O Rajá De Blá-Blá-Blá

História do Superpateta, de 1983.

Esta história serve para demonstrar o quanto é importante saber falar mais do que um só idioma. Também mostra a utilidade de se ter um bom tradutor/intérprete à disposição quando é preciso lidar com idiomas estrangeiros.

No caso de hoje a participação do inteligentíssimo Gilberto, sobrinho do Pateta, que entende um pouco do idioma exótico em questão, será fundamental para a solução do mistério. Após conseguir traduzir um telegrama escrito em Blá-Blá-Blês, no qual o Rajá pede ajuda, ele se surpreende ao se ver de frente com quem se apresenta como sendo o monarca. Acreditando que o idioma é obscuro o suficiente para não ser compreendido por estrangeiros, o vilão se sente à vontade para enrolar a língua sem remorsos.

Para que não haja dúvida, mais uma sutil pista é deixada para o leitor atento por papai na página seguinte. Em momento de raiva, o “Rajá” até se esquece de que, um momento antes, “precisava” ter suas falas traduzidas por um assessor seu cúmplice.

A julgar pelo título de Rajá adotado pelo vilão, o suposto País de Blá-Blá-Blá, que fica no “Oriente”, faz parte da região da Índia.

Já o nome do idioma do lugar, “Blá-Blá-Blês”, me parece uma referência ao Javanês (da Ilha de Java, na Indonésia, que aliás não fica lá muito longe da Índia) e ao célebre conto de Lima Barreto chamado “O Homem que Sabia Javanês“, uma sátira que versa justamente sobre linguística e aprendizado de idiomas exóticos. O conto é curtinho, divertidíssimo, e eu recomendo a leitura.

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O Poderoso Metralhão

Esta é a última história da série A História de Patópolis, publicada pela primeira vez em 1982.

A saga da Pedra do Jogo da Velha chega ao fim nos anos 1930, em uma Patópolis muito parecida com a Chicago da mesma época, tomada por gangsteres e pelo crime organizado.

Apesar da semelhança com a quadrilha Metralha, o vilão chamado Al Metralhone não é um antepassado do Vovô Metralha. Como vimos em outra história de mesmo nome da série Metralhas Históricos que já trata desse personagem, ele é um tio dos Metralhas atuais.

O nome dele é uma referência a Al Capone e, como ele, o Metralhone andava sempre na tênue linha entre legalidade e ilegalidade, entre roubos e a exploração do jogo (e principalmente o da velha, é claro). Como ele, também, será preso por algo que não tem lá muito a ver com o atos de violência que comete pela cidade.

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Papai “costura” a história de uma maneira inusitada: ela começa com uma ação dos bandidos para roubar uma banca de frutas. Em seguida ficamos sabendo que o Metralhone está atrás de jabuticabas (fruta que era, aliás, a predileta de papai). Na continuação, vemos um alambique ao fundo, e por fim ficamos sabendo o que é produzido ali: licor de jabuticaba!

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Em nenhum momento papai fala explicitamente sobre a Lei Seca nos EUA, mas quem conhece um mínimo de História vai finalmente conseguir unir os pontos.

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Oh, Que Saudades Que Eu Tenho…

História do Donald e do Peninha, de 1982.

Com o tema “infância”, a história gira em torno das reminiscências dos dois primos que, com a ajuda de um antigo álbum de fotos vão contando, primeiro ao Biquinho, e depois aos sobrinhos Huguinho, Zezinho e Luisinho, “causos” engraçados sobre seus tempos de criança: como se conheceram, os tempos de escola, e até mesmo uma passagem dos dois pelo batalhão dos Escoteiros Mirins de Patópolis, onde conheceram o Silva.

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A cada uma das histórias é um deles que se dá mal, e os outros que dão risada. (O leitor, é claro, rirá de todas, já que a intenção é essa.) Casos de família são assim mesmo: algumas das coisas pelas quais as crianças passam podem parecer quase trágicas, ou pelo menos muito embaraçosas na hora em que acontecem mas, décadas depois, viram motivo para riso.

