Nem Vendo Se Acredita

História do Zé Carioca, de 1981.

Quando lê revistas demais do Morcego Vermelho, o Zé se transforma no Morcego Verde e sai dando os seus pulinhos pela Vila Xurupita. Se ele resolve um caso ou prende um bandido, é por mera coincidência, e hoje não vai ser diferente. “Diferente”, sim, e surpreendente, será o final da história.

Curiosamente, depois de criar o personagem, foram poucas as histórias de papai para ele. Em compensação, vários outros autores não hesitaram em adotá-lo, com resultados variados. Já o charmoso cachorrinho Soneca será mais uma vez um misto de narrador da história, assistente de super herói e cão de guarda.

A trama colocará o Zé “entre a cruz e a espada”, por assim dizer: de um lado, ele se vestiu de herói em uma tentativa de despistar a Anacozeca, que está atrás dele para tentar cobrá-lo. De outro, se vê às voltas com o vilão Tião Medonho, um enorme pássaro bicudo de dois metros de altura e máscara ao estilo Irmãos Metralha que detesta heróis.

A cada vez que ele consegue fugir de um, é (quase) capturado pelos outros, e vice-versa. E é nesse acidentado “pingue-pongue de herói” que a história vai caminhando para o seu desfecho.

Interessante é a menção ao Brejo da Tijuca, para onde o Zé foge de seus perseguidores. Mais uma vez, papai demonstra seus conhecimentos sobre o Rio de Janeiro e tenta ensinar alguma coisa ao leitor. Quando se pensa nessa região da Cidade Maravilhosa, o mais comum é lembrar da Floresta da Tijuca, ou da Barra da Tijuca. Mas a verdade é que o nome do local, de origem indígena (“TY YUC”), significa “água podre, charco ou brejo”, e se refere às lagoas da atual Barra.

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A História dos Quadrinhos no Brasil, e-book de autoria de papai, pode ser encontrado na Amazon 

Heróis que não tão no gibi – Inédita

História do Zé Carioca, de 10 páginas, composta em 10 de abril de 1993 e nunca publicada.

A trama começa simples, boba até, e vai se complicando rapidamente, quase que de um quadrinho ao outro. O Zé se disfarça para despistar um cobrador, mas acaba espalhando boatos sobre um bandido e uma recompensa, e acaba alvoroçando a turma toda.

A história chegou a ser enviada à redação para avaliação, e foi devolvida com várias marcações, que podem ser vistas em azul em algumas das páginas. As “sombras” do lápis apagado em alguns balões mostram que ele chegou a fazer reformulações, talvez até mesmo durante o processo de criação, ou como preparação para tentar uma nova avaliação.

Ela foi devolvida também com uma folha de rosto contendo comentários mais detalhados, mas papai não costumava guardar esse tipo de coisa. Ele sabia que fazia parte do trabalho, mas não gostava nadinha delas, e seguia a máxima de Chico Buarque, de quem era fã: “todo artista tem que tomar as críticas como se fossem tapas na cara”. O fato é que alguns tapas podem até servir para (ou ter a intenção de) fazer uma pessoa despertar, cair em si e entender algo, mas todos doem e alguns até ofendem.

Sobre as marcações em si nesta história, algumas servem para lembrar papai de detalhes como o nome da “identidade secreta” do Zé Galo, por exemplo, ou citar referências, e outras servem como revisão de texto para palavras repetidas sem necessidade.

Mas com uma em especial eu não concordo. Ela está no topo da segunda página, acusando a repetição da frase “grande novidade”. É que cada balão tem um tom: no primeiro, o Nestor não está nada animado com a ideia de um bandido estar escondido na vila. Já no segundo, ele fica animadíssimo ao ouvir falar de recompensa.

Uma última anotação, na página 9, expressa um certo desconforto com o nome da “identidade secreta” da Gilda. Papai quis fazer uma brincadeira com o personagem de capa e espada Zorro mas, realmente, a expressão “Zorra” fica meio estranha. Hoje um pouco menos, por causa de certos programas de TV, mas creio que há 23 anos essa palavra não era tão comum de se ouvir.

