A Grande Tourada

História do Gordo, personagem de Ely Barbosa, composta em maio de 1987 e publicada pela Editora Abril na revista número 7 do personagem em outubro do mesmo ano.

Esta é uma variação um pouco menos convencional do tema “brincadeiras de criança”: o Gordo assistiu às “Touradas de Madri” na TV e resolveu imitar o que viu, completo com capa e roupa de toureiro.

Mas por trás disso há também um plano, que vai aos poucos se tornando recorrente nas histórias de papai para este personagem: a intenção por trás dessa exibição toda é tentar conquistar a Lena, a menina popular da turma.

Apesar de ainda não haver, há 30 anos, toda essa consciência que temos hoje sobre maus tratos a animais, já naquele tempo o assunto da crueldade das touradas começava a se tornar delicado (e como sempre piadistas, os brasileiros passaram a “torcer pelo touro”).

E é com delicadeza que papai trata do tema. Assim, o “touro” (já que estamos falando de brincadeiras de crianças) também não passa de um filhote, um bezerro mansinho e amestrado com um capacete de chifres. Tudo não teria passado de uma grande brincadeira onde todos se divertem, incluindo o animal, se a malvada turma do Jarbas não tivesse achado de se intrometer e maltratar o bichinho.

Mas o próprio bicho saberá fazer a justiça necessária, quando chegar a hora. Dá-lhe, touro!

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Os Metralhas De Creta

Mais uma história dos Metralhas da História, de 1980.

Aqui papai resgata a história de como começaram as touradas, em Creta, de acordo com a mitologia grega. Mais do que um esporte, a chamada Taurocatapsia era um perigoso ritual religioso de adoração aos touros, animal sagrado da ilha, no qual rapazes jovens e ágeis pulavam por cima do bicho, tomando impulso em seus chifres.

Um afresco famoso encontrado nas ruínas antigas da ilha dá uma ideia de como era a coisa toda, e ainda por cima tem uma característica “narrativa”, que faz dele um quase quadrinho de HQ. Os três rapazes da pintura são mostrados em três momentos diferentes e sucessivos da ação, o que dá a quem observa uma marcada sensação de movimento. O primeiro quadrinho desta história, aliás, é muito livremente inspirado nesse mesmo mural.

Metralhas Creta

A ilha, aliás, é onde se acreditava que ficava o Labirinto do Minotauro, construído a mando do rei Minos por Dédalo, pai de Ícaro, bem ao lado do monumental palácio de Cnossos. É possível que a lenda toda tenha tido como ponto de partida a antiquíssima (e vasta) construção, cujas muitas salas e longos corredores podem fazer as pessoas se perderem lá dentro.

Os Metralhas (ou melhor, Irmãos Metralhopoulos) tendo sido colocados nesse riquíssimo contexto histórico, começa a aventura propriamente dita. E antes que os irmãos pensem que seus ancestrais cretenses pudessem ter sido honestos, pacíficos acrobatas, o Vovô (que conta a história, como sempre) logo esclarece: enquanto parte do bando enfrentava o touro na arena, os outros passavam entre o público distraído nas arquibancadas, roubando tudo o que pudesse ter valor.

O elemento coringa, também como sempre, é o Metralha Azarado (Azaradopoulos). A partir do momento em que ele entra na história nada mais dá certo, e a maré de azar vai espiralando até a prisão do bando todo, que é condenado a “alimentar” o Minotauro. É claro que numa história Disney não pode haver touros que comem carne humana nem derramamento de sangue, então o leitor pode imaginar o que esse “alimentar” significa.

O rei Minos também é lembrado, aqui na figura do rei Minuscoulos, um baixinho invocado com mania de mandar atirar pessoas ao Labirinto por qualquer coisa. O reizinho também tem qualquer coisa do Rei de Copas, de Alice no País das Maravilhas.

Metralhas Creta1

Papai também consegue inserir um xingamento na fala dos metralhas, que talvez não passasse pela comissão de avaliação em outro contexto: “cretino” que, além dos significados habituais da palavra, para papai tinha o sentido de um pejorativo relativo a “cretense”. É como “levantino“, aliás. Além do significado de “oriundo do Levante”, se refere também a pessoas extremamente mal educadas.

Metralhas Creta2

E assim papai vai “esticando” as regras sempre que pode, em sua discreta campanha pela mais completa liberdade criativa, até mesmo frente ao rígido código de ética da Disney.

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Que Venga El Toro!

Seguindo com o tema “Copa”, começo hoje a comentar mais três histórias, publicadas originalmente em uma Edição Especial de 1982.

O gibi que tenho aqui, aliás, está todo anotado com a letra de papai, mostrando que ele usou a revista como parte do “material de torcida”.

ZC copa 1

Esta história dá continuação à trama da anterior, com a chegada dos Três Cabaleros à Espanha, viajando no serapé voador (não é tapete, insiste Panchito, mas sim serapé).

Ao avistarem do alto a arena de touros, o Zé diz uma frase que eu ouvi de papai a vida toda: “que venha o touro, mas que venha em bifes”. Era a piada que ele fazia, sempre que algum problema menor se apresentava. Podia até ser um touro, mas não apresentava ameaça.

A música que o Zé cantarola quando eles avistam o local das touradas é esta aqui, uma marchinha de carnaval de 1938. Esta é uma lembrança de papai do jogo pela Copa de 1950 no Maracanã, quando o Brasil venceu por 6 a 1. Nesse dia, todo o estádio cantava “Touradas em Madrid”.

Ao ser questionado sobre a diferença entre tapete e serapé, Panchito responde com uma linha de Chico Buarque: “No es lo mismo, pero es igual”.

E novamente os amigos pedem ao Zé para comprar algo, sem ter entendido ainda que ele não tem dinheiro algum. Mas desta vez ele resiste à tentação de vender o tapete (perdão, serapé), e ao invés disso inscreve a si mesmo e aos outros dois numa tourada para principiantes. O objetivo era entrar na praça de touros, certo?

O Donald a princípio resiste à ideia de enfrentar um touro, mas acaba aceitando para impressionar as recepcionistas do comitê da copa. Naquele tempo as touradas ainda não eram condenadas, como são hoje, pela crueldade com os animais, mas papai não perde a chance de fazer o touro levar a melhor, e chifrar todos os três.

Nesse meio tempo, percebe-se que os Irmãos Metralha também estão na cidade, e as intenções deles não podem, em absoluto, ser boas. No final tentam roubar o serapé, mas são afugentados pelo próprio objeto que tentavam roubar.

Até aí o Zé até que está se dando bem, apesar da chifrada. A coisa complica mesmo quando a Rosinha vê pela TV o namorado dela sendo beijado por outra moça, e resolve ir à Espanha pessoalmente tirar satisfações. É nessa hora que o Zé prefere passar a noite com os touros a enfrentar a fúria da Rosinha.