”, e cujo nome não deve ser dito em voz alta.

Na peça, as três bruxas abrem a trama com uma profecia: “Salve, Macbeth! Salve, Barão de Glamis! Salve, Macbeth! Salve Barão de Cawdor! Salve, Macbeth! Ainda serás rei!”

Nesta história não é diferente: “Salve, Zé Carioca, o ser mais feliz da terra. Que nunca precisou trabalhar pra viver. E que um dia será milionário!”

Elas invertem as personalidades de todos os amigos do Zé para se divertirem, o enchem de dinheiro e presentes, e ele estava até gostando da ideia, até o momento em que percebeu que a personalidade da Rosinha também havia sido invertida.

É aí que as bruxas acabam descobrindo que o nosso herói dá mais valor ao amor da Rosinha do que a todo o dinheiro do mundo.

No final, a história vale também como reflexão filosófica: o que é mais importante neste mundo? O dinheiro ou o amor?