A Máquina Do Tempo Perdido

História do Lampadinha, de 1983.

(Sim, eu achei mais uma revista “perdida” no meio da coleção). E sim, você leu certo: esta história é muito mais do Lampadinha do que de qualquer dos outros personagens, o Professor Pardal incluso.

O que papai faz, aqui, é inverter a “ordem natural das coisas” estabelecida por Carl Barks: na maioria das histórias deste tipo, a ação é do inventor maluco e de seus coadjuvantes, e o robozinho é a diminuta estrela de uma trama paralela que corre literalmente em segundo plano e ao pé dos quadrinhos.

Hoje veremos algo diferente: a trama principal, a da máquina do tempo para curtas viagens ao passado, mais exatamente ao dia anterior, cede um espaço considerável à trama “secundária”, que acaba ganhando a mesma importância dentro da história.

A luta do Lampadinha contra as formigas chega a dominar de tal maneira a coisa toda, que o Donald, o Peninha e o Tio Patinhas nem aparecem. Eles, a princípio, são meramente citados pelo Pardal em uma conversa por telefone e na continuação tudo o que se vê deles são os diálogos nos balões.

Esta é mais uma daquelas “sacadas” geniais de papai, que, ao que tudo indica, com o tempo passou a ter um sentimento especial pelo pequeno e humilde ajudante robótico.

Se estivesse vivo, ele estaria completando hoje 78 anos de idade. Eu peço a você, leitor destas linhas, que dedique a ele um momento de oração.

Obrigada.

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Buáá! Buáááá!

História do Pateta, publicada pela primeira vez em 1982.

Fui organizar a coleção, e acabei descobrindo uma revista que ainda não foi comentada. Vamos sanar este esquecimento agora.

Esta história é uma rara ocasião na qual o Pateta sai da sombra do Mickey, só para ser praticamente “sequestrado” por outro personagem dominante.

Mais do que tudo esta é a adoção de um personagem estrangeiro que, até a composição desta história por papai, não estava sendo usado no Brasil.

O lado bom é que, ao contrário de outros personagens que papai foi resgatando ao longo do tempo, a tia “dinâmica” do Pateta é engraçada e tem bastante potencial, e serve como uma bem vinda mudança de ares ocasional para o destrambelhado de Patópolis.

Tanto, que ela ganhou muitas outras histórias depois ao longo do tempo, pelo lápis de vários outros talentosos artistas nacionais.

A trama da história, sobre madeireiros ilegais e pássaros cujo canto se assemelha ao choro de um bebê é apenas um pretexto para uma aventura. Mais importante é a apresentação da Tia Giselda ao público brasileiro.

Já pássaros “chorões” até existem, mas geralmente são aqueles que aprendem a imitar os sons que ouvem, como papagaios, minás e outros.

A Escola de Samba (Inédita)

História do Zé Carioca, composta em Israel em 19/03/1993 como parte da última fase da produção.

Esta pode ser considerada mais uma das “histórias-testamento”, juntamente com “As Caçadoras da Arca Perdida”. Ela versa sobre o Grêmio Recreativo e Escola de Samba Unidos de Vila Xurupita, e sua crônica falta de fundos.

A situação apresentada no “splash panel” é a mais trágica possível, mas (porque os bons não podem se dar tão mal assim em uma história Disney) a solução criativa encontrada para desfazer a injustiça levará a um desfecho muito melhor do que o esperado, com direito até a desfecho apoteótico e quadrinho de página inteira no final.

Os vários turistas estrangeiros que chegam à “escola” de samba para pedir (e pagar!) por aulas são um reflexo da vivência de papai em Israel, onde se pode ter contato com pessoas de várias partes do mundo, e da falta de conhecimento delas mesmas sobre o Brasil e a cultura brasileira. Muita gente no exterior realmente acredita que se ensina samba nas “escolas” de samba, a qualquer um que se inscreva em um curso.

Outras referências são o “Carnaval da Mamãe Eu Quero”, música famosa lançada por Carmem Miranda em 1937. Ou seja, “mil novecentos e minha avó mocinha”, e outras expressões similares. Quer dizer, faz um tempão.

A menção a “Rio de Janeiro, França e Bahia” é uma referência a “Europa, França e Bahia”, frase de “Macunaíma” de Mário de Andrade, de 1927.

É a última das inéditas que faltava comentar, porque o papel é um pouco grande demais para o meu scanner. Por isso, tive de levar para escanear em uma gráfica. Mas ai está:

Quem é o Criador do Morcego Vermelho?

De acordo com Ionaldo A. Cavalcanti, à página 156 de seu livro “O Mundo dos Quadrinhos”, de 1977, não resta dúvida alguma: Ivan Saidenberg.

Ionaldo foi chefe de arte de várias revistas da Editora Abril, e certamente conhecia meu pai e seu trabalho.

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Já leste o meu livro? Quem ainda não leu está convidado a conhecer minha biografia de papai, à sua espera nas melhores livrarias: Marsupial – Comix – Cultura 

A História dos Quadrinhos no Brasil, e-book de autoria de papai, pode ser encontrado na Amazon 

Visitem também o Sebo Saidenberg, na Amazon. Estou me desfazendo de alguns livros bastante interessantes.

Palavra e Traço – Novembro de 1980

Se já houvesse internet nos anos 1980, este material seria, muito provavelmente, um blog. Com seu afiado senso crítico, papai comentava um pouco de tudo, de política e políticos a arte e cultura, entremeando aqui e ali com textos muito pessoais e até poéticos, sempre baseado nas últimas notícias e tendências da época.

Algumas destas colunas – publicadas originalmente no “Jornal de Hoje”, de Campinas/SP – são francamente satíricas, outras são terrivelmente irônicas. Muitas delas poderiam terminar com um internético e retumbante “#SQN”, enquanto algumas são gravemente sérias. Parte das situações e problemas aqui descritos parecerão ao leitor bastante surreais. Outros serão perturbadoramente familiares.

01/11/1980 – Índio, menor abandonado

Pela lei brasileira, o índio é considerado como menor de idade, não podendo ser preso nem processado por seus atos. E, como menor, deveria ter todo o amparo e proteção, sob os auspícios de sua tutora, a FUNAI.

Entretanto, nada disso ocorre; segundo o antropólogo Cláudio Romero, o nosso indígena, antigo dono da terra, não passa de um menor abandonado. Cláudio é um grande defensor dos índios e, por denunciar a venda de terras indígenas ilegalmente, no ano passado, foi sumariamente demitido de suas funções (era coordenador do Projeto Xavantes).

Isso não impediu que Cláudio Romero continuasse a lutar em favor do Índio. Em Campinas, participando de um debate sobre os problemas do aborígene no Centro de Convivência, ele denunciou irregularidades que estão acontecendo na Região da Barra do Garça no norte de Mato Grosso.

Membro da Sociedade Brasileira de Indigenistas, Cláudio trabalha há quatro anos com índios Xavantes, numa área de 7 reservas 21 aldeias que abrigam, ainda, mais de 4 mil indígenas. Sua luta maior é contra o grupo Muradalha, que invadiu as terras dos índios e criou a fazenda Xavantina, de 150 mil hectares. O mais incrível é que o presidente general Figueiredo já transformou a fazenda em reserva indígena, em decreto de dezembro passado, e até agora nenhuma providência foi tomada pela FUNAI.

E mais: “Os índios estão denunciando que as águas do rio onde se localiza a reserva foram envenenadas recentemente, e seis crianças Xavantes morreram” – afirma Cláudio. E esse problema não é novidade novo, pois “na década de 50, fazendeiros e políticos interessados nas terras usaram até guerra bacteriológica para matar os índios. Eles passavam com aviões de pequeno porte, jogando roupas contaminadas com catapora e sarampo. Os índios contraíam a doença e morriam”.

Aí está o quadro completo: menor de idade, abandonado e submetido a tratamento desumano por parte dos “civilizados”, o índio está se extinguindo. Como é que, pessoal de Brasília, num País tão cheio de leis anti isso e anti aquilo não sobra nenhuma leizinha em favor do índio, não?

02/11/1980 – Olha o passarinho!

O líder do Governo, senador Jarbas Passarinho, disse no último dia 28, durante um debate com senador Roberto Saturnino (pMDB-RJ), promovido pela Business International Corporation, que os representantes das multinacionais sediadas no Brasil não deve se preocupar com 29 projetos que estão em tramitação no Congresso, disciplinando o comportamento dessas empresas.

Passarinho afirmou que “o PDS não permitirá a aprovação do que estiver eivado de xenofobismo” (o grifo é nosso). O líder governista provocou gargalhadas nos representantes das multinacionais (65), presentes ao encontro, realizado no Hotel Nacional, quando ponderou que “esses projetos também não seriam aprovados, se a oposição conquistasse o poder”.

Eis aí um triste quadro do que a “redemptora” transformou o Brasil: um depósito de lixo das multinacionais, onde um partido chamado PDS (Partido dos depositantes na Suíça?) é mero lacaio dos interesses dessas mesmas multinacionais. E o próprio líder do Governo não se peja em ser vangloriar disso. Não é verdade que os tais 29 projetos também não seriam aprovados se a oposição conquistasse o poder… O próprio senador Roberto Saturnino defendeu, na mesma reunião, a aprovação de uma lei que controlasse com mais rigor a remessa de lucros das multinacionais para seus países de origem.

Aliás, foi a questão da remessa de lucros para o exterior que derrubou o ex-presidente João Goulart, em 1964. Ao tentar defender os interesses do Brasil, Goulart foi acusado de “compactuar com os comunistas” e, por isso, deposto. E a dívida externa começou a crescer assustadoramente, depois da “redemptora”, ao mesmo tempo que crescia a espoliação do nosso povo.

E olha aí o passarinho… Transformou-se em mero animador de auditório, uma espécie de “Chacrinha” governamental, incumbido de fazer rir os representantes daquelas firmas que nos exploram ao máximo, enviando todo o lucro obtido para o exterior, enquanto o Brasil fica cada dia mais triste, mais pobre, mais sofrido.

Um dia virá em que a democracia plena, dando amplas oportunidades de manifestação ao povo, mudará esse quadro. Ri melhor quem ri por último…

03/11/1980 – Dicionário do futebol

Chega pra lá – Forma de deslocar o adversário, com o ombro, legalmente. O povo ainda vai dar um “chega pra lá” naqueles que o exploram.
Chegar junto – Marcação que procura impedir o adversário de levar vantagem.Reagan pensou que ia ter vantagem nas eleições, mas Carter chegou junto.
Chegar lá – Atingir o objetivo. A oposição ainda vai chegar lá… De leve.
Chiar – Reclamar, protestar. O povo está com fome e está chiando, na fila do feijão. E também chorando com o gás lacrimogêneo.
Chibatada – Chutar a bola no ar, na altura do peito, é dar uma chibatada, ou chicotada. Na prática, chibatada lembra o caso do sr. Sh(*)bata, que teve a punição que merecia. Fora com ele!
Chilena – Toque de bola dado com o calcanhar. Deriva das esporas chilenas, que hoje lembram, infelizmente, as esporas do Pinichet… (ARRGH!)
Chocho – Sem forças e sem direção. Chute chocho foi o dado pelo D(*)lfim, ao afirmar que a nossa inflação, este ano, ficaria em 45%… Ah, ah, ah!
Choque – Encontro violento entre dois jogadores. O grande choque vai acontecer dia 4, nos EUA. E, mais uma vez, não poderemos escolher nossos governantes…
Chorão – Jogador que vive protestando, se lamuriando, reclamando, assim como o Ce(*)ar Ca(*)s, que só sabe culpar os árabes pelo preço do petróleo.
Choro – Reclamação, lamúria. O choro é livre, principalmente para o povo.
Chulé – Time, jogo ou jogador ruim. Time chulé é esse do PDS, pôxa!
Chupador – Jogador que se beneficia dos esforços dos companheiros, assim tipo o M(*)luf. Mania de levar vantagem em tudo, sô!
Chupa sangue – Aquele que se aproveita ao máximo dos outros, assim tipo empresário de multinacional, que ainda ri da nossa desgraça.
Chupar a carótida – Atingir o adversário com extrema violência, com intenção de machucá-lo. E o caso da Freguesia do Ó, como é que ficou, heim?
Chutador – Aquele que chuta a gol, com frequência, ou que chuta bem. O Brasil precisa, com urgência, de um bom chutador, inclusive no campo político.
Chutão – Chute forte em sem direção, dado por jogarod ruim, tipo o D(*)lfim.

04/11/1980 – Anedotas do Salim

Contam por aí que o Salim foi visitar uma barragem e seu barco, em função do excesso de carga, acabou virando. Sem saber o mínimo de natação, o Salim estava se afogando quando três garotos que pescavam nas proximidades se atiraram às águas, acabando por salvá-lo.

Refeito do susto, ainda ofegante, o Salim disse aos garotos: – Peçam o que quiserem, pois v-vocês acabam de s-salvar uma pessoa muito importante… e-eu sou o Dr. Salim!

Entusiasmado, o primeiro garoto pediu uma bolsa de estudos integral, que lhe permitisse completar até o curso superior. O Salim, imediatamente, prometeu que ele seria atendido.

O segundo foi logo pedindo um emprego ao Salim, para ganhar cerca de Cr$ 100.000,00 mensais, mesmo sendo menor de idade. O Salim, imediatamente, prometeu que ele seria contratado.

O terceiro, já refeito da emoção, pediu ao Salim um jazigo perpétuo em qualquer cemitério. O Salim estranhou o pedido e ponderou: – Meu filho, para quem salvou a vida de alguém tão importante, esse tipo de pedido, além de insignificante, não faz também o menor sentido!

Ao que o terceiro respondeu: – Não faz sentido para o senhor, mas faz para mim… porque, quando o meu pai souber que eu salvei a vida do Dr. Salim, ele me mata!

Outra: contam que o Salim, logo que tomou posse e foi morar no palácio, mandou acabar com um pombal que existia naquele local, aproveitando para servir pomba à caçadora aos convencionais de seu partido.

Elementos da imprensa, presentes ao acontecimento, estranharam o fato e perguntaram ao Salim por que ele havia mandado matar todas as pombas. Será que ele não gosta desse animalzinho, que é o símbolo da paz?

Ao que o Salim respondeu: – Não é nada disso… é que eu não aguentava ficar ouvindo as pombas dizerem, o dia inteiro: – Corrupto! Corrupto!

Depois da mais recente pesquisa do Instituto Gallup, o Salim ficou com o apelido de “pinguim”… só pinguim pode conviver com 71 pontos negativos!

05/11/1980 – I-Juca-Pirama

“I-Juca-Pirama” é o título de um poema de Antonio Gonçalves Dias (1823 – 1864), que significa “aquele que vai morrer”, em língua tupi-guarani. Depois que fui ouvir a palestra do cacique Mário Juruna no Centro de Convivência, verifiquei que, embora escrito há mais de cem anos, o poema continua tão atual como se tivesse sido feito hoje. Quem não acreditar, veja estes trechos:

“Da tribo pujante,
Que agora anda errante
Por fado inconstante,
Guerreiros, nasci.

Sou bravo, sou forte,
Sou filho do Norte;
Meu canto de morte,
Guerreiros, ouvi:

Andei longes terras,
Lidei cruas guerras,
Vaguei pelas serras
Dos vis Aimorés;

Vi lutas de bravos,
Vi fortes – escravos!
De estranhos ignavos
Calcados aos pés.

E os campos talados,
E os arcos quebrados,
E os piagas, coitados,
Já sem maracás…

E os meigos cantores,
Servindo a senhores,
Que vinham, traidores,
Com mostras de paz!

Salve o nosso índio, salve “I-Juca-Pirama”, aquele que vai morrer!

06/11/1980 – Meu feijãããããooo

“Plante, que o João garante!” – Quem foi mesmo que disse isso? Foi o ministro Delfim Neto, quando estava na pasta da Agricultura, ou foi o Dr. Sardinha, aquele tipo criado pelo Jô Soares na TV?

Nem me lembro direito. Só sei que o Governo mandou plantar, mas falando para o grande produtor, pensando em exportar. Assim, esqueceu-se totalmente do pequeno lavrador, daquele que plantava agricultura de subsistência, visando seu própri consumo e o consumo interno.

Assim, plantando-se soja em lugar de feijão, deu no que deu: o feijão subiu ou sumiu, mais ou menos como a famosa “Conceição”, aquela da música cantada pelo Cauby Peixoto. E foi pensando no feijão “Conceição” que eu fiz uma paródia que é assim:

Feijão “Conceição”:
Meu feijãããoo…
Eu me lembro muito bem:
Vivia na feira, a sobrar,
A preços que hoje não tem.

Foi entãããoo…
Que um ministro apareceu,
Gordinho, dizendo a sorrir
Que, plantando-se soja,
Ele iria subir…

Se subbbiiuuu!
Quem não sabe, quem não vou?
Pois hoje seu nome mudou:
Feijão maravilha viroouu…

Só eu sei
Que seu preço tanto cresceu,
Que agora é preciso um milhão
Para ter, outra vez,
Meu feijãããoo!!!

07/11/1980 – Deus salve a América

“Quando nuvens negras, como um negro véu, surgem sobre a Terra, empanando o céu…” – Este é o início da versão em português do hino “God Bless America”, o famoso “Deus Salve a América” que se tornou um grande sucesso depois da 2ª Guerra Mundial, quando os norte americanos surgiram como heróis perante o mundo, após derrotarem o nazifascismo.

“América”, no caso, é o país deles, os USA (e abUSA). O resto da América, Canadá, Groenlândia, México, Guatemala, Honduras, Nicarágua, Costa Rica, Panamá, Cuba, Rep. Dominicana, Haiti, Jamaica, Porto Rico, Colômbia, Venezuela, Guiana, Suriname, Guiana Francesa, Equador, Peru, Bolívia, Paraguai, Chile, Argentina, Uruguai, Ilhas Falkland e Brasil, é apenas o resto…

Em nenhum momento eu pude acreditar que Ronald Reagan vencer seus eleições nos USA, mas agora verifiquei, com espanto, que o povo norteamericano se deixou enganar pelas promessas de “segurança” para a família ianque e de uma “América forte” feitas pelo ex-ator canastrão de Hollywood.

A vitória de Reagan é uma tragédia para todos, mas principalmente para nós, latinoamericanos e brasileiros, que não podemos votar nessa eleição tão importante, já que o “grande irmão” do Norte quem manda no Continente, impondo-se pela força das armas e pelo poder do capital. Não tenho dúvidas de que a política externa de Reagan será de apoio às ditaduras latinoamericanas, para que haja uma “América forte”, protegida contra o comunismo internacional.

Aliás, os únicos que devem estar satisfeitos com a vitória de Reagan são os Stroessners, os Videlas, os Mendes e os Mezas da vida, que já se apressaram enviar congratulações ao candidato republicano. Agora eles se sentem mais fortes, como nos tempos de Nixon.

Nuvens negras, como um negro céu, param sobre o Continente. Reagan, esse “falcão” que, logo de cara, fala em aumentar o orçamento militar dos USA (e abUSA), poderá levar o mundo a uma 3ª Guerra Mundial, na pior das hipóteses. Na melhor, levará à desgraça a América Latina, pondo fim à política de defesa dos direitos humanos de Carter. Só me resta dizer, em prece, de olhos voltados para o céu: – Deus salve a América… só Deus pode salvá-la.

08/11/1980 – Afinal, de quê ele ri?

Logo que o general Figueiredo foi eleito, no ano passado, fiz uma charge para o Salão Internacional de Humor de Piracicaba, juntamente com desenhista Pierre Trabbold, aqui do JH, na qual eu indagava o motivo de seu riso, em sua foto oficial como presidente. Esse trabalho, aliás, foi premiado pelo voto livre direto do povo (júri popular) e hoje está exposto no saguão do teatro interno do Centro de Convivência aqui em Campinas.

