O Arraial do Gordo

História do Gordo, de Ely Barbosa, criada em janeiro de 1988 e publicada pela Editora Abril na revista do personagem número 22 em junho do mesmo ano.

Esta é uma variação sobre um tema que papai já havia usado para o Zé Carioca muitas vezes no passado, em mais um resgate de antigas brincadeiras e tradições brasileiras, desta vez transposto para as crianças do Ely. Leve e divertida, tudo o que acontece nesta história poderia muito bem acontecer em uma dessas festas na casa de qualquer família, a começar pela turma do Jarbas entrando sem pagar.

Todo o conflito da história, aliás, vai girar em volta da rivalidade entre as duas turmas de crianças, com o Gordo fazendo tudo o que pode para tentar não deixar os penetras se divertirem demais às custas dele. Mas, é claro, “santo de casa não faz milagre”, e fica a lição de que ninguém deve fazer uma festa só para a própria diversão, mas sempre tentar proporcionar diversão aos outros, acima de tudo e em primeiro lugar.

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Mancha Negra e a Máquina do Tempo

E assim, meus amigos, chegamos à última revista Disney que eu tenho aqui na coleção. Trata-se da Edição Extra Nº 60, de 1974, que nos traz mais um épico memorável, como muitos outros que papai escreveu para a turma de Patópolis.

Outros exemplos desse tipo de revista especial que ele criou são A Volta Ao Mundo Em 8 Manchas, O Professor Pardal na Atlântida, e Mancha no Espaço. Além disso temos a trilogia de 1983 composta por Uma Aventura No Caribe, Viagem À Patagônia, e Perigo No Pólo Norte. Todas elas mostram seus personagens em grandes aventuras de múltiplas histórias ao redor do mundo, com tramas inspiradas em grandes clássicos da literatura ou em temas de ficção científica.

Hoje a inspiração vem de “A Máquina do Tempo” de H. G. Wells, e de outras histórias similares. O Professor Pardal inventou mais uma dessas máquinas e convida o Mickey, o Pateta, e seus respectivos sobrinhos Chiquinho, Francisquinho e Gilberto, para uma viagem no tempo “educativa”, como se fosse uma excursão escolar. O problema começa quando o Mancha Negra invade o laboratório para fugir da polícia, e acaba caindo, ele também, na máquina ligada.

Com a “transferência automática”, todo dia ao por do sol, papai encontra uma maneira fácil e conveniente de fazer a turma saltar para a próxima etapa, e também para tirá-los das grandes enrascadas nas quais inevitavelmente se envolverão.

Outra “conveniência” usada será um “tradutor universal eletrônico” que, por seu tamanho diminuto, passa a aventura toda sendo confundido com um chiclete ou outro alimento e sendo engolido, ora por um personagem, ora por outro. Quem está com ele tem uma certa vantagem sobre os demais, mas no final nada substituirá o conhecimento de idiomas clássicos do Gilberto. E um viva para os intérpretes humanos!

As seis histórias da série são: Mancha na História (pré história), Mancha no Antigo Egito, Mancha na Grécia Clássica, Mancha em Roma, Mancha na Idade Média, e Mancha na Volta. Em todos os títulos, a palavra “mancha” pode significar uma “mácula”, uma presença negativa.

Todas elas são muito engraçadas e até mesmo educativas. Na pré história eles se verão cara a cara com dinossauros, e no Egito com os guardas do Faraó. É no Egito também que eles pegam as primeiras “passageiras”, duas jovens escravas que lembram bastante os primeiros desenhos do Mickey “das antigas”.

Na Grécia eles passarão um dia com os filósofos enquanto o Mancha vai se ver com o Rei Minos, de Creta. É lá também que o Pateta será considerado um filósofo, por seu jeito “diferentão” de pensar. Será isso um elogio a ele ou uma crítica aos filósofos clássicos?

Mas é com o episódio em Roma que papai realmente se solta e começa a se divertir com a história. Se, até aqui, os idiomas da antiguidade eram retratados com os clichês de costume das HQs, por exemplo, agora ele usará os seus vastos conhecimentos de Latim antigo e da cultura romana para imprimir bastante autenticidade e ainda mais humor às suas piadas. Também nos vemos às voltas com o Imperador Nero, seus legionários e o incêndio de Roma. Além disso recolheremos mais três “companheiros de viagem”, em uma homenagem a Asterix, de Uderzo e Goscinny.

