A Quadrilha Da Ameaça

História do Zé carioca, de 1981.

Este é um bom exemplo de como criar uma história que, no final, volta ao início, como papai gostava de fazer. É também uma clássica história de “terrir”, um gênero do qual ele era muito adepto, e que misturava terror com humor (de preferência negro).

A coisa toda começa com um filme de terror na TV na casa do Pedrão. Sugestionáveis, os amigos ficam com muito medo e resolvem ficar todos para dormir por ali mesmo.

Mas a principal preocupação, que será mencionada frequentemente durante toda a história, é a banda musical que eles criaram para tocar em uma festa mais tarde. Este é o elemento que “costura” a trama, o “fio condutor” que permitirá um desfecho perfeitamente encaixado para a história.

O resto da história mostra como uma brincadeira quase inocente do Zé para acordar os amigos dorminhocos e finalmente conseguir ensaiar a banda sai totalmente do controle, criando uma completa histeria coletiva pelo bairro e quase virando caso de polícia no processo.

Mas, de qualquer maneira, apesar de resolver ficar quieto para não apanhar, o Zé não escapará ao castigo pelo susto que deu nos amigos. É justamente para esse propósito, aliás, que papai devolve a história ao início.

Mas nesse meio tempo o leitor já riu da confusão até ficar com a barriga doendo, e isso é o que realmente importa.

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Uma Tevê para Xicória

História da Xicória, de Daniel Azulay, escrita em junho de 1982 e publicada pela Editora Abril na revista “Turma do Lambe-Lambe” número 9 em janeiro de 1983.

A televisão é um fenômeno no Brasil por ser quase universal, até mesmo entre pessoas sem as mínimas condições financeiras. Esse nunca foi um aparelho barato, mas nos anos 1970 e 1980 era comum encontrar famílias que viviam em favelas, mal tinham o que comer, não tinham sequer uma geladeira no barraco em que viviam (para não falar de outros eletrodomésticos), mas que tinham o bendito aparelho de TV e a indefectível anteninha em cima do telhado de folhas de lata.

E, com a TV, vem o hábito quase irrefletido de assistir novelas. Nas rodinhas de conversa entre vizinhas e amigas (principalmente mulheres, mas os homens também, quando as mulheres não estavam ouvindo), comentar as novelas era algo comum, uma conversa corriqueira como comentar o clima, por exemplo. Ver novelas era algo que todo mundo fazia, e quem não tinha TV (ou não assistia novelas) podia se sentir positivamente um excluído.

xic-tv

Papai nunca se sentiu confortável com o aparelho de TV dentro de casa. Para ele a “máquina de fazer loucos” (como ele a chamava), com sua constante demanda por atenção, fosse por causa dos programas ou principalmente dos sempre estridentes e barulhentos anúncios, era uma intrusa e uma perturbação.

Já mamãe e eu, talvez por causa do ofício de argumentista (mais dela do que meu, naquele tempo), sempre achamos as novelas meio que um insulto à nossa inteligência. As tramas sempre foram fracas, tecidas ao sabor das preferências do público, frequentemente com personagens que mudavam radicalmente de personalidade no meio da história sem motivo aparente e cheias de pontas soltas e reviravoltas ilógicas.

Assistir novelas nunca foi (e continua não sendo) um hábito automático em nossa casa e, em um tempo em que elas eram o assunto principal das rodinhas de conversa, algumas vezes fomos confrontadas com olhares espantados em festinhas de aniversário e outros eventos sociais por causa disso.

Nesta história é a empregada Xicória que, sentindo-se excluída da conversa, pede um aparelho de TV ao Professor Pirajá, que vive na floresta justamente para escapar das distrações da vida moderna e poder pensar melhor. A maneira como a solução do problema da TV e da novela causa outros problemas mas acaba levando a uma solução criativa é a linha central do roteiro desta história.

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Um Vizinho Marreta

História do Zé Carioca, de 1977.

O morro tem um morador novo. Ele é bem vestido, bem educado, e tem um vocabulário de dicionário. E, ainda por cima, é muito generoso com seus eletrodomésticos, que não hesita em emprestar a seus novos amigos. Seu nome, “Vivaldino“, deixará pouca coisa para o leitor atento adivinhar.

ZC Marreta

A verdade é que a coisa toda é boa demais para ser verdade e, como diz o velho ditado, “quando a esmola é muita, até o santo desconfia”. Não se esqueça, caro leitor: quando algo, em qualquer esfera da vida, parece bom demais para ser verdade, geralmente é mesmo. Desconfie.