Um ano e meio depois, ainda não consigo entender de que ri o general, já que a situação do país piorou muito, e o homem continua sorridente! Ontem, em nossa cidade, foram distribuídos à população 20 mil panfletos, rodados no cubículo do DCE da PUC pelo líder estudantil Lejeune Xavier, o popular “Mato Grosso”, conclamando a todos pela luta em favor de uma Assembleia Nacional Constituinte e marcando o próximo dia 15 de novembro (data em que deveriam realizar-se eleições diretas para prefeitos e vereadores) como o “dia nacional de luta” por uma nova Constituição.

Trata-se de uma iniciativa do pMDB local, liderado pelo ativíssimo Jorge Alves de Lima, inspirada na disposição do senador Orestes Quércia de pugnar pela Constituinte, única forma de fazer o País retornar à normalidade democrática até o final do governo do general Figueiredo, essa sorridente figura que jurou fazer deste País uma democracia. É, acima de tudo, uma iniciativa louvável, que só não encontrará eco nos Erasmos Noites da vida.

Vamos todos lutar pela Assembleia Nacional Constituinte, não fazendo dessa disposição apenas uma determinação passageira, mas sim transformando é essa ideia numa verdadeira bandeira de luta, mormente agora que a extrema direita dá largos passos à frente, com a eleição de Ron(*)ld Re(*)gan nos USA.

Sem Constituinte, continuaremos do regime do arbítrio e das eleições indiretas para presidente, do adiamento inexplicável das eleições diretas e outras “cositas más”. Sem Constituinte, em breve só mesmo o general Figueiredo é que continuará rindo neste País… E, assim mesmo, eu continuarei sem entender de maneira nenhuma de que ele se ri.

Constituinte já, ou todos nós vamos chorar!

09/11/1980 – Anedotas do Salim

Contam que o Salim foi fazer discurso numa cidadezinha do interior, nessa de fazer “governo itinerante” (mais conhecido como “Caravana da Alegria”). E nem bem começou a discursar, um menininho de escola, desses coitadinhos que são obrigados a ir saudar os governantes em visita, com bandeirinha do Brasil na mão, gritou: “Governante imortal!”

O Salim ficou muito satisfeito. Discursou com mais ênfase, gesticulou com maior liberdade, botou banca, fez tanta onda, que o menininho gritou de novo: – “Governante mortal!”

Lá pelas tantas, já no fim do discurso, o Salim resolveu mandar os seus capangas, digo, seus homens da segurança trazerem o menininho para cima do palanque. Ali, diante de fotógrafos, repórteres e turma da TV, perguntou ao garotinho: – “Ei, menino, por que é que você grita tanto ‘governante imortal’, hein? Você é meu admirador?”

E o menininho, sem perder a pose: – Sou não senhor… é que, a cada vez que o senhor aparece na televisão, o meu pai fala: – “Puxa vida, morre tanta gente boa, e esse FDP não morre nunca!”

Contam também que o Salim estava indo por uma estrada, com seu carro com ar refrigerado, motorista, guarda costas e outras mordomias, quando o veículo quebrou. O Salim desceu do carro e ficou fazendo hora pela região, enquanto o motorista e o guarda costas tentavam reparar o carro.

Foi aí que ele viu um ônibus velho, também enguiçado junto à estrada. Ao lado do ônibus estavam diversos indivíduos em atitudes estranhas: um brincando de fazer bolinhos de barro, outro pulando amarelinha, um terceiro pendurado numa árvore pensando que era fruta, etc. Em resumo, era um veículo do hospício. Salim não gostou de ver os doentes naquelas atitudes, e procurou convencê-los a voltar ao ônibus. Foi então que o motorista terminou de consertar o dito cujo começou a contar os doentes:

– “Um, dois, três… Ei, quem é o senhor? E o Salim, cheio de pose: – “Eu sou Dr. Salim!”
E o motorista, continuando a contagem: – “Quatro, cinco, seis, sete…”

10/11/1980 – Dicionário do Futebol

Chute – (do inglês, shoot – tiro) – Pontapé desferido na bola, (de canela): chute sem direção, assim tipo lançamento de M(*)luf a presidente; (de letra): o que é dado cruzando-se o pé por trás do que vai à frente com a bola, assim tipo lançamento da campanha da Assembleia Nacional Constituinte, um chute bem dado; (de moça): chute fraco, sem potência alguma, assim tipo opinião de ministro sobre conjuntura econômica futura; (no s*co): chute desleal, assim tipo expulsão de padre Vito do País.
Chuteira – Tipo de botina própria para o jogo do futebol. (Amarrar as): fugir dos lances perigosos, afastar-se de disputas de bola, assim como o Chic(*) Amar(*)l, que fica sempre doente quando a coisa aperta. (Pendurar as): deixar de jogar, abandonar o esporte, assim como o J(*)nio Quad(*)os, que pode pendurar as chuteiras, que não dá mais. Tchau mesmo!
Chuveirinho – Passe dado sobre a área adversária. O pMDB vai lançar o maior chuveirinho sobre a área do PDS, até 1982. E tome gol!
Chuveiro – Instalação para banho, no vestiário. (Ir para o chuveiro mais cedo): ser expulso de campo. Já ser expulso do País é privilégio de padre e de exilado político latinoamericano… (mandar para o chuveiro): expulsar de campo. Figue(*)edo mandou o Padre Vito para o chuveiro, mesmo contra a vontade de todo o povo brasileiro. E a torcida vaiou.
Cidadela – O gol. O mesmo que “a última trincheira”. Nós lutaremos pela democracia, até a última trincheira. Essa cidadela ninguém toma!
Cintura dura – Jogador sem flexibilidade, assim tipo Figue(*)redo.
Círculo Central – Círculo com 9,5 m a partir do centro do campo, que delimita os jogadores no início da partida. A turma do planalto fica no meio de um círculo central e nem quer saber o que acontece no resto do País. Azar dela! Também local para reinício da partida, após levar um gol. Em 1982 a turma da Arena vai ter um trabalhão para reiniciar a partida, pois vai levar cada gol, que nem te conto!
Ciscador – Jogador que se movimenta muito, sem grande resultado, assim tipo Figue(*)redo, que viaja por todo o País e não resolve nada.

11/11/1980 – João vota na Conceição

Deu no jornal: “O presidente João Figueiredo confirmou ontem (07/11) em Campinas, simbolicamente, sua opção pela democracia. Votou, sem titubear, em Conceição, uma das torcedoras símbolo da Ponte Preta, no concurso promovido pelo JH. Conceição rompeu o cordão de isolamento defronte à casa de dona Doliza, irmã do presidente, estendeu um exemplar do jornal e conseguiu a adesão de Figueiredo. Ele limitou-se a sorrir quando alguém comentou: ‘O Sr. acabou de votar, Presidente'”.

Ironia do destino… Dentro de poucos dias o povo deveria votar nas eleições diretas para prefeitos e vereadores, que deveriam realizar-se a 15 de novembro de 1980. Entretanto, por iniciativa do governo Figueiredo, essas eleições foram adiadas por dois anos, devendo realizar-se em 1982, se Deus quiser.

Assim, só restou ao povo de Campinas e região o voto livre e direto para torcedor símbolo da Ponte ou do Guarani, já que essa é a única eleição livre e direta que se realiza este ano, por estas bandas. E é curioso que o próprio general Figueiredo tenha passado por Campinas e, meio na marra, meio de improviso, tenha votado na Conceição.

O general, que concedeu uma anistia e pretendeu promover uma abertura, o mesmo que jurou fazer deste País uma democracia, teve uma atitude bastante contraditória quando, entrevistado sobre quando haveria eleições diretas para a Presidência da República, respondeu: – “Se depender de mim, nunca!”

E não deixou de ser contraditória, igualmente, a intenção de prorrogar a data das eleições livres e diretas que deveríamos ter no próximo dia 15 de novembro. Justo na ocasião em que deveriam se realizar as primeiras eleições sob o governo do general Figueiredo, ficamos sem poder botar o nosso voto na urna, uma vez mais.

Outra ironia do destino: para compensar, a torcedora Conceição, emocionada por ter ganho o voto do general Figueiredo, declarou que nem iria colocar o voto na urna, e sim guardá-lo em seu quarto, como um presente maravilhoso. Assim, nem o nosso voto vai para a urna e nem o dele…

12/11/1980 – Alá-Salim e a lâmpada

Alá Salim era um pobre João Ninguém, que trabalhava numa serraria e que foi despedido, por ser um grande “cara de pau”. Certa vez, perambulando em meio a um depósito de lixo, deparou com uma antiga lâmpada de óleo jogada fora. – Isto deve valer uns trocados, lé! – Pensou ele com seus poucos botões. E, como a lâmpada estivesse muito suja, esfregou-a para limpá-la…

Foi então que, do interior da lâmpada, saiu um gênio chamado Ibrahim, que lhe disse: – Salve, ó amo! Como vós me libertastes da lâmpada onde eu era prisioneiro há mil anos, atenderei três desejos vossos!

O astuto Alá-Salim assustou-se, a princípio, mas logo percebeu que ali estava a chance de sua vida. E foi fazendo o primeiro desejo, dizendo: – Gênio, desejo ser prefeito de Bagdá! – (Ah, sim, as histórias de gênio sempre se passam em Bagdá). – O gênio logo atendeu ao seu pedido e ele foi nomeado prefeito, acumulando considerável fortuna por meios que não desejamos aqui relatar…

Cansado de ser apenas um prefeito, Alá-Salim formulou o segundo pedido: – Ó Ibrahim, vós que sois um gênio, fazei-me governador da província! E o gênio, prontamente, transformou-o em governador. Alá-Salim foi morar num magnífico palácio, aumentando muito mais a sua fortuna, por meios que também não relataremos aqui, por questão de pudor.

Por fim, cansado de ser apenas um governante de província, Alá-Salim chamou o gênio para uma convenção do partido do governo e pediu: – Gênio, ó gênio genial, desejo ser o Xá, o supremo mandatário da Pérsia! – (Sim, nesse tempo o país assim se chamava). O gênio, mais que depressa, ergueu o braço de Alá-Salim e, diante de todos os convencionais presentes, inclusive do herdeiro do trono, declarou: – Eis o homem! Se depender do meu voto, Alá-Salim será o futuro governante do país!

Alá-Salim ficou desesperado, porque, entre as falsas palmas dos convencionais, percebeu a expressão de ódio do herdeiro do trono, e disse: – Gênio, mas que mancada! Vós queimastes minha candidatura! Sacaneastes o vosso amo! – E o gênio, sorridente: – E por que pensais que meu antigo amo me prendeu por mil anos?…

Quiá, quiá, quiá, quiá! – E, assim dizendo, evaporou-se em fumaça…

13/11/1980 – Pela Constituinte

(Um por todos e todos pela Constituinte)

Neste dia 15 de novembro de 1980 deveriam se realizar eleições para a escolha de prefeitos e vereadores, na grande maioria das cidades brasileiras. Todavia, o governo houve por bem adiar esse pleito por dois anos e as eleições só serão realizadas em 15 de novembro de 1982, talvez, quem sabe, se Deus quiser e o Abi-Ackel deixar…

É por essas e outras que a oposição, representada por seus três partidos mais significativos, pMDB, PP e PDT, resolveu marcar um ato público em favor de uma Assembleia Nacional Constituinte, no Salão Vermelho da Prefeitura de Campinas, neste sábado, dia 15, às 20 horas.

A Constituinte, pregada pelo senador Orestes Quércia, é uma necessidade básica para a normalização política do País, haja visto que a nossa Constituição, de 1964 para cá, foi remendada, consertada, rasgada e recosturada, virando uma verdadeira colcha de retalhos…

São esses remendos que permitiram o adiamento das eleições, após a reforma partidária feita por decreto, bem como o motivo do adiamento. Segundo o Governo, não poderia haver eleições porque os partidos, com a reforma, não estavam definitivamente organizados!

O País necessita de uma Carta Magna límpida, clara, sem rasuras ou remendos, que dê as diretrizes para a consolidação de um Brasil Maior e melhor, com eleições livres e diretas em todos os níveis, inclusive para Presidente da República.

Proponho que, no ato público, o povo cante uma paródia que eu fiz da famosa música “Ô Abre Alas”, da imortal Chiquinha Gonzaga, que é assim:

Ô Abi-Ackel, eu quero votar!
Ô Abi-Ackel, eu quero votar!
Eu sou da urna, não posso negar…
E o nosso povo é quem vai ganhar!

Vamos todos ao Salão Vermelho da Prefeitura, lutar por um país mais digno e mais justo, pela pátria livre que desejamos deixar para nossos filhos. Vamos todos lutar por uma Assembleia Nacional Constituinte, já!

14/11/1980 – Um dia como os outros

Levantei-me com o pé direito, espreguicei-me um pouco e resolvi fazer como aquele anúncio que toca no FM toda hora: escovei os dentes, tomei o café da manhã e fui ler o jornal. Logo na primeira página, deparei com uma manchete que me fez cair o queixo: – “Dívida externa foi perdoada”!

Esfreguei bem os olhos, olhei de novo, e li outra notícia espetacular: – “Acabou a inflação no Brasil”! Quase não podia acreditar nos meus olhos… No pé da página, lá estava uma foto do general Figueiredo e uma legenda: – “Cumpri o prometido: fiz deste País uma democracia”!

Fui dar uma olhada na página policial, mês ela estava meio fraca. No alto, em letras garrafais, lia-se: – “Nenhum crime na cidade”!- Então fui olhar a página de esportes, estava lá: – “Ponte Preta campeã paulista”! – “Guarani na Taça de Ouro”! – “Moralizado o futebol brasileiro”!

Liguei o rádio… só tocava música nacional! Aí entrou o locutor e lascou: “Baixou o preço do feijão”! – “Petrobrás descobriu petróleo”! – “Rescindidos os contratos de risco”! – “Delfim encheu a panela do povo”!

Corri para a TV e liguei… estava dando o jornal da manhã. Com a cara mais normal do mundo, o locutor informava: – “Aprovada a Assembleia Nacional Constituinte“! – “Demarcadas as terras dos índios“! – “Brasil tem crédito no exterior“! – Aí entrou o noticiário internacional, com as seguintes manchetes: – “Renunciou Ronald Reagan“! – “Khomeini fugiu para o Timbuktu”! – “Israel fez as pazes com os árabes”!

Voltei ao jornal e abri na página local. Dizia assim: “Resolvido o problema das enchentes em Campinas”! – “Prefeitura paga todos os desapropriados”! – “Acabou a fila no INAMPS”!

Esfreguei os olhos, abri a porta e saí à rua… o lixeiro estava passando no dia certo, o ônibus da CCTC estava limpo e quase vazio, nenhum motorista estava correndo a mais de 80 por hora e não havia nenhum caminhão estacionado irregularmente. Foi aí que apareceu uma multidão carregando o Maluf em triunfo e gritando: – “É o maior, é o maior, é o maior”!

Aí, não deu outra: caí da cama. Mamãe, eu juro, não sonho mais!

15/11/1980 – Farda, Fardão e… Academia

“Farda, Fardão, Camisola de Dormir” é o título do último romance de Jorge Amado, cuja ação se passa em 1940 e retrata a luta por uma vaga na Academia Brasileira de Letras, entre um coronel chefe da polícia política e braço direito de Getúlio e um general reformado. Por uma vaga se faz de tudo, a corrupção come solta e as consequências são as mais funestas possíveis.

A história poderia se passar hoje, com pequenas modificações, pois continua muito atual. Depois da eleição do José Sarney, quem almeja a vaga deixada na ABL pela morte de Octávio de Faria é o ministro da Educação, Eduardo Portella! Essa vaga deveria ser, pela lógica, do grande poeta gaúcho Mário Quintana, que deseja tanto ser eleito que já se escreveu duas vezes. No entanto, depois que o Portela se candidatou, Quintana passou a ser pressionado por alguns acadêmicos para que desistisse em favor do ministro…

Quintana ficou tão angustiado com essa pressão (motivada muito mais por interesses do que pelo valor intelectual das obras do ministro, é claro), que não conseguiu mais dormir, começou a comer pouco e a ficar muito angustiado, uma vez que já tem 74 anos de idade e a Academia seria a coroação de sua vida dedicada à rima, aos versos, às odes e aos poemas.

Na última 6ª feira, com o sistema nervoso abalado, Quintana foi internado na Clínica Pinel, em Porto Alegre. Felizmente passa bem, de acordo com seu médico, e na próxima semana poderá ter alta.

Se eu forre ministro e quisesse me colocar na ABL, juro que sentiria pejo em aceitar, posto que estaria sendo indicado por ter um cargo no Governo e não pelo valor de minhas obras. Todavia, isso não parece ocorrer na esfera federal. São tantos os políticos do Governo pretendendo ser “imortais”, que o genial Ivan Lessa lascou na última página do Pasquim desta semana: – “Basta de ordenanças! Queremos o General Figueiredo na Academia!”

Turma do Governo, que tal sair de fininho e deixar as vagas para aqueles que, efetivamente, dedicaram sua vida à literatura, como o Quintana, que acabou baixando no Pinel? Desse jeito o Jorge Amado vai ter de escrever um outro livro: “Farda, Fardão e Camisa de Força“…

16/11/1980 – Votar é tão bom. Bom mesmo!

No dia 14 último eu tive a oportunidade de votar, depois de muito tempo. Verdade que foi uma votação simbólica, promovida pelo pMDB, PP e PDT, contra o adiamento das eleições, os baixos salários, o custo de vida, etc., mas foi tão bom… Descobri que votar não dá calo,não faz cair as unhas nem provoca câncer, ao contrário do que sempre apregoam elementos ligados ao Governo.

Também não é verdade que o povo não sabe nem escovar os dentes, quanto mais votar. Vi gente do povo sem dentes (por causa da falta de atendimento dentário) e com dentes, que votou muito bem, certinho. Só um velhinho, que estava na fila bem na minha frente, é que teve algumas dificuldades em colocar seu voto na urna montada no Largo do Rosário. Segundo ele, foi por causa da vista fraca, mas já tinha muito gaiato dizendo que era falta de prática…

Mas, o voto do dia 14 foi, antes de tudo, a favor. Sim, a favor da Assembleia Nacional Constituinte, livre, democrática e soberana. Com a Assembleia, teremos oportunidade de acabar com os privilégios dos grandes grupos multinacionais, eliminar a repressão,elaborar novas leis sociais, conseguir maior liberdade de expressão e organização, além de eleições livres e diretas em todos os níveis, inclusive para Presidente da República. Isso, só para começar a enumerar as melhorias de que necessitamos.

Saí do Largo do Rosário com a alma leve, sentindo-me feliz por ter votado, ainda que de forma simbólica. Indo para casa, não resisti e fui cantarolando assim: – Não põe veto no meu voto, não tente bancar o chefe, não dá ordem ao pessoal… Não me venha com mentira, ninguém mais te admira, eleição não é um carnaval! Não sou candidato a nada, meu negócio é batucada, mas meu coração não se conforma… O direito é do povo, de poder votar de novo, exigindo plataforma. Por um voto, que balance o teu coreto, que eleja quem, de fato, é político correto… Por um voto livre, simples e direto, democrático e secreto, que demonstre sentimento. Por um voto que seja um documento, que destrua e arrebente o teu cordão de isolamento. (Breque) – Não Põe no meu!

18/11/1980 – Anedotário político

Esta deve ser a mais velha anedota brasileira: dia 22 de abril de 1500, Cabral acaba de descobrir o Brasil e decide mandar D. Henrique Soares de Coimbra rezar a primeira missa… E, poucos dias depois, lá estava todo mundo reunido, no meio do mato: marinheiros portugueses, oficiais, soldados e índios, esses últimos muito surpresos ao verem os portugueses erguendo uma cruz de madeira e fazendo um altar.

No exato momento em que D. Henrique abençoa a terra e a declara oficialmente descoberta, um velho índio olha bem, balança negativamente a cabeça e diz: – Não vai dar certo…

Esta é de bêbado: era uma vez um cara muito revoltado, talvez um desses “privilegiados” operários do ABC, que sofria como um condenado em uma fábrica de veículos (multinacional, é claro), mas que não tinha coragem de falar mal do governo. Um dia, amarrou um porre, só de desgosto, criou coragem e saiu dizendo pelas ruas: – Eu comprei um ministro! Taqui, no meu bolso, é! Aquele sem vergonha tá comprado!

