No Território Dos Pés-Chatos

História do Pena Kid, de 1975.

Esta história, na verdade, é menos sobre o que acontece entre o Vingador do Oeste e os índios Pés Chatos (ênfase em “chatos”) do que sobre o “processo criativo” do Peninha na redação de A Patada e como os palpites do Tio Patinhas influenciam na coisa toda.

É também uma crítica aos clichês dos filmes de faroeste “macarrônicos“, produções italianas e espanholas de baixo custo e muitas improvisações que tomaram as telas dos cinemas nos anos 1960, na onda dos grandes Westerns Norte Americanos dos anos 1950.

Assim, além dos panos de fundo mal disfarçados e cidades construídas somente de fachadas, outros elementos que não podiam faltar eram o conflito com os índios, as cenas de luta corpo a corpo das quais o herói sempre começava perdendo mas no final saía vencedor (mesmo que para isso fosse preciso dar uma forçada no roteiro), a presença e o salvamento de uma mocinha em apuros (idem), a ocasional cena melodramática (ibidem) e outras coisas do gênero.

E tudo isso, é claro, era feito na intenção de manter feliz ao público que assistia esses filmes. Os produtores temiam que, se os espectadores saíssem descontentes dos cinemas, eles fossem acabar perdendo dinheiro. Era algo mais ou menos parecido com o que acontece hoje em dia com as novelas de televisão, que vão avançando às vezes de maneira meio errática, mas sempre de acordo com os gostos dos telespectadores.

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Metralhix, Os Gauleses

História dos Irmãos Metralha, de 1981.

Esta é mais uma daquelas da série “Metralhas através da história”, e também uma paródia/homenagem ao personagem Asterix de Uderzo e Goscinny.

O roteiro segue uma fórmula comum às demais histórias do tipo: o Vovô Metralha começa a contar algum episódio do passado da família para os irmãos na ausência do 1313, e o antepassado azarado só é mencionado quando o azarado da atualidade entra na sala, atrasado como sempre.

A trama passa então por toda uma série de situações hilárias relacionadas ao tema específico da vez, até o inevitável final infeliz.

Papai gostava de retratar os antigos romanos porque tinha noções de Latim, que aprendera na escola, e um conhecimento invejável de História Antiga e Clássica. Então para ele era fácil emprestar toda uma riqueza de detalhes aos personagens, e ainda ensinar alguma coisa ao leitor.

Os Metralhix, cercados de romanos por todos os lados (como em Asterix) e com a cabeça a prêmio (por 30 denários, o que pode ser traduzido por “30 dinheiros”, que meio por acaso nesta história, talvez por uma livre associação de ideias, é uma referência bíblica à traição de Judas), pedem ajuda ao Druida da família. Este prepara para eles uma poção que pode perfeitamente ser uma droga qualquer, mas que o velho mago apresenta como sendo uma “poção da sorte”.

Numa referência “invertida” ao personagem Obelix, que cai num caldeirão de poção mágica, os irmãos são instruídos a tomar banho com a droga… quer dizer, poção da sorte. O problema é que não sobra nada para o Azaradix, que continua azarado como sempre, enquanto os outros estão se sentindo até mais confiantes.

Metralhix banho

Divertido é o poder mágico do velho druida, que consegue desaparecer e depois aparecer de novo (quase matando os romanos de susto, por consequência), por meio do uso de variações da palavra mágica “abracadabra”. Papai acreditava que a “versão original” da palavra era “abraxas-kadabraxas”, e a usava frequentemente em suas histórias que envolviam magia e bruxaria.

Metralhix druida

Temos aqui também uma pequena aula sobre as unidades do antigo exército romano e seus tamanhos: primeiro vinha a “decúria” – grupo de dez soldados, liderados por um decurião. Dez decúrias formavam uma “centúria” – grupo de cem soldados, com os respectivos dez decuriões subordinados a um centurião. Além disso, dez centúrias formavam uma falange (mil homens), sob comando de um tribuno e dez falanges formavam uma legião (dez mil homens), sob comando de um cônsul. Não é à toa que este era um dos exércitos mais temidos da antiguidade.

O final infeliz dos gauleses é tão espetacular quanto cruel, como sempre: Azaradix é enviado às galés, uma espécie de regime de prisão com trabalhos forçados, onde os condenados eram obrigados a manejar os remos de um tipo de navio chamado Galé, muito comum na época. Os outros conseguem fugir para a Bretanha (antiga Inglaterra), mas também acabam condenados à prisão com trabalhos forçados.