Digno de nota é o uso do Soneca, o fiel cachorrinho do Zé, que só papai realmente soube usar. Também interessante é a abordagem bastante “feminística” do finalzinho. Papai estava começando a pegar o jeito dos novos tempos.

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Usando A Cabeça

História do Professor Pardal, de 1973.

Ao que parece, o chapéu voador do Professor Pardal também é invenção de papai. A engenhoca é inspirada em histórias estrangeiras nas quais, para denotar um menino bobo, ou burro, coloca-se em sua cabeça um ridículo boné com uma pequena hélice. A indagação de papai parece ter sido: “e se eles realmente pudessem voar”?

Ele escreveu as primeiras duas histórias para o aparelho uma em seguida da outra, em 1972, e elas foram publicadas com poucas semanas de intervalo, entre março e maio de 1973. Isso mostra que, para ele, nenhuma história é “definitiva”, e nada é tão bom que não possa ser melhorado pelo menos um pouco. Esta primeira história já é boa, e a segunda é genial, por comparação.

Curioso é o disfarce e a desculpa que os Metralhas inventam para atrair o inventor até seu covil. É claro que o Pardal não se deixa enganar por muito tempo, mas até aí, já é tarde demais para escapar ao sequestro. Capturado, o inventor é então obrigado a fabricar chapéus voadores para todos.

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Eles serão, é claro, usados para um plano maligno que parece perfeito mas que, como sempre, vai falhar por causa de detalhes, erros de cálculo, pequenos esquecimentos e coisas assim. O crime não compensa, decididamente, e não existe crime perfeito. O que nos leva ao título desta história. Afinal, os Metralhas só sabem usar a cabeça se for para colocar chapéu.

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O Misterioso Capitão Do Pérola Negra

História do Zé Carioca, de 1973.

O Zé certamente tem um jeito bastante particular de tentar encontrar trabalho. O surpreendente é que às vezes é o trabalho que encontra o Zé. Não que isso seja sempre uma coisa boa, é claro. Hoje, o “contratante” é ninguém menos que o Mancha Negra.

Assim, para começar, tudo o que diz respeito ao vilão tem a ver com “borrões”, que é sinônimo de “manchas”, ou com outras referências à cor preta. Desde o nome falso, de “Capitão Borrão”, que ele escolhe para se apresentar, passando pelo nome do navio, Pérola Negra, e até a ilha do tesouro, chamada Ilha da Borrasca.

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“Borrasca” certamente começa com “borr”, como “borrão”, mas na verdade é sinônimo de tempestade, um temporal com ventania violenta e de pouca duração. Em todo caso, está valendo o jogo de palavras.

Já o nome que o Mancha escolhe para o navio que roubou seria usado novamente décadas mais tarde pela franquia “Piratas do Caribe”, também da Disney, aliás. Coincidência?

E desta vez o tesouro existe de verdade! Mas, é claro, ninguém ficará com ele. O Mancha certamente não pode, porque é bandido, e o Zé porque, se ele ficar definitivamente rico, que graça isso vai ter?

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Hoje temos também uma primeira versão da origem do Soneca, o fiel cachorrinho do Zé. Ao contrário do que vemos em “O Gazéteiro”, já comentada aqui, onde ele acompanha o Zé desde menino, nesta história o cãozinho acaba de ser encontrado perambulando pelo cais do porto. Ele é informalmente adotado quando resolve acompanhar seus novos amigos em sua soneca sobre as sacas de café.

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Mas se notarmos bem, veremos que este Soneca tem a pelagem cinza, enquanto na maioria das outras histórias o bichinho tem a pelagem castanha, ou até branquinha (em “Morcego Verde Ataca Novamente”, também já comentada aqui). Vai daí, e deduzo que o Zé simplesmente vai dando o nome de “Soneca” a todos os cãezinhos que vai adotando ao longo da vida e que, admiravelmente, têm essa característica dorminhoca.

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O Gazéteiro

História do Zé Carioca, de 1985.

