Feitiço Caprichado

História do Professor Pardal, de 1974.

Um velho ditado diz que “situações desesperadoras exigem ações desesperadas”. E nessas horas, ao que parece, vale tudo: até mesmo recorrer aos serviços de uma bruxa. E é exatamente o que fará o Professor Gavião, após ser expulso do laboratório do inventor do bem pela enésima vez.

Isso, aliás, é algo muito comum aqui mesmo no Brasil. Muito mais gente do que pode parecer (e não, não tem nada a ver com pobreza ou ignorância), ao primeiro sinal de que alguém não vai fazer suas vontades, ou à menor frustração, corre se consultar com uma cartomante (especialmente aquelas que fazem “trabalhos”) ou encomendar feitiços “cabeludos” a algum feiticeiro ou milagreiro de aluguel.

Mas é claro que, em uma história em quadrinhos Disney, ainda que magias e poderes mágicos possam ser tratados como algo real, nenhum mal pode realmente acontecer aos bons, e nenhum crime poderá ficar impune.

O detalhe que porá os planos do Gavião a perder é uma pequena falha de comunicação, aliada à vontade da Madame Min de “caprichar” para impressionar o comparsa cientista. Na parte da magia, mais um ditado se aplica: “cuidado com o que você pede, você pode conseguir exatamente isso”. E na ciência, como sabemos, “um computador não faz o que você quer, mas sim o que você manda. Nesta história, a bruxa será o veículo de um pouco de cada uma das duas coisas. 

Interessante é a pressuposição de que não se pode simplesmente criar dinheiro por meio de magia, mas que ele precisa ser ganho (ou atraído) de algum modo (de preferência honesto), e que até mesmo bruxas superpoderosas precisam dele de vez em quando. Que poder é esse que tem o dinheiro que o torna “imune” às forças ocultas? Ou será que é a dificuldade que nós, simples mortais, temos em ganhá-lo que nos dá essa impressão? É algo para se pensar.

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Vassoura Ao Molho Pardo

História das bruxas, escrita e publicada em 1974.

Esta é mais uma daquelas histórias geniais que foram, sabe-se lá por quê, publicadas no Brasil uma única vez. Isso é uma pena, mais gente deveria ter a oportunidade de ler esta pequena joia.

A trama se baseia, todinha, desde o início e até o final, em sutilezas. Toda a discussão entre as bruxas na segunda página é cuidadosamente composta para fazer com que as duas percam a aposta. Pois é, isso é possível.

O plano é muito bem bolado, como todos os planos de papai para seus bandidos, e o uso liberal de magia certamente é uma vantagem para eles. Mas, como sempre, haverá uma falha fundamental. Falha essa que, hoje, tem mais a ver com o fato de que não existe honra entre ladrões – e bruxas, também – (não vamos nos esquecer que todos os personagens principais são vilões) do que com qualquer outro fator.

A referência a “molho pardo”, como eu já mencionei neste blog, se dá porque este era o prato mais repugnante que papai conhecia. É a punição suprema às bruxas.

Já os Metralhas, desta vez, vão ficar sem uma punição mais séria porque eles afinal foram, para todos os efeitos, sequestrados e usados pelas bruxas para um plano que nem era deles.

Aviso aos navegantes:

Não, este blog não lida com autocríticas. Muito pelo contrário, e isto é intencional, como vocês já devem ter percebido. Já existe gente de alma pequena o suficiente para tentar criticar, colocar para baixo e esquecer, algumas vezes intencionalmente, o trabalho de um artista genial (e de seus colegas desenhistas e outros argumentistas, tão geniais quanto), como se não bastasse o fato de que eram todos anônimos no início por força de contrato.

Então poupem os pomposos e arrogantes dedinhos de digitar abobrinhas rebuscadas. Eu sei o que eu estou fazendo, e as reações positivas dos fãs da Disney em geral nas redes sociais certamente não me deixam esquecer de que este blog é, sim, necessário e que estamos, todos nós, fãs de quadrinhos, no caminho certo.