Não deu nem dez passos: foi detido por uma viatura policial e levado para curtir o porre na cadeia. E, mesmo na viatura e depois na cela, o sujeito repetia: – Eu comprei o ministro! Tá comprado, ó! Hic! Eu comprei!

No dia seguinte, o infeliz operário acordou e ficou muito surpreso ao se ver numa cela. Ele nem conseguia se lembrar por que tinha sido preso… Quando o carcereiro veio trazer o grude, lá pelas tantas, ele o chamou e perguntou: – Vem cá, ô meu! Que que eu fiz para estar aqui, hein?

E o carcereiro respondeu: – Você amarrou um fogo e saiu dizendo por aí que tinha comprado um certo ministro! – E o operário, chateado: – Eu não tomo jeito, mesmo! Quando eu estou bêbado compro tudo que é porcaria que aparece!

Dentro de um ônibus lotado, um cara pergunta para outro, que está ao lado dele: – Amigo, o senhor é do governo, tem algum parente no governo, ou é amigo de alguém que faça parte do governo? – Ao que responde o outro: – Não! – E o primeiro, muito calmo: – Então quer fazer o favor de tirar o pé de cima do meu, seu…?

19/11/1980 – Dicionário do futebol

Ciscar – Movimentar-se muito, assim feito o Galv(*)as, que ia de Nova Iorque para o Rio e foi ciscar lá em Brasília. Medalha para ele, de mérito aeronáutico.
Clarabóia – Jogador que consegue clarear uma jogada, assim tipo Orestes Quércia (ver conceito abaixo).
Clarear – Tornar clara, sem confusão, uma jogada, conter uma ação ofensiva e estruturar uma jogada nova, compreensível aos companheiros, assim como lutar por uma Assembleia Nacional Constituinte.
Clássico – Jogo que tem tradição – (da Disciplina) – reunião dos partidos de oposição; (da Paz) – reunião do pMDB; (dos Milhões) – reunião do PDS, o “Partido dos Depositantes na Suíça”.
Classificação – Posição que permite a um clube continuar disputando um campeonato. Em 1982, o PDS vai descer para a segunda divisão… Que desclassificação!
Cobertura – Ato de dar proteção à área defendida por um companheiro. O PP, PDT, PTB, e PT vão vencer, com a cobertura do pMDB. Aposto uma nota preta!
Cobra – Jogador famoso e de alto nível técnico, assim feito o Ulysses Guimarães. O velhinho é cobra! Camisa 10 da nossa Seleção!
Cobra mandada – Árbitro, auxiliar ou jogador previamente subornado, assim feito muitos políticos e convencionais do PDS, cujos nomes não citaremos por decoro.
Cobrador – Jogador hábil em cobrar faltas, convertendo-as em gols. O Franco Montoro é que é um tremendo cobrador, hábil em fazer gols para o pMDB.
Cobrinha – Jogador jovem e em ascensão, de alto nível técnico, já com as características de cobra, assim tipo Wanderley Simionatto.
Coco – Cabeça. Também inteligência e criatividade. Quem tem coco é o meu considerado José Roberto Magalhães Teixeira, o popular “Grama”.
Cocoruto – Elevação, morrinho, parte superior da cabeça. Outro que tem cocoruto bom é Freitas Nobre.
Coice – Chute violento, dado no adversário ou na bola. Maiores detalhes sobre coice, procurar o Sr. Taturana, na Freguesia do Ó.
Coiceiro – “Simpatizante” do M(*)luf. O mesmo que açougueiro, carniceiro, etc.
Colar – Marcar colado. Também tentar impingir desculpas esfarrapadas e simular infrações. Olha aí, D(*)lfim, tua conversa não cola mais.

21/11/1980 – Você já foi a Brasília?

Atendendo a pedidos de inúmeros leitores, voltamos com nosso “Cantinho do Sucesso”, hoje parodiando a conhecidíssima música “Você já foi à Bahia?” de Dorival Caymmi: a paródia se intitula “Você já foi a Brasilia?”

Você já foi a Brasília, nêgo?
Não?! Então vá!
Lá quem tem padrinho, meu nego,
Só pode se arrumar…

Muita sorte teve,
Muita sorte tem,
Muita sorte terá.
Você já foi a Brasília, nêgo?
Não?! Então vá!
Lá tem caviar… (então vá!)
Lá tão com tutu! (então vá!)
Vão te nomear! (então vá!)
Se quiser mamar… (então vá!)

Nos palácios e nas granjas,
Onde só mora doutor,
Tem banquetes que parecem
Dos tempos do imperador…

Mordomia, em Brasília,
Faz inveja a um marajá!
Tem tudo pra consumo interno
E ainda sobra pra exportar.

Tudo, tudo em Brasília
É feito pro nosso bem,
Em Brasília tem ministro
Comendo como ninguém!

Você já foi a Brasília, nêgo?
Não?! Vai pra lá!

22/11/1980 – O milagre do descapitalismo

Delfim era um pobre rapaz que dava aulas a uns pobres alunos de uma escola pobre… Mas o jovem Delfim alimentava um sonho secreto: algum dia, faria um milagre.

Não um desses milagres comuns, do tipo “virar água em vinho”, “multiplicar os pães”, “fazer andar os paralíticos” e “curar os leprosos”. Nada disso, o Delfim queria fazer um milagre inédito, que ninguém já tivesse feito!

Foi assim que o jovem Delfim abandonou as aulas e os alunos, além do parco salário de professor, e tratou de fazer amizade com gente influente nos meios mágicos de Bagdá (ah, sim, essas fábulas sempre se passam no oriente misterioso), à procura de alguém que o ensinasse a fazer milagres.

E, depois de algum tempo, o jovem aprendiz de feiticeiro foi apresentado a um xerife, que o apresentou a um califa, que o levou a um grão vizir, o qual o levou a um rajá, e este o conduziu até o grande marajá de Bagdá, soberano recém empossado no cargo, que estava precisando de um milagre…

O marajá era meio surdo, e em vez de entender que o Delfim queria aprender a fazer um milagre, entendeu que ele, sendo professor, poderia ensinar! E foi assim que, graças tão somente à sua boa estrela, o jovem e inexperiente Delfim foi designado para o cargo de ministro dos Milagres!

O país ia de mal a pior, enfrentando baixas colheitas, falta de alimentos, desemprego, alto índice de mortalidade infantil, inflação, dívida externa elevada, falta de vergonha na cara, e outras pequenas crises por aí afora. O marajá de Bagdá levou o jovem ministro Delfim à sacada de seu palácio, de onde se descortinava toda a cidade e disse:

– Ó sábio milagreiro, ó poderoso mágico, faça um milagre que torne todo o povo rico, feliz, sem problemas e com muita saúde!

Delfim, que não queria perder o cargo e nem o pescoço, improvisou algumas palavras mágicas e… CABRUM! – Desabaram sobre o país, uma a uma, todas as pragas do Egito e mais algumas de quebra, e todos ficaram na maior miséria. Delfim nem se apertou e saiu apregoando aos quatro ventos: – Milagre! Milagre! Acabo de inventar o descapitalismo!!!

23/11/1980 – Tout vá trés bien, diz a canção

“Tout vá trés bien, Madame La Marquise!” – afirma uma antiga música vaudeville, que agora vamos parodiar. O título pode ser “Tudo vai bem, muito bem, bem, bem…” ou qualquer coisa parecida. E vamos nessa!

“Tudo vai bem!” – Falou o presidente,
– “O povo está muito contente!”
“Tudo vai bem!” – Falou o Ibraim,
– “O povo está feliz assim!”

A inflação passou de cem por cento…
– “Quem não gostar, eu prendo e arrebento!”
A gasolina depressa vai a mil…
– “Pelo progresso do Brasil!”

“Tudo vai bem!” – Falou o Delfim Neto,
– “O povo come, e come quieto!”
– “Tudo vai bem!” – Falou o seu João,
– “Cairá o preço do feijão!”

Mas o feijão subiu e ainda sumiu
“E ninguém sabe, ninguém viu!”
Não vejo mais o preço do filé,
– “É só ter calma, é só ter fé!”

“Tudo vai bem!” – Falou o Amaury,
“A grande safra vem aí!”
“Tudo vai bem!” – Falou o Seu Jair,
– “O povo vive a sorrir!”

Porém a fila do INAMPS é desgraça…
– “Ora, depressa isso passa!”
E a nossa dívida? Não dá pra segurar!
– “O Carajás vai resgatar!”

“Tudo vai bem!” – Falou o presidente,
– “O povo está muito contente!”
“Tudo vai bem!” – Falou o César Cals,
Mas, mesmo assim, tudo vai mal!

24/11/1980 – Dicionário do futebol

Coletivo – Treinamento do qual participam todos os jogadores, titulares e reservas; na prática, veículo urbano que nos obrigam a tomar, sempre cheio, sujo, e em péssimo estado de conservação. Ei, CCTC, como é que fica?
Comandante – Centro avante, principal figura do ataque; Ulysses Guimarães é um ótimo comandante do pMDB e vai levar o partido a grandes vitórias.
Combate – Ato de enfrentar o adversário, na disputa de bola. Em 1982 teremos um combate sensacional: Situação x Oposição. Aposto uma nota nesta última.
Combinação – Trama, jogada combinada, assim como “prorrogação de mandatos”.
Come – Drible, finta. (Dar um): Driblar feito o Delf(*)m. (Levar um): ser driblado, feito o povo. (- E dorme): jogador que faz refeições no clube e lá reside, sem jogar; assim tipo ministro, que tem a maior mordomia, come e dorme e não faz nada da útil, via de regra. (CBD – Come, Bebe e Dorme): jogador nas mesmas condições anteriores, com o agravante de encher a caveira, assim tipo um ex-ministro que foi mandado passear…
Come – Fogo – Designação das partidas entre o Comercial e o Botafogo, ambos de Ribeirão Preto (SP). Na prática, choque entre grevistas e tropas da PM.
Comer – Driblar, fintar. (A bola): jogar muito bem. (O bolo): fazer que nem o Delf(*)m. Ele não reparte o bolo, come sozinho.
Compasso – Dar um passo muito largo é “abrir o compasso“. Esperamos que a abertura continue, em compasso acelerado, apesar do R(*)agan.
Comprar – Adquirir o passe de um jogador; subornar um jogador, bandeirinha o juiz. Agora, sobre comprar votos indiretos, falar com o sr. M(*)luf.
Compromisso – Jogo a ser realizado no futuro. Na prática, compromisso é isso: “Juro fazer deste país uma democracia”.
Concentração – Ato de reunir jogadores em um local, antes de uma partida. Não confundir “concentração no campo” com “campo de concentração”.
Condição – Circunstância que permite ou não a prática do futebol, a um jogador. (Física): boa saúde. (Irregular): para o jogo, quando o contrato não está em dia; para a jogada, quando o jogador está impedido. Agora, condição irregular, mesmo, é o cargo de “senador biônico”. Arre! Passa, bionicão!

25/11/1980 – O anedotário político

Esta é internacional e nova em folha (juro que inventei agorinha):

Em Pequim está sendo julgado o “Bando dos Quatro” que, na verdade, é o “Bando dos 10”, grupo acusado de todos os males que aconteceram na China, de 20.000 anos para cá.

A viúva de Mao Tse Tung, madame Chiang Ching (ou Jiang Ting, como quiserem) e todos os seus seguidores, ao fim do julgamento, serão considerados culpados de alta traição e de todas as acusações que lhes forem feitas…

Terminado o julgamento, para surpresa da imprensa ocidental, todos os acusados são imediatamente postos em liberdade! Um jornalista, muito espantado, se aproxima de um alto funcionário chinês e lhe pergunta: – Mas, como?! Vocês acusam o “Bando” de todos os males da China, condenam e depois… soltam todos?!?

E o sisudo funcionário, muito calmo: – “Celtamente, honolável jolnalista internacional… se não soltarmos o “Bando”, a quem vamos acusar das desglaças da China, de hola em diante?”

Esta é nacional, mesmo: contam que um certo governador biônico foi visitar uma cidadezinha do interior, com sua enorme comitiva, e acabou sendo recepcionado com um grande churrasco regado a chope, pelo prefeito local.

Lá pelas tantas, já meio alto, saiu procurando o banheiro e, como não soubesse onde ficava, empurrou uma porta e viu-se nos fundos da prefeitura. Como estava escuro, resolveu aliviar-se ali mesmo, na via pública…

Foi então que surgiu um desses guardas do interior, sempre muito atentos a tudo e muito zelosos de seu posto. O guarda não teve dúvidas: informou ao governador que ele estava multado, em decorrência de lei municipal.

Todavia, ao reconhecer o governador, resolveu desistir da multa. Este não aceitou, dizendo que era um cidadão comum e queria pagar. Foi então que o guarda recusou mais uma vez, dizendo: – Ora doutor, o senhor acha que eu iria multá-lo por causa de uma simples m…, depois de tanta c… que o senhor já fez?

26/11/1980 – O espião que entrou em fria

Dizem que o M(*)luf está de espião novo em Campinas e região, mas que o coitado está meio por fora e, se o largarem no meio do Largo do Rosário, ficará perdido e nem saberá onde está, pois o largo nem tem mais esse nome…

Como sinto muita pena de quem chega de fora e fica por fora, em nossa querida Campinas, bolei uma espécie de guia turístico para orientar o novo e ilustre visitante, para que ele fique familiarizado com os hábitos da cidade.

É necessário que o espião do M(*)luf saiba que:

  1. a) Em Campinas há dois times de futebol profissional, mas os torcedores locais não estão nada felizes com o desempenho de ambos. Quem quiser ir contando pontos em seu favor deve ir, logo de cara, metendo a lenha na Ponte e no Guarani. Deve falar bem do São Paulo e elogiar a “Taça de Prata”.
  2. b) Se, por outro lado, o visitante quiser elogiar um dos clubes, deve escolher o ouvinte certo. Se quiser falar bem do “Bugre”, deve escolher como interlocutor um negrão de 1,90 m de altura e envergadura, vestido sempre com as tradicionais cores do Guarani: branco e preto.
  3. c) O local de reunião da Ponte é o Giovanetti, enquanto que o do Guarani é o Éden Bar, ambos no Largo do Rosário.
  4. d) Existe uma região ótima para compras na cidade, a do “Mercadão”. Deve-se ir lá com muito dinheiro nos bolsos, fazer alarde dessa condição e pagar umas pingas para os velhos e as senhoritas que frequentam o local.
  5. e) Outro local ótimo é a região de lazer conhecida como “Itatinga’s Garden”, onde o visitante deve ir muito bem vestido e com muito dinheiro de reserva. Umas voltas a pé pelo bairro, de madrugada, serão suficientes para tornar o forasteiro muito feliz.
  6. f) Outros lugares ótimos para visitas noturnas são: a Costa Aguiar, os baixos do Viaduto Cury e o Bar Apollo, perto da Rodoviária.
  7. g) Campineiro adora piada. Quem quiser ficar amigo de grande número de moradores da cidade, deve ir logo contando uma daquelas boas, que fala de campinas e Pelotas, do repertório do Golias.

Boa estada na cidade, senhor espião!

27/11/1980 – Tem aquela do cachorro

Tem aquela do cachorro, que é assim:

“El dictador” de uma banana republic latino americana seguia por uma estrada, num magnífico carro à prova de balas, com motorista, guarda costas e ar condicionado, além do tradicional bar bem abastecido quando, de repente, o motorista não viu um cachorro que atravessava a estrada…

Não deu outra: o motorista atropelou o cachorro, que morreu na hora. Era um belíssimo cachorro de raça, com coleira, que só podia ser de algum ricaço. “El dictador”, que não queria ficar mal com os ricos do país, mandou o motorista ir até a cidade mais próxima e procurar o dono do animal, pois ele desejava indenizar o proprietário.

Pararam na cidade, num local ermo. O motorista desceu e foi procurar o possível dono do cachorro. Meia hora depois, voltava ele carregado em triunfo, enquanto o povo dava vivas e os sinos repicavam. Ao se aproximar do carro de “El dictador”, os populares levaram um grande susto e largaram o motorista no chão, fugindo em seguida. “El dictador” quis saber o que havia ocorrido e o motorista explicou: – Sei lá, excelência… cheguei num bar e disse: sou motorista de “El dictador”, e atropelei e matei aquele cachorro… e o povo começou a festejar!

Um ministro da mesma banana republic ia passando junto à estátua equestre do maior herói nacional, quando ouviu que a estátua falava com ele! – Ei, “señor” ministro – Dizia a estátua – Olhe só para o estado do meu cavalo: todo sujo e com a pata quebrada… exijo que mande fazer um cavalo novo para mim, ouviu?

O ministro ficou muito assustado, concordou com a estátua do herói e foi correndo contar a “El dictador”, que duvidou de sua sanidade mental. O supremo mandatário quis ver, de perto, a tal estátua que falava. Lá chegando, o ministro e “El dictador” ouviram a estátua falar de novo, muito chateada: – Ei, “señor” ministro! – Repetiu a estátua – Que negócio é este? Eu lhe peço um cavalo novo e o “señor” me traz um burro velho?!?

29/11/1980 – E agora João, a festa acabou?

A pedidos de inúmeros leitores, vamos reprisar “E agora, João?”, paródia de “E agora, José?”, de Carlos Drummond de Andrade:

E agora, João? A festa acabou, a luz apagou, a abertura esfriou.
E agora, João? E agora, Delfim? E agora, você? Você que é sem nome,
Que apanha de todos, você, que trabalha, que grita, protesta?
E agora, povão?
Está sem dinheiro, está sem discurso, está sem trabalho,
Já não pode beber, já não pode fumar, cuspir não pode;
A noite esfriou, a abertura não veio,
A democracia não veio,
O riso não veio, não veio a utopia
E tudo acabou, e tudo fugiu, e tudo mofou.
E agora, João?
Sua doce palavra, seu instante de febre,
Sua promessa e sua jura, sua democracia.
Sua palavra de ouro, seu cavalo tordilho,
Sua incoerência, seu ódio – e agora?
Com tudo na mão, quer fazer a abertura.
Não existe porta. quer abrir na marra,
Mas o PDS fechou. quer ir para a frente,
Mas não dá mais! João, e agora?
Se você gritasse, se você berrasse, se você tocasse,
Pra fora quem não convence, se você agisse, se você brigasse.
Se você não esmorecesse… mas, você não esmorece,
Você é duro, João!
Sozinho no escuro, qual bicho do mato,
Sem democracia, sem constituinte,
Pra se amparar,
Sem cavalo baio que fuja a galope,
Você segue, João! João, para onde?!

30/11/1980 – Índio não quer mais apito

“Índio quer apito”, dizia uma antiga marchinha de carnaval. Hoje, o indígena, já familiarizado com a sociedade ocidental, politizado e sofrido, já não quer mais apito; quer, isso sim, ter o direito de falar no tribunal Russel, na Holanda, sobre seus problemas e direitos.

Tanto lutou o cacique Juruna que conseguiu, através de um habeas corpus, o direito de viajar para Amsterdam e falar em nome de seu povo (globalmente, todo índio faz parte de um único povo – o indígena). De nada adiantaram as objeções do ministro do Interior, coronel Mário Andreazza, e nem os esforços da Funai para obstar a viagem do valente cacique. Eleito presidente do tribunal Russel, Juruna irá mesmo falar, naquele seu modo rude e franco, expondo todas as arbitrariedades que estão sendo feitas contra os índios.

O episódio da tentativa de impedir a viagem de Juruna só depôs contra o governo brasileiro, pois ficou patente o abuso de poder do ministério do Interior. O fato de o índio ser tutelado, no Brasil, não autoriza nenhum órgão governamental a cercear o direito de ir e vir do indígena. Por outro lado, o julgamento favorável do habeas corpus abriu um precedente histórico, visto que, de ora em diante, a justiça brasileira reconhece aos indígenas a capacidade civil de representar o Brasil no exterior.

