Um Natal Bem Diferente

Publicada pela primeira vez em 1981, esta história foi premiada com o VII Prêmio Abril de melhor história nacional ou feita no Brasil, entregue a papai em 1982.

A história começa com o Tio Patinhas, rabugento como sempre, reclamando em plena véspera de Natal porque precisa comprar presentes para todos, enquanto ninguém lhe dá nada, porque acham que ele já tem tudo. E realmente, qual presente se pode dar ao pato mais rico do mundo?

Quando presentes materiais não têm sentido nenhum, apenas um presente espiritual de suprema grandeza pode preencher o vazio que só uma grande fortuna material pode causar.

Desejoso de ter um Natal “diferente”, o Tio patinhas – juntamente com Donald, Peninha, e os 3 Sobrinhos – recorre a uma máquina do tempo inventada pelo Professor Pardal, e viaja a três pontos no tempo: primeiro, ele vai à Roma de Nero, no ano 64 depois de Cristo, quando a comemoração de Natal dos primeiros cristãos é interrompida por um grande incêndio, causado pelo próprio imperador. Lá, descobrimos que os primeiros cristãos, até mesmo por não saberem exatamente quando Jesus nasceu, decidiram comemorar no dia do solstício de inverno.

TP catacumbas

Em seguida, eles chegam ao ano 10 em terras germânicas (atual Alemanha), onde descobrem as origens pagãs da árvore de Natal. São, aliás, recebidos como se fossem deuses, numa alusão a “Eram os Deuses Astronautas”, livro de Erick Von Daniken que postula que os antigos deuses pagãos eram na verdade extraterrestres que vieram à Terra para ensinar a civilização aos nativos do planeta.

TP pinheiro

E por fim chegam à Judeia exatamente na mesma noite na qual Jesus nasceu, e ganham a oportunidade única de ajudar os Reis Magos a cumprir o seu papel na História.

TP presepio

É uma história clássica e altamente emocional, que – propositadamente – em momento nenhum questiona a tradição cristã. Esta é uma história que quase poderia ter saído de um catecismo católico, com direito até mesmo a um milagre de Natal exclusivo para a família Pato, quando a estrela de Belém paria sobre a máquina do tempo avariada e a conserta, para o espanto de todos.

TP milagre

Consertada a máquina, os Patos conseguem ainda chegar de volta a Patópolis e à nossa era a tempo de participar da ceia de Natal no sítio da Vovó Donalda.

E é neste espírito que agradeço a todos os que têm acompanhado este blog nestes últimos meses desde sua criação e desejo um Feliz Natal, pleno de toda a alegria do mundo, e um Ano Novo cheio de sucesso e realizações.

A Cidade Dos Bandidos

História do Pena Kid, publicada pela primeira vez em 1975.

Trata-se de uma inversão de valores, uma cidade habitada e governada por bandidos, onde “xerifes, agentes da lei e vingadores do oeste não são bem vindos”.

Logo na primeira página, o leitor perspicaz se perguntará: “quem é o Joe”? Nas placas de todos os estabelecimentos comerciais só o que se vê é o sufixo “do Joe” em tudo, por exemplo: Empório do Joe, Mercearia do Joe, e por aí vai.

Um pouco mais de atenção, e o leitor vai notar que toda a cidade em volta é cenográfica. Logo no primeiro quadrinho há um remendo no “céu”. É na verdade um pano de fundo! As fachadas, em sua maioria, também não têm construções atrás, e são escoradas por longas hastes de madeira.

PK retalho    PK fachadas

Enquanto o Peninha está um pouco sem inspiração e pede ajuda ao Donald para escrever a história, e o Pena Kid dá de cara com o Vovô Metralton – alter Ego do Vovô Metralha – e se vê preso na cadeia da cidade, um dos poucos edifícios que vão além da fachada, o leitor vai notando mais detalhes engraçados.