Os cães ladram e a caravana passa. Tenho dito.

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O Presidente Das Bruxas

História das bruxas, de 1975.

Que não há honra entre ladrões, nós já sabemos. O que vamos aprender hoje é que, ao que parece, também não há honra entre as bruxas. Mas o pior, nós veremos, acontece quando misturamos bruxas com ladrões.

A Madame Min teve a ideia de fundar um Clube das Bruxas. A sede do clube, onde acontece a primeira reunião, fica na casa da Madame Min. Mas, mesmo assim, a Min não se sagrará presidente do clube sem antes haver muita discussão.

Para piorar, o Mancha Negra chega de repente e acaba se aproveitando da situação (e da paixonite que a Min tem por ele) para usurpar a presidência do clube e obrigar as bruxas a participarem de assaltos a joalherias. Elas podem até ser más, mas não são ladras, e isso acabará sendo a ruína do Mancha.

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Em meio ao androcentrismo da maioria das histórias Disney da época, que às vezes chegava às raias do machismo (essa era a cultura daqueles tempos, infelizmente), esta pode ser considerada até mesmo uma fábula “feminística”: é isso o que acontece quando as mulheres se desunem e dão um poder que deveria ser só delas ao homem errado. Afinal, nem mesmo bruxo ele é. Somente unidas elas poderão reverter a situação e usar as caprichosas “leis da magia” para destituir o “presidento”.

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O interessante, novamente, é ver a velha e boa intuição de papai em ação no comentário sobre se ter “um maluco” como presidente. Como sempre, ele estava 30 ou 40 anos à frente de seu tempo.

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Hotel Meio Assombrado

História da Maga e da Min, de 1974.

Quando alguém começa um grande empreendimento, duas das primeiras regras são definir quem é seu público alvo e o que o novo negócio irá oferecer aos clientes. Além disso, é muito recomendável ter uma boa política de contratação e gestão de RH, para que o negócio tenha alguma chance de sucesso.

Mas, obviamente, a Maga Patalójika e a Madame Min, como bruxas que são, não entendem nada disso. O “Hotel Assombrado”, um casarão caindo aos pedaços no alto de um monte, fica realmente mais próximo da rota das vassouras voadoras do que da trilha dos turistas humanos, mas, a princípio, são estes últimos que a Maga quer atrair.

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Assim, quando o estabelecimento começa a atrair uma clientela mista de bruxos e humanos, cada grupo com suas próprias ideias sobre o que esperar da experiência, o leitor já vai perceber que a coisa toda não pode dar lá muito certo. Junte-se a isso a insatisfação dos “funcionários” Perereca e Peralta, e temos a receita certa para uma grande confusão.

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O “Primo Felizardo” (ou Cousin Lucky), é um personagem criado em 1964 no exterior para ser, no mundo das bruxas, o equivalente ao que é o Primo 1313 dos Metralhas em Patópolis. Foi usado em apenas três histórias, duas delas brasileiras: a de criação, esta, e outra de Arthur Faria Jr.

Realmente, parece que este personagem não tem mesmo muita sorte… apesar de fazer uma curta participação aqui, não conseguiu “emplacar” nem mesmo como “adotado”, ao contrário do que aconteceu com o Metralha Azarado, que passou de obscuro a “estrela” sob o lápis de papai.

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Os Metralhas De Roma

História dos Irmãos Metralha, de 1979.

Trata-se de mais um dos “causos” do Vovô Metralha sobre os antepassados dessa família que também é uma quadrilha.

O ano em que a trama se situa é 64 dC. Isso é importante porque é a primeira e mais importante pista sobre o final da história. Quem prestou atenção nas aulas de História da escola já vai saber o que é logo de cara, e quem não sabe vai aprender, mas só no final.

Uma segunda pista é o nome do Imperador romano, “Nerusca”, que é uma brincadeira com o nome Nero. Mesmo quem não sabe exatamente o que aconteceu em Roma no ano 64 já ouviu falar desse infame imperador e da lira que dizem que ele tocou na ocasião.

