Viva Eu, Viva O Entrudo!

História do Zé Carioca, publicada em 1983.

Passada durante um baile de Carnaval, é talvez a melhor história de papai sobre o tema. Ele começa nos ensinando que o antigo Carnaval de rua se chamava Entrudo, e nos ambienta numa recriação dos antigos Carnavais do Rio de Janeiro, organizada pela Rosinha para um baile beneficente.

A história toda é meio cantada, e meio falada, quase como em uma “opereta em quadrinhos”. Já de início papai nos presenteia com a letra original de uma marchinha que, com o desuso do Entrudo, mudou de letra ao longo das décadas. Aquilo que nós poderíamos cantar, hoje em dia, como “viva eu, viva tudo, viva o Chico Barrigudo” era originalmente cantado “viva eu, viva o Entrudo” etc.

Mas nem tudo é alegria nesta festa, e logo a turma descobre que os Anacozecos também estão no salão, de olho no cachê que o Zé ganhou para tocar bumbo e fazer o papel de Zé Pereira no baile a fantasia. Hoje também aprendemos que seus nomes são Arnaldo, Arlindo, Tadeu e Asdrúbal. Além disso, temos um novo personagem, o J. J. Peli Cano, um enorme pelicano que é o novo tesoureiro da Anacozeca.

Assim começa uma grande correria pelo salão no meio da festa, entre tropeços, encontrões, trocas de fantasias e cantigas de Carnaval, muitas cantigas de Carnaval. São tantas, na verdade, que nem dá para citar todas aqui.

ZC Entrudo

As cantadas pela turma do Zé são clássicas marchinhas, ora escolhidas a dedo pelo conteúdo de suas letras, ora com as letras modificadas para fazer troça dos cobradores, enquanto que as dos Anacozecos têm as suas letras invariavelmente trocadas, para que tenham todas, como tema, “cobrar o Zé”.

ZC Entrudo1

Apesar da confusão, há pouco lugar para o Zé fugir, mesmo dentro de um salão tão grande, e ele acaba sendo pego. Será que o Zé vai ser finalmente cobrado? Em pleno Carnaval?

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Mistério No Museu

História dos agentes secretos 00-Zéro e Pata Hari, publicada pela primeira vez em 1977.

A Bronka está agindo no Museu de Patópolis. Seus agentes roubaram um diamante, mas ainda não conseguiram sair de lá. Como o museu é um espaço cheio de coisas esquisitas e lugares para alguém se esconder, o cenário para uma grande confusão está montado.

Para começar, os agentes têm os seus comunicadores secretos camuflados em objetos do cotidiano, como patinhos de borracha e sabonetes, o que só complica as coisas. Complicado para eles, divertido para nós.

É interessante ver como papai vai brincando com os diferentes elementos da trama. Para começar, o Lobo é proibido de entrar no museu, e tem de ficar esperando os seus colegas do lado de fora. Essa aparente desvantagem dos agentes vai se revelar uma coisa positiva, no final da história.

00Zero Museu

E lá dentro, nada é realmente o que parece ser. Mas se o Zéro desconfia de algo, é porque não há nada de realmente errado com aquilo. É quando ele não desconfia de nada que a coisa complica. Além disso, uma declaração ambígua do diretor do lugar, o senhor Mutt Zeu (uma brincadeira com a própria palavra museu), leva o nosso agente nada secreto a mais uma conclusão errada, e desvia a atenção do leitor do óbvio. Qualquer um que conheça a história e o cavalo logo vai desconfiar do que está acontecendo, apesar de tudo.

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Os desastrados agentes quase deixam os “bronqueados” escaparem, mas o Lobo (lembram dele, esquecido do lado de fora?) vai servir de elemento surpresa, salvar a pátria e, de quebra, dar uma boa amarrada em algumas pontas soltas da história.

No fim, sobra o cavalo de Troia. Qualquer um com um mínimo de cultura geral sabe que o original nunca foi encontrado, e se não sabe, vai aprender sobre isso agora. Então por que o diretor do museu disse que aquilo que está em exposição não é uma reprodução? Por incrível que pareça, ele tem uma boa explicação para isso.

Mil Faces O Contemplam

História do Morcego Vermelho, publicada pela primeira vez em 1977.

A frase de abertura da história, “Morcego Vermelho! Por trás desses espelhos, Mil Faces o contemplam” é uma referência à célebre declaração de um deslumbrado Napoleão Bonaparte ao pé das pirâmides do Egito: “Soldados! Do alto dessas pirâmides 40 séculos vos contemplam”. E isto, é mais do que claro, é a “marca registrada” de papai na história, a sua “assinatura”, por assim dizer.

Esta é a primeira aparição do vilão Mil Faces, um mestre dos disfarces cujo único propósito de vida é infernizar o Morcego Vermelho. Ou seja, e já que ele trabalhava em casa, sem ninguém da redação do lado para dar palpites, este vilão é mais um dos muitos personagens criados por papai para os quadrinhos Disney.

