O Saci-Pererê

História do Zé Carioca, de 1981.

Dizem que noites de lua cheia, como a que teremos amanhã, são mágicas. Assim sendo, coisas muito interessantes podem acontecer com quem apenas estiver aberto às possibilidades.

Papai dizia que havia visto o Saci uma vez, quando criança. Essa história eu conto em meu livro. Seria fácil para ele criar uma reconstrução de sua experiência para o Zé, mas ele resolveu ir além e inventar um pouco em cima para benefício do leitor.

Então o que temos hoje é uma divertida aventura na qual o Zé enfrenta a Cuca para ajudar o Saci a recuperar sua carapuça e, é claro, sofre as consequências. A sequência abaixo talvez seja uma das mais engraçadas já vistas nos quadrinhos brasileiros, com uma guerra de magia entre a Cuca e o Saci na qual o Zé será a peça central.

A coisa toda lembra um pouco a batalha de magia entre o Coelho Pernalonga e o Vampiro da Transilvânia, ou aquela outra sequência na qual o Coelho e o Patolino discutem sobre qual seria a temporada de caça.

Além disso, e como sempre, papai confia na inteligência do leitor atento que, ele espera, logo verá que nada está nestas páginas por acaso. Afinal, será mesmo que um monstro tão temível como a Cuca deixaria a entrada de sua caverna desprotegida? Não parece um pouco fácil demais entrar e sair? Ou será que há alguém de guarda?

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O Circo Voador

História do Zé Carioca, de 1984.

Inaugurado em outubro de 1982 no bairro da Lapa, na cidade do Rio de Janeiro, o “Circo Voador” é um daqueles espaços culturais tão importantes e benéficos para a população em geral que chegou a ser fechado por vários anos por um prefeito de Ego frágil.

Mas, me adianto. Voltando um pouco no tempo, na época em que esta história foi escrita ele havia acabado de abrir as portas, atiçando a curiosidade e a imaginação de todas as pessoas que se interessavam por espetáculos de circo, dança e música de todos os estilos em nosso País.

Mas acima de tudo, o nome do espaço cultural era o que mais intrigava as pessoas. Afinal, por quê “Circo Voador”? Papai, é claro, oferecerá sua própria explicação, que certamente causará muitas risadas ao leitor.

Outra definição com a qual ele brinca é a de “trapézio voador“, uma popular atração de qualquer circo que se preze. Quando bem executadas, as acrobacias desta modalidade podem ser realmente emocionantes. Mas não será este o caso, hoje.

Seria de admirar bastante se uma construção de fundo de quintal, feita por duas crianças com os aparatos de cama, mesa e banho da família para uma brincadeira, tivesse uma atração dessas.

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O Dia Dos Invasores

História do Zé Carioca, de 1979.

Esta é a primeira da série de quatro histórias dos invasores transmorfos Alfabeta e Gamadelta. Apesar de (ainda) não estar creditada, ela é de papai sim, assim como as outras três.

A primeira missão deles é apenas de reconhecimento, mas todas as características principais dos vilões já são apresentadas aqui. Assim, temos as armas de raios, a capacidade de flutuar, os rádios transmissores e (principalmente) o total desconhecimento (e desprezo, já que eles planejam a dominação total, de qualquer maneira) da cultura e modo de vida dos terráqueos.

O leitor já de saída vai se surpreender com as diminutas proporções da nave em comparação com o ambiente terrestre à sua volta. O aparelho que vemos sendo usado para raptar o Biquinho em “Uma Invasão de Dar Pena”, já comentada, parece até grande, por comparação.

Inversamente oposta a  seu tamanho, aliás, é a capacidade das duas nuvenzinhas de causar confusão. O resto da coisa toda é uma comédia de erros das mais peculiares, com os alienígenas assumindo as formas do Zé e do Nestor enquanto eles (convenientemente) dormem o dia todo e aprontando todas pelo Rio de Janeiro afora, para quem quiser ver.