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Como papai já fez em outras histórias semelhantes, os números nos peitos dos Metralhas estão em algarismos romanos que podem até ser lidos por quem sabe (e papai sempre confiava que o leitor iria saber, ou pelo menos se interessar em aprender), e ele vai “semeando” palavras e expressões em Latim ao longo do texto na esperança de ensinar mais alguma coisa ou duas ao jovem leitor.

De resto também aqui o Azarado 1313 é o personagem principal e figura central na bagunça toda. Tendo se aliado a uma antepassada da Madame Min (sempre ela e sua predileção por “amores bandidos”) de nome Locusta, e estando sob a proteção dela, ele até começa a história sortudo, mas só começa. Já a bruxa em questão era uma especialista em venenos que existiu de verdade e fornecia suas poções mortais ao próprio Nero, que as usava para eliminar desafetos.

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“Locusta” é também o nome científico (portanto, latino) de um tipo de gafanhoto. Dada a má fama desses insetos destruidores, que atacam aos milhares e costumam comer toda a vegetação que encontram pela frente, é fácil entender o motivo pelo qual a bruxa da História clássica foi associada a eles.

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Irmãos Metralha… E Outros Bichos!

História dos Irmãos Metralha, de 1981.

Acho que todo mundo conhece a lenda do pote de ouro no final do arco-íris. Esta é uma variação sobre o tema, com direito à aparição do gnomo que é dono do pote de ouro e a um violento duelo de magia dele com a Madame Min. Os Metralhas só estão aqui hoje para se dar mal.

A inspiração parece vir de uma história fantástica que eu lembro vagamente de ter lido na época em que esta HQ foi escrita, justamente sobre um rapaz que entra em uma floresta e acaba presenciando (ou até participando de) uma batalha de magia com múltiplas transformações. Quando ele finalmente consegue fugir de tudo aquilo e sair da floresta, ele nota que as pessoas que ele encontra pelo caminho se assustam ao vê-lo. Ao chegar em casa e olhar no espelho, ele também grita de susto. O conto termina assim, dando a entender que ele havia sido transformado em algo horripilante.

O duelo de magia é algo recorrente em histórias das bruxas, e especialmente as da Madame Min. Quando ela enfrentou o Mago Merlin, o desafio era transformar a si mesma para melhor lutar. Em outros duelos, como este, o que acontece é uma batalha de raios mágicos, atirados como se atiram granadas, por exemplo. Como todos nós sabemos, ficar perto demais de uma “troca de tiros”, real ou virtual, é algo que acarreta um grande perigo de ser acertado por uma “bala perdida”.

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Esta é mais uma daquelas histórias nas quais todos os personagens são vilões, exceto a polícia, é claro, e desta vez as árvores da floresta, que hoje não estão mordendo. O gnomo Babuque parece ser um personagem italiano, mais um dos “adotados” de papai.

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O Livro De Bruxarias

História das bruxas Maga e Min, de 1973.

Na verdade, trata-se de uma peça promocional para o Manual da Maga e Min, que estava sendo lançado pela primeira vez naquela época.

São só 3 páginas, mas a confusão entre as bruxas é grande e hilária. Até o Laércio resolve sair de perto, que é para não sobrar para ele.

Interessante é o método de criar palavras mágicas invertendo a ordem das letras. Eu já sabia que grandes artistas do Renascimento, como Leonardo Da Vinci, escreviam seus cadernos de rascunhos de trás para frente para que não pudessem ser lidos facilmente por estranhos, mas é a primeira vez que eu vejo um uso dessa técnica em magia. Talvez seja por isso mesmo que não vai funcionar… 😉

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A conclusão à qual as duas chegam é a mesma do Professor Pardal, no ano anterior, quando o manual dele foi lançado: já que não há uma publicação à altura de sua genialidade (no caso, os livros de bruxaria das duas já estão velhos e desatualizados, e é por isso que seus feitiços não dão certo), elas mesmas compilarão o manual de magia definitivo, com base em sua vasta experiência no assunto.

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