Numa das paredes da prisão há três cartazes de “procurado”: o primeiro é para Texas Bill, um personagem fictício de uma série de TV e dos quadrinhos, que pode ter sido inspirado na figura de Bill Pickett, um cowboy e artista de rodeios do Texas. O segundo é “Uai T. Earpy”, uma referência a Wyatt Earp, homem da lei que se tornou lendário nos EUA do fim do século XIX e início do século XX, e o terceiro é “Bat Mastersão”, uma referência a outro herói lendário do Velho Oeste norte americano que acabou virando personagem da TV e dos quadrinhos, o Bat Masterson. A curiosidade, aqui, é que o rosto do “Bat Mastersão” no cartaz da parede é uma caricatura de papai.

PK procurados

Papai cantava para mim uma canção satírica baseada na música de abertura da série de TV do Bat Masterson, cuja letra era mais ou menos assim: “A minha TV enguiçou / e eu chamei o técnicô / foi quando ele me falou / não vai mais ter som, não vai mais ter som”.

Na continuação da história, descobrimos o porquê da “Cidade do Joe”. O “dono” do lugar é o Joe Mancha, alter Ego do Mancha Negra. Na parede, todo crivado de balas, está o cartaz de outro “procurado”: o Xerife Matt Dillonge, uma referência ao Marshal Matt Dillon, cowboy fictício que estrelava  séries de rádio, TV e quadrinhos.

PK matt

É claro que o Pena Kid, com a ajuda do alazão de pau, acaba prendendo todos os bandidos da cidade. O único problema é que a história, apesar de genial, não agrada ao Tio Patinhas, todo poderoso diretor do jornal que não entende nada de quadrinhos, mas isso são ossos do ofício.

E não deixem de dar uma olhadinha no livro com os textos de papai, que está à venda na Amazon.

Cartas De Amor

História do Zé Carioca com tema relacionado ao futebol, publicada pela primeira vez em 1975.

No início da trama temos duas situações que, aparentemente, não têm nada uma a ver com a outra: o Nestor está apaixonado por uma apresentadora da TV, a Ritinha Cachucha, que aparentemente – e surpreendentemente – até retribui suas cartas de fã, e o Zé está interessado em comprar do Nestor uma camisa de futebol que ele tem e que é autografada por um certo “Pelão”, que pode ser uma referência ao Pelé, mesmo porque a vestimenta em questão tem o número 10 nas costas.

Nestor Ritinha

O Zé precisa da camisa para que o clube de futebol do morro possa participar de uma gincana. O problema é que há outros interessados na relíquia futebolística, justamente por causa da tal gincana, e é aí que as duas situações aparentemente sem ligação entre si começam a se misturar, começando por uma invasão da casa do Nestor e tentativa de roubar a peça de roupa.

Nestor ataque

É uma história de mistério que não deve nada aos livros clássicos de literatura policial que papai gostava de ler, de Arthur Conan Doyle a Agatha Christie, mas adaptada, é claro, ao Zé Carioca e ao universo infanto juvenil.

O interessante é que o time de futebol da turma nesta época se chama “Brejeiros da Tijuca F. C.”, e não Vila Xurupita F. C., que tanto quanto sei só passaria a ser usado no ano seguinte. “Brejeiro” vem da palavra brejo, denominação de um tipo de área alagada que certamente nunca serviria como campo de futebol, uma referência aos campinhos amadores de várzea ou de bairro onde as crianças disputavam suas “peladas” – assim chamadas porque todos jogam descalços – no estilo “5 vira e 10 acaba”.

Quem soluciona o mistério, encontrando uma falha óbvia no plano dos bandidos que ninguém mais percebeu por pura falta de uma televisão em casa é a Rosinha: a hora marcada pela “Ritinha” para se encontrar com o Nestor é justamente aquela na qual ela apresenta, ao vivo, o seu programa na TV.

O Google Books está com um amostra do livro de papai aqui, e o e-book pode ser adquirido aqui. Não fique sem o seu!

Videotrapalhadas

O ano era 1985, e a era dos games estava só começando. A resolução gráfica e os movimentos possíveis dos personagens do jogo ainda não eram lá essas coisas, como dá para perceber neste vídeo, mas eram o suficiente para fazer os aficionados por games sonharem com um futuro de jogos bem mais realistas.