E apesar de tudo, ninguém desconfia que na verdade isso é uma invasão alienígena. Será que eles já estão entre nós, e nem percebemos? Tão absortos que estamos em nossos próprios afazeres, muitas vezes nos esquecemos de parar um pouco de vez em quando e ver que coisas realmente extraordinárias podem estar acontecendo bem na frente de nossos olhos cansados.

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“Pé De Pato, Mangalô Três Vezes”

História do Zé Carioca, de 1975.

O tema de hoje versa sobre as superstições brasileiras sobre sorte e azar, com uma pequena “ajuda” do bruxinho Peralta.

O bico do chapéu do bruxinho, aliás, pode ser visto por detrás das cercas já desde o primeiro quadrinho, e também é possível ver uma mão ou um braço aqui e ali no decorrer das primeiras páginas, mas a presença do vilãozinho só será realmente revelada na quarta página, depois que o leitor já estiver bastante desconfiado.

Mas afinal, passar por baixo de escadas ou atravessar o caminho de um gato preto dá mesmo azar? E será mesmo que repetir certas frases “mágicas”, ou carregar todo tipo de objeto, como pés de coelho e outros amuletos, ou jogar coisas como sal e ferraduras por cima do ombro dá mesmo sorte? De onde vêm todas essas superstições e crendices?

As origens de algumas dessas crendices são bem conhecidas: por exemplo, a crença de que quebrar um espelho dá azar vem da Veneza da Renascença. Naqueles tempos, quando os espelhos de vidro ou cristal eram uma novidade rara e cara, ai do empregado de uma rica mansão que quebrasse um deles. Certamente nunca mais conseguiria emprego na cidade.

A crença na boa sorte trazida por pés de coelhos, geralmente embalsamados e levados junto ao corpo, remonta à China do século VII a.C. A “sorte” que eles davam, originalmente, era relacionada à grande capacidade reprodutiva desses animais. A vitalidade da economia das sociedades antigas dependia fortemente da fertilidade dos animais e das pessoas, também.

E não nos esqueçamos do pobrezinho Gato Preto, esse bichinho historicamente injustiçado: por ser um animal noturno, durante a Idade Média o gato foi associado com as “trevas” e com a capacidade de ver espíritos. Além disso, por causa da amizade natural entre mulheres (especialmente as mais velhas, naqueles tempos) e gatos, eles acabaram sendo também associados à imagem das “Bruxas”. E se fossem pretos, então… coitados!

Mas toda essa perseguição implacável aos bichanos, motivada pelo medo e pela desconfiança, e sua quase extinção na Europa, não ficaria impune: foi por falta de gatos para caçar os ratos que infestavam ruas e casas que a Peste negra se espalhou pelo Velho Continente, levando com ela algo como metade da população.

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A Quadrilha Da Ameaça

História do Zé carioca, de 1981.

Este é um bom exemplo de como criar uma história que, no final, volta ao início, como papai gostava de fazer. É também uma clássica história de “terrir”, um gênero do qual ele era muito adepto, e que misturava terror com humor (de preferência negro).

A coisa toda começa com um filme de terror na TV na casa do Pedrão. Sugestionáveis, os amigos ficam com muito medo e resolvem ficar todos para dormir por ali mesmo.

Mas a principal preocupação, que será mencionada frequentemente durante toda a história, é a banda musical que eles criaram para tocar em uma festa mais tarde. Este é o elemento que “costura” a trama, o “fio condutor” que permitirá um desfecho perfeitamente encaixado para a história.

O resto da história mostra como uma brincadeira quase inocente do Zé para acordar os amigos dorminhocos e finalmente conseguir ensaiar a banda sai totalmente do controle, criando uma completa histeria coletiva pelo bairro e quase virando caso de polícia no processo.

Mas, de qualquer maneira, apesar de resolver ficar quieto para não apanhar, o Zé não escapará ao castigo pelo susto que deu nos amigos. É justamente para esse propósito, aliás, que papai devolve a história ao início.