Na Idade Média eles lidam com as superstições e o obscurantismo. É realmente interessante como a História do mundo parece ser uma espiral cíclica, como diziam os antigos filósofos gregos. Essa teoria propõe que a História se repete em ciclos, mas não de modo exatamente igual. Assim, não estaríamos exatamente andando em círculos viciosos, mas subindo por uma espécie de “escada caracol” cósmica. As situações se repetem, mas a cada vez de um modo um pouco diferente.

O que acontece é que, quando a humanidade completou o seu primeiro milênio de Cristandade, com a chegada do ano 1000 depois de Cristo, também havia muitos boatos de que o mundo iria se acabar. As populações da Europa passaram muitos anos sob a nítida impressão de que o fim estava próximo, até que resolveram achar uma “saída honrosa” para desistir da ideia. Será que nós também vamos passar décadas “esperando o meteoro”?

Por fim, na história de volta, papai começa brincando com as percepções do leitor. Tudo leva a crer que eles estão no tempo da fundação de Patópolis, até que o Mancha leva um tiro de uma espingarda de dois canos, que não existia na era colonial. Essa é a primeira dica que papai dá ao leitor de que nem tudo é o que parece e que eles estão, finalmente, de volta aos tempos atuais.

Este é o fim das revistas Disney, mas não do Blog. Eu ainda vou continuar por mais algum tempo, a partir de agora uma vez por semana com as histórias que papai escreveu para o Ely Barbosa, que são as últimas não-Disney que eu tenho na coleção, e em “edição extra” se eu conseguir encontrar alguma revista ou republicação de alguma história Disney que eu anida não tenha comentado.

Meu muito obrigada a todos os que me acompanharam até aqui, feliz Dia das Crianças, a comemorar amanhã, e vamos em frente.

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O Pássaro Da Felicidade

História do Professor Pardal, de 1973.

Para afastar o cansaço das longas horas de trabalho no laboratório e divertir um pouco ao Lampadinha, que parece positivamente entediado, o Prof. Pardal inventa um pássaro mecânico, um brinquedo ao qual chama de “Coió de Mola”, que é uma expressão usada para denotar uma pessoa boba alegre, aquela que se diverte com qualquer bobagem.

Tanto quanto eu sei, esse foi o nome dado no Brasil a um clássico brinquedo norte americano, o Jack In The Box. Ele consiste de uma caixinha com uma manivela que, ao ser girada, dá corda em um mecanismo que faz tocar uma musiquinha e, ao final, faz abrir de repente uma portinhola no topo de onde salta um boneco, o que dá um baita susto na criança e, em seguida, geralmente, também um acesso de riso.

É uma forma simples e boba de diversão, mas funciona. Ao que parece, foi uma coisa que fez muito sucesso com a criançada a partir do pós-guerra e até o início dos anos 1970. Até hoje parece bastante popular.

Já no caso da história de hoje, ela vai funcionar bem até demais. A coisinha mecânica é tão engraçada, e de uma maneira tão gratuita, que até parece mágica. Qualquer pessoa que esteja em sua presença não vai conseguir parar de rir, com resultados hilários até para o leitor.

O interessante é que, apesar da confusão que o brinquedo causa pelas ruas de Patópolis, estão todos se divertindo tanto que nem se importam. E quando ele finalmente para, há até quem fique bravo.

Em 1976 papai voltaria ao tema com O Espelho das Gargalhadas, outro de seus brinquedos prediletos de infância, mas com um efeito exatamente contrário sobre a população da cidade.

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O Cavaleiro Mascarado Ataca Novamente

História do Terremoto, de Ely Barbosa, publicada pela Editora Abril na revista Patrícia número 22 em agosto de 1988.

O terrível ladrão de bonecas ataca novamente, depois de uma história em março do mesmo ano na qual papai nos apresentou o Furacão, primo do Terremoto e tão pestinha quanto ele.

A situação é mais ou menos a mesma: o pestinha odeia bonecas, e também as brincadeiras das meninas com elas, como os concursos de bonecas, e resolve roubar os brinquedos só para chatear e impedir a realização do próximo.

Mas seria fácil (e repetitivo) demais simplesmente seguir a mesma linha da história anterior. Assim, papai começa a brincar com as percepções do leitor, na intenção de “bagunçar o coreto” e deixar a dúvida até os últimos quadrinhos.