Esta é mais uma daquelas histórias que estabelecem as origens do Zé Carioca, onde o papagaio malandro e seus amigos relembram os tempos de criança e contam como foi para o Zico e Zeca, os sobrinhos do Zé.

Uma coisa é ser criança e aprontar todas, e outra completamente diferente é ter fi… Ah, quer dizer, sobrinhos para criar, e ser responsável também pela educação deles. Não é só porque o Zé já aprontou todas quando criança que ele vai deixar que seus protegidos faltem à escola, assim, sem mais nem menos.

Na gíria brasileira, “gazeteiro” é a criança que falta às aulas para poder ficar mais tempo brincando despreocupadamente. Obviamente, não é isso que as famílias e professores esperam das crianças, e este é um costume extremamente mal visto.

O resgate de hoje das antigas brincadeiras das crianças de outros tempos é a bola de meia, brinquedo artesanal feito pelos próprios meninos com alguma ajuda de adultos. Um passo a passo para confecção de uma delas pode ser visto aqui.

O resto da história reconta o (um tanto traumático) primeiro dia de escola do Zé Carioca. Só não se sabe quem ficou mais traumatizado, o Zé ou seus professores e amigos. Ele, como sempre, narra os acontecimentos do jeito dele, enquanto o Nestor e o Pedrão vão dando a versão real.

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De resto, hoje também ficamos sabendo que o Soneca, o cãozinho do Zé, o acompanha desde que ele era pequeno. Quando mais novinho ele era certamente bem mais ativo do que o cãozinho que hoje em dia adora tirar uma soneca. Também, pudera: agora sabemos que ele já é bem velhinho.

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Zé Das Selvas

História do Zé Carioca, de 1977.

A trama é uma paródia dos antigos filmes de Tarzan e outros heróis da selva do mesmo tipo, mas na verdade é mais uma “receita” de como não se fazer um filme. Aliás, a abordagem à coisa toda lembra mais uma pelada entre moleques no campinho do bairro, ou um teatrinho de crianças, do que realmente uma produção séria.

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Tudo é improvisado, dos atores ao figurino, incluindo os “animais” da floresta que vão contracenar com o herói. Esta é também uma lembrança dos péssimos efeitos especiais dos filmes de outrora (e “outrora”, para os nossos propósitos hoje, são os anos 1930), como esta cena aqui, aliás, onde Johnny Weissmuller enfrenta um enorme crocodilo de borracha, para efeito mais cômico do que realmente o dramático originalmente imaginado pelo autor da história.

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O problema é que o cineasta do filme do Tarzan citado acima estava tentando (um pouco intensamente demais, diga-se de passagem), fazer um filme sério, emocionante, eletrizante, cheio de cenas de ação e suspense, que deixasse o espectador grudado na poltrona do cinema do início ao fim. Mas a precariedade dos efeitos especiais da época exigia um pouco demais de “colaboração” do público, coisa que os meninos brasileiros, gente gozadora por natureza, não estava disposta a fazer. Dá até para imaginar, na cena mais tensa do filme, a criançada irrompendo em gargalhadas, para desespero dos cineastas.

Mas, voltando à nossa história, esta é uma encomenda da Rosinha, a ser exibida em uma de suas muitas festas beneficentes, e o Zé quer “fazer direito”. Ele detestaria desapontar sua namorada com algo abaixo das expectativas, e começa a se irritar profundamente com tudo o que dá errado (para a diversão do leitor, diga-se de passagem. Se estivesse tudo certinho, a história não teria graça nenhuma). Desse modo, papai nos deixa uma última dica: ao se fazer qualquer trabalho artístico por encomenda, sempre combine tudo direitinho com quem o encomendou e saiba bem o que ele quer.

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A Paixão Do Pedrão

História do Zé Carioca, publicada uma única vez em 1984.

O tema, aqui, é “dia dos namorados”. Todo mundo na vila está namorando. O Zé com a Rosinha, o Nestor com a Gilda, e até o Afonsinho, com uma moça de aparência bastante desengonçada, como ele próprio. Todos, quer dizer, menos o Pedrão. Esse é o “do contra”. Não tem namorada, e acha que não precisa, que é “perda de tempo”, e que é melhor ir cuidar de sua granja em vez de ficar de namoricos.

