Vizinhos Do Barulho

História do Pato Donald e seus sobrinhos, de 1976.

Esta história foi escrita quase um ano antes de “Campistas Vigaristas”, outra história sobre o tema, e se passa no exato mesmo camping.

Como eu já disse quando comentei a história dos Metralhas, o “Acampamento das Pedras” existe de verdade, e fica na região de Itu/SP. Que eu me lembre, nossa família chegou a acampar algumas vezes em alguns desses lugares, e uma vez até mesmo no Rio de Janeiro, e todos eles eram muito seguros e pacatos (à exceção da aventura no Rio, que terminou em tempestade tropical com direito até a tromba d’água no mar, mas essa é outra história).

Tenho a impressão que esta modalidade de turismo estava na moda naquele tempo, por ser barata e oferecer uma aventura de baixo risco para famílias, e que muitos dos nossos amigos também visitaram este acampamento e voltaram com histórias para contar, que meu pai ouvia ávidamente e depois aproveitava em suas criações.

Portanto, não sei dizer se realmente houve alguma confusão por lá enquanto estivemos acampados, ou se foi algo que aconteceu com algum amigo de papai, ou se foi simplesmente uma maneira que ele encontrou de “fazer uma propaganda engraçada” do lugar onde passou um final de semana agradável com a família.

Mas, se é que isso pode ser alguma indicação, quem for dar uma olhada nas tarifas do referido camping vai notar que o preço por pessoa para casais e famílias é a metade do que é praticado para grupos compostos apenas por rapazes. De resto, o local é bonito e bem organizado, e vale pelo menos uma visita para passar a tarde.

Hoje os bagunceiros no acampamento são o Donald e o Silva, que tiveram a mesma ideia como solução para se afastarem um do outro e conseguir parar de brigar, com uma pequena “ajuda” dos membros de uma banda de Rock formada por valentões.

Além disso, como papai gostava de fazer nas histórias dos brigões, parte da diversão (dele, principalmente) era induzir o leitor a tentar descobrir quem estava xingando a quem de quê.

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Maus Ventos O Levem

História do Pato Donald, de 1977.

Quando o Silva, o vizinho chato do Donald, está envolvido, tudo é motivo para uma briga das feias. Hoje o problema é uma árvore já adulta que o Donald plantou em seu quintal durante o mês de férias do Silva para dar sombra e fornecer um apoio onde amarrar uma rede.

Mas a maioria das árvores dá um pouco mais do que sombra: algumas dão frutos, é certo, e muitas outras soltam uma infinidade de folhas, que acabam levadas pelo vento até onde menos se espera. Quando há arvores por perto, folhas espalhadas são um fato da vida. O problema começa quando algumas pessoas não conseguem lidar com o problema de uma maneira sensata.

Já que simplesmente cortar a árvore seria anti-ecológico e os sobrinhos escoteiros do Donald não poderiam permitir uma atrocidade dessas, então também caberá a eles encontrar uma solução. Mas essa solução é só o modo de terminar a história, e de maneira inusitada, para a diversão do leitor. O verdadeiro tema da coisa toda é a briga entre os dois vizinhos.

E briga haverá. Em certos quadrinhos, a diversão é tentar identificar quem é que está xingando a quem de quê.

Em outros a graça vem do jogo de palavras contido na altercação entre os dois briguentos.

O título da história é uma inversão da expressão “bons ventos o levem”, que, nos tempos dos navios a vela, era mais uma maneira de se desejar uma boa viagem aos navegantes.

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Em Briga De Cão E Gato… Não Entra Pato!

História do Pato Donald, de 1981.

Esse encantamento de certos brasileiros com raças de cães grandes e ferozes não é recente. Isso se dá por vários motivos, desde uma real necessidade por segurança, e até pelo Ego inflado de gente que projeta no cão toda a sua frustração e covardia diante da vida, e usa o animal para ameaçar e agredir os vizinhos.

A história (da carochinha, na maioria das vezes) que donos e criadores contam sobre essas feras também é sempre a mesma: eles seriam na verdade até dóceis, muito adaptáveis e amigos de criancinhas. O que os tornaria violentos seria alguma falha no treinamento das feras. O problema é que eu nunca vi um dono de cachorro bravo que seja capaz de reconhecer que não faz ideia de como se treina um cão. Já que contratar um profissional é coisa cara, pessoas comuns se valem de manuais e dicas da internet, e se expõem a riscos.