Afinal, será que é novamente o Furacão se fazendo passar por Terremoto disfarçado de Zorro, ou será o Terremoto querendo fazer parecer que é o primo, só para disfarçar, ou não será nada disso? Será um bando de moleques?

Até de detetive o Terremoto vai aparecer, para melhor ajudar nas investigações. Ou será que é isso mesmo? O festival de pistas falsas só aumenta e o pestinha, seja ele quem for, é esperto, mas a Patrícia é mais e não vai ter dificuldade alguma em solucionar o mistério.

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Um pouco de História da Arte

Comentar as histórias do meu pai tem sido muito divertido, ao longo de todo esse tempo desde maio de 2013, mas o que eu talvez tenha deixado escapar é que existe uma lógica por trás dessa “bagunça organizada” e que, na verdade, mesmo sem saber, ao cursar Artes Plásticas (Belas Artes – teoria – e Oficinas de Arte – prática) na Universidade de Haifa em Israel eu estava me preparando justamente para isto.

Então, agora que este blog está chegando em sua reta final (tenho histórias Disney para somente mais uma semana, e depois vou diminuir bastante o ritmo com as “não-Disney” restantes) permitam-me elaborar um pouco sobre de onde eu venho em História da Arte e sobre como o que eu aprendi em Haifa é usado aqui.

O método de estudo de História da Arte ensinado na minha época se chamava “arte comparativa”, e consiste em examinar uma obra de arte à luz de outras (por isso vocês me viram muitas vezes citando outras histórias semelhantes de meu pai ao comentar uma delas, ou buscando tão ativamente as referências das fontes de inspiração para elas).

Por exemplo, vamos hoje examinar alguns dos meus quadros prediletos de uma série de grandes mestres, tentar entender como eles se relacionam entre si, de onde buscam suas inspirações e como podem ser na verdade “lidos” como cartas.

O primeiro quadro que eu gostaria de comentar é a Vênus de Urbino, concluído em 1538 pelo mestre Ticiano. Ele, por sua vez, se inspirou na Vênus Adormecida de Giorgione, e acabou inspirando a Manet, já no século XIX (mais sobre isso adiante).

Este quadro é um presente de casamento, uma obra privada que não era destinada à visitação pública em um museu, e apresenta a recém casada em seus últimos momentos como virgem, deitada em seu leito nupcial à espera de seu noivo.

Apesar da sensualidade da obra, tudo nela inspira paz e demonstra “domesticidade”: é a Deusa Vênus da mitologia grega, em toda a sua gloriosa sensualidade, devidamente “domada” pelo casamento Cristão. O lençol branco representa a sua “pureza nupcial”, e o vermelho logo abaixo simboliza a defloração que logo virá. As mulheres ao fundo estão arrumando os baús do dote da noiva (provavelmente desfazendo as malas que ela trouxe da casa do pai dela para sua nova morada) e ela tem, aos seus pés, um cachorrinho adormecido que é o símbolo da fidelidade e paz conjugal.

Nada nela vai contra as crenças estabelecidas, e ao dar o nome de “Vênus” à moça deitada, o pintor faz o possível para distanciá-la de nós no tempo e no espaço e transformar esse corpo nu em uma alegoria, em algo quase não-físico, justamente para não causar escândalo. Não é uma “mulher pelada”: ela é um símbolo da harmonia conjugal que se espera de todo casal. E, naquele tempo, todos acreditavam nesse conceito piamente, como a verdade absoluta.

O próximo quadro parece inocente, mas não é. Concluído em 1767 por Fragonard e de nome O Balanço, ele esconde uma riqueza de detalhes que parecem sem sentido para o observador casual, mas que são bastante significativos para quem sabe vê-los com os olhos certos.

A princípio se percebe só a moça. Mas se observarmos bem, veremos que ela está oscilando entre dois homens: um, mais velho, nas sombras atrás dela, controla o balanço por “rédeas”. Ele pode simbolizar o marido, ou a instituição do casamento. Na frente dela, entre os arbustos, vemos o amante, um rapaz bem mais novo, que se empolga olhando para dentro das dobras da saia dela. Aos pés do homem mais velho, meio escondido entre a folhagem e disfarçado por ela, vemos o “cachorrinho da fidelidade conjugal” latindo, desesperado. Do outro lado, a sandália que voa do pé simboliza os valores morais “soltos” da moça.

