Cespinho e Paulistinha

Em algum momento das décadas de 1970/80 (algo como final de uma, início da outra, e as evidências apontam para o ano de 1979), A CESP (Companhia Energética de São Paulo) e a CPFL (Companhia Paulista de Força e Luz) encomendaram, juntas, um gibi promocional ao Departamento de Publicações Especiais da Abril.

Como de costume, a editora montou uma equipe composta pelos seus melhores para o projeto. Pelo menos uma fonte que eu vi no Google cita Waldir Igayara como criador dos personagens (que me lembram, aliás, os androides R2D2 e C3PO, de Guerra Nas Estrelas, de 1977), os argumentos das histórias ficaram a cargo de Papai, Julio de Andrade Filho e Paulo Paiva, e os desenhos são de Carlos Edgard Herrero. Também como de costume, não há créditos claros para nenhum dos artistas envolvidos, e é portanto bastante difícil saber exatamente quem fez o quê.

Segundo a lista de trabalho de papai, em 1978 ele escreveu as histórias para as partes de Recursos Naturais e Recursos Humanos desta revista.

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A revista em si pretende ser uma aula completa sobre como o Governo do Estado de São Paulo produzia e distribuía energia elétrica naquele tempo, incluindo planos para o futuro. Começando com um muito breve histórico das duas empresas, as histórias vão explorando vários aspectos da indústria energética, citando as usinas hidrelétricas, principalmente, mas também outras fontes fósseis e renováveis, indistintamente e de modo muito vago (algumas das quais até hoje ainda não são bem aproveitadas), como a energia das ondas do mar ou o aproveitamento dos gases provenientes de depósitos de lixo.

Como nas encomendas dos ministérios militares, já citadas aqui, os roteiros das várias histórias seguem um esquema bem preparado pelo cliente e recheado de fatos, mapas e até uma fotografia aérea de uma usina hidrelétrica, que em alguns momentos “engessa” bastante a coisa toda. É claramente uma peça promocional, sem pretensão alguma de ter um roteiro ou uma trama.

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São 32 páginas e 6 histórias, a saber: A Energia (uma introdução), Engenharia e Construções, Transmissão, Distribuição, Recursos Humanos (uma peça de recrutamento de pessoal) e Recursos Naturais (que hoje em dia seria chamada “responsabilidade social e ambiental”). Entre uma história e outra há também joguinhos temáticos, como caça palavras e jogo dos cinco erros.

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O Banquete Dos Metralhas

História dos Irmãos Metralha, publicada uma única vez em 1980.

Apesar de ser “palavra proibida”, estar na cadeia tem seu lado bom: lá, pelo menos, não falta comida. Temos aqui uma situação na qual os bandidos estão passando fome. Tudo o que há para se comer no esconderijo são três feijões (para quatro Metralhas) e uma lata de sardinhas… vazia.

A coisa toda até aqui lembra um pouco o curta de animação “Mickey e o Pé de Feijão”, de 1947, que se inicia com uma situação parecida. Mas as semelhanças terminam por aí: aqui não haverá pé de feijão mágico para escalar, mas sim um plano “espertinho” do Intelectual para organizar um banquete.

O plano nem é assim tão maquiavélico, afinal, e nem envolve (em princípio) ter de roubar ou prejudicar ninguém. Se aproveitando do fato de que é uma sexta feira e é também o dia do aniversário do Vovô Metralha, 13 de agosto (quem diria, o Vovô e o Pato Donald têm algo em comum), o Intelectual resolve organizar um banquete no qual cada convidado traz alguma coisa para comer.

Até aí, o plano parece bastante benigno. Todos comem alguma coisa (e nesse tipo de festa costuma até sobrar comida), e ficam felizes. Especialmente os anfitriões, que não vão doar nada além do espaço. O interessante é que ninguém sabia a data de aniversário do velho Metralha. Também, pudera: papai provavelmente a inventou durante o processo de escrever esta história.

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Convidados todos, os parentes vão chegando para a festa: papai faz questão de reunir aqui o maior número deles possível, alguns até bastante obscuros, e vários deles inventados por papai mesmo em outras histórias. Assim, temos o Metralha Veterano, a Titia Metralha, o Tio Zero, o Primo Brincalhão, o Metralha Cientista, Xerloque Metralha, Doutor Metralha, Bombinha, Dedo Duro, Supersensível, Meio Quilo, Tataravô 0001, e (quem diria) se lembraram de convidar até o Azarado 1313.

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O problema é que todo mundo traz galinha ou frango para comer, todas as aves preparadas de acordo com as mais variadas receitas, de frango assado a torta de galinha. Uma receita citada na história, e da qual papai tinha especial horror (só comia frango se fosse forçado) era o galeto ao molho pardo (se alguém tiver interesse, a receita está aqui. Mas já aviso, não é para os paladares mais sensíveis).