E é  justamente o que o Professor Pardal faz nesta história, criando um videogame onde um cavaleiro medieval luta com um dragão para salvar a princesa, com imagens próximas do que temos hoje em games desse tipo.

Tudo estava bem, até que aparece o Biquinho para engrossar o caldo. O maior erro dos personagens adultos nas histórias do patinho é não ter paciência com crianças. E como o Biquinho já tem fama de pestinha, ele acaba sempre se transformando na “profecia que se concretiza a si mesma”. Ele é só um típico patinho da idade dele, inteligente, curioso e criativo, mas a “birra” que os adultos têm dele acaba sempre complicando as coisas.

Pardal Biquinho

Enxotado pelo Pardal, que não teve a humildade de deixar a criança participar da brincadeira, o Biquinho acaba sendo vencido pela curiosidade e voltando ao laboratório, onde encontra o inventor dormindo pesadamente. Assim, ele resolve ligar o jogo sozinho, mas – sem a sempre necessária orientação de um adulto – acaba se confundindo e ligando o console num aparelho que materializa imagens.

Biquinho Game

O problema nem é tanto o cavaleiro que salta da tela, mas o dragão que vem logo atrás. A confusão criada na rua em frente à casa do Pardal é tão esperada quanto engraçada, com o dragão perseguindo o cavaleiro poste acima como talvez um cachorro bravo faria com um carteiro, e o Biquinho se divertindo a valer, e torcendo pelo dragão.

Biquinho Dragao

O Pardal no fim consegue devolver todo mundo para dentro da máquina e do game, mas… onde foi parar o Biquinho, no meio da confusão?

A mensagem aqui parece clara: adultos, nunca neguem a atenção e o carinho de que as crianças precisam, mesmo que elas pareçam ser um pouco inconvenientes “de vez em sempre”.

Paz, Amor E Glória

Nesta história publicada pela primeira vez em 1972 papai nos apresenta a Glória, a namorada do Peninha.

Na esquina da Rua da Paz com a Rua da Glória, em Patópolis, o Peninha aguarda já há um tempão para encontrar pela primeira vez com a Glória, uma moça que ele conhece apenas de conversar ao telefone.

Como na maioria das histórias com temática Hippie de papai, há uma crítica bem humorada à cultura e ao senso de estética do grupo, a começar pelo modo de se vestir bastante “andrógino” dos hippies: ao vê-la de costas, num primeiro momento, o Peninha chega a pensar que é um outro rapaz que está ali. Além disso, a própria aparência da personagem, nesta primeira história, é bem diferente do que nos acostumamos a ver depois.

Peninha Gloria 1

Como na história “Paz e Amor, Metralhas” (1977), já comentada aqui, boa parte da brincadeira está no uso exagerado de gírias e frases feitas, ou de expressões como “sentir um som”. Mas a verdade é que no início dos anos 1970, todo mundo era “meio hippie”.

Peninha Gloria 2

Um dos hippies que aparecem na história, aliás, é bastante parecido com o modo como papai se vestia e usava seus cabelos até meados dos anos 1970. Eu tenho memórias dele de cabelos compridos e óculos redondos, à lá John Lennon, e de uma bata de algodão branco bordada de flores coloridas que ele comprou na “Feira Hippie” de Campinas e usou bastante, e que depois eu também usei muito, quando adolescente.

Donald Hippie

O resto da história é a engraçada comédia de erros que se tornou comum nos anos seguintes, cheias de encontros, encontrões e desencontros, e com uma solução surpreendente no final. E no meio disso tudo, a Glória aceita de bom grado as flores que o Peninha oferece, sem se importar nem um pouco que elas já estão até meio murchas e molhadas da poça d’água onde caíram. Este é, sem dúvida, o início de um grande amor.

O Google Books está apresentando algumas páginas do livro de papai como amostra grátis, que podem ser lidas aqui. e o livro propriamente dito está à venda na Amazon, neste link aqui.