Este quadro (e também o Ticiano acima) na verdade conta uma história. Ele é quase um quadrinho de uma história em quadrinhos: a mensagem que ele passa é a de que o adultério pode parecer divertido, mas terá consequências terríveis para a mulher já que, naqueles tempos, havia um castigo para as condenadas pelo “crime de adultério”. Esse castigo era “balançar na ponta de uma corda”, enforcada. E isso, amigos, é o que o balanço simboliza.

E ele também não desafia o “status quo”, mas sim tem a intenção de ser uma “parábola moralizante” para a “educação” das mulheres mais jovens. O escândalo que ele evoca é tanto, que a moça em questão nem precisa estar nua. Mas até aí, ela não é nenhuma figura da mitologia: o que ela representa é uma mulher de carne e osso.

Essa tendência de fazer de cada quadro uma “narrativa moralizante” continuou pelos séculos seguintes: um quadro deveria contar uma história “educativa” e os nus, se presentes, nunca representavam pessoas de carne e osso, mas ideias e ideais “materializados” em figuras alegóricas ou mitológicas.

É o caso, por exemplo, de A Liberdade Guiando o Povo, de 1830, pintado por Eugène DelacroixEsse quadro é o que se chama de “alegoria”, e nem de longe pretende representar um campo de batalha real ou histórico.

Você, leitor, está vendo os lindos seios desnudos da moça com a bandeira, delicadamente pintados em sua modelagem ligeiramente cônica e quase sem mamilos? Então: esse é o jeito que o pintor achou de representar a “liberdade”. (Aliás, qualquer mulher que já chegou em casa, depois de um dia de trabalho duro, morrendo de vontade de tirar aquele sutiã apertado que a incomodou o dia inteiro em nome da estética e do bom convívio social sabe do que eu estou falando). Mas não há nenhuma intenção sexual, aqui: não é uma deusa da sensualidade, não é nem mesmo uma mulher soldado, já que isso não existia naquela época. A nudez dos seios representa somente a liberdade, e só isso.

Mas é agora que as coisas começam a ficar realmente interessantes: com o tempo, e especialmente a partir da segunda metade do século XIX, toda essa ideia do nu feminino como uma “alegoria” já estava bastante desgastada. A sociedade como um todo já não era assim tão inocente nem ingênua, e esse moralismo todo passou a ser usado para tentar disfarçar uma percepção cada vez mais livre da sexualidade por parte do público.

Todo mundo já tinha perfeita consciência do valor erótico da representação de um corpo nu em um quadro, mas ninguém queria dar o braço a torcer e ser o primeiro a reconhecer que ia às exposições de arte só para ver imagens de gente pelada penduradas pelas paredes. É a isso que se chama “hipocrisia puritana”. Assim, os pintores convencionais tentavam servir ao seu público mantendo esta cada vez mais mal disfarçada aura de “inocência” em suas obras, “tingindo” seus nus com um mero verniz de mitologia.

É nesse ponto que chegamos a Alexandre Cabanel e O Nascimento de Vênus, de 1863.

Retirados os querubins alegóricos com seus quase inocentes pipizinhos pendurados no ar e o óbvio pano de fundo marinho sobre o qual a modelo está deitada, resta pouca coisa, além da pele extremamente alva e da total falta de pelos corporais, para criar uma “narrativa” que convença o espectador de que ele está vendo uma figura mitológica e o transporte para um outro tempo e lugar. A impressão que se tem é a de que nem o pintor acredita mais nisso. A técnica de pintura, aliás, pouco faz para disfarçar a sensação de que a “deusa” está na verdade deitada sobre um tablado e que as pedras são nada mais que almofadas. É uma mulher pelada disfarçada de deusa, só isso.

O ano de 1863, aliás, representa o ponto de virada nessa situação: por um lado, desde 1667 a academia de artes estatal do governo francês organizava o “Salão de Paris“, uma prestigiosa exposição anual de artes que pretendia mostrar ao público a mais sublime produção dos mais excelentes artistas da França. Qualquer pintor ou escultor que quisesse ser reconhecido, bem visto, ou pelo menos vender umas obras, tinha obrigatoriamente que fazer parte dele, ou não seria “ninguém”. Ser recusado pelo salão era uma humilhação pública, um atestado oficial da “falta de qualidade” da sua arte. Um desastre. O quadro acima, aliás, fez parte do salão de ’63.