A “granja” é a área em volta da casa do Pedrão, que é um pouco mais afastada das demais casas da Vila Xurupita. Lá ele plantou um pomar, completo com jaqueira e bananeira, além de goiabas e outras frutas comuns em plantações desse tipo nas casas do interior (e até das cidades) dos tempos de infância de papai, frutas essas que o Zé adora “pegar emprestado” de vez em quando. Esse pomar já foi mostrado com mais detalhes em histórias como “O Caso das Frutas Furtadas”, já comentado aqui. Para a área merecer a denominação de granja, o Pedrão provavelmente está criando galinhas no quintal, também.

O caso é que é dia dos namorados e o Zé precisa retribuir o presente da Rosinha, mas como sempre – está sem dinheiro. Por isso ele tem a ideia de fazer uma aposta com o Pedrão, que se acha “imune” às coisas do amor, e até arma um truque para fazer o amigo se apaixonar ainda naquele mesmo dia e pagar o presente que ele quer dar à namorada. Mas a verdade é que nem vai ser preciso planejar tanto, e nem mesmo passar a perna no proprietário da granja de quintal. Ninguém é realmente imune à magia do amor, especialmente no dia dos namorados.

A chegada de uma parente do Nestor criada por papai em 1982, a bela Prima Vera (um jogo de palavras com a estação do ano “Primavera”) vem a calhar para o plano. O duplo “V” no nome da viação no ônibus no qual ela chegou (e como mulher sofre! Lembrem-se, rapazes, respeito não é favor, é obrigação) é uma abreviação de “Viação Vai e Volta”.

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O tanque na área de serviço da casa do Pedrão também é algo que era comum em casas do país inteiro, e que tínhamos, nós também, na nossa casa em Campinas. A diferença é que, em casa, essa área era coberta e fechada. Esses elementos visuais não são coincidência, nem inserção do desenhista. Papai tinha o maior cuidado em dar um ar genuinamente brasileiro, e o mais autêntico possível, às histórias do Zé Carioca. A intenção era mostrar o Brasil como ele realmente é, e não de acordo com a “visão americanizada” das primeiras histórias do personagem, quando de sua criação.

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A Bruxa Que Só Falava Abóbora

História do Morcego Verde, de 1984.

Na época em que esta história foi criada, em Janeiro de 1982, havia surgido uma gíria nova entre os jovens que rapidamente virou mania nacional: “falar abóbora”, ou “falar abobrinhas”, virou sinônimo de “dizer besteiras”, ou não fazer sentido nenhum. Essa gíria estava sendo usada por toda parte, do pátio da escola aos programas de televisão e, como reflexo da sociedade que são, os quadrinhos não poderiam ficar alheios.

Quem quisesse parecer atualizado e “antenado” com as tendências culturais da época era quase obrigado a usar a tal gíria, sob pena de parecer “careta”. Assim, papai resolveu adotá-la em uma história ou duas, meio como “exercício em atualidade” e meio para, quem sabe, atrair mais alguns leitores dentre a “juventude descolada” da época.

O Zé andou lendo as revistas do Morcego Vermelho novamente, e resolveu sair por aí com sua capa verde, aprontando. Por sorte dele, o cachorrinho Soneca não desgruda de seu mestre, mais ou menos como o cãozinho da carta de Tarot “O Louco” (em inglês, “O Tolo”), salvando-o repetidas vezes das enrascadas e tropeços nos quais o papagaio se mete.

Tarot Louco

Já sabemos que a identidade do Morcego Verde não é segredo para ninguém. Quer dizer, só o Afonsinho ainda não desconfiou. Ele sempre trata o Zé fantasiado como a um verdadeiro herói e, quando uma bruxa de verdade, dessas de vassoura e tudo, invade sua quitanda, não hesita em ir pedir ajuda.