Muitas dessas raças, como o “queridinho” Pit Bull ou o Rottweiler (originalmente criadas para caçar ursos e outros animais selvagens) são banidas em vários lugares do mundo por serem cães perigosos demais para ter em casa. Nessa lista, ailás, está incluído o próprio Cão de Fila, do qual trata esta história.

É uma raça criada no Brasil desde os tempos coloniais pelo cruzamento de outras raças grandes e perigosas, como Mastiffs e Buldogues, e usado para caçar onças e escravos fugidos. Sim, houve um tempo em que gente era caçada como se fosse bicho, por aqui, e isso não pode ser esquecido (para que não aconteça de novo, de preferência).

Outra parte do folclore do Cão Fila no Brasil foi uma série de enigmáticas pichações que começaram a aparecer nos anos 1970 em tudo quanto era lugar no Estado de São Paulo: “Cão Fila Km 26“. Só isso, sem mais nenhuma informação.

Por ser a época da ditadura militar muita gente pensou que poderia haver muita coisa por trás das mensagens, e a notícia (e também as pichações, feitas por todo tipo de gaiato) começou a se espalhar pelo país todo, virando uma verdadeira “febre”. Dizem os pichadores atuais que isso foi o começo do “pixo” no Brasil, e eu diria que foi também precursor dos memes, muitos anos antes da Internet.

Mas hoje a provocação é com o Ronrom que, diga-se de passagem, estava quieto no canto dele quando o Silva chegou com o monstro canino em um caminhão. Papai deixa claro que a intenção do vizinho chato é essa mesma: ao colocar a vida do Ronrom em risco, ele está também intimidando ao Donald e a seus sobrinhos.

Gente, isso não se faz. Mas enfim, pessoas que precisam usar um cão feroz para se afirmar e causar medo (que elas confundem com respeito) nos outros não é realmente gente.

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Oh, Que Saudades Que Eu Tenho…

História do Donald e do Peninha, de 1982.

Com o tema “infância”, a história gira em torno das reminiscências dos dois primos que, com a ajuda de um antigo álbum de fotos vão contando, primeiro ao Biquinho, e depois aos sobrinhos Huguinho, Zezinho e Luisinho, “causos” engraçados sobre seus tempos de criança: como se conheceram, os tempos de escola, e até mesmo uma passagem dos dois pelo batalhão dos Escoteiros Mirins de Patópolis, onde conheceram o Silva.

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A cada uma das histórias é um deles que se dá mal, e os outros que dão risada. (O leitor, é claro, rirá de todas, já que a intenção é essa.) Casos de família são assim mesmo: algumas das coisas pelas quais as crianças passam podem parecer quase trágicas, ou pelo menos muito embaraçosas na hora em que acontecem mas, décadas depois, viram motivo para riso.

O título é inspirado em um poema de Casimiro de Abreu chamado “Meus Oito Anos” (Oh! que saudades que tenho / Da aurora da minha vida, / Da minha infância querida / Que os anos não trazem mais!), que papai aprendeu na escola e que sabia declamar inteirinha de memória, assim como vários outros textos literários. Naqueles tempos do início do Século XX era preciso ensinar às crianças a memorizar com eficiência, já que não se podia ficar consultando livros o tempo todo.

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Inventos Fraudulentos

História do Professor Pardal, de 1983.

O tema, aqui, é definitivamente “fraude”. Não apenas os inventos que estão sendo vendidos na rua são fraudulentos, porque são inventos defeituosos vendidos baratinho como se fossem bons, mas também a própria pessoa que os está vendendo, apesar de se parecer perfeitamente com o Pardal, é um tipo de fraude.

Mas isso é algo que, em um primeiro momento, o leitor não vai saber. Nem o leitor, e nem os personagens, que serão todos levados no bico, e não por acaso. A coisa começa a se esclarecer quando vão, todos os cidadãos lesados de Patópolis, ao mesmo tempo até a porta da casa do inventor para reclamar. É aí que o leitor atento verá uma silhueta que pode muito bem passar despercebida por olhos menos alertas, e que é a chave para tudo.

