A Praia das Surpresas

História da Turma da Patrícia de Ely Barbosa, publicada pela Editora Abril em revista própria, número 12, em 1987.

Esta é uma variação sobre o tema da história do Zé Carioca intitulada “O Salva Vidas Boa Vida”, já comentada aqui. A turminha vai à praia mas o mar não está para peixe, começando com a violência das ondas, que insistem em jogar o Terremoto de volta à areia a cada vez que ele tenta surfar. É papai novamente revisitando a aventura traumática que teve no Rio de Janeiro, décadas antes.

Na verdade, tudo o que poderia dar errado acaba acontecendo. Por um lado, se fosse somente um dia agradável ao ar livre não haveria história. É preciso que haja algum problema para desafiar os personagens. Por outro, a trama representa um aviso às crianças para que tomem cuidado: por mais próxima de uma cidade que fique a praia, ela sempre será um ambiente potencialmente selvagem e cheio de perigos.

Finalmente, quando a turminha já está quase desistindo da aventura, um temporal chega de repente para acabar de vez com a festa. Está certo que sempre pode haver um contratempo ou dois em passeios desse tipo, mas será que não foi um pouco de azar demais?

A “surpresa” do título se justifica no desfecho, com a revelação do Sapo Urucubaca na cesta de piquenique.

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Nem Vendo Se Acredita

História do Zé Carioca, de 1981.

Quando lê revistas demais do Morcego Vermelho, o Zé se transforma no Morcego Verde e sai dando os seus pulinhos pela Vila Xurupita. Se ele resolve um caso ou prende um bandido, é por mera coincidência, e hoje não vai ser diferente. “Diferente”, sim, e surpreendente, será o final da história.

Curiosamente, depois de criar o personagem, foram poucas as histórias de papai para ele. Em compensação, vários outros autores não hesitaram em adotá-lo, com resultados variados. Já o charmoso cachorrinho Soneca será mais uma vez um misto de narrador da história, assistente de super herói e cão de guarda.

A trama colocará o Zé “entre a cruz e a espada”, por assim dizer: de um lado, ele se vestiu de herói em uma tentativa de despistar a Anacozeca, que está atrás dele para tentar cobrá-lo. De outro, se vê às voltas com o vilão Tião Medonho, um enorme pássaro bicudo de dois metros de altura e máscara ao estilo Irmãos Metralha que detesta heróis.

A cada vez que ele consegue fugir de um, é (quase) capturado pelos outros, e vice-versa. E é nesse acidentado “pingue-pongue de herói” que a história vai caminhando para o seu desfecho.

Interessante é a menção ao Brejo da Tijuca, para onde o Zé foge de seus perseguidores. Mais uma vez, papai demonstra seus conhecimentos sobre o Rio de Janeiro e tenta ensinar alguma coisa ao leitor. Quando se pensa nessa região da Cidade Maravilhosa, o mais comum é lembrar da Floresta da Tijuca, ou da Barra da Tijuca. Mas a verdade é que o nome do local, de origem indígena (“TY YUC”), significa “água podre, charco ou brejo”, e se refere às lagoas da atual Barra.

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O Guia Turista

História do Zé Carioca, de 1973.

Percebam que o título da história não é “o guia de turistas” ou “o guia turístico”, nem nada disso. É o “Guia-Turista”, mesmo.

O fato é que, em certas profissões nos campos de turismo e até mesmo de cosmética, o profissional nunca (ou quase nunca) pode fazer o que oferece aos seus clientes. Assim, por exemplo, a manicure raramente mantém as unhas esmaltadas e o guia turístico passa os dias explicando e guiando, mas raramente pode aproveitar verdadeiramente os passeios que proporciona a seus clientes.

Ou será que pode? Aqui, o Zé vai se comportar como os pais que levam os filhos ao circo ou ao parque de diversões só para poderem, eles também, se divertir um pouco. Quem é que nunca viu, em uma situação assim, os adultos se divertindo bem mais do que as crianças?