Também não entra em questão o mérito do reconhecimento ou não, de parte do governo brasileiro, da validade do tribunal Russel. Reconhecendo ou não o tribunal, o Governo terá de ouvir as justas queixas dos indígenas, dada a repercussão mundial que essas queixas terão. E isso será ótimo pois, quem sabe, de agora em diante poderão ser tomadas medidas efetivas, em favor do índio brasileiro, antigo dono da terra e hoje relegado à condição de miserável em fase de extinção, como se fosse um tipo de animal selvagem.

Acredito que o rude, porém hábil, cacique Juruna fará um belo papel na Holanda, denunciando sem temor as arbitrariedades, desmandos e omissões feitos contra os seus irmãos. O famoso “índio do gravador”, agora famoso no mundo inteiro, vai demonstrar que índio não quer mais apito, índio agora quer é ter direito de viver em paz na terra onde nasceu.

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Já leste o meu livro? Quem ainda não leu está convidado a conhecer minha biografia de papai, à sua espera nas melhores livrarias: Marsupial – Comix – Cultura 

A História dos Quadrinhos no Brasil, e-book de autoria de papai, pode ser encontrado na Amazon 

Visitem também o Sebo Saidenberg, na Amazon. Estou me desfazendo de alguns livros bastante interessantes.

Palavra e Traço – Dezembro de 1980

Se já houvesse internet nos anos 1980, este material seria, muito provavelmente, um blog. Com seu afiado senso crítico, papai comentava um pouco de tudo, de política e políticos a arte e cultura, entremeando aqui e ali com textos muito pessoais e até poéticos, sempre baseado nas últimas notícias e tendências da época.

Algumas destas colunas – publicadas originalmente no “Jornal de Hoje”, de Campinas/SP – são francamente satíricas, outras são terrivelmente irônicas. Muitas delas poderiam terminar com um internético e retumbante “#SQN”, enquanto algumas são gravemente sérias. Parte das situações e problemas aqui descritos parecerão ao leitor bastante surreais. Outros serão perturbadoramente familiares.

01/12/1980 – Mais dicionário do futebol

Conferir – Persistir, acompanhar a bola. Também marcar um tento. Aliás, o Cacique Juruna insistiu até lavrar um tento e poder viajar para a Holanda… na hora certa, estará lá para conferir.
Confronto – Partida, jogo, disputa. O que será que vai dar o confronto UNE x novo ministro da Educação e Cultura?
Conjunto – Time, equipe, entendimento entre os integrantes de um time. Falta conjunto para o time do ministério…
Conselheiro – Quem faz parte do conselho de um clube. Não confundir conselheiro com “eminência parda”, do tipo que existe no governo.
Contagem – Resultado final ou parcial de uma partida, ou soma de pontos. Quando é necessário aprovar um projeto a favor do povo, nunca dá contagem de parlamentares no Congresso, pois o PDS cai fora.
Contenda – Jogo, partida. Contenda dura será a aprovação da Assembleia Nacional Constituinte…
Contra-ataque – Ataque repentino de um time que estava na defensiva, assim como o que está sendo desferido pelos partidos de oposição. Vai sair gol!
Contrato – Documento público em que duas ou mais partes assumem compromisso. O contrato que o povo quer é uma nova Constituição.
Controle – Domínio de bola. O time do governo já perdeu o controle da situação, faz muito tempo. Taí a inflação que não me deixa mentir.
Contusão – Lesão física. Não confundir com o “caso Valle”, que é outro tipo de lesão… ao bolso do investidor.
Conversa – Embromação, drible, engano. Ninguém mais vai na conversa de um certo ministro que fixou a inflação em 455… ah, ah, ah!
Converter – Fazer gol, ao cobrar falta ou pênalti. Os partidos de oposição estão cobrando todas as faltas do governo… qualquer hora vão converter.
Convite – Ato de convidar; também defesa que joga mal, que é um verdadeiro convite a tomar gol, assim tipo defesa dos pacotes antiinflacionários
Convocação – Ato de convocar. Aproveitamos o ensejo e convocamos o povo brasileiro a lutar pela realização de eleições diretas para presidente, em 84.

02/12/1980 – Anúncios desclassificados

Precisa-se urgente de:
Um sábio português, dois alemães que não bebam chope, três americanos pacifistas, quatro turcos serventes de pedreiro, cinco japoneses tocadores de cuíca, seis italianos que não falem com as mãos, sete espanhóis a favor de qualquer governo, oito russos que não gostem de vodka, nove sauditas sem dinheiro e um ministro do Planejamento que saiba planejar.

Oferece-se:
Carro importado, tamanho grande, com espaço para seis passageiros ou mais, câmbio hidramático, motor de 280 cavalos, pneus radiais, ar condicionado. Faz 1 quilômetro com apenas 10 litros de gasolina azul. Aceita-se troca por gaiola de passarinho, com ou sem passarinho, a combinar.

Procura-se:
Governador biônico, que pretende tornar-se presidente biônico, procura urgentemente pessoas com cara de gente do povo, para aplaudi-lo em todos os lugares em que for fazer visitas com sua caravana. Devem ser pessoas fortes e com pulmões poderosos, para gritar mais alto que o povo de verdade. Paga-se bem.

Troca-se:
Magnífica cafeteira automática, importada, por um quilo de café. Cortadora de carne elétrica, “made in USA”, por um quilo de filé. Bujão metálico inoxidável para 20 litros de gasolina por um litro da dita. Panela de pressão com pouco uso, por um quilo de feijão preto.

Aluga-se:
Aposentado que só come às 2as, 4as e 6as, aluga dentadura para outro aposentado que coma às 3as, 5as e sábados. Domingos a combinar.

Vende-se:
A Amazônia. Tratar em Brasília.

03/12/1980 – Foi um sonoro ‘não’ à ditadura

Durante anos a ditadura militar tentou dobrar o valoroso povo uruguaio por todos os meios: milhares de pessoas foram presas, torturadas, assassinadas, ou consideradas como “desaparecidas”. Calou-se a imprensa livre, desarticularam-se os sindicatos operários, desapareceram as organizações estudantis…

Durante anos, o País que era considerado uma espécie de “Suíça latino americana” foi sendo subjugado, aniquilado, destruído. O povo tinha de ficar em silêncio para não morrer, muitos fugiram da nação platina e se refugiaram no Brasil ou em outros países da América do Sul, outros partiram para a Europa, em busca de condições de sobrevivência, mas todos tiveram de amargar o medo, o desespero, a miséria, a fome e a revolta que todo regime de força traz.

Tentando imitar Pinochet (AAARRGHH!), o cruel tirano do Chile, o regime de Aparício Mendez fez realizar um plebiscito entre o povo uruguaio, para tentar se perpetuar no poder e legitimar o regime de força imposto pelas “fuerzas armadas”… e entrou pelo cano. Cerca de 60% do povo platino votou pelo não, por um fragoroso, estrondoso e corajoso não às pretensões da ditadura!

Ignoro quais serão as consequências da rejeição das pretensões governistas, não sei quais serão as represálias da Junta Militar contra o povo do Uruguai, mas sei que elas virão. Sei que o nobre povo da antiga “Província Cisplatina” sofrerá ainda mais com esta disposição corajosa, mas sofrerá de pé, dando ao mundo um exemplo de coragem e de dignidade humana.

São coisas desse tipo que fazem com que a gente ainda acredite na viabilidade do ser humano, na possibilidade de sobrevivência da humanidade. Nem todas as forças das trevas, da ignorância, do obscurantismo, da ignomínia, utilizadas por anos e anos contra o povo indefeso e pacífico, conseguiram dobrar a coragem, a fé, o idealismo democrático e a crença no futuro do povo uruguaio.

A mesma coragem com que os franceses enfrentaram os nazistas revela-se agora, na antiga “Banda Oriental do Uruguay”. O povo platino acaba de provar que faz jus ao seu hino nacional, cuja letra, que agora só pode ser cantada em voz baixa, proclama todavia em alto e bom tom: – “Muerte a los tiranos!”

Parabéns, povo uruguaio, por este sonoro não à ditadura!

04/12/1980 – A nova do anedotário político

Contam que um governante por aí, ao subir em um elevador no Rio de Janeiro, deparou com um antigo colega do primário, grande amigo e companheiro de infância, agora relegado à condição de ascensorista… Espantado, o governante perguntou ao amigo o porquê de estar trabalhando em um cargo simples, que não requer habilidade intelectual, embora tivesse sido o melhor aluno da classe.

O amigo explicou que não tivera oportunidade de continuar os estudos e, assim, não pudera conseguir um emprego melhor. Aliás, recebia apenas o salário mínimo naquele cargo. O governante, então, resolveu lhe oferecer um cargo na administração pública e foi logo oferecendo um posto de ministro!

– Ah, doutor, ministro não dá! – Respondeu o amigo – Eu não me sinto capaz de assumir um cargo desses!

– Olhe que o salário é astronômico, hein? – Redarguiu o governante – E ainda ofereço casa e mordomia, com todas as regalias do cargo!

Mas o humilde ascensorista não aceitou. Então o governante resolveu lhe oferecer algo mais modesto: o cargo de presidente de uma autarquia, com excelente salário, ajuda de custo e outras regalias mais.

– Ah, doutor, ainda é muita coisa para mim! – Retrucou o amigo – Quero um cargo mais simples, mais à altura da minha capacidade…

O governante ofereceu, então, um cargo de secretário particular, algo assim para ganhar uns 100.000,00 por mês fora outras mamat… Digo, regalias. Ainda uma vez o ascensorista recusou, por achar que estava abaixo das condições mínimas para exercer o cargo. O governante foi oferecendo cargos inferiores, embora todos ótimos, com salários que iam de Cr$ 80.000,00 e Cr$ 50.000,00, mas o amigo recusava sempre…

– Afinal – disse o governante – que cargo público que você quer? – Ao que o amigo retrucou: – Ah, doutor, algo bem modesto, para ganhar cerca de Cr$ 10.000,00, por aí… Para mim, já é mais do que suficiente!

– Ah, isso não dá! – retrucou o governante – Para ganhar tão pouco é preciso ter curso universitário, prestar concurso público e aguardar vaga!

05/12/1980 – E assim se passou um ano

Parece incrível, mas no último dia 30 completei um ano de atividades no Jornal de Hoje. Durante esse ano tive muitas alegrias e algumas pequenas tristezas com a minha coluna, recebi palavras de apoio de muitos leitores e críticas construtivas de alguns, o que muito agradeço, tanto o apoio como as críticas.

Um leitor me pergunta qual foi a alegria maior… Foi, certamente, o encontro com o maravilhoso público de Campinas. O curioso é que passei minha infância nesta cidade adorável e voltei a residir aqui desde 1971, mas sempre trabalhando para editoras do Rio e de São Paulo. Quando fui trabalhar para a editora do JH foi que me senti realizado inteiramente.

Outra leitora me indaga sobre o que fiz de melhor, em minha própria opinião, nesse período… Eu diria que tudo foi bom, já que o público me aceitou até mesmo quando dei enormes ratas, ou fiz previsões erradas ao apostar na vitória de Jimmy Carter. Mas, se for para destacar alguma coisa, entre erros e acertos, eu destacaria uma paródia que fiz de um poema de Carlos Drummond de Andrade, que se intitula “Poema de Sete faces”, e que é assim:

“Quando eu nasci, um exu torto, desses que vivem na sombra, disse: – Vai, Ivan, ser jornalista na vida.
As casas espiam os homens que correm atrás do dinheiro. O Brasil talvez fosse azul, se não houvesse tantas marmeladas.
A viatura passa cheia de bóias frias, de caras brancas, pretas e amarelas. Por que tanta miséria, meu Deus, pergunta meu coração. Porém é inútil, não me respondem nada.
O homem atrás dos óculos é sério, simples e forte. Quase não conversa, tem poucos, raros amigos, o homem que está atrás dos óculos e do governo.
Meu Deus, por que nos abandonaste, se sabias que o povo não era Deus, se sabias que o povo era fraco?
Mundo, mundo, vasto mundo, se o Delfim se chamasse Raimundo, seria uma rima, não uma solução. Mundo, mundo, vasto mundo, mais vasta é a nossa inflação.
Eu não devia te dizer, mas esta miséria, essa dívida externa, botam a gente p(*)to da vida como o diabo!”

06/12/1980 – Delfim prometeu e encheu…

Quando foi nomeado ministro da Agricultura, no início do ano passado, o Prof. Antonio Delfim Netto prometeu encher a panela do povo. Depois, ele foi transferido para o Ministério do Planejamento, mas parece não ter se esquecido de sua promessa…

Agora vejam só que delícia: gasolina a Cr$ 51,00 o litro, gás de cozinha a Cr$ 250,00 o botijão de treze quilos, óleo diesel a Cr$ 20,00 o litro, óleo combustível a Cr$ 12,10 o quilo para o tipo ABPF e Cr$ 15,10 para o OBTE (sei lá que diabo é isso). O litro de álcool carburante subiu para Cr$ 27,50, e o querosene de aviação para Cr$ 17,00 para vôos domésticos e Cr$ 21,00 para vôos internacionais. Ah, o querosene lampante irá para Cr$ 20,00 o litro.

E tem mais: isso não vai ficar assim, não, pois daqui um mês vai subir tudo de novo. Delfim garante que em janeiro teremos mais 10% de aumento, no mínimo. Desse modo, o consumidor irá forçosamente consumir menos, diminuindo a nossa conta de petróleo, segundo o ilustre professor-ministro.

Bem, a questão da panela do pobre já não é mais da competência dele, e sim da de seu amigo Amaury Stábile, o famoso homem da sojoada. Há quem diga que a panela do pobre continua cada vez mais vazia, pois esses aumentos constantes de gasolina e outros derivados de petróleo encarecem os meios de transporte e causam uma alta geral dos preços. Mas, conforme o digníssimo senhor ministro do planejamento explicou, isso é apenas um mal necessário…

Vejam bem: com tudo o que está acontecendo, tivemos uma super safra este ano, de soja, milho e outros grãos. Verdade que cerca de 30% da safra se perdeu, por falta de transporte, e outro tanto ficou encalhado, porque os EEUU preferiram comprar farinha de peixe do Japão, a adquirir a soja brasileira, já que o destino dessas compras era mesmo a alimentação do gado norteamericano.

E já que o gado não vai comer a nossa soja, o jeito é tentar forçar o povo brasileiro a comê-la, na feijoada, em lugar da carne, como leite (Bleaghh!) e assim por diante. O povo não tem do que se queixar… O professor Antoninho (como sua digníssima esposa o chama), prometeu encher, e encheu mesmo. Se não foi a panela do povo, deve ter sido outra coisa qualquer. E como encheu!

07/12/1980 – João Quixote e Delfim dela Pança

Num lugar qualquer, cujo nome não quero me lembrar, havia um fidalgo de pavio curto e cavalo baio, chamado João Quixote. Era apaixonado pelos livros de cavalaria e pela donzela Democracia, que certa vez jurou conquistar. Um dia, montado em seu cavalo Complexinante, e acompanhado de seu fiel escudeiro Delfim Pança, saiu em busca de aventuras…

Na verdade, ele pretendia se encontrar com sua amada donzela, mas, no caminho de sua morada deparou com moinhos de vento que, altaneiros, surgiam sobre uma colina, em meio a um campo de soja.

Ao vê-los, João Quixote tomou-os por gigantes opositores e exclamou, apontando-lhes sua lança:

– Vede, fiel escudeiro: aqueles gigantes querem deter minha caminhada rumo à Democracia… Mas eu os derrotarei! – E, assim dizendo, arremeteu contra os moinhos, esporeando seu cavalo.

De nada adiantaram os protestos de Delfim Pança, que tentava avisar ao fidalgo cavaleiro de que aquilo era apenas um conjunto de moinhos… O valente João Quixote galopou contra o maior dos gigantes e, furiosamente, espetou uma de suas pás com a lança…

– Cabrum! – Não deu outra: a pá estava girando, levada pelo vento, e o fidalgo foi arrancado da sela de sua montaria, estatelando-se no chão. O fiel escudeiro correu em seu socorro, erguendo seu amo que estava todo dolorido.

– Maldição! – Exclamou o cavaleiro – Um feiticeiro transformou os gigantes em moinhos de vento, só para me enganar. Mas, quando eu pegar esse feiticeiro, eu o prendo e arrebento! Ele também se opõe a mim!

Nada disse o escudeiro, que limitou-se a carregar o amo de volta à sela de seu cavalo, conduzindo-o à taberna mais próxima, para refazerem ambos as forças. Mas, ao entrarem na taberna, depararam com a donzela tão sonhada, a Democracia, flertando com outro pretendente, que não o valoroso João…

Horas mais tarde, afogando as mágoas em vinho, João Quixote confidenciou ao escudeiro as suas mais recônditas dores, dizendo:

– Sabe de uma coisa, Delfim Pança? Pra mim, essa Democracia também é da oposição… Eu tento conviver com ela, mas isso está cada vez mais difícil!

Nada disse o fiel escudeiro, pois, nessas alturas, já estava de porre.

09/12/1980 – João Goulart, quem diria…

O ex-presidente João Goulart, quem diria, acabou virando nome de Rua em Campinas! Como uma pesquisa do JH mostrou que quase ninguém mais se lembra dele, e as novas gerações nem sabem quem ele foi, darei minha modesta contribuição de testemunha ocular da História e direi aos jovens quem ele foi:

João Belchior Marques Goulart, o “Jango”, afilhado de Getúlio Vargas, foi ministro do Trabalho de 1951 a 1954, tendo se tornado muito querido pelas classes operárias, que o elegeram vice-presidente da República em 1960. Com a renúncia de Jânio Quadros, em 1961, assumiu a presidência graças a uma grande campanha levada a efeito por seu cunhado, Leonel Brizola, ex-governador do Rio Grande do Sul, a chamada “Campanha da Legalidade”, que garantiu a posse de Goulart, mesmo contra algumas correntes militares que já se opunham a ele.

Todavia, Goulart assumiu o cargo sob o regime parlamentarista, uma espécie de “fórmula mágica” descoberta para acalmar os ânimos, que instituía o cargo de 1º ministro do Brasil e fazia o presidente governar, mas não mandar. Entretanto, o parlamentarismo precisava ser referendado pelo povo, em plebiscito, tendo sido recusado por imensa maioria da população, com um sonoro não.

Assumindo plenamente seus poderes em 1962, Goulart passou a fazer um governo nacionalista, dando apoio aos sindicatos operários, propondo uma reforma agrária, e decretando uma lei que limitava a remessa de lucros para o exterior, de parte das grandes empresas multinacionais que já operavam no Brasil.

Com essa lei, a oposição de facções militares contra ele aumentou, sendo que alguns setores começaram a conspirar contra seu governo. Acusado de tentar uma aliança com comunistas, Goulart passou a sofrer grande ofensiva, agravada por greves, pequenas insurreições de marinheiros e soldados, e uma inflação considerada incrível, de cerca de 80% ao ano… E foi assim que ele foi derrubado do poder no dia 1º de abril de 1964, por um golpe militar que ficaria conhecido como “Revolução de 31 de março”. Morreu no exílio, há 3 anos.

Não creio que João Goulart tivesse se ligado a setores comunistas e, em minha opinião pessoal, foi um nacionalista e um idealista. O mais importante é que foi o último a ser eleito pelo povo, e merece a homenagem que recebeu da Câmara Municipal de Campinas. Como bom gaúcho, ele dizia que “depois que a boiada passa, a poeira abaixa”… E parece que ele tinha razão!

10/12/1980 – Meu querido Papai Noel…

O Natal se aproxima e o Papai Noel já está recebendo inúmeras cartinhas pedindo presentes. Em um furo de reportagem, conseguimos que o bom velhinho nos cedesse algumas delas, que publicamos hoje, omitindo só a assinatura:

“Meu querido Papai Noel,

Agora que eu já aprendeu linguagem de branco, e também malandragem de branco e besteiragem toda de branco, eu resolveu mandar cartinha para você, pedindo um grande presente: que branco para de invadir terra de índio, de levar sarampo pra índio e de ensinar sacanagem pra índio. Eu também pede pra você não esquecer de trazer pilha nova pra gravador, pra índio poder gravar todas mentiras de branco”.