Pardal inventos

Já a pista do que possa ser o “invento secreto”, roubado do laboratório assim que a porta se abre, está nos nomes do cliente que o encomendou e da cidade onde ele mora. “Nitrus” e “Glicerius” vão lembrar, para quem conhece um pouco de química, tem bons conhecimentos gerais, ou era fã de quadrinhos e dos desenhos animados que passavam na TV naqueles tempos, a palavra “Nitroglicerina“, e também não por acaso.

Outro detalhe interessante nesta história, que já é alicerçada em tantos deles, é uma rara trégua entre Donald e Silva. Eles chegam a concordar, enquanto colaboram com o inventor e o resto da turma para tentar entender o que havia acabado de acontecer.

Pardal inventos1

E como também acontece frequentemente, há toda uma ação secundária protagonizada pelo Lampadinha, enquanto a trama principal se desenrola. Isso tudo junto, com toda certeza, fará o leitor voltar atrás e folhear a história várias vezes, em busca de todos os detalhes que deixou escapar, alguns deles bastante discretos, mas não menos engraçados.

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Vizinho É Pra Essas Coisas

História de Donald contra Silva, escrita em 1972 e publicada pela primeira vez em 1978.

Desta vez a história não começa, como outras, em clima de tentativa de conciliação. A situação é mesmo de animosidade, de ambos os lados. O Silva tenta convidar a si mesmo para um churrasco que o Donald está fazendo em seu quintal, mas o pato não quer saber de vizinhos enxeridos na festa que ele organizou para o pessoal do jornal A Patada.

A churrasqueira de alvenaria no primeiro quadrinho lembra bastante uma que papai mandou construir no fundo de nosso quintal na casa em Campinas, e que servia justamente para as festas que ele oferecia aos amigos da família e, de vez em quando, também ao pessoal da Editora Abril.

D&S vizinho

Mas os espetinhos mostrados não passam nem perto dos churrascos que papai gostava de dar, com carnes nobres variadas e assadas à perfeição por ele próprio. O churrasco do Donald mais parece feito de linguiças ou salsichas no espeto, ou até mesmo “Kafta”, que são bolinhos de carne moída no espetinho.

A trama em si envolve, além da briga de vizinhos, uma confusão causada pelo Peninha com o carro do Tio Patinhas, que vai ficando cada vez mais complicada com cada nova tentativa do sobrinho abilolado de resolver o problema sem precisar se atrasar para a festa e sem deixar que o tio perceba o que está realmente acontecendo.

O mais engraçado é que os dois inimigos nem brigam (diretamente) nesta história, mas passam o dia brigando com o Peninha, que vai servindo de saco de pancadas ora de um, ora do outro.

Além disso, para uma festa, até que o quintal do Donald está bem vazio. Além dos personagens principais, poucos outros, supostamente colegas de A Patada, aparecem. Um deles é este aqui:

D&S vizinho1

Outro figurante também aparece, e o leitor fica se perguntando quem ele poderia ser, até que ele mesmo se revela. Na trama, ele é um penetra. Mas na técnica de quadrinhos em si ele serve para não deixar que a cena de briga entre os primos fique só nisso, o que seria óbvio demais.

D&S vizinho2

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A Cerca, Ora A Cerca!

Em 1981, Donald e Silva tentaram fazer as pazes novamente. Eles bem que tentaram.

A lógica pela paz é forte, as intenções são boas, mas é claro que esse “cessar fogo” não poderia durar muito tempo. A coisa começa a dar errado logo na primeira página, quando eles resolvem derrubar a cerca que separa os dois quintais, em sinal de amizade, e com a madeira fazer uma festa junina fora de época.

Donald Silva Cerca

Até aí, tudo bem. Mas a proximidade das duas casas, o tamanho exagerado da fogueira e o vento, que começa a soprar faíscas para todos os lados, logo vão acender os ânimos e fazer com que os dois comecem a brigar novamente. O suspense, nesta história, nem é sobre se os vizinhos encrenqueiros vão voltar a brigar, mas sim quando e como isso vai acontecer. Nem o Ronrom, que tenta proteger os patos de maiores acidentes, consegue evitar o pior.

Donald Silva Cerca Ronron

Mas fica a pergunta: quanta amizade é “amizade demais”? Especialmente quando é uma amizade forçada, entre duas pessoas que sinceramente não se topam, mas que sabem que pelo bem da boa vizinhança, não deveriam brigar.

Donald Silva Cerca amigos