Na Terra Dos Tasca-Lasca

História do Zé Carioca, publicada pela primeira vez em 1972.

O que começa inocentemente como um passeio próximo aos Arcos da Lapa num dia de verão se transforma numa complexa aventura, com mistério para resolver e tudo, a partir do momento em que o Zé encontra uns índios estranhos.

A graça principal da coisa toda fica por conta do choque cultural entre os índios e o nosso herói, que começa pelo modo como eles falam, com todos os verbos no infinitivo. Especialmente hilário, porque totalmente inesperado, é o meio de transporte dos forasteiros. Quando eles se referem a um “grande pássaro”, o Zé chega a pensar que seria apenas uma maneira deles de se referir a um avião:

ZC gde pass

Na floresta, descobrimos que a tribo está sob ataque de saraivadas diárias de flechas, e sofre até tentativas de incêndio. Aos poucos o mistério vai sendo revelado ao leitor, e o próprio Zé chega no final e meio por acaso à solução de tudo, enquanto tenta fugir da tribo em mais um dos seus “ataques de coragem” às avessas.

ZC buga

Numa época em que o Zé Carioca ainda tinha um universo limitado de personagens coadjuvantes, essas aventuras em estilo “anti-Mickey” eram comuns no lápis de papai.

Sauna, Suor E Lágrimas

História do Peninha contra o gato Ronron, publicada pela primeira vez em 1984.

O nome da história é derivado de uma frase retirada de um discurso de Winston Churchill, no qual ele conclamava os ingleses ao sacrifício na Segunda Guerra Mundial (“só tenho a oferecer sangue, sofrimento, lágrimas e suor”), e que no Brasil, se não me engano, virou até letra de samba. O fato é que esta frase, e o sentimento de sacrifício que ela representa, marcou muito o imaginário coletivo do mundo ocidental nos anos do pós guerra.

Já as saunas em geral são derivadas de uma antiga tradição que remonta aos tempos dos antigos romanos, que passavam muito mais tempo por dia imersos em água do que todos os outros povos antigos… juntos. Elas já foram bastante populares no Brasil, antes de entrarem em decadência e ficarem com má fama.

O Peninha é o tipo de aloprado que não perde a esperança de dar certo na vida um dia, e por isso vive iniciando novos negócios que nunca dão certo, e na maioria das vezes nem é por culpa dele. Desta vez o Ronron, com sua ideia fixa por peixes, é o principal vilão da história.

Enquanto o Donald e o Peninha são primos e se adoram, o mesmo não pode ser dito do “relacionamento” entre Peninha e Ronron. Nenhum dos dois vai com a cara do outro. O Peninha, aliás, tem verdadeiro pavor do Ronron, e não sem motivo.

Nesta história até o Donald tem de reconhecer, depois de finalmente flagrar o gato na sauna, que seu primo tem razão em não gostar de seu animal de estimação. O bichano ouviu falar em “aquário” (que é apenas mais um dos equipamentos de uma sauna), e imediatamente o associou com “peixe”, é claro.

Ronron sauna 1

O mais engraçado da história toda é que o Ronron não faz, em momento nenhum, nada que um gato de verdade não faria, exceto talvez mergulhar na piscina em busca dos tais peixes que ele acredita haver lá e morder algumas patas de alguns patos.

Ronron sauna

O resto, como se esgueirar sorrateiramente, passar por entre as pernas das pessoas tão rápido que nem é visto, ou tentar se esconder nos lugares mais inesperados, é coisa que qualquer dono de gato vai reconhecer na hora, e rolar de rir.

Peninha sauna

A piada interna fica por conta de um cartaz de propaganda da sauna no primeiro quadrinho, que mostra o “antes” e o “depois” de um suposto frequentador: o gordinho é o Acácio Ramos, um colorista que era muito querido por todos no estúdio.

Herrero sauna

E não esqueçam de ir dar uma olhadinha no livro de papai, lá na Amazon.