  1. a) …….

“Meu querido Papai Noel,

Eu queria fazer um grande pedido para o senhor: que, em 1981, os políticos da oposição passem todos para a situação, e que os da situação parem de passar para a oposição. Sabe, eu não aguento mais conversar com a oposição, pois está cada dia mais difícil conviver com ela! Olha que eu expludo, esqueço das minha promessas, prendo e arrebento!

  1. a) …….

“Meu querido Papai Noel,

Neste Natal, eu queria um presente muito especial: como acabo de ser empossado em importante cargo e estou ministro, tenho ouvido boatos mal intencionados que afirmam que eu nunca li um livro na minha vida. Assim sendo, aproveito o ensejo para pedir ao senhor um livro de presente, que é para acabar com essas intrigas todas. Ah, sim, não serve “O Tempo e o Vento”, de Érico Veríssimo, porque eu já li um pedaço quando estava na escola”.

  1. a) …….

“Meu querido Papai Noel,

Pelo amor de Deus, faça com que eu encontre petróleo na bacia do Paraná, se não vou ficar desacreditado e minha candidatura a presidente vai pra cucuia!”

  1. a) …….

11/12/1980 – A canção assassinada

Tremenda sacanagem! Em poucos dias, dois compositores maravilhosos deixaram este mundo: Cartola e John Lennon… O primeiro ainda vá, já tinha idade e estava muito doente, mas o segundo, não dá pra entender. John Lennon vendia saúde e era apenas um mês mais velho do que eu.

E tem mais: não acredito que pudesse haver nenhum motivo para alguém desferir cinco tiros no compositor inglês, à queima-roupa e pelas costas. Lennon não era político e só fazia canções maravilhosas. Sei que vão dizer que o assassino de John é um louco, que ele agiu sob o efeito de alguma psicose, mas isso não conforte, não convence, não explica…

O ex-Beatle sempre foi um dos meus compositores estrangeiros preferidos, se não o preferido. Há poucos anos, quando eu usava cabelo mais comprido e óculos redondos, me senti lisonjeado quando muitas vezes fui apontado como sósia de Lennon, embora eu não fizesse nada, propositalmente, para me assemelhar ao compositor, cantor e poeta que fez vibrar toda uma geração.

Com a morte de Lennon não termina apenas o sonho de ver os Beatles reunidos outra vez, termina a produção poética e musical de um talento comparável a Bach, Beethoven e Mozart que, juntamente com Paul McCartney, fez as mais belas canções de nosso tempo.

Lennon já faz parte do passado, do “Yesterday”, e morreu sem ao menos pedir por socorro, “Help”, em uma noite depois de um dia duro, “A Hard Day’s Night”. Mas não quero fazer graça com estas comparações entre sua morte e sua obra… Na verdade estou muito triste. Mas, deixa estar, John Lennon, “Let It Be”, que o mundo jamais esquecerá a sua obra, as suas canções, as suas melodias.

É muito difícil fazer um necrológio de um gênio, não há palavras para definir o que se sente ao saber de tão grande perda para o mundo. A única coisa que posso dizer é que John Lennon não morreu e não morrerá nunca, apenas seu corpo foi destruído estupidamente por cinco balas assassinas. Como derradeira homenagem a esse artista maravilhoso que nos deixou tão cedo, enquanto milhares de nulidades estão a vender saúde, só posso dizer: John Lennon, quero apertar sua mão… “I Want to Hold (shake) Your Hand”!

12/12/1980 – Eu não quero nem saber…

Quem tem mais de 30 anos deve se lembrar de uma brincadeira que se tornou muito popular há uns 20 anos, que começava sempre com a mesma frase: -“Eu não quero nem saber quem foi…” – e terminava com um trocadilho.

Estudantes, jovens em geral, brincalhões e gozadores em particular, adoravam inventar novas frases desse tipo, sempre muito espirituosas. A coisa evoluiu a ponto de ser gravada uma música de carnaval com esse tema: – “Eu não quero saber…”, cantada pelo palhaço Pimentinha, então muito conhecido.

Naquele tempo, as frases que se tornaram mais conhecidas foram: – “Eu não quero nem saber quem foi que deu talidomida pra mãe do Saci!” – Ou “…que deu pervintin pra coruja!” – Ou “…que envernizou as asas da barata”, “…que espichou o pescoço da girafa”.

Às vezes surgiam frases ainda mais espirituosas, como por exemplo: “Eu não quero nem saber quem foi que expulsou o São Bernardo do Campo!” – Frase que logo foi respondida assim: – “Vai ver que foi u Juiz de Fora!”

Era uma brincadeira inocente, que logo foi esquecida. Todavia, resolvi reativá-la e atualizá-la, para conhecimento das novas gerações. Assim sendo, eu não quero nem saber quem foi…

…que pintou a Casa Branca.
…que deixou a Serra Pelada.
…que acabou com o óleo do Carter.
…que esvaziou a Câmara dos Deputados.
…que não quis se casar com a Ilha Solteira.
…que puxou as orelhas do Cals.
…que deu fim na nossa economia.
…que pichou a Ponte Preta.
…que deixou o Passarinho abrir o bico.

Agora, o que eu quero saber mesmo é quem foi que elevou o preço do feijão para Cr$ 170,00, quem é que vai segurar a nossa inflação, quem vai acabar com as filas do INAMPS, quem vai pagar nossa dívida externa e quem é que vai devolver o País à normalidade democrática. Sem brincadeira!

13/12/1980 – Alô, alô, senhor Delfim

Eu queria mandar um recado para o Professor Antoninho, mas não sabia como. De repente, ouvindo a música “Alô, Alô, Marciano!”, cantada pela Elis Regina, achei o jeito certo. E aí vai a paródia, para ele curtir:

Alô, alô, Delfim Neto,
Olhe o que fez com a sua terra:
Ninguém aguenta a economia de guerra
E essa dívida é uma loucura!
O povo está na maior fissura, por que…
Tá cada vez mais down no high society,
Down, down, down no high society!
Alô, alô, Delfim Neto,
A crise tá virando zona:
Cada um por si, todo mundo na lona,
Só você tem mordomia,
A nossa gente tá pedindo alforria por que…
Tá cada vez mais down no high society,
Down, down, down no high society!
Alô, alô, Delfim Neto,
A coisa tá ficando ruça:
Muita mutreta, muita bagunça
Gasolina não dá mais pra botar,
Tem sempre um ladrão pra nos roubar, Alá!
Tá cada vez mais down no high society,
Down, down, down no high society!
Alô, alô, Delfim Neto,
Veja o que fez com sua terra:
Sem feijão preto, sem rapadura,
O povo está na maior loucura, por que…
Tá cada vez mais down no high society,
Down, down, down no high society!

E o homem ainda quer distribuir a pobreza! Gente fina é outra coisa, entende?

14/12/1980 – Ser ou estar, eis a questão

“To be, or not to be, that is the question!” – É a fala mais conhecida de Hamlet, príncipe da Dinamarca, na obra de mesmo nome de autoria do imortal teatrólogo inglês William Shakespeare. Traduzida, a frase virou “ser ou não ser, eis a questão”, mas hoje, depois do que ocorreu com o ministro, digo ex-ministro da Educação e Cultura, Eduardo Portella, que declarou que não era ministro, posto que ministro não nascera, e sim que estava ministro, a frase poderia ser traduzida como “ser ou estar, eis a questão”.

Portella tinha razão, visto que estava ministro e não mais está. E assim constatamos que, mesmo não sabendo se o verbo estar é transitivo ou não, facilmente constatamos que é um verbo transitório…

Assim, é muito mais importante ser do que estar. Por exemplo, tem muita gente que é brasileira, maior, vacinada, e está casada, ou está solteira… e amanhã pode não mais estar. Por outro lado, um sujeito tem muito mais valor quando se diz que “fulano é vivo”, do que quando se diz que “fulano está vivo”.

Isso tudo nos leva a sérias considerações transcendentais sobre a existência e durabilidade das coisas. Assim, eu descobri que:

Sou escritor. O Mal(*)f apenas está governador.
Diaféria é um grande jornalista. Geis(*)l só esteve presidente.
O povo é soberano. Delf(*)m Ne(*)o só está ministro.
John Lennon é imortal. J(*)sé Sarn(*)y só está na academia.
Ludw(*)g pode estar ministro, mas nunca será um intelectual.

Realmente, não é por ter lido um pedaço de um livro, ou por ter sido um bom aluno em matemática, que alguém pode julgar que é alguma coisa… Quando muito, pode estar pensando que é. Agora, outra constatação já não é tão feliz, pois, quando vemos a nossa dívida externa, a nossa inflação, o preço do feijão, o aumento da gasolina, a fome no Nordeste, a taxa de mortalidade infantil, os níveis do Imposto de Renda, a opinião do “homem”, os índices de analfabetismo, etc., concluímos que podemos não ser, mas enquanto durar este regime, certamente estamos todos em maus lençóis.

15/12/1980 – E tome dicionário de futebol

Copa – Taça de metal. O mesmo que caneco, que serve para premiar vencedores de grandes torneios. Se inventassem um torneio de incompetência no Governo, seria difícil dizer qual o ministro que iria ficar com a copa.
Coreia – As gerais de um estádio, significando lugar perigoso, onde sai muita briga. Por falar em Coreia, como ficou o caso de Freguesia do Ó, sem M(*)luf?
Coringa – Jogador que atua em várias posições em um time, assim feito o D(*)lfim, que atua em todas as áreas. Mas como joga mal, pombas!
Corneteiro – Boateiro, indivíduo intrigante, geralmente membro de uma torcida, ou ex-membro da direção de um clube. O Governo nem precisa de corneteiros, pois vai de mal a pior mesmo, e isso não é boato.
Corredor – Jogador veloz. Também espaço para penetração em uma defesa aberta (- polonês): – linha dupla formada por jogadores, para punição recreativa. Em Ribeirão Preto, os estudantes formaram um corredor polonês pro seu M(*)luf passar no meio. Jacaré passou? Nem ele.
Corta-luz – Jogada que ilude o adversário, passando entre ele e a bola. Enquanto os demais partidos fazem um corta-luz, o PMDB vai direto a gol.
Corrupio – Jogada na qual um craque, de posse da bola, gira sobre si mesmo para escapar à marcação contrária. Recomenda-se não falar corrupio perto de um certo governador biônico aí, que ele pode entender corrupto.
Cortar – Interceptar um chute; escapar pelo caminho mais curto; driblar um adversário; excluir um jogador de um time ou seleção. Aliás, na seleção do Ministério, os cortes são cada vez mais frequentes. Quem será o próximo?
Costado – Cada uma das faixas do campo que acompanha as linhas laterais. Cada um dos lados do pé ou do corpo do jogador. As costas de um jogador, também. Agora, as costas do povo têm de ser largas, pra aguentar tanta porrada.
Costela – Osso do tórax. Também designação popular de jogador ou time de rendimento muito irregular. E como tem costela nesse Governo…
Costureiro – Músculo da coxa. Também jogador ou time que troca muitos passes, geralmente sem nenhum efeito. Agora, o erário público anda tão cheio de furos que não há costureiro que resolva…

16/12/1980 – Já dá pra balançar 80

Acho que já dá para iniciar um balanço do ano de 1980, o último de uma década idiota que se iniciou em 1971. O ano já começou engraçado, porque muita gente pensou que era o primeiro ano de uma nova década, e a imprensa escrita e falada (e principalmente televisada) até alardeou isso com grande ênfase. Muitos babacas que comemoraram a entrada da nova década a 31 de dezembro de 1979, será que voltarão a comemorar agora, a 31 de dezembro de 1980, ou nem se darão conta da mancada que deram?

O ano foi marcado pela busca desesperada por novas fontes de energia, pela infeliz eleição de Ronald Re(*)gan nos USA, pela estúpida guerra entre Irã e Iraque, pelas declarações infelizes do D(*)lfim, pela inflação galopante, pela perda de poder do PDS, pelas vaias e manifestações contra o M(*)luf, e principalmente pelo desaparecimento de grandes artistas e alguns políticos, e até ex-tiranos.

Idi Am(*)n foi posto para correr de Uganda, Rheza Pahl(*)v e Somoz(*) morreram no exílio, o último de maneira trágica. Sá Carn(*)iro faleceu em um acidente, desfazendo as ilusões de poder da direita em Portugal, mas nem por isso o mundo ficou melhor…

O duro, mesmo, foi a perda de Vinícius de Moraes, Cartola, John Lennon, e outros grandes artistas. O genial Chico Caruso, cartunista e humorista, foi quem melhor definiu essas grandes perdas, ao escrever: “De repente, não mais que de repente, as rosas não falam e o sonho acabou”.

Mas nem tudo foi desgraça em 1980: o cacique Mário Juruna conseguiu ir para Rotterdam, na Holanda, para defender o seu povo; a abertura democrática continuou, apesar de tudo e de todos; o Papa veio ao Brasil e pregou a justiça social; ganhamos medalhas de ouro nas Olimpíadas de Moscou; Flávia Schilling foi libertada dos cárceres uruguaios; as prisões políticas brasileiras ficaram quase vazias, etc.

1980 nos trouxe mais tristezas do que alegrias, e ainda deixou uma grande indagação, depois dos atentados a bomba contra a OAB, a câmara dos deputados do Rio e a Sunab, retratada pelo funcionário da câmara que sobreviveu, embora bastante mutilado, José Ribamar de Freitas, que perguntou: – “Quem fez isso comigo?” – As investigações nada esclareceram e cumpre ao Governo responder.

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Já leste o meu livro? Quem ainda não leu está convidado a conhecer minha biografia de papai, à sua espera nas melhores livrarias: Marsupial – Comix – Cultura 

A História dos Quadrinhos no Brasil, e-book de autoria de papai, pode ser encontrado na Amazon 

Visitem também o Sebo Saidenberg, na Amazon. Estou me desfazendo de alguns livros bastante interessantes.

Palavra e Traço – Outubro de 1980

Se já houvesse internet nos anos 1980, este material seria, muito provavelmente, um blog. Com seu afiado senso crítico, papai comentava um pouco de tudo, de política e políticos a arte e cultura, entremeando aqui e ali com textos muito pessoais e até poéticos, sempre baseado nas últimas notícias e tendências da época.

Algumas destas colunas – publicadas originalmente no “Jornal de Hoje”, de Campinas/SP – são francamente satíricas, outras são terrivelmente irônicas. Muitas delas poderiam terminar com um internético e retumbante “#SQN”, enquanto algumas são gravemente sérias. Parte das situações e problemas aqui descritos parecerão ao leitor bastante surreais. Outros serão perturbadoramente familiares.

01/10/1980 – Nosso destino é pedalar

O Governo, sempre otimista, fala em adotar um racionamento, se a guerra se prolongar. Não será preciso, posto que não haverá derivados de petróleo para todos, postos fecharão por falta de gasolina e óleo, indústrias ficarão parcial ou totalmente paralisadas e faltará comida nos supermercados e feiras livres, por falta de transporte.

Quem tiver um palmo de terra, plante, que o Ivan aqui garante. O negócio é criar galinha, minha gente, ou então comprar alimentos, gasolina, gás de cozinha, etc., no câmbio negro, a partir de janeiro de 1981. Os carros ficarão parados nas garagens e as bicicletas vão triplicar as suas vendas. Pedalando, nosso povo certamente não dirá: – “Oh, que delícia de guerra”…

Eles brigam e nós é que apanhamos… O conflito entre Irã e Iraque vai terminar tragicamente, inclusive para o Brasil, haja vista que nosso Governo está fazendo planos tendo em vista apenas o tempo de duração da guerra e não as suas consequências.

Eu, que não sou ministro do Planejamento, vejo claramente o que vai acontecer num futuro próximo, posto que a minha bola de cristal não está embaçada, ao contrário da do general Gol B. Ry. Mesmo que essa guerra no Oriente Médio termine rapidamente, todas as refinarias de petróleo dos dois países ficaram seriamente avariadas, sendo que nem Irã e nem Iraque poderão exportar petróleo nos próximos seis meses ou mais…

O Governo teve sete anos para tomar providências no sentido de poder substituir o uso do petróleo por outros combustíveis, construir ferrovias eletrificadas, colocar trólebus nas cidades e usar carvão nas indústrias, no lugar de óleo combustível. Mas, os três últimos presidentes militares nada fizeram além de aumentar o preço da gasolina e outros derivados do petróleo, onerando o nosso povo sofrido e causando a maior inflação de todos os tempos. Agora, o fornecimento de petróleo do Brasil ficará reduzido a cerca de 50% e não teremos gasolina, óleo diesel, óleo combustível, gás de cozinha e outros produtos afins, em quantidade suficiente para levar à frente o desenvolvimento do nosso País.

02/10/1980 – Anedotas do Salim

Conta-se que o Salim, não acreditando no IBOPE, que afirmou ser ele o pior governador de todos, saiu disfarçado pelas ruas de São Paulo, fingindo ser pesquisador de opinião pública, munido de um gravador. Logo de cara, topou com autêntico homem do povo, o indivíduo mal vestido e de sapatos furados, provavelmente um privilegiado metalúrgico do ABC…

Ao se identificar como pesquisador, o vale lascou a pergunta, de gravador ligado: – Amigo, o que o senhor acha do Dr. Salim? – ao que o trabalhador respondeu, por sinais, que não estava disposto a responder a essa indagação naquele local. Então o Salim resolveu levar o bom trabalhador para um lugar mais isolado, onde houvesse menos gente e onde pudessem conversar à vontade: a porta de uma igreja.

Repetiu a pergunta, ao que o homem respondeu: – Olha, moço, aqui neste lugar eu não vou falar não… Ainda tem muita gente! – De fato, havia um mendigo pedindo esmolas na escadaria do templo.  Dirigiram se então, o Salim e o operário, para os fundos da igreja, onde havia um cemitério. Repetida a pergunta, o homem do povo ainda assim não quis responder, indicando ao falso pesquisador um casal de namorados que trocava carinhos no local.

Se o problema era testemunhas, o Salim levou o homem para o interior do campo santo, onde não deveria haver ninguém. Assim mesmo, o operário negou se a responder à pergunta, indicando um coveiro que cavava uma sepultura nas proximidades e acrescentando: – Aqui eu não respondo: ainda tem gente escutando!

Já aborrecido, o Salim levou o homem até o local mais ermo do cemitério, onde ninguém, absolutamente ninguém, poderia ouvi-los. – Aqui está bom? – Indagou o Salim – Acho q-que sim… Respondeu, ainda titubeante, o operário, olhando para os lados, com desconfiança.

– Então vamos lá companheiro: diga logo o que o senhor acha do Dr. Salim? – ao que o homem, sempre olhando desconfiado para os lados, respondeu: – P-posso dizer, mesmo? – Pode, aqui não há ninguém! – Redarguiu o Salim. E o homem, meio envergonhado: – E-eu… Eu gosto dele!

03/10/1980 – É pacote ou outro embrulho?

Eu não disse? Em minha coluna do dia 1º eu afirmava: “os três últimos presidentes militares nada fizeram além de aumentar o preço da gasolina e outros derivados do petróleo”… E aí temos a gasolina a Cr$ 45,00 o litro!

Planejar é aumentar preços? E precisa de ministro pra isso? Eis o novo “pacote” de medidas do Governo para fazer frente à guerra entre Irã e Iraque, que cortou em 50% o fornecimento de petróleo ao Brasil: o gás de cozinha subiu 10%, passando o botijão de 13 quilos a custar Cr$ 235,00; o óleo diesel passou para Cr$ 17,30 o litro; o querosene aumentou para Cr$ 15,00 o litro e o combustível teve um reajuste de 20%, assim como a gasolina, passando o tipo BPF para Cr$ 10,00 e o tipo BTE para Cr$ 13,00 o litro.