O leitor atento sabe quão “pé de chinelo” a família/quadrilha Metralha é, e já deve estar desconfiando da procedência desse “festival de galináceos” todo. A suspeita se confirma com a chegada do homenageado Vovô, que fugiu da prisão especialmente para a ocasião, seguido, é claro, pela polí – bem, vocês sabem quem.

Gruda, Cisne!

História do Superpateta, publicada pela primeira vez em 1980.

“Gruda, Cisne!” é o nome de uma antiga fábula infantil ambientada na Idade Média: um rei, pai de uma linda mas melancólica princesa, oferece um grande prêmio a quem a fizer sorrir. De olho na bolada, chega à cidade um jovem que traz pela coleira um lindo cisne mágico que ganhou de uma fada (ou bruxa) para esse fim.

Uma a uma, ele vai convencendo várias pessoas que encontra pela rua, incluindo alguns altos dignatários locais, a tocar no pássaro enquanto pronuncia a palavra mágica: “Gruda, Cisne”, e as pessoas vão ficando grudadas, sendo obrigadas a seguir o rapaz pela cidade.

Quando seu “séquito” já está grande o suficiente, o rapaz se dirige ao castelo, onde faz a princesa rir e exige sua recompensa. Mas o rei tenta se esquivar de pagar, e como punição o rapaz leva para longe a moça grudada também ela ao cisne. Quando ele finalmente resolve libertá-la, a princesa havia se divertido tanto que não quis mais sair de perto dele e concordou em casar-se com ele.

Na história de papai o rapaz pobre mas abençoado pela fada é substituído por um vilão hipnotizador que vai grudando pessoas ao pássaro por sugestão hipnótica com o objetivo de se tornar o dono de Patópolis.

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Assim, ficam grudados até o Prefeito Leitão, o Coronel Cintra e o próprio Superpateta.

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Mas, mesmo grudados, os bons da cidade são mais espertos que o vilão e conseguem virar o feitiço contra o feiticeiro.

Só Invente Se For Inventor

História do Professor Pardal, de 1974.

A ideia, aqui, é explicar exatamente como e porquê o Professor Gavião, apesar de todo o seu maquiavelismo, nunca vai chegar a ser um grande inventor. Ele até que tenta, mas seus inventos “autorais” são perfeitamente inúteis, como a máquina de alimentar sapos, ou a armadilha para pulgas que precisa que a bichinha seja colocada sobre uma plataforma na esperança de que fique quietinha no lugar para receber uma martelada.

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Esta é uma antiquíssima piada de português, que papai costumava contar. É mais ou menos como a receita para se pegar jacarés com um binóculo, pinça e caixa de fósforos. A graça toda da coisa reside no absurdo da situação.

Mas, como todo “bom”, quer dizer, mau, bandido Disney, ele não vai desistir tão fácil e começa então a usar inventos roubados do Pardal para roubar mais inventos do Pardal. Nem o Lampadinha escapa da onda de roubos, e é reprogramado para levar ao Gavião os projetos mais secretos e valiosos de seu arquivo.

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Em todo caso, como sempre, as máquinas fazem o que você as programa para fazer, não o que você quer que elas façam. Como último recurso, o bandido inventa uma cópia mal feita do Lampadinha, o Lampadosa, que também envia ao laboratório do Pardal para roubar. Mas também este autômato segue as ordens ao pé da letra, com resultados desastrosos para o vilão.

A piada recorrente e “fio de puxar” aqui é a presença do “Metralha robô”, construído pelo Gavião com base num projeto do Pardal. Apesar de funcionar até que bem o invento será de pouca valia para o bandido, e como todo bom monstro, voltará para se vingar no final.

O Fim da Terceira Companhia

História que combina guerra e terror, publicada na revista Seleções de Terror (Uma edição especial com Histórias Sinistras) Nº 79, da Editora Outubro. A capa, por outro lado, apresenta o número 17. O argumento é de papai, e o desenho do Julio Shimamoto, datado de 1961.

A guerra em questão, a julgar pelos uniformes, parece ser a Guerra Civil dos EUA em meados do século XIX, ou algo parecido. A Terceira Companhia estava guardando um forte, quando um fulminante ataque do inimigo mata a todos, apesar de terem lutado com bravura. Sobra só o tenente, comandante da Companhia, que mesmo ferido faz um esforço sobre-humano (ou melhor, sobrenatural) para chegar de volta ao posto e comunicar a derrota de seus soldados.

Uma vez lá, se depara com superiores que não querem enxergar as falhas no seu plano de guerra e que colocam a culpa toda no pobre tenente, condenado então ao pelotão de fuzilamento. Mas, quando vão buscá-lo ao amanhecer para a execução ele não está mais na cela, apesar de ter sido vigiado a noite toda. O que será que aconteceu? Um soldado tão valente e abnegado teria preferido fugir covardemente a enfrentar o seu destino? Impensável! E como ele poderia ter escapado? A surpreendente e aterrorizante resposta teremos, como de costume, no último quadrinho.

