O Norte Contra o Sul

História do Pena Kid, de 1976.

Esta é uma brincadeira com a Guerra Civil nos EUA. Pode ser considerada também um manifesto pacifista, ou uma sátira que tenta demonstrar a inutilidade de todas as guerras. “Norte Contra Sul” é também o nome de um livro, de autoria de ninguém menos do que Julio Verne.

A premissa é bastante logica: se a história se passa no Velho Oeste, em algum momento a cidade de Pacífica City deve ter se visto envolvida no conflito. Esta é a primeira desvantagem das guerras em geral: se os governantes decidem que o país está em guerra, todos os habitantes serão envolvidos, queiram ou não. Em tempos de paz é muito fácil ser pacifista, mas isso pode não ser tão simples em épocas de conflito.

Outro problema é que lado tomar, já que não há alternativa. E esta é outra das desvantagens de uma guerra: é obrigatoriamente preciso tomar um partido, mesmo que isso signifique ter de ver seus amigos ou entes queridos do outro lado. Aqui, enquanto os personagens decidem de que lado ficar, vemos as caricaturas de alguns membros da redação. Um deles, inclusive, chega a ser preso só por achar os uniformes azuis mais bonitos do que os cinza.

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Em seguida, juntamente com a suposta localização de Pacífica City no mapa, vemos um importante detalhe geológico. A cidade fica às margens do “Rio Colorido”, em uma alusão ao “Rio Colorado“, que corta cinco estados na região mais desértica dos EUA. Desses, só o Arizona ficou do lado dos sulistas. Se Pacífica City realmente existisse no mundo real, eu arriscaria então dizer que ela ficaria em algum lugar às margens do Lago Powell, entre Utah e Arizona. Mas os mapas antigos podiam ser bastante imprecisos e isso, em época de guerra, também pode ser um grande problema.

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Por fim, meu “mui modesto” (sqn) papai também deixou uma anotação no alto da primeira página. Mas enfim, ele era realmente um gênio, e tinha todo o direito de mandar a modéstia às favas de vez em quando.

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A Recompensa

História de Guerra, publicada na revista Almanaque de Combate AM-1, Mês 7, de 1971.

É uma história adaptada por papai de uma fonte não identificada, com letras de Dolores Maldonado e discretamente assinada pelo mesmo desenhista de “O Irlandês Brigador”, também publicada nesta mesma revista.

A ideia por trás da trama parece se basear na pergunta: existe recompensa maior do que servir a uma causa? Quando uma ação em prol da Rainha e da Pátria (“Queen and Country”, a expressão máxima do patriotismo britânico) é sua própria recompensa, o que mais se pode esperar? O herói desta história é um soldado britânico solitário, que culpa os nazistas pela morte de sua mulher, e por isso os odeia de todo o coração.

Desde que perdeu o amor de sua vida, o Capitão Smith endureceu seu coração e se dedica sempre às missões mais perigosas, talvez em busca de vingança e de morrer em combate, para finalmente unir-se à sua amada Rose. Tanto já fez, que foi apelidado no exército de “o louco” Smith.

A perigosa missão, desta vez, será resgatar uma certa Dra. Ilse, agente dupla da resistência, que está na Noruega se passando por nazista, mas prestes a ser presa por eles, e muito provavelmente torturada e morta. Além disso, revela-se depois, ela também é uma mulher jovem e muito bonita.

Recompensa

A missão de resgate é complicada, e o Capitão Smith, juntamente com seus colegas da resistência norueguesa, terão de se disfarçar de nazistas para entrar no coração do reduto dos vilões. Lá, eles resgatarão a mocinha, e em seguida partirão em uma arriscada fuga noturna através da floresta rumo aos Fiordes, onde um barco os espera para levá-los novamente a Londres, e à liberdade.

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Como de costume, papai mistura expressões em alemão nas falas dos personagens. Ele também conduz a história de modo a fazer o leitor esquecer o drama pessoal do Capitão, e se concentrar na aventura de guerra. Assim, quando vem o desfecho romântico da trama (sim, a Dra. Ilse se apaixona por seu salvador, o “cavaleiro da reluzente armadura”), o leitor é pego quase de surpresa.