O resto da trama é a caçada ao bandido das mil caras pelo parque de diversões afora. Nesta caçada, o Coronel Cintra fará o papel de “leitor atento” e dará voz a ele. Em meio a tantas descrições diferentes e conflitantes do bandido que vai atacando uma pessoa após outra, a cada vez com uma aparência diferente, o Coronel não se deixa enganar nem uma vez.

Talvez não fique muito claro logo de cara para o leitor como o experiente policial reconhece o bandido disfarçado de marinheiro (pelo jeito de andar, que não era “gingado” como o de quem está acostumado a andar num convés balouçante de navio), mas na segunda chance o leitor terá uma chance mais óbvia. Deixar pistas para o leitor decifrar, aliás, é mais uma marca registrada das histórias de papai.

MOV mil faces

Este quadrinho também comprova, aliás, que ao desenhar as histórias de papai, os grandes mestres do traço que trabalhavam com ele “mandavam” no desenho bem menos do que se poderia imaginar, e estavam seguindo à risca as instruções que meu pai dava a eles, muitas vezes por meio de um rafe (rascunho). O desenhista “materializa” a história, e muito bem, sem sombra de dúvida, mas quem mandava em cada detalhe do que iria aparecer na página era papai, o argumentista. É por isso que é um absurdo olhar uma história em quadrinhos Disney e creditá-la toda ao desenhista. Se há um argumentista “por trás”, o crédito (até pelo desenho) é mais dele do que realmente do desenhista, que apenas “empresta” o seu traço, colocando-o, generosamente, a serviço do argumento.

Mas o mais engraçado nesta história é que o personagem principal não faz nada além de levar sustos e ficar confuso, mas nem por isso é considerado “menos herói”. A função dele é menos “solucionar o mistério e prender o bandido” (para isso existe a polícia) do que fazer rir, e isso ele faz, sem sombra de dúvida.

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O Irlandês Brigador

História de Guerra, publicada na revista Almanaque de Combate AM-1, Mês 7, de 1971.

Esta revista tem 6 histórias. Destas, 4 são adaptadas por papai de contos de guerra que ele leu naqueles tempos. Esta vem de “Um Diário de Guerra”, com letras de Antonio Maldonado. Já a assinatura do desenhista, discreta e apenas na última página, não está clara para mim.

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Hoje temos os britânicos contra os japoneses, lutando seus combates mortais nas selvas da Ásia. O que esta história tenta mostrar é que o termo “britânicos” está longe de descrever um tipo só de pessoas, e que em tempos de paz essas pessoas todas, e tão diversas, nem sempre se dão bem. Aqui se explora a rivalidade cultural entre ingleses e irlandeses.

Na trama temos dois rapazes, britânicos mas de nacionalidades diferentes, que foram rivais no amor antes da guerra, e que por acaso, destino, sorte ou azar, terão de lutar juntos, lado a lado mesmo, contra o inimigo asiático. São antes de mais nada seres humanos, com suas paixões e fraquezas, metidos numa encrenca de proporções mundiais.

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O inglês com o seu jeito contido mas petulante, é tenente. O irlandês, de boca suja e encaixando um “diabos” a cada 3 ou 4 palavras, é sargento. Mas não é por isso que o soldado vai levar desaforo para casa, mesmo que vindo de um oficial.

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No decorrer da guerra, e da batalha desesperada, que é lutada pela própria vida e a dos companheiros – mais do que por um país ou ideologia – os dois homens vão aprendendo a reconhecer o valor um do outro, e a se respeitar. Se tornarão, após um “batismo de fogo”, onde chegam a ver a morte de perto, mas acabam salvos por um regimento indiano – também eles britânicos, afinal de contas – verdadeiros “brothers in arms”, as diferenças de outrora perfeitamente perdoadas e esquecidas.

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Afinal, existem coisas mais importantes do que o amor de uma mulher, no mundo… 😉

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O Mago Que Era Um Encanto

História das Bruxas Maga Patalójika e Madame Min, de 1977.

Toda a trama desta história gira em torno dos possíveis significados da palavra “encanto”, no título. Quando uma pessoa “se encanta” por outra, ou diz que alguém é “encantador”, será que ela não está de alguma maneira lançando um “encantamento” sobre si mesma? E no caso de uma bruxa de verdade, que outros significados isso pode ter?

A Maga está, mais uma vez, preparando um plano para roubar a moedinha Número Um do Patinhas. A poção que ela prepara é tão forte, mas tão forte, que quebra até pedra. Enquanto isso, nesta noite chuvosa e escura, a Madame Min só consegue pensar em comida. Mais exatamente, uma sopa de urtigas quentinha.