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No Ritmo Da Bruxa

História dos Sete Anões, de 1974.

Esta história se passa em uma época na qual a Branca de Neve já está casada com o Príncipe e vivendo no Castelo, enquanto os anões seguem com sua vidinha pacata na floresta.

O interessante é que a Bruxa Má, que todos pensavam ter morrido no final do filme original, está na verdade viva e ainda tramando maneiras de conseguir se vingar da princesa e de seus amigos.

Por meio de um feitiço aparentemente inofensivo, que faz os anões terem vontade de batucar nas panelas da cozinha, a bruxa consegue fazer com que eles briguem. Isso atrai a princesa de volta para a casinha, para cuidar deles por alguns dias e ver se consegue acalmar os ânimos.

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Isso, é claro, é o que a Bruxa Má queria: tirar Branca de Neve da segurança do Castelo para poder atacá-la novamente com a maçã enfeitiçada, agora na forma de uma linda torta de maçãs.

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Obviamente, o plano não vai dar certo. Mas graças a toda essa trama, a princesa teve a chance de rever seus amiguinhos dos velhos tempos.

A Invasão De Morcegos Vermelhos

Primeira história dos Alienígenas Transmorfos, de 1973.

Papai gostava de personagens versáteis, que pudessem literalmente “pousar” em cada um dos vários “ambientes” de personagens e deixar o seu recado. Assim, estes alienígenas já infernizaram, além do Morcego Vermelho, o Mancha Negra, os Escoteiros Mirins e o Zé Carioca.

Estes bichos alienígenas não conhecem absolutamente nada do nosso planeta, mas vão precisar viver aqui de agora em diante. O motivo é meio obscuro, mas parece que há alguma guerra no planeta natal deles, e o rei foi exilado com um pequeno séquito a bordo de um clássico disco voador, com direito a janelinhas em volta e antena no topo. Aqui na Terra, pelo menos, eles podem cultivar os cogumelos de que se alimentam, enquanto tentam aprender coisas como idiomas, cultura, usos e costumes para ver se conseguem se misturar à população. São de modo geral pacíficos.

Sua única vantagem é a capacidade de tomar a forma dos seres vivos de nosso planeta na tentativa de passar despercebidos, mas são completamente incapazes de aprender o que seja do modo de vida na terra, o que é claro leva a inúmeras situações bizarras.

Semelhantes a estes, mas mais belicosos, são os transmorfos Alfabeta e Gamadelta, duas nuvenzinhas, uma clara e mais paciente e outra escura e mais violenta, que têm a expressa missão de preparar a Terra para uma invasão e consequente aniquilação de seus habitantes. As principais vítimas deles são o Zé Carioca e o Nestor, mas já andaram às voltas com o Biquinho, também.

O grande mistério desta primeira história é a real aparência dos invasores. Eles só vão aparecer tais como são no último quadrinho, mas deixam algumas pistas espalhadas pelas páginas:

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De resto, a presença dos invasores provoca a maior confusão em torno da Caixa Forte, com o Morcego e o Donald atrás dos “Morcegos Vermelhos” para tentar entender alguma coisa, e o Tio Patinhas preocupado apenas em descontar o salário do Morcego Vermelho por causa das peraltices no meio da noite, quando ele deveria estar bancando o guarda noturno.

No final a forma original dos Transmorfos é revelada, e há quem os compare a bichos da seda. São umas lagartonas até simpáticas. A peculiaridade das lagartas em geral é o seu ciclo de vida, que as leva a se transformar em todo tipo de borboleta e mariposa, e que certamente foi a inspiração para estes personagens.

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(Para finalizar, uma dica: recebi várias perguntas do tipo desde a semana passada, então acho que vale a pena descrever um pouco como funciona este blog.

Primeiramente, e certamente mais importante, quem quiser saber em quais revistas esta história já foi publicada, quantas páginas tem, e quem é o desenhista, entre outros detalhes técnicos, deve clicar no link que está embutido no ano da história, logo na primeira frase deste artigo.

Isso, é claro, vale para todos os outros artigos deste blog. O link leva ao site Inducks, cujos mantenedores se esforçam por catalogar o máximo de detalhes possível sobre o máximo de histórias Disney possível, e estão fazendo um ótimo trabalho, aliás.

Outros links que possam estar presentes ao longo do texto levam a páginas da Wikipédia e de outros sites, quando apropriado, que explicam melhor outras referências da história. Eu pessoalmente cliquei em cada um deles e meu computador não “morreu”, então acho que são seguros. Papai me dizia que o seu leitor ideal era aquele que lia o gibi com um dicionário do lado e uma enciclopédia ao alcance da mão. Hoje em dia, com a Internet, nada mais fácil.)