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No final, e até mesmo em meio aos horrores da guerra, somos lembrados do velho ditado latino: “Cras amet qui nunquam amavit, quique amavit cras amet” (quem nunca amou amará amanhã, e quem já amou amará também amanhã).

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Prisioneiro de Guerra!

História de guerra publicada na revista Almanaque do Combate Nº 14, da editora Taika, com argumento de Ivan Saidenberg, letras de Marcos Maldonado e desenhos de Salatiel de Holanda.

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O início se passa na Europa durante a Segunda Guerra Mundial, com o enfrentamento entre os nazistas da SS e os guerrilheiros da resistência. É sabido que muitos dos membros da resistência eram jovens judeus que conseguiam escapar de serem capturados e que, muitas vezes sob nomes falsos, decidiam fazer o que pudessem para se opor aos nazistas. Mas guerra é guerra, e muitos desses partisans, como eram chamados, acabavam capturados novamente e enviados a campos de trabalho ou extermínio.

Nossa história já começa na frente do pelotão de fuzilamento dos nazistas, que estão tentando extrair confissões dos capturados. Um deles é Iohan Kolek, “nom de guerre” de Iohan Koler, um judeu da resistência. Atemorizado, ele acaba confessando e entregando seus líderes aos nazistas.

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Por isso, ele passa a história toda cheio de remorsos, torturando a si mesmo por sua “covardia”, e sendo maltratado pelos seus colegas sobreviventes. “Iohan”, aliás, é um nome europeu que tanto pode ser traduzido por João quanto por Ivan. Outro nome citado, o do líder delatado por Iohan, é Karl Krugek.

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Durante a história toda, sempre que os partisans tentam uma ação contra os nazistas, eles percebem que foram delatados por alguém, e que os vilões já estão sabendo de seus planos de antemão, o que faz com que eles sejam derrotados todas as vezes. Apesar de toda a carnificina, alguns poucos sobrevivem para ver o final do conflito.

A história termina anos após a guerra, quando o sobrevivente Iohan já está morando e trabalhando em São Paulo, no Brasil. Ao ir para o trabalho, certa manhã, ele se depara com um “fantasma” de seu passado, o ex líder partisan que ele achava que havia traído covardemente e enviado para a morte. Era Karl Krugek, ou melhor, Karl Kruger, na verdade o agente duplo que os estava entregando aos nazistas toda vez, durante a guerra.

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Como ele próprio, Karl havia adotado um sobrenome falso, mas com intenção inversa: a de se passar por judeu para melhor traí-los. Assim que ele entende o que realmente havia acontecido, tudo o que ele passou durante a guerra volta à sua memória, e faz seu sangue ferver. É nessa hora que ele ataca o verdadeiro traidor de sua causa a socos e pontapés no meio da rua paulistana. Nesse dia, o colaborador nazista recebe o que merece, e Iohan lava sua alma com o sangue do verdadeiro traidor covarde.

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O Irlandês Brigador

História de Guerra, publicada na revista Almanaque de Combate AM-1, Mês 7, de 1971.

Esta revista tem 6 histórias. Destas, 4 são adaptadas por papai de contos de guerra que ele leu naqueles tempos. Esta vem de “Um Diário de Guerra”, com letras de Antonio Maldonado. Já a assinatura do desenhista, discreta e apenas na última página, não está clara para mim.

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Hoje temos os britânicos contra os japoneses, lutando seus combates mortais nas selvas da Ásia. O que esta história tenta mostrar é que o termo “britânicos” está longe de descrever um tipo só de pessoas, e que em tempos de paz essas pessoas todas, e tão diversas, nem sempre se dão bem. Aqui se explora a rivalidade cultural entre ingleses e irlandeses.

Na trama temos dois rapazes, britânicos mas de nacionalidades diferentes, que foram rivais no amor antes da guerra, e que por acaso, destino, sorte ou azar, terão de lutar juntos, lado a lado mesmo, contra o inimigo asiático. São antes de mais nada seres humanos, com suas paixões e fraquezas, metidos numa encrenca de proporções mundiais.