O álcool para automóveis já havia subido, como medida preliminar, a semana passada, passando para Cr$ 24,00 o litro, mais caro do que muita cachaça tida como “da boa”. E o ministro do planejamento, professor Antonio Delfim Netto, ainda veio com esta: fez um apelo a 23 representantes de associações de redes de supermercados de todo o país para que realizem um esforço adicional sobre os preços de outubro. Traduzindo: ele pediu aos supermercados para manter os preços nos níveis atuais…

Ora isso é inviável na prática. Por mais boa vontade que alguns donos de supermercados tenham, o produto para revenda já chegará aumentado às prateleiras, em virtude do aumento do preço do transporte e da fabricação de muitos alimentos, latarias, etc., já que a maioria das indústrias continua queimando óleo combustível adoidado.

Nenhuma medida de racionamento, nenhum plano a curto prazo para evitar maiores consequências (falta quase total de alimentos nas prateleiras dos supermercados e das bancas das feiras livres) nenhum projeto de incremento das ferrovias, hidrovias, nada de implantação de trólebus nas cidades, nada quanto aumentar a produção de álcool carburante, nem de com substituir o óleo combustível por carvão, nas indústrias. Como eu disse, os três últimos governantes militares só souberam aumentar preços, onerando os já sofrido bolso do povo. Afinal, isso daí é pacote ou é embrulho?

04/10/1980 – Não mais que de repente

De repente, não mais que de repente, o “caso Dallari” mudou de figura: quando até a OAB já perdia totalmente as esperança de conseguir a apuração do caso de agressão violenta sofrida por esse eminente jurista que é o Dr. Dalmo de Abreu Dallari uma carta chegou às mãos de um deputado, parecendo modificar todo esquema que, até o momento, parecia pretender acobertar os autores desse repelente atentado.

O deputado Sérgio dos Santos (PT) foi quem fez a denúncia em plenário da Assembleia Legislativa de São Paulo. Segundo ele, uma carta assinada por um certo “Azambuja” (talvez um codinome), denunciou como um dos autores do atentado um certo “Alemão” (outro codinome) que pertenceria ao Serviço Reservado da Polícia Militar de São Paulo.

O deputado teria conversado com elementos da PM, os quais teriam dito a ele que a carta continha elementos que “correspondiam à verdade”, sendo que a carta contém o timbre reservado do Serviço de Inteligência da PM. O deputado Sérgio dos Santos pretende pedir, num futuro próximo, uma comissão de inquérito para apurar violências eventualmente praticadas por policiais militares.

O autor da carta diz ter acompanhado o desenrolar dos atos de terrorismo em São Paulo e que “o Deops tenta encobrir os responsáveis, porque já sabe que pertencem à PM, uma vez que já foram identificados através de fotografias”. Assim, de acordo com a carta, o jurista Dalmo de Abreu Dallari, às vésperas de ajudar o Papa João Paulo II a rezar a missa no Campo de Marte, teria sido agredido por membros da própria Polícia Militar!

Gente, a denúncia é muito grave, pois, em qualquer país civilizado, a polícia é um órgão de combate ao crime de garantia ou sossego a que têm direito os cidadãos honestos e trabalhadores. Se isso for verdade (rezo para que não seja) todo o governo do Sr. P. Maluf estará comprometido, direta ou indiretamente, com o caso. Se isso for verdade, ficará comprovado ditado popular que diz que “a polícia foi criada para proteger o povo, mas quem é que protege o povo da polícia?”

05/10/1980 – Anedotário político

Dizem que, numa dessas ditaduras por aí, um estudante estava fugindo da polícia política de “el dictador”, depois de uma manifestação de rua, e caiu num rio. O rapaz afundou, voltou à tona e gritou, apavorado:

– Socorro, não sei nadar! Mas nenhum policial ousou se lançar às águas revoltas para resgatá-lo. O rapaz afundou de novo, tornou a voltar à tona, ainda mais apavorado, e gritou – Socorro! S-socorro! E-eu não sei nadar! – Mas, uma vez mais, nenhum policial ousou tentar retirá-lo do rio…

O rapaz afundou de novo, tornou a conseguir sair à tona e gritou mais uma vez: – S-so-socorro… e-eu não sei…glub!…nadar! Glub-glub! – Mas, não tinha jeito mesmo; nenhum agente da lei ousava pular na água para retirar o infeliz. Foi aí que ele, num último lampejo, saiu pela última vez à tona e, juntando todas as suas forças, bradou: – Abaixo a ditadura!

Pulou todo mundo junto.

***

Contam que Carter, Brejnev e outro presidente de um país aí, morreram ao mesmo tempo e foram bater na porta do céu, claro, pois a vida de Presidente é muito sacrificada. Aí, o senhor recebeu os três que, muito curiosos, queriam saber sobre o futuro de seus respectivos países.

O primeiro a ser atendido foi Carter, que perguntou a Deus: – Senhor, quando é que o meu país vai se transformar numa sociedade mais justa, mais humana, menos materialista? O Senhor respondeu, muito sério: – Ih, meu filho, isso vai demorar pelo menos cinco séculos!

Carter, muito nervoso, chorou, chorou, chorou…

Então foi a vez de Brejnev, que perguntou a Deus: – Senhor, quando é que meu país vai se tornar uma nação onde todos possam discordar do governo, pensar diferente, fazer oposição? O Senhor respondeu, muito sério: – Ih, meu filho, isso vai demorar pelo menos dez séculos!

Brejnev, muito nervoso, chorou, chorou, chorou…

Aí, o presidente do tal país aí, chegou para Deus e lascou: – Senhor, quando é que o meu país vai ser um país sério?

O Senhor, muito nervoso, chorou, chorou, chorou…

06/10/1980 – Dicionário do futebol

Cama de gato: falta na qual o jogador simula saltar e, com o corpo, desequilibra o adversário pelas costas.  Na prática, golpe que os políticos da situação costumam aplicar nos da oposição com muita frequência.
Camarote: compartimento privativo nas tribunas. (Assistir de): presenciar um jogo sem preocupação pelo sucesso ou insucesso do mesmo. O D(*)lfim está assistindo à nossa desgraça financeira de camarote.
Cambista: pessoa que vende entradas fora do preço de tabela. Na prática, também gente da “loteria zoológica”, que costuma ir preso, ao contrário dos que bancam a Loteca. A zooteca e outras tecas, que estão sempre numa boa.
Campeão: clube o time vencedor de um torneio; idem, jogador desse time. O seu M(*)luf é campeão entre os campeões de ruindade segundo o Instituto Gallup de opinião pública.
Campo: local onde são realizados os jogos. Na época da greve eu não quero nem saber quem foi que expulsou São Bernardo do campo
Cancha: o local de jogo, o campo. Também experiência. Os operários do ABC têm muita cancha em matéria de correr da polícia.
Caneta: a perna. (Usar a) recorrer à expulsão ou à advertência a um jogador, de parte do juiz. O Governo, quando se sente em inferioridade, costuma usar a caneta contra a oposição.
Canhão: chute muito violento. Também parte de um estribilho que o povo vive usando, embora sem muito sucesso, que é assim: – Mais pão, menos canhão!
Canhoteiro: jogador que chuta de preferência com o pé esquerdo. Na prática, também membro de organização de esquerda, devidamente proscrita.
Canseira: usado na expressão “dar uma canseira”: dar um baile. Quando houver eleição, as oposições vão dar uma canseira no PDS.
Cara: parte central da bola. Na prática, metade do que o povo usa para viver, pois todos sabem que o brasileiro vive só com a cara e a coragem…
Carcará: jogador violento, assim tipo guarda costas de um prefeito aí, que bateu no povo na Freguesia do Ó… Tremendo carcará!

07/10/1980 – Tudo vai bem no INPS

Puxa, que alívio! Como é bom saber que tudo vai bem no INPS… Pelo menos, foi o que fiquei sabendo através de carta que recebi diretamente do ministro Jair Soares, da Previdência e Assistência Social.

Agora eu sei que o mau atendimento que recebi, há cerca de um mês, num posto desse instituto, foi apenas eventual, fruto do mau humor de um funcionário (ou funcionária) que acordou com a pá virada. O mesmo aconteceu com D. Elza Alves Ferreira, moradora aqui na Vila Industrial, a rua Manoel Jorge de Oliveira Rocha, 40. D. Elza é desquitada e, para cuidar de seus filhos, faz transporte de hortaliças (um “trabalho de homem” como ela mesma diz).

Dona Elza, que paga o INPS (ou INAMPS) mensalmente, esteve na sexta feira, ao meio dia, no posto da Av. Campos Salles. Ela precisava entregar apenas uma radiografia de seu filho a um médico, que não estava (por acaso, é claro). Ela precisava esperar e, às 2 da tarde, como já passava da hora de ir trabalhar, D. Elza pediu à funcionária que entregasse ao médico a chapa, quando este chegasse.

A resposta foi agressiva e as duas discutiram. A funcionária deveria estar de mau humor, é evidente. Nada contra o INPS, é claro… A funcionária apenas acha que é normal levar chá de cadeira, segundo declarou a D. Elza. E a funcionária tomou a providência que achava cabível: chamou um guarda que estava de serviço no posto…

Aí o guarda teria dito, sempre segundo a Dona Elza, que “não tem pressa de entregar nada pra médico nenhum. Se alguém morre, é só enterrar!” D. Elza, coitada, chorou e procurou nosso JH, onde declarou que já emagreceu 11 quilos sem saber o motivo, e só não procurou o médico devido ao tratamento e normalmente é dispensado aos dependentes do INPS.

Mas é claro que isso foi apenas uma ocorrência eventual, tal como aquela que aconteceu comigo. Tudo vai muito bem no INPS, no INAMPS, no IAPAS e no SIMPAS, conforme carta que recebi do ministro Jair Soares. D. Elza só não sabe disso porque nunca recebeu carta de tão insigne pessoa. Tudo vai bem, senhora marquesa, digo D. Elza, tudo vai muito bem…

08/10/1980 – Viva o educador maldito

Paulo Freire, o “educador maldito”, foi um dos indivíduos mais injustiçados pelo regime militar implantado no Brasil em 1964. Responsável pelo programa de alfabetização nacional, no tempo do governo legítimo de João Goulart, Freire foi perseguido e banido do Brasil acusado de ser “comunista”.

Na realidade, Paulo Freire é um educador muito competente, que criou um sistema rápido e prático de alfabetização por imagens com textos curtos, que, se ele não tivesse sido banido, teria alfabetizado toda a população do nosso País, nos dias de hoje.

A injustiça foi parcialmente reparada pelo general Figueiredo, quando da concessão de anistia aos exilados políticos, em 1979. Depois de trabalhar no Chile, nos Estados Unidos e na Suíça, Freire esteve envolvido em importantes projetos educacionais na África, particularmente na Guiné Bissau. Agora, podendo voltar ao Brasil, quem diria… Veio parar em Campinas!

Está de parabéns a Unicamp – Universidade de Campinas, por contratar tão eminente educador escritor, autor de “A Pedagogia do Oprimido” e “Cartas da Guiné Bissau”, apesar de setores reacionários tentarem ter obstado essa contratação, inutilmente. Está de parabéns Campinas, por contar com Paulo Freire, o “educador maldito”.

Nosso país precisa de homens dessa cepa, homens bem intencionados, honestos e idealistas, para erradicar o terrível mal que é o analfabetismo. Já é hora de deixarmos os radicalismo de lado, as ideias pré concebidas e as perseguições políticas, para pensarmos na construção de um Brasil grande, com o auxílio de grandes homens aqui nascidos Pelas bênçãos de Deus.

Paulo Freire estará hoje, às 17 horas, na livraria Ler Bem – Rua General Osório, 1157, falando sobre educação. O povo de Campinas deve comparecer em massa para ver de perto esse homem que já virou lenda, cujo único crime, agora anistiado, foi amar os homens e mulheres simples, as crianças do povo e os oprimidos em geral.

Salve Paulo Freire, que nos dá a honra de contarmos com sua presença em Campinas. Proponho que nossa cidade o chame de “educador bendito“. Bem vindo!

09/10/1980 – “Alemão” é negro?

O secretário de Segurança Pública, desembargador Octávio Gonzaga Júnior, confirmou no último dia 2 que o Serviço Reservado da Polícia Militar tem um policial conhecido pelo apelido de “Alemão”, mas adiantou que não vai investigar se ele participou do atentado o jurista Dalmo de Abreu Dallari, “porque esse agente é uma pessoa de cor escura, e a denúncia que o envolve foi feita anonimamente”.

Como se sabe, a denúncia, feita por um certo “Azambuja”, foi recebida por carta pelo Deputado Sérgio dos Santos (PT), que a leu na tribuna da Assembléia Legislativa de São Paulo. O secretário Gonzaga Júnior disse que, em sua opinião, “o destino natural de cartas anônimas deveria ser a lata do lixo…”

Concordamos com o nobre desembargador nesse ponto, e também com a sua opinião de que “essa carta apócrifa poderia ter partido de grupos de agitadores políticos que não estão na ativa Polícia Militar”. Até aí, é perfeitamente possível. Pode haver pessoa (ou pessoas) com interesses escusos, visando denegrir a nossa valorosa corporação.

No entanto, não concordamos com um ponto: quando o senhor desembargador citou “uma pessoa de cor escura”, estaria se referindo a um negro? Prefiro este termo, que indica uma raça, do que termos como “gente de cor”, “patrício”, “mulato” e outros… Seria então o agente “Alemão” um negro?!

Com todo o respeito que tenho pela raça negra e pelo desembargador-secretário, não posso deixar de estranhar essa afirmativa. É a primeira vez, em 40 anos de janela, que ouço falar em um negro com esse apelido… “Alemão”, via de regra, indica um indivíduo claro, louro, de olhos azuis, alto e forte, como soem ser os alemães em geral.

Não teria o digno secretário de Segurança cometido um pequeno equívoco? Como é que pode? Já pensaram: um agente do Serviço Reservado da PM passando pela rua, um negro (provavelmente alto e forte) e alguém chegar para ele gritar: – Ô Alemão como é que é? Tudo joia?

Iam pensar que era gozação, né?

10/10/1980 – Um herói está nascendo

Confesso que nem sempre admirei o prefeito Francisco Amaral. Um homem que chegou ao poder com o apoio do povo teria por obrigação, a meu ver, apoiar este povo em todas as circunstâncias. E, muitas vezes, achei que o Chico vacilava…

Começou por não realizar muitas obras que se esperavam dele, mas ainda havia uma justificativa: Chico tinha uma bomba em suas mãos, uma prefeitura desfalcada, cheia de dívidas e de problemas, fruto de uma péssima e ultra-demagógica administração anterior, do Sr. L. Gonçalves.

Mas, Chico continuou por pedir sucessivos afastamentos do cargo, alegando problemas de saúde; foi se afastando também do MDB, partido que o elegeu, bem como das lideranças políticas oposicionistas de nossa cidade. E assim, Chico foi se desgastando frente à opinião pública.

Parecia faltar-lhe pulso, poder decisório, uma série de coisas que se espera de um homem público, de um administrador. De súbito, Francisco Amaral mostrou-se totalmente diferente da imagem que já se tinha dele, ao decretar o direito de uso, por 10 anos, dos terrenos da municipalidade por parte dos favelados de Campinas.

E, enfrentando todas as ameaças de “impeachment” feitas por um vereador de seu próprio partido, o PP, Chico decidiu-se agora a doar terrenos os desprotegidos da sorte, em caráter definitivo!

Eis aí uma brilhante decisão, que só pode partir de um homem de grande visão, com um coração maior do que o peito. Francisco Amaral, nesse instante, justifica o voto de milhares de Campineiros que o fizeram prefeito. E prova ser uma das poucas exceções neste País, onde um modelo concentrador de renda, instituído nos últimos 16 anos, colocou nas mãos de uns poucos, todo o dinheiro e todos os bens, em detrimento de milhões de abandonados.

Redime-se o Chico de quaisquer erros passados, ao tomar a defesa dos esquecidos, dos humildes, dos desamparados da sorte. Eis que nasce um herói nesta Campinas de tantas glórias: Francisco Amaral, o defensor dos fracos e oprimidos, pobres e favelados.

11/10/1980 – Maluf e as verbas

Greve entre os médicos residentes e alunos do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Unicamp! Quem sai perdendo, naturalmente, é o povo de Campinas, que não terá atendimento através da Santa Casa, bem como todo o povo da região. E a culpa, segundo os estudantes, é do Sr. P. Maluf, que cortou verbas necessárias à faculdade.

Em passeata realizada pelo centro da cidade, no último dia 8, os estudantes em greve distribuíram uma carta aberta à população, cuja íntegra é a seguinte: “Nós, médicos residentes e alunos do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Unicamp (Santa Casa e hospital de Barão Geraldo), estamos em greve.

Somos responsáveis por todo o atendimento médico de uma boa parte da população, que não vai ser feito (a não ser os casos de emergência), até que nossos problemas se resolvam. Dessa forma, a população de Campinas e região, que não tem INPS, não será mais atendida durante esse período.

O motivo de tudo isso está na política administrativa do Estado de São Paulo e, infelizmente, apoiada pela reitoria da UNICAMP. Foi negado a universidade o dinheiro necessário para pagamento dos médicos residentes que dão atendimento nos hospitais. Mais uma vez, a universidade sofre com o duro corte de verbas que está sendo imposto pelo Governador Maluf e, dessa vez, sem que nossa reitoria se posicione contra ou a favor.

Para garantir o direito à saúde de nosso povo é o nosso direito à residência, estamos paralisados, contando com o apoio de toda a população”.

A greve dos residentes e alunos é mais do que justa, mas prejudica o povo em geral. É muito triste ver o nosso País caminhar para esse estado de coisas, com verbas de apenas 4% do orçamento da União destinadas à educação e com cortes de verba no âmbito estadual, verbas essas certamente destinadas à mudança da Capital e outros projetos “prioritários”.

Entre outros refrões, ouvi um grupo de estudantes gritar, em pleno Largo do Rosário, no último dia 8: – Puf, puf, puf!! Assim não dá, seu Maluf!” – Além do já tradicional: – “1, 2, 3, Maluf no xadrez”.

12/10/1980 – Anedotas do Salim

Dizem que o Salim, numa dessas incursões pelo interior feitas pela famosa “Caravana da Alegria”, chegou a uma cidadezinha e, todo cheio de pose, se pôs a discursar, negando acusações que estavam sendo feitas contra ele na Capital, de desvios de verbas, malversação dos dinheiros públicos, etc.

Subindo ao palanque, ao lado do prefeito, de toda a sua comitiva e de seus muitos guarda costas, mandou esta: – Eu sou pela honestidade! Eu sou a própria honestidade em pessoa! – e o povo quieto, só escutando. Aí, o Salim se entusiasmou e lascou mais esta: – É tudo intriga! Eu sou um homem honestíssimo! – E o povo, quieto. Aí ele achou que já era dono da situação e, batendo no peito, bem acima do bolso esquerdo do paletó, bradou: – Neste bolso nunca entrou dinheiro que não fosse ganho honestamente!

Foi então que, lá no fundo, do meio da multidão, um caipira magrinho e com cara de fome gritou: – Aí em doutor, de paletó novo!

Outra da “Caravana da Alegria”: dizem que o Salim chegou, com sua enorme comitiva e seus muitos guarda costas, em outra cidadezinha do interior, cansado paca, mas tendo de fazer mais discursos. Era a quinta ou sexta cidade que ele visitava naquele dia e o Salim, entre um bocejo e outro, lascou:

– Povo de Tucururí – Epa! – gritou um assessor. E, aproximando-se do Salim, segredou: – não é Tucururí, excelência…

E o Salim, mais do que depressa: – Povo de Taquarará e o assessor, já meio nervoso, sempre cochichando: – não é Taquarará excelência.

