“Pé De Pato, Mangalô Três Vezes”

História do Zé Carioca, de 1975.

O tema de hoje versa sobre as superstições brasileiras sobre sorte e azar, com uma pequena “ajuda” do bruxinho Peralta.

O bico do chapéu do bruxinho, aliás, pode ser visto por detrás das cercas já desde o primeiro quadrinho, e também é possível ver uma mão ou um braço aqui e ali no decorrer das primeiras páginas, mas a presença do vilãozinho só será realmente revelada na quarta página, depois que o leitor já estiver bastante desconfiado.

Mas afinal, passar por baixo de escadas ou atravessar o caminho de um gato preto dá mesmo azar? E será mesmo que repetir certas frases “mágicas”, ou carregar todo tipo de objeto, como pés de coelho e outros amuletos, ou jogar coisas como sal e ferraduras por cima do ombro dá mesmo sorte? De onde vêm todas essas superstições e crendices?

As origens de algumas dessas crendices são bem conhecidas: por exemplo, a crença de que quebrar um espelho dá azar vem da Veneza da Renascença. Naqueles tempos, quando os espelhos de vidro ou cristal eram uma novidade rara e cara, ai do empregado de uma rica mansão que quebrasse um deles. Certamente nunca mais conseguiria emprego na cidade.

A crença na boa sorte trazida por pés de coelhos, geralmente embalsamados e levados junto ao corpo, remonta à China do século VII a.C. A “sorte” que eles davam, originalmente, era relacionada à grande capacidade reprodutiva desses animais. A vitalidade da economia das sociedades antigas dependia fortemente da fertilidade dos animais e das pessoas, também.

E não nos esqueçamos do pobrezinho Gato Preto, esse bichinho historicamente injustiçado: por ser um animal noturno, durante a Idade Média o gato foi associado com as “trevas” e com a capacidade de ver espíritos. Além disso, por causa da amizade natural entre mulheres (especialmente as mais velhas, naqueles tempos) e gatos, eles acabaram sendo também associados à imagem das “Bruxas”. E se fossem pretos, então… coitados!

Mas toda essa perseguição implacável aos bichanos, motivada pelo medo e pela desconfiança, e sua quase extinção na Europa, não ficaria impune: foi por falta de gatos para caçar os ratos que infestavam ruas e casas que a Peste negra se espalhou pelo Velho Continente, levando com ela algo como metade da população.

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A História dos Quadrinhos no Brasil, e-book de autoria de papai, pode ser encontrado na Amazon 

O Feiticeiro Volta A Atacar

História do Professor Pardal, criada em 1981 e publicada pela primeira vez em 1982.

A trama trata do conflito entre ciência, magia e superstição, e dos perigos da arrogância que alguns cientistas e céticos em geral demonstram ao tentar pintar a tudo com um só pincel. É como o velho ditado: “Não creio em bruxas, mas que elas existem, existem”.

Esse bruxo “do Amazonas” é uma criação de Carl Barks, e papai o usa em algumas histórias que são mais ou menos variações sobre um mesmo tema: o bruxo, sua boneca que encolhe as pessoas que a apertam, e a resposta por meio da tecnologia do Pardal, que de tão avançada acaba se passando por magia. Isso, aliás, é outra noção popular sobre o tema, representada numa das Leis de Clarke: “Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível de magia”.

Lampadinha feiticeiro

Precisando de ajuda para reverter um feitiço de encolhimento, o Feiticeiro primeiro vai ao laboratório, e em seguida invade o Congresso dos Cientistas, onde o Pardal está, e onde um obscuro cientista racionalista faz um longo e veemente discurso contra “crenças supersticiosas” em coisas como magia e feitiçaria.

cientista cetico

É aí que o caldo engrossa, e quando o próprio cientista cético prova uma amostra das coisas que ele diz não existirem, o caldo entorna de vez. A demonstração de enfado do colega ao lado na bancada, aliás, demonstra bem a opinião de papai (e a minha) sobre esses racionalistas fanáticos que só acreditam em seus 5 sentidos.

cientista cetico boneco

O cientista leva um belo susto e aprende uma boa lição, embora relutantemente, e o Pardal, é claro, salva o dia com uma das suas invenções. Cabe ao leitor, no final, decidir o que é ciência, e o que é magia, e se existe mesmo essa incompatibilidade toda que alguns alardeiam entre as duas.

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Aviso aos navegantes: este blog não comenta desenhos. Meus comentários aqui dizem respeito somente aos argumentos/roteiros escritos por papai para suas histórias em quadrinhos. E acreditem, já há bastante o que comentar só nessa parte. Os desenhos das histórias de papai, via de regra, eram feitos por outros artistas, tão talentosos quanto, mas que não são o foco deste blog. Se o leitor quiser saber quem desenhou esta história, por favor acesse o link do Inducks, que fica na data de publicação da HQ, no início deste comentário.