Mas nesse meio tempo o leitor já riu da confusão até ficar com a barriga doendo, e isso é o que realmente importa.

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O Afonsinho Da Vila

História do Zé Carioca, de 1983.

Na “nova” Vila Xurupita (depois da passagem do Gênio Eugênio), os membros da turma podem até ter casas novas de alvenaria para morar, mas continuam desempregados e sem dinheiro.

Mas uma turma alegre dessas, ao invés de ficar pelos cantos se lamuriando e com vergonha por estar sem trabalho, resolveu fazer uma roda de samba. Era uma cena comum, em bairros da periferia naqueles tempos: juntavam-se os amigos, principalmente os desempregados, e passavam o dia em um quintal, batucando.

É claro que essas reuniões logo ficavam mal faladas, com os vizinhos passando na rua e apontando os “desocupados”. Assim, para não sofrerem críticas, os batuqueiros logo inventavam um “importante e urgente ensaio da escola de samba”, ou algo “sério” do gênero. Do mesmo modo, o Zé e sua turma têm a criativa ideia de fazer uma roda de samba “beneficente” em prol dos desempregados da Vila que, no final das contas, são eles mesmos.

Como a Rosinha deixa claro em sua indignação ao saber do detalhe, fazer festa beneficente em causa própria não vale. A desaprovação da namorada do Zé é a “deixa” que papai usa para mudar de assunto: já que o plano dos desempregados da Vila não “colou”, e de qualquer maneira eles estão precisando de um cantor, entra em cena o Afonsinho.

Quer dizer: a “cena” vai até ele, que está cantando paródias de antigas marchinhas de carnaval em casa, dentro de uma banheira cheia de água e sabão. E não é que o pato canta bem? O problema, como veremos adiante, é que ele só canta bem quando está na banheira.

Isso também é algo muito comum: o momento do banho diário é de relaxamento, e a pessoa, sozinha por trás da porta fechada (essa é, frequentemente, a única chance que algumas pessoas têm de passar alguns momentos sem ninguém por perto observando e julgando), se descontrai e se permite até cantar um pouco.

A acústica de certos banheiros, com bastante eco, também ajuda, e a pessoa chega até a se convencer de que canta bem. Mas depois, ao sair, a timidez e a insegurança tomam conta, o eco desaparece, e o cantor de chuveiro volta a ser o desafinado de sempre.

Mais importante, para a história, do que a bagunça criada em volta do Afonsinho nas páginas seguintes, é a solução que o Zé vai encontrar para conciliar o “cantor de banheira” com a roda de samba.

“Afonsinho da Vila” é uma referência clara a Martinho da Vila, de Vila Isabel (e da Escola da Samba Unidos de Vila Isabel) no Rio de Janeiro.

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A Chegada Da Prima Vera

História do Zé Carioca, de 1982.

Esta é a primeira história (de duas) que papai compôs para a personagem Vera, uma adição à turma da Vila Xurupita que era inspirada em uma prima dele na vida real. Aqui, ela é parente do Nestor. A outra história, chamada “A Paixão do Pedrão”, já foi comentada neste blog.

A “Prima Vera” é uma garota muito bonita, e por isso mesmo atrai a atenção (algumas vezes indesejada) dos rapazes, e os ciúmes (frequentemente injustificados) das outras moças. A crise de ciúmes da Rosinha (e como o Zé lidará com isso) será uma parte central da trama.

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Mas além de ser uma celebração da estação do ano Primavera (muito apropriadamente, ela foi publicada pela primeira vez no mês de setembro) a história serve para mostrar que a Vila Xurupita está progredindo: ao time (e estádio!) de futebol e à escola de samba é adicionado um clube, onde a turma do agora bairro (que deixou de ser favela no ano anterior sob os auspícios do Gênio Eugênio), pode se reunir e fazer suas festas.

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Mais detalhes sobre de onde veio a ideia para a criação da personagem Prima Vera podem ser lidos na postagem “Pedrão, o fim do mistério” aqui neste mesmo Blog.

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