O título é inspirado em um poema de Casimiro de Abreu chamado “Meus Oito Anos” (Oh! que saudades que tenho / Da aurora da minha vida, / Da minha infância querida / Que os anos não trazem mais!), que papai aprendeu na escola e que sabia declamar inteirinha de memória, assim como vários outros textos literários. Naqueles tempos do início do Século XX era preciso ensinar às crianças a memorizar com eficiência, já que não se podia ficar consultando livros o tempo todo.

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…Fica Assim De Gavião!

História do Professor Pardal, de 1973.

A inspiração para o título vem da letra de um antigo samba de Pedrinho Rodrigues, chamado “Ninguém Tasca (o Gavião)”. Mas as semelhanças com a canção (muito machista, por sinal) param por aí. A brincadeira, aqui, será bem mais literal e vai girar em torno do grande número de robôs com a aparência do Professor Gavião que vão circular por Patópolis. (Se um elefante incomoda muita gente…)

Outras noções interessantes que podemos ver são coisas como uma “entressafra” de superamendoins (o que impedirá o Pateta de se transformar e salvar a cidade, no que seria uma solução fácil demais), uma alusão à Cornucópia da Fartura (reza a lenda que quanto mais se tira coisas dela, mais ela produz) na máquina multiplicadora de robôs, e o comportamento limitado e repetitivo característico dos robôs de papai que seria usado novamente pouco tempo depois em “O Invencível Mancha Negra”, já comentada aqui.

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Por fim temos, como em “A Guerra dos Mundos”, outra referência bastante usada por papai, um “monstro” que contém em si a chave para sua própria destruição. Essa é realmente uma solução útil para se lidar com um problema dessas proporções sem precisar recorrer à obviedade de um super herói.

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De todas as referências, para mim a mais original é a da falta de superamendoins. Aqui descobrimos um ponto fraco do Superpateta que é tão óbvio quanto surpreendente. Papai já deixou o Super sem seus amendoins mágicos de muitas maneiras diferentes, mas uma entressafra é coisa que pouca gente imagina, na quase absoluta segurança alimentar deste nosso (quase primeiro) mundo pós-moderno.

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Se formos pensar em termos de amendoins comuns, no estado de São Paulo temos duas safras anuais. Uma de janeiro a fevereiro, e outra de junho a julho. Assim, é preciso ser realmente muito “pateta” para ficar completamente sem eles. Mas talvez os pés de superamendoins sejam diferentes, e produzam uma vez só por ano (ou nem isso, ou não seriam assim tão raros e especiais).

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A Propaganda É A Alma Do Negócio

História do Peninha, de 1973.

O Peninha é despedido novamente por dormir no horário de trabalho e resolve procurar outro emprego, dando início a mais uma aventura maluca.

As histórias do Peninha como “gênio da propaganda” são recorrentes com papai. Eu sinto muito em “tomar” mais uma história do Julio de Andrade, pois é assim que ela (ainda) está creditada no Inducks, mas o nome dela está na lista de trabalho, e a revista aqui na coleção. Para mim, não há dúvida.

O que acontece, a meu ver, é que há bastante similaridade entre o estilo do Julio e o do meu pai, principalmente porque quando o Julio entrou para a escolinha da Abril papai já era um artista reconhecido lá dentro e uma forte influência.

Uma diferença que eu percebo entre eles é que, com o Julio, os personagens trocam mais sopapos entre si ao longo das páginas do que na maioria das histórias do meu pai. E talvez seja justamente pela quantidade de “patadas” distribuídas liberalmente hoje, desde o primeiro quadrinho, que se deu o equívoco.

De resto, a história é bastante parecida com outra, já comentada aqui, chamada “O Grande Gênio”, que em 1975 coloca o peninha como “criativo” na agência do Pato Eurico. E o erro cometido pelo Peninha é o mesmo: querer usar uma só “fórmula” para todos os produtos, indiscriminadamente. O fato é que não é porque funcionou com um que vai funcionar com todos.

