O Monstro De Piche

História do Morcego Vermelho, de 1973.

A inspiração vem de antigas séries para TV com temática de monstros criadas no Japão (como por exemplo a do Spectreman), nas quais a poluição das cidades modernas produzia monstros que causavam todo tipo de desastre, como se os males causados pela falta de cuidado das pessoas com o meio ambiente pudessem criar vida e voltar para se vingar.

Esses filmes são, no final das contas, lendas moralizantes ambientalistas, uma maneira sutil de educar as crianças para que não poluam. Afinal, de um modo ou de outro, essa poluição toda vai acabar prejudicando a todos.

Em todo caso, a história criada por papai tem bem menos dessa pegada “ambientalística” e mais de um humor que explora a bizarrice do monstro, os sustos mútuos e as correrias pela cidade para fazer o leitor rir. Não há um único momento parado, todos os personagens estão em constante movimento, do início ao fim da história.

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Uma piada recorrente, aliás, é exatamente a do medo mútuo que o monstro e o herói têm um pelo outro. O Morcego Vermelho certamente não é o herói mais corajoso do mundo, muito pelo contrário, mas sua vantagem é estar muito ciente do tamanho da responsabilidade que vem com a fantasia. Ele sabe que não pode desapontar o povo de Patópolis. Assim, ele enfrenta seus medos e faz o melhor que pode para combater a ameaça.

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Já o monstro é na verdade um robô criado pelo Dr. Estigma, e todos nós já sabemos que um cérebro eletrônico é apenas tão bom quanto sua programação. Apesar de ser imune às balas dos revólveres da polícia, seu comportamento quase humano, modelado aliás na personalidade do próprio vilão, será sua própria ruína.

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Uma Tevê para Xicória

História da Xicória, de Daniel Azulay, escrita em junho de 1982 e publicada pela Editora Abril na revista “Turma do Lambe-Lambe” número 9 em janeiro de 1983.

A televisão é um fenômeno no Brasil por ser quase universal, até mesmo entre pessoas sem as mínimas condições financeiras. Esse nunca foi um aparelho barato, mas nos anos 1970 e 1980 era comum encontrar famílias que viviam em favelas, mal tinham o que comer, não tinham sequer uma geladeira no barraco em que viviam (para não falar de outros eletrodomésticos), mas que tinham o bendito aparelho de TV e a indefectível anteninha em cima do telhado de folhas de lata.

E, com a TV, vem o hábito quase irrefletido de assistir novelas. Nas rodinhas de conversa entre vizinhas e amigas (principalmente mulheres, mas os homens também, quando as mulheres não estavam ouvindo), comentar as novelas era algo comum, uma conversa corriqueira como comentar o clima, por exemplo. Ver novelas era algo que todo mundo fazia, e quem não tinha TV (ou não assistia novelas) podia se sentir positivamente um excluído.

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Papai nunca se sentiu confortável com o aparelho de TV dentro de casa. Para ele a “máquina de fazer loucos” (como ele a chamava), com sua constante demanda por atenção, fosse por causa dos programas ou principalmente dos sempre estridentes e barulhentos anúncios, era uma intrusa e uma perturbação.

Já mamãe e eu, talvez por causa do ofício de argumentista (mais dela do que meu, naquele tempo), sempre achamos as novelas meio que um insulto à nossa inteligência. As tramas sempre foram fracas, tecidas ao sabor das preferências do público, frequentemente com personagens que mudavam radicalmente de personalidade no meio da história sem motivo aparente e cheias de pontas soltas e reviravoltas ilógicas.

Assistir novelas nunca foi (e continua não sendo) um hábito automático em nossa casa e, em um tempo em que elas eram o assunto principal das rodinhas de conversa, algumas vezes fomos confrontadas com olhares espantados em festinhas de aniversário e outros eventos sociais por causa disso.

Nesta história é a empregada Xicória que, sentindo-se excluída da conversa, pede um aparelho de TV ao Professor Pirajá, que vive na floresta justamente para escapar das distrações da vida moderna e poder pensar melhor. A maneira como a solução do problema da TV e da novela causa outros problemas mas acaba levando a uma solução criativa é a linha central do roteiro desta história.

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O Livro De Bruxarias

História das bruxas Maga e Min, de 1973.

Na verdade, trata-se de uma peça promocional para o Manual da Maga e Min, que estava sendo lançado pela primeira vez naquela época.

São só 3 páginas, mas a confusão entre as bruxas é grande e hilária. Até o Laércio resolve sair de perto, que é para não sobrar para ele.

Interessante é o método de criar palavras mágicas invertendo a ordem das letras. Eu já sabia que grandes artistas do Renascimento, como Leonardo Da Vinci, escreviam seus cadernos de rascunhos de trás para frente para que não pudessem ser lidos facilmente por estranhos, mas é a primeira vez que eu vejo um uso dessa técnica em magia. Talvez seja por isso mesmo que não vai funcionar… 😉

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A conclusão à qual as duas chegam é a mesma do Professor Pardal, no ano anterior, quando o manual dele foi lançado: já que não há uma publicação à altura de sua genialidade (no caso, os livros de bruxaria das duas já estão velhos e desatualizados, e é por isso que seus feitiços não dão certo), elas mesmas compilarão o manual de magia definitivo, com base em sua vasta experiência no assunto.