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O inglês com o seu jeito contido mas petulante, é tenente. O irlandês, de boca suja e encaixando um “diabos” a cada 3 ou 4 palavras, é sargento. Mas não é por isso que o soldado vai levar desaforo para casa, mesmo que vindo de um oficial.

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No decorrer da guerra, e da batalha desesperada, que é lutada pela própria vida e a dos companheiros – mais do que por um país ou ideologia – os dois homens vão aprendendo a reconhecer o valor um do outro, e a se respeitar. Se tornarão, após um “batismo de fogo”, onde chegam a ver a morte de perto, mas acabam salvos por um regimento indiano – também eles britânicos, afinal de contas – verdadeiros “brothers in arms”, as diferenças de outrora perfeitamente perdoadas e esquecidas.

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Afinal, existem coisas mais importantes do que o amor de uma mulher, no mundo… 😉

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O Inferno de Dunquerque

História de Guerra, publicada na revista Almanaque de Combate AM-1, Mês 7, de 1971.

Esta é mais uma história adaptada para os quadrinhos por papai. O autor é Francisco de Assis, com desenhos de Salathiel Holanda e letras de Dolores Maldonado.

O ano é 1940, estamos em plena Segunda Guerra Mundial, e infelizmente numa época na qual os alemães nazistas ainda estão vencendo a maioria das batalhas e forçando os exércitos britânico, francês e belga a uma dramática retirada estratégica.

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A longa história é uma dramatização da terrível batalha, que começa com os britânicos tranquilos e confiantes demais por trás de suas linhas de defesa, que serão facilmente transpostas pelos nazistas, passando então a descrever a verdadeira odisseia dos soldados aliados para conseguirem chegar de volta à Inglaterra para se reagrupar.

Papai como sempre mistura frases em inglês no meio do texto, para dar mais autenticidade aos diálogos, enquanto o colega desenhista “abusa” dos desenhos de todos os tipos de máquina de guerra, entre tanques, aviões e navios, entre cenas de combate corpo a corpo.

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No final, os alemães vencem a batalha, mas não a guerra, é claro. A história serve de alerta às futuras gerações, para que não pensem que, só porque os aliados venceram, foi uma guerra “fácil”. Não foi, e muitas vidas valiosas se perderam, para que nosso estilo de vida pudesse continuar existindo. Cada um desses soldados mortos era um ser humano único e insubstituível, e o mundo se tornou um lugar menos “rico” em capital humano com a perda de cada um deles.

O último quadrinho tem direito até a uma citação de Shakespeare, para ainda mais ênfase no drama:

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O Caçador

História de Guerra, publicada na revista Almanaque de Combate AM-1, Mês 7, de 1971.

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Adaptado por Ivan Saidenberg de algo chamado “Um Diário de Guerra”, com letras de Antonio Maldonado e desenhos de Ignacio Justo, e aparentemente, mais um desenhista. A História se passa em 1942, e basicamente mostra uma “dogfight” (batalha aérea) da maneira como é vista de dentro das aeronaves, com o enfrentamento cheio de reviravoltas entre britânicos e alemães.

O diálogo é recheado de jargões de aviação e de guerra da época, e a trama de papai é basicamente uma “escada” para os maravilhosos desenhos dos colegas. A história é longa, então não vou postá-la toda, só algumas páginas mais importantes:

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O “I.J.” ao pé desta página parece ser uma rubrica de Ignácio Justo:

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Mas este outro maravilhoso desenho tem uma assinatura diferente, que não sei identificar. Alguém?

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Por fim, o destino final das duas aeronaves, caídas juntas no mesmo descampado, como a denunciar a inutilidade das guerras: luta-se tanto, e no fim…

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E o meu livro em homenagem a papai também já está em pré venda no site da Editora Marsupial no link http://www.lojamarsupial.com.br/ivan-saidenberg-o-homem-que-rabiscava.