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A premissa da “campanha publicitária” é brincar com uma velha expressão da cultura brasileira. “Ele tem cara de quem comeu e não gostou” era algo que se dizia de quem fazia cara feia por estar chateado ou insatisfeito com alguma coisa. Mas, como no Brasil nem todo mundo tinha dinheiro nem para comer (e há quem não tenha até hoje), depois de algum tempo a piada passou a ser “não comeu e não gostou”.

E há também quem tenha aversão a certos ingredientes, como berinjelas, quiabos e coisas parecidas, mesmo sem nunca tê-los provado, e se recuse a comer alimentos feitos com eles. É nesse momento que geralmente começa a pressão de familiares e amigos no sentido de que a pessoa justamente tem de experimentar, fazendo a “propaganda” do alimento para quem não gosta dele.

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A “Agência Maccão” é uma referência à McCann Erickson, uma famosa agência de publicidade dos EUA que está presente em diversos países ao redor do mundo. Aqui no Brasil ela passou por várias fusões, mas continua na ativa.

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Traje Esporte

Piada do Pateta, de 1974.

A questão hoje gira em torno de convenções de vestuário que eram muito comentadas naquela época. Essa é também uma questão de classes, já que trata de roupas a serem usadas em festas e outros encontros sociais. Quem é muito pobre faz festas onde o que se veste é o que se tem, mas à medida que passamos de uma classe social a outra, a pergunta sobre “o que vestir” para um evento vai ganhando mais e mais importância.

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Já se disse que “o hábito não faz o monge (mas faz parecer de longe)”. Em todo caso e apesar de nossos tempos bem mais descontraídos, os códigos de vestuário ainda são importantes, especialmente no ambiente de trabalho. Em países como a Inglaterra, por exemplo, onde a questão da vestimenta sempre foi de suma importância, já que é um forte indicativo da classe social à qual uma pessoa pertence, até hoje um candidato a um emprego mais prestigioso, como uma posição em um grande banco, pode ser preterido já na entrevista de admissão somente pela cor de seus sapatos (uma dica: use preto, sempre, e não se esqueça que sapatos marrons são inaceitáveis), ou se o entrevistador notar que o candidato não está se sentindo confortável dentro de um terno mais formal.

De fato, muita gente ainda tem dificuldade em diferenciar entre as várias modalidades de vestimenta, de “esporte” a “gala”. E não, como o Pateta logo descobrirá, um uniforme de basquete, ou até mesmo futebol, não se qualifica como “traje esporte” para se ir a uma festa, por mais despretensiosa que ela seja.

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Pateta em “Gelo Seco”

Piada do Pateta, de 1977.

Trata-se de meia página, apenas, mas é uma grande sacada sobre o modo de pensar das crianças. Afinal, qual é a criança que, ao ouvir falar pela primeira vez em “gelo seco“, não fique pelo menos surpresa ou intrigada?

O gelo que a maioria das crianças conhece é feito de água, na geladeira da família, e ao ser manuseado fica molhado muito rápido. Afinal, perguntam-se os mais novos, como se faz para o gelo ficar seco? Será que enxugar com o pano de prato ajuda?

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E há também uma associação com a expressão “enxugar gelo”, justamente, que é sinônimo de “trabalho de Sísifo“, uma tarefa inútil e sem propósito que nunca tem fim nem produz o resultado esperado. Além disso a história é uma advertência contra a ignorância (crianças, estudem e procurem saber mais sobre as coisas) e também segue aquela tradição “patética” (ou seja, do Pateta) de mostrar como *não* se faz algo, seja um esporte, uma tarefa doméstica, um conserto ou reparo de algo, etc.

Na data deste post havia um sinal de interrogação após o nome de papai no registro no Inducks. Mas como a revista está na coleção (papai guardava tudo dele que era publicado), as outras histórias brasileiras na revista já estão todas creditadas e seus nomes não constam na lista de trabalho que tenho aqui, só posso acreditar que esta piada é dele sim.

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