Pigarreando, já meio sem graça, franzindo a testa, ele pensou um pouco e mandou lá: Povo de… de Tocororó! – Apavorado, o assessor cochicha de novo: – Também não é Tocororó, excelência!

E o Salim, já p(*)to da vida: – E como é que eu vou saber a diferença? Em todo lugar que eu vou, o povo gritou mesmo refrão: – Um, dois, três, Salim no xadrez!

Dizem que, na “Caravana da Alegria”, se gritar pega ladrão não fica um meu irmão…

13/10/1980 – Dicionário do futebol

Careca – campo sem grama; jogo sem entusiasmo. Na prática, o povo está careca de saber que, no jogo do governo, ele não tem vez.
Carimbar – Atingir com a bola, violentamente. (A faixa): derrotar equipe que acaba de sagrar campeã. A equipe do M(*)luf é campeã indiscutível de ruindade, e essa faixa ninguém carimba!
Carnaval – (Fazer um): dominar amplamente o jogo. O pMDB, nas eleições de 1982. vai fazer um carnaval
Carniceiro – Jogador violento e brutal. Na Freguesia do Ó, os carniceiros transformaram os populares em “fregueses do Ai!”
Carnificina – Jogo violento, pancadaria. (Ver o conceito acima).
Caroço – A bola; também contusão, hematoma, calombo. (Também o que sobra para o povo, em decorrência dos dois conceitos acima).
Carrapato – Defensor que marca o adversário de perto, não se afastando dele um só instante. O povo está atento ao que o M(*)luf faz, feito carrapato, só para ver qual vai ser a próxima sacanagem…
Carrinho – Forma de desarmar o adversário, na qual o jogador se atira ao solo e desliza parcialmente deitado. Na prática, forma de correr dos carniceiros da Freguesia do Ó, e única maneira de escapar inteiro.
Cartão – Pedaço retangular de cartolina colorida, que o juiz exibir para os jogadores, para indicar um tipo de punição. (Amarelo): advertência; (Vermelho): expulsão de Campo. Do jeito que as coisas vão mal, logo vai ter ministro da área econômica levando cartão vermelho.
Cartar – Jactar-se, vangloriar-se sem motivo. Pois é, os ministros referidos estão cartando muito, mas estão perdendo o cartaz.
Carregador de piano – Jogador que assume toda responsabilidade da partida nos ombros. O povo é um autêntico carregador de piano, f… e mal pago.
Cartola – Denominação irônica aplicada dirigentes de clubes ou entidades. Na prática, político do Governo que vai pras “Oropas”, na maior mordomia.
Cartucho – Investida, ataque, oportunidade. (Os últimos): as derradeiras chances. Na luta contra a inflação, o Governo está queimando os últimos…

14/10/1980 – Cantinho de poesia

Continuando a cultuar as musas do Parnaso, vamos apresentar uma paródia de “A Serra do Rola Moça”, do imortal Mário de Andrade (1893 – 1945), AUTOR DE “Macunaíma” e de muitos livros de poesia.

A paródia se chama…

O Preço da Gasolina

O preço da gasolina /Não era tão alto, não…
Ela vinha do outro lado, /Do outro lado do mar. /E os homens andavam de carro, /Em vez de bicicleta e cavalo.
Antes que chegasse a guerra, /Ela nunca iria faltar, /Dizendo adeus para todos… /Ela chegava certinho, /E os homens andavam de carro, /Em vez de bicicleta e cavalo.
Motoristas andavam felizes, /Na altura, tudo era paz… Pelas estradas do mundo, /Carros na frente e atrás. /E riam, como eles riam! /Riam até sem razão. O preço da gasolina /Não era tão alto, não.
Os estrondos rubos da guerra /Rapidamente surgiram, /E apressados nos seguiram, /Nos carros e nos caminhões, /Avisando da noite que vinha.
Porém, os governantes continuavam, /Cada qual no seu cavalo, /E riam, como eles riam! /E os risos também rolavam /Pelas estradas de cascalhos. /E os preços, devagarinho, De repente se soltavam, caindo no despenhadeiro.
Ah, fortuna inviolável! /Ninguém tomou providências: /O custo de vida deu um salto, /Precipitado no abismo… /Nenhuma explicação se escutou. /Fez-se um silêncio de morte, /Na altura, mais nada era paz… /O jeito é andar de cavalo, /Pois, no vão do despenhadeiro, /O custo de vida despencou.
E o preço da gasolina /De repente se elevou.

15/10/1980 – Cantigas de roda

Em homenagem à recém-finda “Semana da Criança”, apresentamos velhas cantigas de roda, com novas letras, é claro:

M(*)luf brigou com o povo, /No alto da Freguesia, /O povo saiu ferido, /M(*)luf ainda se ria…
O povo vive doente, M(*)luf vive a folgar; /Mas, quando tiver eleição, /M(*)luf é quem vai chorar!

Cai, cai, gordão, / Cai, cai, gordão, /Por causa da inflação…
– Caio não, caio não, caio não, /Tou com tudo em minha mão!

Bicho inflação, /Sai de cima do meu ordenado,
Diga pro D(*)lfim /Deixar meu bolso sossegado.

Tutu que eu ganhar, /Você quer papar…
Mas hei de ver o dia /Em que você vai se estrepar!

Que é da minha comida? /O que, o que, o que?
Que é da minha comida? /O que se vai fazer?
Tirando um ministro, /O que, o que, o que?
Tirando um ministro, /O que vai acontecer?
Tirando dois ministros, /O que, o que, o que?
Tirando dois ministros, /É que eu quero ver…
Tirando três ministros, /O que, o que, o que?
Tirando três ministros, /O povo vai comer…

Dizei senhor presidente, /Se a vida vai “melhorá”
Só para o filho do conde, /Ou pra nação em “gerá”?

A abertura que tu me deste /Era pouca e se acabou,
A inflação, que tu detinhas, /Já faz tempo que estourou!

Se o mandato, se o mandato fosse meu, /Não deixava, não deixava prorrogar, /Pois o povo está cansado de mamatas, /E nas urnas o seu voto quer botar.

Palma, palma, palma, /Pé, pé, pé,
Roda, roda, rosa, /E a eleição, /Como é que é?!

16/10/1980 – Pode mandar brasa!

O pMDB realizou, em todo o país, a eleição de comissões executivas e diretórios, aproveitando o ensejo para tornar público o seu programa básico. Em resumo, o programa é o seguinte: 1 -“O compromisso fundamental do pMDB é com a democracia”. 2 – “O pMDB será a expressão política da maioria da população brasileira”. 3 – “O pMDB defenderá, intransigentemente, o interesse nacional”. 4 – “As camadas populares devem participar ativamente da vida partidária”. 5 – “O pMDB, dentro dos limites de sua linha programática, assegurará a seus filiados liberdade de atuação no âmbito de suas atividades profissionais e de sua inserção dos movimentos de massa”. 6 – “Como partido democrático, o pMDB reconhece a legitimidade de eventuais divergências entre seus membros e da existência de correntes de opinião”. 7 – “O pMDB considera que o trabalho é o fundamento da riqueza coletiva”. 8 – “Para o Partido tanto as empresas de propriedade estatal, quanto as de propriedade privada deverão pautar suas decisões de produção e gestão segundo o interesse público”. 9 – “O pMDB considera que a democratização do sistema de produção requer a democratização interna das grandes empresas, públicas ou privadas, com a participação dos trabalhadores e dos acionistas e cotistas minoritários, em seus processos decisórios”. 10 – “O pMDB moverá implacável combate contra a corrupção”. 11 – “O pMDB é um partido genuinamente brasileiro e popular. Fundado nesses princípios, o pMDB apresenta as diretrizes para a construção de uma democracia que compatibilize desenvolvimento, liberdade, igualdade e justiça social”.

Além disso, em seu programa, o Partido defende os direitos dos trabalhadores, dos sindicatos, da mulher, do negro, do índio, dos jovens, dos menores, dos analfabetos e de todos os setores marginalizados pela atual conjuntura social. Prega melhor distribuição de renda, reforma tributária, solução para as dívidas interna e externa, reforma do sistema bancário, solução para a questão energética, para o capital estrangeiro, para as pequenas e médias empresas, para a estrutura agrária e desigualdades regionais.

Gostei do programa. É isso daí pessoal: pode mandar brasa!

(Nota da filha: pois é, PMDB… Quem te viu, quem te vê… Esse partido foi a pior decepção de qualquer cidadão democrata brasileiro nos últimos 30 anos. Ainda bem que meu pai faleceu antes de ver no que essa gente se tornou. E eu sincera e humildemente peço desculpas aos leitores deste blog por toda a “rasgação de seda” de meu pai para essa gente, mas, naqueles tempos, quem poderia adivinhar?)

17/10/1980 – O sequestro tudo bem

O Brasil precisa entender uma coisa: há sequestros e sequestros…  Explicando melhor: sequestro – sm.Jur. – é (de acordo com Aurélio Buarque de Holanda Ferreira) – “1 – Apreensão judicial de bem litigioso, para assegurar a entrega, oportunamente, à pessoa a quem se reconheça que ele deve tocar. 2 –  o crime de reter ilegalmente alguém, privando-o da liberdade”.

Assim, sequestros legais e ilegais. Um amigo meu, admirador do governo, estava me explicando isso, há dias, a respeito do desvio pra Brasília de um avião da Varig, em voo internacional que deveria ser direto dos Estados Unidos para o Rio de Janeiro.

Esse desvio aconteceu porque o ministro Ernane Galvêas estava a bordo do avião, e ele não podia perder a partida para o Chile, em outro voo, especial.

Vejam bem a argumentação do meu amigo: esse desvio, que está sendo considerado como “sequestro” por setores políticos nacionais, foi perfeitamente legal, pois o ministro Galvêas jamais poderia perder o voo para o Chile, onde, em companhia do presidente-general Figueiredo e outros ministros, iria fazer uma visita de Cortesia ao país amigo, e ao “muy amigo” general Pinochet.

Notem que o ministro não usou armas de fogo, armas brancas ou granadas, como antes faziam os terroristas, para desviar o voo. Uso apenas o seu prestígio, seu cargo, sua autoridade, para desviar o avião para Brasília; assim, os demais passageiros, que sofreram um atraso de cerca de 3 horas na sua chegada ao Rio, deveriam ter maior compreensão, maior visão política, menos pressa e mais amor ao Brasil. Patriotismo, minha gente!

É evidente que os familiares dos passageiros, que estavam no Aeroporto Internacional do Galeão, ficaram muito preocupados com a demora, chegando a pensar na ocorrência de um acidente fatal… Mas, eles também (segundo o meu amigo) deveriam entender a premência da viagem a Brasília, da visita ao país amigo e ao “muy amigo” general Pinochet.

Assim, vejam bem: há sequestros e sequestros. Sequestro ilegal, mesmo, só aquele feito pelos terroristas de esquerda pela força das armas. Para o ministro, tudo; para os terroristas, a Lei!

P.S. – O desvio de rota também nos custou apenas 2000 litros de combustível.

18/10/1980 – Maluf depõe contra

O governador P. Maluf prestou depoimento contra o vereador Sampaio Dória, do PP, em processo que move contra o mesmo, na 19ª Vara Criminal de São Paulo. Em depoimento ao juiz Jarbas Mazzoni, afirmou que se sentiu profundamente ofendido com as expressões “delinquente do Palácio” e “crápula”, que teriam sido usadas pelo vereador, referindo-se a ele.

O governador informou que essas expressões constam de notas taquigráficas de discurso do vereador, a respeito de violências praticadas na Freguesia do Ó, em São Paulo. Por gozar de foro especial, o sr. P. Maluf foi ouvido no próprio Palácio dos Bandeirantes.

Durante seu depoimento, os advogados de defesa, sr. José Carlos Dias e sr. Zé Roberto Leal, perguntaram sobre vários aspectos do caso. O governador negou conhecer o major Carlos Carvalho, o “Taturana”, ou outro membro do SR (Serviço Reservado da PM), mas observou que as violências aconteceram por causa de “faixas ofensivas ao governo e palavras de baixo calão”.

Entretanto, acrescentou que “não pode citar nomes de admiradores” que participaram das violências contra o povo ao defendê-lo, “por estar despachando em local afastado do conflito”.

É por isso que admiro tanto o sr. P. Maluf: ele deveria ganhar o prêmio de “homem de visão” do ano! Notem que o homem é tão iluminado, que chega a ser clarividente. Vejam bem: ele estava despachando em local afastado do conflito, mas sabe que esse aconteceu em virtude da existência de faixas ofensivas ao governo, bem como de termos de baixo calão gritados pelo povo!

Por outro lado, ele desconhece o “Taturana”, ou qualquer outro membro do SR da PM, Mas sabe que os indivíduos que agrediram o povo são seus “admiradores”! E que só fizeram isso no intuito de “defendê-lo”!

Como vemos, a bola de cristal do sr. P. Maluf não está nem um pouco embaçada, ao contrário da do sr Golbery. O sr. P. Maluf é um preclaro iluminado, um vidente, um homem que enxerga mais longe que os homens comuns, aquele que tudo sabe, tudo vê, tudo conhece, mesmo sem estar presente aos acontecimentos, despachando. Prêmio para ele!

19/10/1980 – Muito obrigado, Maluf! (não precisava tanto)

“A verba que o governo do estado pretende destinar à Unicamp, no próximo ano, para a conclusão de suas obras (incluindo Hospital das Clínicas), dará apenas para comprar 5 sacos de cimento”. A informação foi prestada anteontem (16/10) pelo presidente da Comissão de orçamento da Universidade Estadual de Campinas, Eduardo Chaves.

Segundo ele, serão destinados à Unicamp apenas Cr$ 1.000,00, simbolicamente, a título de conclusão de obras. O orçamento total da Universidade prevê gastos da ordem de Cr$ 3,6 bilhões. Isso significa que caiu em 100%, de 79 para 80.

Olha aí, minha gente, deu no jornal (e não foi a garota sapeca em que todos vocês estão pensando, como diz o Roberto Godoy)…  O sr. P. Maluf pretende dar à Unicamp a incrível verba de Cr$ 1.000,00! Mas é muita generosidade da parte dele! Para maior clareza, vou repetir a importância por extenso: um mil cruzeiros.

Como o povo de Campinas deve saber, a Unicamp é um dos maiores centros de estudos da América Latina, empregando 1.300 professores e 2.500 funcionários, contando com educadores como Paulo Freire e cientistas como César Lattes. Para manter seu ritmo normal de trabalho, a Unicamp precisaria de Cr$ 6,4 bilhões no próximo ano. Mas, ao que tudo indica, o ensino gratuito não é precisamente a meta do Governo do sr. P. Maluf…

É por essas e por outras que os estudantes universitários em cantando paródias de músicas para o governador, do tipo desta que vamos transcrever agora:

“O ensino pago não dá para encarar
E um rio de lágrimas o povo vai chorar,
Que nasce da vontade que você tem de malufar,
Que nasce da vontade que você tem de malufar!”

Sinceramente, “malufar” é um neologismo que foge à minha compreensão, mas creio que, com isso, os estudantes desejam agradecer a generosidade do Governador. Obrigado, Maluf!

20/10/1980 – Dicionário de Futebol

Casa: O campo, a localidade ou o país de um time; (da viúva): o gol; (do chapéu): confins do mundo; (do ladrão): Palácio do salim.
Casar: Combinar, apostar. Estou casando uma nota preta no time do pMDB.
Castigo: Derrota clamorosa, assim do tipo que o PDS vai levar em 1982.
Catar: perseguir o adversário vioolentamente; defender a bola (o goleiro); (cavaco): cair de quatro, ficar na posição “em que Napoleão perdeu a guerra”. Quem vai ficar catando cavaco é a liderança do PDS…
Catenácio: Cadeado, ferrolho, retranca. Na prática, Lei de Segurança Nacional, catenácio que só é acionado contra líderes da oposição.
Catimba: Uso de recursos desleais para tetardar ou tumultuar uma partida. O PDS usou de catimba para adiar as eleições, mas vai se dar mal…
Catimbeiro: Aquele que usa da catimba, assim tipo A(*)i Ac(*)el.
Cavadinha: Jogada da extrema para o interior da área. Na prática, pedido de emprego nos altos escalões do Governo. Cavadinha de ouro!
Cavalo: Jogador violento, duro. Também “admirador” do Salim na Freguesia do Ó.
Cego: Mau jogador; juiz incompetente. O Governo, diante da miséria do povo, dá uma de cego. Mas, em terra de cego, quem tem um olho é caolho.
Ceguinha: A perna que o jogador não sabe osar para chutar a bola. O mesmo que “perna boba”, que não sabe onde vai. Um “admirador” do Salim disse que um popular agrediu sua perna com a barriga. Êta perninha boba…
Centerarfe: Centro-médio. Do inglês “center half””. Centerarfe e centrefór costumam ser, também, termos usados por políticos semianalfabetos deste interior de Deus, geralmente do PDS.
Centro: Meio do campo; ato de centrar a bola; local onde baixam espíritos. Tem muita gente torcendo pro Salim cair fora e baixar noutro centro
Cera: Expediente lícito ou ilícito para ganhar tempo. Não adianta fazer cera,  time do PDS, que o resultado do jogo vai ser adverso mesmo.
Cerca: Limites do campo; (ficar na): ficar na reserva. Quem está no time do governo, hoje, pode ficar na cerca daqui dois anos.
Cerca-Lourenço: Jogo sem objetividade, assim tipo planejamento do D(*)lfim.

21/10/1980 – Anedotas do Salim

Contam que o Salim morreu e foi bater na porta do céu, pedindo a São Pedro para entrar. São Pedro mandou o Salim esperar um pouco e foi consultar os arquivos sobre ele. Consultou, consultou, voltou e disse ao Salim: – Olha aqui, distinto, não vai dar pé, não. Consultamos a sua ficha e verificamos que você só sacaneou o povo, a vida inteira.

Mas o Salim era muito persistente e ficou aborrecendo o santo, afirmando que, certa vez, em 1940, tinha dado uma esmola de 500 mil réis a um mendigo. Tinha praticado uma boa ação e, portanto, merecia uma chance de entrar no reino dos céus.

São Pedro voltou a consultar os arquivos e descobriu que era verdade! Estranhamente, o Salim, quando menino, tinha mesmo dado uma esmola! E agora? Era necessário consultar o Senhor a respeito…

São Pedro pediu uma audiência com o Senhor e expôs o caso. Muito calmo e paciente (como sempre), o Senhor perguntou: – Qual foi a boa ação que o Salim praticou, afinal?

E São Pedro respondeu: – Ah, Senhor… Em 1940 ele deu uma esmola de 500 mil réis para um mendigo. E, por isto, insiste em entrar no céu!

O Senhor deu uma pensadinha, cofiou as longas barbas, apalpou seu próprio peito, achou uma moeda e, iluminado, retrucou: – Toma. Devolve a esmola dele com juros e correção e manda esse desgraçado para o inferno!

Esta outra é da “Caravana da Alegria”. Com mais de 500 acompanhantes, o Salim chegou numa cidadezinha do interior, subiu ao palanque ao lado do prefeito local e começou a discursar:

Povo de Xurucucu da Serra! Em meu governo, atendendo à política do nosso amado Presidente, estamos dando ênfase à agricultura! Vamos todos plantar para que, no próximo ano, todos daqui tenham uma mesa farta! Eu quero ver fartura nesta cidade, muita fartura!

E aí o prefeito, que era do partido do governo, quis ajudar o Salim e emendou: – Num pricisa, dotô! Fartura nóis já tem… Farta feijão, farta arroz, farta tudo!

22/10/1980 – O Salim no Palácio

Deve ter sido alguma coisa que eu não comi… A noite passada eu sonhei que o Maluf era presidente! Ou terá sido por causa do infeliz pronunciamento do Abi Ackel no último sábado? Sei lá, só sei que foi um sonho medonho, daqueles em que a gente rola na cama, se mija todo, feito o sonho daquela música da Elba Ramalho…

Maluf era o presidente; e, logo na posse, ele declarava: – “Juro fazer deste país uma democracia!” – E, para tanto, como primeiro ato, assinava um decreto transferindo a capital de Brasília para Malfópolis!