Antes de ser expulsa do castelo, por não estar ajudando, a Min acusa a Maga de estar com uma ideia fixa, pois  a segunda só pensa na Moedinha. O problema é que a Min também está com uma ideia fixa esta noite…

Logo após a Min ter saído voando do castelo, um novo visitante aparece para tirar a concentração da Maga, dizendo ser um príncipe dos bruxos que se perdeu na tempestade. Mas o leitor atento não vai se deixar enganar, especialmente por causa dos lindos cabelos arroxeados do rapaz:

Encanto

As suspeitas do leitor só aumentam, quando o tal Patomago dá um jeito de fazer a Maga cozinhar uma sopa de urtigas, como se fosse uma poção mágica. Mas a Maga, que a princípio se encanta pelo rapaz, chegando a pensar que talvez ele seja o seu príncipe encantado, só vai ter certeza da armação um pouco mais adiante na história.

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Como se vê no final, o príncipe era um pouco “encantado demais”, e tudo não passa de um encantamento da Min para distrair a Maga um pouco. Daí o título da história: não havia mago nenhum, mas apenas um “encanto”.

Dia 31 está chegando… Reserve já o seu. http://www.lojamarsupial.com.br/ivan-saidenberg-o-homem-que-rabiscava

A Máquina Kar-Eta

História dos Irmãos Metralha, de 1979.

Esta é a continuação da história comentada ontem. Passaram-se três anos, e o Primo Descarado desta vez consegue roubar a máquina Kar-Eta do Prof. Heureko, que continua falando o seu idioma enrolado. Papai teve o cuidado de voltar à primeira história e pesquisar novamente as exatas palavras do inventor estrangeiro, que, como eu já disse, podem até ser traduzidas, com um pouco de imaginação.

KarEta

Desta vez os Metralhas não estão apenas ouvindo uma história contada pelo Vovô, e vão ter uma experiência em primeira mão com o aparelho. O Descarado leva a máquina para seus primos, os Irmãos Metralha, mas quando eles pedem para usá-la, cobra dez mil “por cabeça” literalmente. Não é só por ser um mestre em disfarces que ele tem esse nome… o descaramento está no (mau) caráter, também.

Sem muita alternativa e desesperados para mudar de aparência, os irmãos pagam ao primo usando um dinheiro “do Vovô”, que está preso e provavelmente não vai dar pela falta. Mas vejam bem, o dinheiro é *do Vovô*. Entre bandidos, isso pode ter vários significados. Essa é a primeira burrada deles, além, é claro, de pagar para ficar com cara de sei-lá-o-quê.

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Com os rostos mudados, eles tentam fugir da cidade, mas não conseguirão ir longe. Afinal, passaram-se três anos, e como acontece frequentemente com aparelhos eletro-eletrônicos de todos os tipos, nesse meio tempo o cientista maluco aperfeiçoou a máquina. O efeito dela agora dura algumas horas apenas, e não mais uma semana inteira, como antes. Mas os bandidos só vão ficar sabendo disso no momento mais impróprio, cuidadosamente orquestrado por papai para o máximo efeito cômico.

E uma vez presos, ainda terão de rever o Descarado, e prestar contas ao Vovô por causa do dinheiro “dele”, que aliás foi a causa da prisão do primo. Definitivamente, o crime não compensa.

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O Primo Descarado

História dos Irmãos Metralha, de 1976.

Aqui vemos a primeira aparição de mais um primo dos Metralhas, o Descarado-176, que é mestre em disfarces. Este personagem foi usado apenas três vezes, todas elas em histórias escritas por papai. Portanto, ele é mais uma criação original de Ivan Saidenberg.

Quanto à trama em si, papai nos mostra que o modo pelo qual se começa uma história é tão importante quanto a finalização da mesma história. Aqui temos o personagem principal entrando de supetão e aos gritos de “idiota”, colocando o leitor diretamente dentro do covil dos bandidos. O problema é que o disfarce deles já está manjado demais. Tão manjado, na verdade, que a polícia já está até fazendo cartazes de procurado para os “Metralhas disfarçados”.

O jeito é mudar de aparência novamente, mas como? Isso dá ensejo a mais uma historinha contada pelo Vovô, sobre o Primo Descarado e sua aventura com a máquina “Kar-Eta”, não por acaso uma brincadeira com a palavra “careta”. Os prodigiosos raios dessa máquina transformam os rostos das pessoas em algo completamente diferente – e feio pra burro – por toda uma semana.

Descarado

Ela é invenção do Professor Heureko (uma brincadeira com a palavra Eureka), um cientista estrangeiro que participou de um congresso internacional de ciências em Patópolis. Por ser estrangeiro, esse professor fala o idioma “Strumpf”, que, à exceção das caretas da máquina Kar-Eta, é a coisa mais engraçada desta história.

Ele lembra o Alemão ou o Yidishe, e mistura palavras totalmente desconhecidas ao ouvido brasileiro, como “Atafunder” e “Der Grunz”, com outras bastante familiares como “Itiotz” (qualquer semelhança com “idiota” não terá sido mera coincidência), “Halpf” (help, ou socorro, em inglês), e “Bestraub” (que, vinda do professor Heureko, soa como um xingamento, talvez “sua besta” – será que a mesma expressão, se colocada na história em português, passaria pela “ética” disneyana?). A verdade é que, com um pouco de imaginação, o leitor pode até traduzir as falas do cientista.

Descarado1

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