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Assim como o bico de detetive, guiar turistas era algo que qualquer pessoa que achasse que conhecia uma cidade se arriscava a fazer, em décadas passadas, com resultados às vezes bons e às vezes desastrosos. Mas coitado do turista que caísse nas garras de algum amador, ou pior, mal intencionado. Hoje em dia a profissão está regularizada, o que fez diminuir bastante a ocorrência de guias de fim de semana como o Zé.

Mas a abordagem que ele aprende com o Nestor, outro “guia turista”, é deveras original. Observem também as paisagens e comparem com o que o nosso “guia” está cantando ou dizendo. Isso não é inserção do Canini, mas sim algo que papai deixou muito claro nas instruções ao desenhista.

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Um Guia Em Apuros

História do Zé Carioca, de 1974.

Como diz o velho ditado, “não importa o que você faça e o quanto cobre, sempre vai haver alguém para fazer a mesma coisa mais barato e um pouco pior”.

Assim, o Zé passa a história toda enfrentando a concorrência desleal de um bando de gatos que montou uma banca de turismo igual à dele e parece ter prazer em roubar seus clientes em potencial.

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Ênfase na palavra “roubar”, aliás. Quando a concorrência começa a oferecer seus passeios de graça, única e exclusivamente para não dar chance ao papagaio, ele e o Nestor começam a desconfiar de que pode haver algo de muito errado acontecendo.

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É uma clássica história do tipo policial, com um mistério e pistas espalhadas ao longo das páginas, a começar da caracterização como gatos da turma rival. Infelizmente, são raros os heróis de quadrinhos representados como esse animal, por causa do preconceito das pessoas e da injusta má fama que os felinos têm.

Mas os quadrinhos muitas vezes são feitos de clichês, que acabam sendo usados para facilitar a compreensão de certas situações, poupando descrições mais longas que podem atrapalhar o bom andamento da história. Assim, o leitor atento vai sacar logo de cara que essa turma não pode estar com boas intenções

Mas para além da trama e da solução do mistério, temos hoje aqui mais uma pista sobre as origens do Afonsinho. De figurante em uma história do Canini no ano anterior, papai o transforma em personagem nesta história, em sua primeira aparição oficial, com o nome de “Dentinho”. O que talvez nunca saibamos é como e por quê o personagem passou de “Dentinho” a “Afonsinho”, perdendo os dentes no processo e ganhando sua peculiar personalidade.

Pode ser que, ao ver seu figurante “promovido”, o Canini tenha desejado ajudar a desenvolvê-lo, para não “dar” simplesmente a ideia a papai. Ainda assim, considerando que o que era um mero figurante para o Canini tenha passado a personagem com papai, eu ainda acho que, se não fosse pelo Said, o Afonsinho, por qualquer nome ou figura que tenha vindo a ter, não existiria. Isso tem de valer alguma coisa.

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O Comprador De Bondes

História do Zé Carioca, de 1976.

Diferentemente do “Comprador de Fazendas”, que é um golpista, o “Comprador de Bondes” é a vítima de um golpe. O tema de hoje vem do folclore do Rio de Janeiro e da fama que alguns moradores da cidade tinham, desde os anos 1940, de serem vigaristas. Ao que parece, houve um tempo em que era comum ver na cidade pilantras de todos os tipos aplicando golpes em turistas e demais forasteiros, especialmente aqueles mais ingênuos, vindos do interior ou de outro estado.

O chamado “conto do vigário” de modo geral consiste em fazer algum incauto achar que vai ganhar muito dinheiro com algum negócio absurdo proposto, no meio da rua mesmo, por um desconhecido. Um dos mais antigos e comuns, praticados até hoje com surpreendente eficácia, é o “golpe do bilhete premiado”. Outros golpes modernos, principalmente no Rio de Janeiro, envolvem locais turísticos como o morro do Corcovado ou os altos preços praticados na cidade. O potencial turista, especialmente nas Olimpíadas que se aproximam, deve pesquisar bastante e ficar atento.