Sob vivas e aclamações do único partido existente legalmente, o PDS (Partido do Salim), Maluf anunciava alguns nomes do seu ministério: Delfim Neto no Planejamento, Abi-Ackel na Justiça, Ernane Galvêas na Fazenda, César Cals nas Minas e Energia, etc., numa renovação total dos quadros.

Sua medida seguinte foi conter a inflação por decreto, limitando-a em 798% ao ano; bem como tabelar o preço do litro de gasolina, prometendo que não passaria de Cr$ 5.897,00 em 1986.

Pensando no grave problema do ensino gratuito, Maluf decretava uma verba extra para a Unicamp, no valor de Cr$ 1.000,00 (um mil cruzeiros), verba esta considerada indispensável para a sobrevivência dessa universidade. Outrossim, também por decreto, extinguia o Instituto Gallup de Opinião Pública por divulgar dados errôneos sobre a opinião do povo a respeito dele.

Prometia anistia para todos, menos para os adversários políticos, bem como propunha realizar a “nova abertura” e a reforma partidária, criando em vez de um partido único, o PDS-1 e o PDS-2, o primeiro a favor do Governo e o outro nem contra nem a favor, muito pelo contrário.

Decretava que o povo brasileiro era o mais feliz do mundo e que a seleção, mesmo eliminada em 1984, era tetracampeã do mundial de futebol; criava um novo dístico patriótico, muito original: “Brasil, ame-o ou deixe-o e depois tinha de emitir 130 milhões de passaportes…

E mais não sei contar porque, nessas alturas, cai da cama todo molhado com 42 graus de febre e gritando: – “Maluf, eu juro, não sonho mais!”

23/10/1980 – Abaixo o estatuto

Nos dias 7, 8 e 10 de agosto último, quando da aprovação do “Estatuto dos Estrangeiros”, escrevi três colunas com os títulos de: “Somos todos estrangeiros”, “O abominável estatuto” e “O estatuto cheira mal”. Nessa ocasião eu afirmava que o tal estatuto era uma forma de calar dos religiosos do Brasil, em sua maioria estrangeiros, particularmente os sacerdotes da Igreja Católica.

Depois de falar do problema dos refugiados políticos, eu dizia, textualmente, no dia 10: – “Além desses infelizes refugiados políticos, ainda temos muitos padres e bispos estrangeiros no Brasil que tem trabalhado em favor do povo sofrido de nosso País. Se esses religiosos não se calarem, serão todos expulsos, dando fim ao seu longo e árduo trabalho em favor das camadas populares de nossa população, justamente os mais carentes e vítimas das maiores injustiças e arbitrariedades”.

Como todos podem ver, minha bola de cristal não está embaçada, como a do Gal. Golbery; o que eu previa se concretizou, no caso do padre Vito Miracapillo, que se recusou a rezar uma missa de “ação de graças” por ocasião do Dia da Independência, por considerar “não existir a efetiva independência do povo”. A expulsão foi decretada pelo Presidente da República e suspensa pelo Supremo Tribunal Federal, a quem coube agora a decisão definitiva sobre o caso.

Mas a quem interessava essa expulsão? O ministro Abi Ackel, da Justiça, encaminhou ao chefe do Gabinete Militar da Presidência da República, no dia 21, general Danilo Venturini, e ao Conselho de Segurança Nacional, a denúncia de que a concretização da expulsão do padre Vito Miracapillo marcará o início de uma onda de violência na Zona da Mata de Pernambuco, patrocinada pela direita radical. Como se nota, o caso do padre de Ribeirão (PE), ainda vai dar muito pano para manga… Como eu dizia, no dia 10/8, “É mister de que o próprio Governo revogue a lei recentemente aprovada por decurso de prazo… General Figueiredo, revogue o “Estatuto dos Estrangeiros” ou estaremos dispostos à vergonha perante todas as nações civilizadas do mundo”.

24/10/1980 – Ainda a expulsão do padre

O episódio da expulsão do padre Vito Miracapillo, pároco de Ribeirão (PE), que se recusou a rezar a missa de “ação de graças” no Dia da Independência, por considerar “não existie efetiva independência do povo”, expulsão essa agora sustada palo Supremo Tribunal Federal, até que seja julgado o pedido de “habeas corpus”, confirmando a liminar concedida pelo ministro Djacir falcão só vem a demonstrar que o “Estatuto dos Estrangeiros”, recentemente aprovado, é uma faca de dois gumes.

A verdade é que a expulsão (ou a tentativa de) do padre foi devida à sua atuação frente à sua paróquia, situada na Zona da Mata do Estado de Pernambuco, e não à sua negativa de rezar uma missa. O padre Vito vinha se mostrando um ingente defensor do povo oprimido, dos lavradores sem terras, dos espoliados do Nordeste. E ninguém é obrigado a rezar missas, no Brasil…

O deputado Marcos Cunha (pMDB-PE), entregou uma série de documentos ao ministro da Justiça, Ibrahim Abi-Ackel, demonstrando que existe um plano de mobilização da extrema direita nessa região da Zona da Mata, liderado por usineiros e grandes proprietários de terras, acrescentando que já existem armas e munição para venda na região.

O ministro encaminhou os documentos diretamente ao Chefe do Gabinete Militar da Presidência da República, general Danilo Venturini, e ao Conselho de Segurança Nacional, dizendo: – “Nunca chegaram a mim provas tão articuladas como estas, sobre o que está acontecendo na Zona da Mata, em Pernambuco”. Outrossim, fatos graves atestam a existência de um grupo de extrema direita na região, como o as invasão da igreja de Ribeirão, na missa de desagravo ao padre Vito, que teria sido comandada pelo presidente da Associação de Fornecedores de Cana de Pernambuco, segundo o deputado Marcos Cunha, sendo que esse presidente é o sr. Antonio Celso Cavalcanti, primo do ex-governador Moura Cavalcanti. Também participaram da invasão o empresário Pedro Ernesto e o funcionário da Secretaria da Agricultura, Claudio Pedrosa.

Urge ao ministro da Justiça, além de lançar candidatos à Presidência em São Paulo, coibir esses atentados da extrema direita no Nordeste.

25/01/80 – Vlado, muito obrigado!

Há cinco anos, no dia 25 de outubro de 1975, o jornalista Vladimir Herzog, nosso amigo e colega “Vlado”, era encontrado morto nas dependências do DOI-CODI, em São Paulo, após uma sessão de “interrogatórios”. O laudo médico, assinado pelo legista Harry Shibata, dava como “causa mortis” o suicídio por asfixia mecânica, ou estrangulamento.

Agora, no último dia 22, o Conselho Regional de Medicina de São Paulo cassou o registro profissional desse médico (ex-médico, se a decisão for confirmada pelo Conselho Federal de Medicina), cujo trabalho, como legista do IML, ao assinar autópsias, nos casos de “suicídio”, sem nem mesmo ver o corpo da vítima, foi considerado aético pelo CRM.

Há exatamente dois anos, a União foi responsabilizada pela morte de “Vlado”, numa sentença histórica assinada pelo juiz Márcio José de Moraes. Ainda que não tenha sido possível provar inteiramente que Herzog foi assassinado, ficou provada a culpa da União na morte de um detido que estava, teoricamente, sob a guarda dos serviços de segurança dessa mesma União.

A morte de “Vlado”, que já virou até livro e peça teatral, ainda vai dar muito o que falar, pois novas provas poderão surgir, no seu devido tempo, para confirmar aquilo em que acreditamos: que Vladimir Herzog não se suicidou na prisão, mesmo porque não havia como fazê-lo.

O que ocorreu com Vladimir poderia ter ocorrido com qualquer um de nós, perticularmente com os que pertencem à nobre classe dos jornalistas profissionais, sempre combatidos por suas ideias liberais e, na maioria das vezes, pelos seus ideais democráticos. A morte de Vlado foi um momento marcante da nossa História, que muito contribuiu para o fim das torturas nas prisões políticas, para o término do AI-5, do arbítrio, para a “abertura” e outras pequenas melhoras que estamos agora presenciando.

Nada mais podendo fazer para homenagear Vladimir Herzog, por ocasião do quinto aniversário de sua morte, só posso agradecer a essa heróico jornalisata a dádiva de sua vida, para que todos nós pudessemos viver melhor. Muito obrigado, “Vlado”! Shalom!

26/10/1980 – Já está pra lá de bagdá

Essa guerra já está pra lá de Bagdá! Depois de um mês e lá vai pedrada de hostilidades, a guerra Irã x Iraque chegou a um impasse. A princípio, parecia que o Iraque iria obter uma vitória rápida, já que o exército do Irã, perto do Iraque, era de araque…

Mas, não. O Iraque mudou sua ofensiva para a região fronteiriça de Shatt-Al-Arab, lutando para tomar cidades já sitiadas como Abadã e Khorramshar, lutando nas ruas, tomando casa por casa, como se fosse primordial tomar a região do canal. Essa briga por Shatt-Al-Arab já chateou todo mundo.

A disputa Irã x Iraque parece não levar a nada, só servindo para destruir poços de petróleo, refinarias e oleodutos. Quero ver quando acabar o ouro negro. No mínimo, as coisas vão ficar pretas…

O caso dos reféns norte americanos, cujo sequestro já dura um ano, não teve ainda uma solução, apesar da guerra. Ele já começa a faltar o óleo em todo o mundo. Nos EEUU, pode faltar até o óleo para o Carter.

Os soviéticos limitaram-se a observar o conflito, atrás das fronteiras do Afeganistão. Ainda bem, porque se a União Soviética intervisse na guerra, aí sim é que a coisa iria ficar ruça.

Os tanques dos iranianos e dos iraquianos vão acabar parando, no meio do deserto, por falta de combustível. Do jeito que estão queimando refinarias, ninguém mais vai poder encher o tanque.

O Aiatolá Khomeini, que depôs o Xá Rezha Pahlevi, foi quem, por sua intransigência, provocou o Iraque a ponto de levá-lo à guerra. E agora, vendo que não tem exército para enfrentar o país rival, só sabe ir à mesquita rezar. Reza, Khomeini, reza…

Ninguém é favorável a guerras, mas o mundo inteiro esperava que, com o conflito, o Aiatolá fosse deposto, já que, pelos seus atos depois que tomou o poder, provou ser uma ameaça mundial. Todavia, faltou habilidade aos iraquianos para chegar a Teerã, e dizem que, agora, eles não Teerã, digo, não terão mais chances de chegar lá.

Afinal, quando é que o Aiatolá vai se atolar?

27/10/1980 – Dicionário de futebol

Cercar – Impedir atuação dos adversários, fechar todos os espaços do campo. (frango) – sofrer (o goleiro) um gol fácil de ser defendido. No episódio do lançamento da candidatura do M(*)luf à Presidência, um ministro aí cercou o maior frango…
Chamar – (dentro -: desafiar, provocar. (na chincha) -: revidar à provocação. O PDS chamou dentro os partidos da oposição, mas vai levar uma chamada na chincha em 1982.
Chambão – Modo violento de deslocar o adversário, usando o tronco ou os ombros. Quem vaia o M(*)luf se arrisca a levar o maior chambão,
Chamuscar – Tocar de leve, mas com força, raspar a bola na trave.O caso da cassação do registro profissional do Sh(*)bata chamuscou a trave…esperamos que o Conselho Federal de Medicina confirme a cassação, fazendo um gol.
Chanca – A chuteira. (Entrar de) -: rebater a bola de qualquer modo, inclusive acertando o adversário. A política do D(*)lfim costuma entrar de chanca na já tão sofrida economia popular…
Chapéu – Jogada em que a bola é lançada por sobre a cabeça do adversário. Já a decisão do ministro Djaci Falcão, concedendo liminar ao padre Vito Miracapillo, ameaçado de expulsão do País, foi de tirar o chapéu!
Charanga – Bandinha musical mais ou menos desorganizada, que apóia um time em suas partidas, assim tipo charanga do Seg(*)lio, que apóia o PDS. E como esse sanfoneiro toca mal, puxa vida!
Chargear – Deslocar o adversário na corrida, com uma pancada de ombro. Constitui infração se feita pelas costas com o braço. No caso das prorrogações de mandato, o PDS chargeou a democracia. Pra mim, foi pênalti!
Charlar – Falar de modo inconsequente, contar vantagem. O M(*)luf anda charlando muito… quero ver nas eleições de 1982. Ah, ah, ah!
Chave – Jogada ensaiada, assim tipo votação de emendas no congresso. O PDS já vem com a chave pronta, para trancar qualquer medida em favor do povo.

28/10/1980 – Meus elogios a Maluf

Tenho de fazer os mais sinceros encômios a Maluf, essa figura impoluta e de caráter sem Jaça que hoje ocupa o palácio dos Bandeirantes. O caso da lançamento da candidatura dele à presidência, pelo ministro Abi-Ackel, vai acabar sendo favorável ao povo brasileiro!

Senão, vejamos: o Governo Federal, até o momento, não se mostrou favorável às eleições diretas para Presidente da República, muito embora tenha aceito as mesmas para governadores estaduais, em 1982. Creio que era pensamento da cúpula do Planalto designar um sucessor (talvez civil) para o general Figueiredo, sucessor esse que seria escolhido indiretamente, pelo Congresso, que, graças à invenção dos “senadores biônicos” e outros pacotes, conta com maioria do PDS.

Entretanto, eis que surge Maluf, de São Paulo para o mundo, com o braço erguido pelo ministro da Justiça, sendo proclamado como candidato. Não sei se foi um ato de cortesia do ministro, ou se houve alguma segunda intenção por trás do lançamento de Maluf à presidência, mas sei que as repercussões foram as mais diversas, em todos os setores da sociedade.

O Palácio do Planalto, através de seu porta voz, o ministro da Comunicação Social, Said Farhat, não condenou a candidatura de Maluf, mas também não a referendou, alegando que ainda é cedo para se pensar em eleições. Mas uma onda de intranquilidade começou a percorrer Brasília…

O sucessor em que o governo pensava, civil ou militar, não sei, não era Maluf, sem nenhuma dúvida. E agora paira uma sombra sobre os planos do Planalto: em relação indireta, o governador de São Paulo é rei, sendo capaz de vencer a convenção do PDS, como já fez para conquistar o governo do estado mais rico da União.

Assim, só resta ao governo federal pensar em eleições diretas para a presidência da república, procurando lançar um candidato que, mesmo sendo do PDS, possa conquistar a simpatia do povo e, quem sabe, vencer as eleições. Quanto a Maluf, só se pode louvar a figura que hoje faz, perante o povo brasileiro, autêntico anticandidato. Meus sinceros encômios.

29/10/1980 – Cantinho de poesia

Tomarei a liberdade de parodiar um dos maiores poetas de todos os tempos: Marcos Vinícius de Melo Morais (1913/1980):

Soneto da Separação (Paródia de poesia com o mesmo título)

De repente meu carro foi prum canto,
Silencioso e quieto como a bruma,
Pois gasolina não tinha nenhuma,
Já que o preço da dita é um espanto.

De repente eu quero um carro a vento,
Ou movido a água, ou quem sabe a chama;
De nada adianta o meu ressentimento,
Pois do meu carro imóvel fez-se drama.

De repente, não mais que de repente,
Fez-se triste quem já foi volante,
Fez-se pedestre quem já rodou contente…

Fez-se do amigo próximo o distante,
Fez-se da vida caminhada errante,
De repente, não mais que de repente!

Inseto! (Paródia da poesia “Mosquito”)

O mundo é mesmo assim:/Tem Salim.
Por que Salim, por que/Eu e você?!
Você é um inseto!/O mais indiscreto
Da Criação…
Tocando um ano/O seu piano,
Sem compaixão!
Tudo de mau/Você faz aqui,
Cara de pau,/Que afana e ri!
Você gostaria/De passar o dia
Numa delegacia?
Gostaria?
Pois você merece ir pra delegacia!

30/10/1980 – O “robotizado” Maluf

Fiz uma descoberta sensacional: Maluf é um robô! Isso mesmo, gente boa, além de ser governador biônico, o homem é um autômato… pelo menos é o que pude deduzir ao ler a entrevista arrancada “a unha” pelo ultraeficiente repórter João Batista Olivi, quando da visita do governador indireto à cidade de Itapira, aqui pertinho de Campinas.

Olivi conseguiu uma carona, meio “na marra”, no carro geladinho 001, onde se instala o governante do maior estado da união (em riqueza), de Itapira a Campinas, tendo conseguido entrevistar Maluf durante parte do percurso. E quem não acreditar que o futuro candidato à presidência da República (pelo menos, se depender do ministro Abi-Ackel) é feito de fios e computadores, que leia (ou releia) este trecho da entrevista, que saiu no JH do dia 25 de outubro próximo passado:

Olivi: – “E o apoio que o senhor ganhou do ministro da Justiça? O Abi-Ackel não queimou o seu nome?”
Maluf: – “Tenho grande apreço pela Unicamp!”
Olivi: – “O senhor não entendeu, estou falando de Abi-Ackel, o ministro…”
Maluf: – “Tenho grande apreço pela Unicamp!”

Ou, mais adiante, este outro trecho:
Olivi: – “E qual é a sua meta?”
Maluf: – “Quero ser um bom governador!”
Olivi: – “E a presidência?”
Maluf: – “Quero ser um bom governador!”
Olivi: – “Todo mundo diz que o senhor é candidato…”
Maluf: – “Quero ser um bom governador!”
Olivi: – “Mas, dr. Paulo, por que é que não abre o jogo?”
Maluf: – “Quero ser um bom governador!”

E, em seguida, Maluf recostou a cabeça e dormiu até o fim da viagem, sem emitir um único ronco! Além de autômato, deve estar com defeito… provavelmente, foi criado pelo dr. Silvana, aquele das histórias do Cap. Marvel.

31/10/1980 – Vamos ter eleições

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Quem disse que este ano não iríamos ter eleições? Dia 4 de novembro nosso destino está em jogo, no pleito que vai ser realizado… Nos EEUU, é claro. Nossos patrões do norte vão ver quem ganha e quem perde.

Bem, quem perde somos nós, brasileiros e latino americanos em geral, qualquer que seja o resultado. Todavia, entre Ronald Reagan e James Earl Carter, só podemos torcer pela vitória deste último, uma vez que Reagan, ex-caubói de Hollywood, já se manifestou favorável às ditaduras e contrário à política de defesa dos direitos humanos.

No dia 20 de agosto, limpando a nossa bola de cristal (que não está embaçada como a do Gen. Golbery), já escrevíamos: “Ronald Reagan, candidato do Partido Republicano à presidência dos USA (e abUSA) foi, na juventude, “astro de cinema”, segundo as agências noticiosas. Segundo essas mesmas agências, cujo noticiário tem sido amplamente divulgado pela Rede Globo, Reagan já ganhou, posto que o outro candidato, James Earl Carter, anda desprestigiado. Mais uma mentira que tentam impingir ao povo brasileiro!”

Hoje, às vésperas das eleições o quadro já mudou e as tais agências noticiosas já admitem que Carter e Reagan estão “empatados”. Todavia, não cremos também nisso: Ronald Reagan já perdeu, de longe. Suas propostas de “endurecimento” da política externa norte americana, de apoio às “nações amigas” dominadas por ditaduras e de “combate ao comunismo” só podem calar entre os setores mais reacionários e extremistas a sociedade do “grande irmão” do norte. E só podem acreditar nelas os radicais de direita aqui do sul.

Foi crendo numa vitória de Reagan no que os extremistas brasileiros andaram pondo as manguinhas de fora, estourando bancas, espancando juristas e parlamentares democratas etc. Mas, como dissemos a 20 de agosto, “esse velho ‘cowboy’ vai cair do cavalo” e, com ele, as esperanças de fechamento das velhas raposas que aqui vegetam.

Mas, o mais triste mesmo, é que, mais uma vez, não poderemos votar nessas eleições tão importantes para o nosso futuro. Quando é que o povo brasileiro vai poder escolher seus governantes?

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