Dois times de futebol do Rio de Janeiro são mencionados por seus “codinomes” costumeiros: “Mengão” (Flamengo) e Tacafogo (Botafogo). Hoje descobrimos que o Zé torce pelo Mengão, e o Nestor pelo Tacafogo. Finalmente vemos uma centelha de discórdia entre esses dois amigos inseparáveis, mesmo que seja só por causa de futebol.

ZC Marreta1

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Tenho o prazer de anunciar um novo livro, que não é sobre quadrinhos, mas sim uma breve história do Rock and Roll. Chama-se “A História do Mundo Segundo o Rock and Roll”, e está à venda nos sites do Clube de Autores agBook

O Cavalo-de-Ferro

História do Pena Kid, de 1976.

A estrela de hoje é o trem, e tudo gira em torno dele. A estrada de ferro está chegando a Pacífica City, no legendário faroeste, trazendo consigo o progresso e o desenvolvimento. Até mesmo o assalto cometido pelos Metraltons tem menos importância na história do que o trem, e o ataque dos índios também não passa de “cena de filme”.

E por falar em filmes, é neles que papai foi buscar a inspiração: “The Iron Horse” (O Cavalo de Ferro) é um filme mudo dos EUA que foi lançado em 1924, dirigido por John Ford e produzido pela Fox Film. Ele conta a história, iniciada em 1825, dos fatos, intrigas, disputas políticas e conflitos (incluindo a clássica cena do ataque dos índios) que levaram à abertura da primeira linha férrea nos EUA. Ele pode, aliás, ser assistido aqui, com as vinhetas (meio mal) legendadas em Português, mas está valendo.

Em 1966 uma série para TV, também ambientada no velho oeste e chamada de Iron Horse/Cavalo de Ferro, foi lançada com 47 episódios divididos em duas temporadas. A abertura dessa série pode ser vista aqui.

PK Ferro

O resto são os geniais meta-quadrinhos de sempre, primeiro com uma pequena demonstração de como se fazia o rafe, e depois com os costumeiros palpites do Tio Patinhas e as soluções mirabolantes do Peninha.

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O Pogresso Chega Na Roça

História do Urtigão, de 1984.

Em meados dos anos 1980 teve início a “revolução tecnológica” no Brasil, com a chegada ao mercado de todo tipo de aparelho eletrônico, entre computadores domésticos, aparelhos de videogame conectáveis à TV, aparelhos de videocassete e jogos eletrônicos portáteis do tipo “tetris“. As perguntas que aqui se faz são: “o que é progresso?”, “tecnologia e progresso são a mesma coisa?” e “será que todo progresso é bom?”. Por isso a palavra grafada incorretamente de propósito no título da história.

“Rede Bobo de Televisão”, e “máquina de fazer loucos” eram os apelidos (quase) carinhosos que papai dava a certa rede de televisão brasileira e aos aparelhos receptores que permitem assistir às transmissões televisivas. Daí também o trocadilho com o nome de certo programa de TV dessa mesma “Rede Bobo”, voltado ao público das áreas rurais.

Urtigao pogresso

Até aí, a TV e os aparelhos eletrônicos em geral não são o fim do mundo, a não ser pelo fato de que exigem atenção total de seus expectadores ou usuários, e estão atrapalhando as atividades produtivas da roça, como a colheita do milho. Aliás, até a colheita vira um jogo do tipo tetris, nesta história. Pode até ser divertido, mas nenhum milho real é colhido. Sem uma boa colheita de verdade, que progresso pode haver na roça?

Urtigao pogresso1

(Gabiroba, aliás, usada aqui como interjeição, é o nome de uma fruta que dá, literalmente, no mato, e tem propriedades medicinais.)

Uma solução temporária para o problema da colheita cai literalmente do céu, mas é só uma questão de tempo até que a eletricidade volte e, com ela, o “pogresso” que hipnotiza pessoas e as faz esquecer de suas tarefas cotidianas e até mesmo dos jogos e brincadeiras tradicionais.

Mas engraçado, mesmo, de verdade, é lançar o nosso olhar contemporâneo sobre os gráficos eletrônicos de “ultima geração” de mais de trinta anos atrás. Mais curioso ainda é tentar imaginar o que dirão nossos netos da tecnologia que temos hoje.

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Enquanto isso, a minha moderníssima biografia de papai custa quase nada se comparada ao preço de uma noite na balada, está à espera de vocês nas melhores livrarias, e ainda por cima é útil para aumentar os conhecimentos gerais e preservar a memória da cultura brasileira, tão maltratada por certas redes de TV e suas máquinas de fazer loucos:

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