O problema é que a Academia Francesa de Belas Artes estava “engessada” nesse modelo puritano, e o chefe da coisa toda (nem me peça para lembrar o nome dele) era um chato que odiava as vertentes de vanguarda que estavam surgindo, e começou a boicotar ativamente aos realistas e (especialmente) impressionistas da época.

Assim, após fortes protestos e pressões por parte dos artistas boicotados, o imperador Napoleão III organizou o Salão dos Recusados como uma forma de acalmar os ânimos. A princípio visto como uma piada, um monte de “panos quentes”, a verdade é que o salão dos recusados acabou superando o oficial e se tornando o padrão das exposições de arte a partir daí.

Mas a coisa começa a ficar realmente boa agora: recusado em 1863 pelo salão oficial com seu quadro O Almoço sobre a Relva, que foi exposto no salão alternativo já mencionado acima, Édouard Manet em 1865 “emplacou” Olympia, que o salão oficial foi praticamente obrigado a aceitar para afastar acusações de discriminação contra o artista.

Apesar de seu nome, que evoca o Monte Olimpo e seus deuses, Olympia não é nenhuma deusa. Ela não é uma ninfa da mitologia, e não personifica altos ideais como a pureza e a liberdade. Olympia é um tapa na cara da hipocrisia puritana da época.

Inspirada no primeiro quadro que eu mostrei, sua iconografia e simbologia é cuidadosamente estudada para subverter a ideia da Vênus de Urbino e trazê-la para a verdade nua e crua dos “boudoirs” (ou salas privativas) de Paris do século XIX.

Alguns elementos são mantidos, como os lençóis em branco e vermelho, representando a pureza e o sexo, mas a eles é adicionada uma colcha em brocado dourado, representando o dinheiro (misturazinha explosiva, essa, cujo significado não foi perdido pelos visitantes do salão). Os adornos da moça, como a fita de veludo preto no pescoço e a pulseira no braço, são coisas muito comuns da época em que este quadro foi feito.

As empregadas ao fundo são substituídas pela serviçal negra com o maço de flores ao pé da cama (quem enviou essas flores? e por quê? e será que só a negra é uma “escrava”?). Para os pés da moça, Manet adotou a “sandália voadora” de Fragonard, que ele coloca displicentemente jogada aos pés dela.

Mas se, em Fragonard, há uma narrativa clara que conta uma história em uma imagem só, aqui muita coisa (e há quem diga “coisa demais”), foi deixada de fora da narrativa, para o observador adivinhar. E não se esqueça, leitor: a maldade sempre está nos olhos de quem a vê.

E o “cachorrinho da fidelidade”, coitadinho, nem está mais lá: foi sumariamente substituído por um filhote de gato preto arrepiado que, como a moça sobre o divã, encara o observador de seu cantinho escuro quase fora da tela, logo depois das chinelas da infidelidade.

Olympia, aliás, não tem tem nada da meiguice recatada da noivinha de Ticiano: ela olha diretamente nos olhos do espectador enquanto desafiadoramente tapa seu próprio sexo com a mão, fazendo com que ele se sinta quase nu, também, como se estivesse na mesma sala que ela e expondo-o à condição de “cliente” dela na frente de todo mundo, de toda a nata da sociedade parisiense que veio ver o salão, e que tentava desesperadamente esconder sua paixão impura pelas prostitutas de luxo que adorava visitar.

Foi um escândalo! Foi pior do que o “homem pelado” no MAM! E olha que naquele tempo eles não tinham Internet, mas nem precisou. Uma vez aceito pelo salão o quadro não podia ser retirado da exposição, mas teve de ser mudado de lugar e pendurado lá no alto da parede, quase fora das vistas, para que não pudesse ser vandalizado.

Finalmente, para adicionar a pá de cal sobre o puritanismo francês, Courbet pintou, em 1866, A origem do Mundo, que basicamente e de maneira bem didática nos mostra de onde viemos de acordo com a ciência: não de Deus, não de um paraíso bíblico hipotético, mas do ventre de uma mulher.

Não é o Nascimento de Vênus, nem em suas formas mais sinceras, e nem nas mais decadentes: é a biologia, pura e simples, “esfregada na cara” do observador.

Bônus: dois vídeos didáticos da Khan Academy, um sobre Olympia e o outro sobre O Almoço sobre a Relva.