Nesses casos, onde a ganância da própria vítima é explorada de maneira bastante hábil, há pouco o que se possa fazer para reverter a situação, afinal, a rigor não houve crime. A vítima entregou seu dinheiro de boa vontade em troca de algo que na verdade não vale nada. Ir à polícia, ou acionar advogados em tentativas desesperadas de reaver o dinheiro perdido de pouco adianta.

No caso do Zé Queijinho, é um lote de antigos bondes que “vão para sucata”, como se esse fosse o nome de um local na cidade. E provavelmente, essa coincidência linguística foi o estopim da ideia toda.

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Feito o estrago, a única maneira de reaver o dinheiro é ser mais esperto do que o golpista, e aplicar, nele também, um (contra) golpe de igual teor. Mas é claro que a história não fica só nisso, e o hilário final nos devolverá ao começo, como era costume de papai fazer.

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Minha Vida Tá No Gibi! – Inédita

História do Zé Carioca, escrita em 26 de maio de 1993, e nunca comprada pela Abril.

Lápis na mão direita, esquadro no papel sob a mão esquerda, a borracha do lado, ao alcance da mão… Eu conheço bem a imagem no “splash pannel”. Era papai em ação.

Esta é a primeira de três “histórias-testamento”, por assim dizer, que ele escreveu nesta série de inéditas, talvez já pressentindo que não teria mais muitas chances de trabalhar com os personagens Disney. A condição de freelancer era bastante incômoda para ele. A ideia de que a qualquer momento as encomendas poderiam cessar o contrariava bastante. Assim, ele acabou colocando nessa última série muitas das coisas que ele sempre quis ver em suas histórias, mas nunca pode fazer antes.

O jogo de palavras “tá no gibi, não tá no gibi”, usado em pelo menos duas das histórias desta série, é uma referência a uma antiga gravação dos Originais do Samba cujo refrão é: “Herói sou eu, irmão / Herói sou eu, aqui / Dou um duro danado / E não saio no gibi”. A canção é uma brincadeira com os heróis dos quadrinhos e também uma ode ao homem comum, que trabalha muito, mas nem sempre recebe o reconhecimento merecido.

Em algumas das margens tempos algumas anotações de papai ao desenhista, onde ele pedia que os quadrinhos que representavam as memórias do Zé fossem desenhados “sem cores”, para tornar mais clara a distinção entre “passado” e “presente”.

A história toda é uma homenagem aos amigos e colegas Carlos Herrero, Roberto Fukue e Júlio de Andrade Filho, além de ser uma retrospectiva dos momentos marcantes da “vida” do personagem. Assim, temos referências a histórias anteriores, como “A Infância Do Zé Carioca”, já comentada aqui, à cena na qual o Zé conhece a Rosinha, e até uma menção à Anacozeca.

O final da história é uma maneira que papai encontrou de “castigar a si mesmo” por ter revelado um dia que o próprio Rocha Vaz era o chefão da Anacozeca, coisa da qual ele se arrependeu depois. O problema é que talvez pegue um pouco mal pro Júlio… Peço desculpas desde já.

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Um Vizinho Marreta

História do Zé Carioca, de 1977.

O morro tem um morador novo. Ele é bem vestido, bem educado, e tem um vocabulário de dicionário. E, ainda por cima, é muito generoso com seus eletrodomésticos, que não hesita em emprestar a seus novos amigos. Seu nome, “Vivaldino“, deixará pouca coisa para o leitor atento adivinhar.

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A verdade é que a coisa toda é boa demais para ser verdade e, como diz o velho ditado, “quando a esmola é muita, até o santo desconfia”. Não se esqueça, caro leitor: quando algo, em qualquer esfera da vida, parece bom demais para ser verdade, geralmente é mesmo. Desconfie.

Dois times de futebol do Rio de Janeiro são mencionados por seus “codinomes” costumeiros: “Mengão” (Flamengo) e Tacafogo (Botafogo). Hoje descobrimos que o Zé torce pelo Mengão, e o Nestor pelo Tacafogo. Finalmente vemos uma centelha de discórdia entre esses dois amigos inseparáveis, mesmo que seja só por causa de futebol.

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