MV abobora

É aí que entra o tema “abóboras”: ela (que não é nenhuma das bruxas mais conhecidas do leitor) está procurando pelo vegetal entre as muitas frutas e verduras do Afonsinho, pelos motivos dela, e só fala sobre isso, como uma ideia fixa. Para piorar, é tão míope que não enxerga um palmo à frente do próprio bico. Mas como toda bruxa que se preza, é ávida por lançar feitiços e transformar pessoas.

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Apesar de a gíria em si não ter sido usada exatamente de acordo com o seu sentido “clássico” (papai inconscientemente enveredou por um caminho mais conhecido, o da associação de bruxas com abóboras, Halloween e transformações no estilo Cinderela), a confusão que se cria é grande, e o leitor terá motivo de sobra para rir das desventuras do nosso desastrado aspirante a herói e seus amigos.

http://www.lojamarsupial.com.br/ivan-saidenberg-o-homem-que-rabiscava

No Ritmo Da Bruxa

História dos Sete Anões, de 1974.

Esta história se passa em uma época na qual a Branca de Neve já está casada com o Príncipe e vivendo no Castelo, enquanto os anões seguem com sua vidinha pacata na floresta.

O interessante é que a Bruxa Má, que todos pensavam ter morrido no final do filme original, está na verdade viva e ainda tramando maneiras de conseguir se vingar da princesa e de seus amigos.

Por meio de um feitiço aparentemente inofensivo, que faz os anões terem vontade de batucar nas panelas da cozinha, a bruxa consegue fazer com que eles briguem. Isso atrai a princesa de volta para a casinha, para cuidar deles por alguns dias e ver se consegue acalmar os ânimos.

Ritmo bruxa

Isso, é claro, é o que a Bruxa Má queria: tirar Branca de Neve da segurança do Castelo para poder atacá-la novamente com a maçã enfeitiçada, agora na forma de uma linda torta de maçãs.

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Obviamente, o plano não vai dar certo. Mas graças a toda essa trama, a princesa teve a chance de rever seus amiguinhos dos velhos tempos.

O Amigo Da Onça

História do Zé Carioca, publicada em 1984.

Mais uma vez o papagaio malandro se vê às voltas com uma onça, e com um rival. Apesar de o Zé Galo já existir desde o ano anterior, papai preferiu usar aqui o Luis Carlos, certamente por causa da ligação do personagem com a amazônia e aventuras de caça na floresta.

Desde “A Onça e o Valente”, já comentada aqui, sabemos que o Zé não simpatiza muito com esses felinos, para dizer o mínimo. Para dizer a verdade, ele tem tanto pavor de onças como tem de jacarés e crocodilos, ambos animais recorrentes em suas aventuras mais selvagens.

Para fazer frente ao Luis Carlos (que na verdade nem é tão valente assim, mas costuma fingir melhor do que o Zé) e sua arma de dardos tranquilizantes, e principalmente para não fazer feio na frente da Rosinha, o nosso herói resolve usar sua fanfarronice em proveito próprio, com a ajuda dos amigos. O plano é caçar um “amigo da onça”, ou melhor, um amigo do Zé disfarçado de onça, para tentar desmoralizar o rival e impressionar a namorada. O problema é que uma trapaça dessas nunca poderia dar certo numa história Disney, e o Zé e seus amigos Nestor e Afonsinho são logo desmascarados.

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É na hora em que o Zé está mais desmoralizado (e a gente sabe que a Rosinha está realmente chateada quando ela começa a chamar o papagaio de “Senhor José”), e quando ninguém mais está esperando, que aparece… a onça! Quando a Rosinha está em perigo de verdade o Zé vira bicho, e esquece que tem medo até da própria sombra.

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Mas não é “só” porque foi obrigado a cumprir o que prometeu, salvou a namorada e realmente pegou uma onça a unha, que ele vai poder colher os louros da vitória e da glória, ou contar vantagens. A história termina como começou, com o Zé dormindo na rede acompanhado de seu cachorrinho de estimação, o Soneca, mas não exatamente por preguiça.

“Amigo da Onça”, é uma expressão que significa uma pessoa traiçoeira, uma espécie de “quinta coluna”, que trai os amigos e favorece os inimigos. Foi também um personagem clássico dos quadrinhos nacionais.