E um último conselho: não precisa ser no Musée d’Orsay, mas pegue os seus filhos e leve-os para ver “gente pelada” no museu mais próximo. Pode ser a Pinacoteca do Estado (que, se eu entendi certo, vai estar com entrada franca de 12 a 15 de outubro agora), ou o MASP, ambos em São Paulo.

Como exercício, tentem analisar, juntos, quais nus representam alegorias, como ideias, deuses e seres mitológicos, e quais são “só” gente nua. Para facilitar, muitos nus clássicos mostram pessoas em atitudes aceitas e assexuais, como no ato de tomar banho, por exemplo, e sem muita coisa realmente à mostra, ou com toalhas em lugares estratégicos.

Aproveitem também para explicar às crianças que uma exposição em um museu não é uma ameaça, mas que elas não devem ver gente pelada longe da supervisão direta dos pais. E o bônus: não é preciso nem falar com eles sobre sexo. É só mesmo o corpo humano como meio de representar outras coisas que não são só sexo.

Furos Em Reportagem

História do Peninha, de 1982.

Em jornalismo, um “furo de reportagem” é aquela notícia “quente” que uma única equipe de jornalistas tem em absoluta primeira mão e dá antes que todas as outras.

Só que a guerrinha particular entre Urtigão e Juca Piau já deixou de ser novidade faz tempo. Essa notícia é, aliás, mais velha do que andar para a frente. É uma verdadeira “furada”. Já o verdadeiro “furo”, aqui, vai ser mais nos repórteres do que realmente em qualquer outra coisa, e por isso o “em” no lugar de “de” no título. Mas nem por isso os nossos intrépidos jornalistas vão deixar passar a chance de bancar os “correspondentes de guerra” por um dia.

Além disso, esta é uma pequena parábola sobre a futilidade de todas as guerras. Os dois turrões estão brigando há tanto tempo que até já esqueceram o motivo, ou quem começou a briga, ou quem é que está brigando com quem.

  

Outro problema de todas as guerras é que, uma vez que alguém se envolve, é muito difícil se manter isento ou até mesmo evitar cair vítima delas. Assim, os dois jornalistas passarão rapidamente à condição de “espiões” e logo em seguida “prisioneiros” de guerra, enquanto ao Tio Patinhas caberá a “missão de resgate” e a “negociação” para a libertação deles.

E desse modo papai nos dará mais uma última lição nesta pequena “aula de guerra”: a de que, quando se pensa mais em dinheiro do que no valor das vidas humanas, é “mais barato” (e até mesmo mais lucrativo) se envolver nela e deixar rolar até que ela se defina sozinha do que tentar negociar a paz.

Qualquer semelhança com as políticas externas de alguns países por aí não terá sido mera coincidência.

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A Gincana A Fantasia

História do Zorrinho, de 1983.

Semelhante à “Grande Gincana de Patópolis” de 1975, mas transportada para o universo das crianças e de suas antigas brincadeiras, esta também é uma corrida que será sabotada por membros da família Metralha. Mais exatamente, os Metralhinhas.

Os métodos desleais deles serão, aliás, mais ou menos os mesmos, incluindo as tachinhas espalhadas pelo caminho para estourar pneus, mas com uma trama bem mais simples, sem mapas nem grandes mistérios para o leitor resolver.

O tema adicional das fantasias serve, é claro, para criar um conveniente pretexto para a presença dos sobrinhos do Donald com sua fantasia predileta de Zorro. Mas hoje, em lugar dos cavalinhos de madeira com cabeça de meia, eles se locomoverão em bicicletas.

Seu objetivo, como na maioria das histórias do tipo compostas por papai, será defender as sobrinhas da Margarida das trapaças dos meninos malvados, sem revelar que eles são três e fazendo parecer que são apenas um patinho.

Interessante vai ser a reação dos Metralhinhas ao ver o Zorrinho levar a melhor. Eles são tão arrogantes em suas traquinagens desleais que até se esquecem de que o que estão fazendo é errado.

Muitas pessoas são assim até mesmo depois de adultas, não é mesmo? Adoram apontar o dedo para os erros dos outros, enquanto convenientemente se esquecem de seus próprios. E é desse modo que elas muitas vezes acabam denunciando a si mesmas, pela hipocrisia de seus atos.

Não se esqueçam, crianças: toda maldade é burra.

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