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A Fazenda Safári

História do Donald, de 1973.

Este é um interessante exercício de imaginação sobre o que possivelmente poderia dar errado em um empreendimento com animais selvagens, mas tentando não cair no lugar comum da mera perseguição por feras irracionais.

A inspiração vem de filmes como O Planeta dos Macacos de 1968, por exemplo, no qual macacos inteligentes comandam com mão de ferro um mundo semelhante à Terra.

Enviado para tomar conta de uma “Fazenda Safári” comprada pelo Tio Patinhas, o Donald começa a achar que os macacos que habitam o local, que poderiam ser uma ótima atração de um futuro empreendimento, são preguiçosos demais. Em um arroubo de dedicação excessiva, ele começa a experimentar com a ração dos bichos, até ter a ideia de encomendar do Professor Pardal uma “super ração” que, como todos os inventos desse personagem, acaba tendo efeitos inesperados.

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O uso do telegrama, que o Donald manda aos sobrinhos para pedir socorro, me lembra também a crônica de 1960 “Macacos Me Mordam” de Fernando Sabino, adaptada depois por Ruth Rocha, na qual um cientista pede “1 ou 2 macacos” a um amigo, e acaba com 1002 deles, por descuido do telegrafista.

Enquanto isso, no mundo real, nossos cientistas chegaram à conclusão de que os macacos da atualidade estão evoluindo até mais rápido do que nós e chegando à sua “idade da pedra“. Mais alguns milênios e, quem sabe, estaremos às voltas com primatas inteligentes, como se eles já não fossem espertos o suficiente do jeito que as coisas estão.

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O Irmão Gêmeo Do Biquinho

História do Biquinho, publicada pela primeira vez em 1987.

Esta é mais uma boa sacada de papai: a maioria dos sobrinhos dos personagens Disney existe aos pares e até mesmo às trincas. Os sobrinhos do Donald são 3. As sobrinhas da Margarida, também. Até os vilões têm sobrinhos múltiplos, como por exemplo os Metralhinhas. Os sobrinhos do Mickey e do Zé Carioca são 2 para cada tio. As bruxas também têm sobrinhos de sobra, com as bruxinhas Perereca e Magali (era uma bruxinha só, mas papai acabou desdobrando a personagem em duas) representando o tema “gêmeos”.

Os que têm um sobrinho só são o Pateta, com o Gilberto, o Professor Pardal e seu sobrinho Pascoal, o Gastão com o Trevinho, e por fim o Peninha que, com o Biquinho, foi provavelmente o último a ganhar um sobrinho.

O interessante é que a descrição do personagem, o patinho nascido de um ovo abandonado ao sol e criado por porcos-espinho, em uma alusão ao Tarzan, o órfão criado pelos macacos da floresta, deixa espaço para a interpretação que é feita hoje: se havia um ovo abandonado ao sol, será que não poderia haver outros? Afinal, pássaros como galinhas e patas costumam botar um ovo por dia, às vezes até dois.

Muitas crianças, aliás, já sonharam em ter um irmão gêmeo só para poder “aprontar” melhor. Esse parece ser o caso do Biquinho, que acaba vendo o seu desejo ser realizado logo na esquina de casa. A história tem toques de temas como o “gêmeo mau” (se bem que, aqui, é difícil dizer quem é o pior… o Trambique que o diga) e referências à literatura como em “o príncipe e o mendigo”.

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O Cisquinho, patinho parecido com o Biquinho e seu tio Penald (uma mistura dos nomes do Peninha e Donald) são, por definição, “personagens de uma história só”, criados especialmente para esta história.

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O Superzé

História do Zé Carioca, de 1973.

Papai dedicou-se, de maneira bastante consistente, a “emprestar” os superamendoins a todos os outros personagens com os quais trabalhou. Hoje é a vez do Zé.

Como sempre é preciso que o alvo do “presente” não saiba o que está acontecendo nem o que engoliu que o tornou super. A ideia é que seja um evento de uma vez na vida e que o personagem não consiga repetir a experiência por meios próprios, para melhor preservar o segredo e a identidade do Superpateta, o verdadeiro dono dos amendoins mágicos.

Assim, o personagem geralmente engole o superamendoim juntamente com outra coisa, como uma comida ou bebida. O detalhe interessante é que a bebida da vez é um chá de “limão bravo“, planta que existe de verdade e que é usada na medicina popular para exatamente o que é descrito na história: fazer remédio caseiro para a tosse, entre outras coisas.

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Papai mostra o Zé colhendo os frutos para fazer o chá, já que fica mais fácil e mais simples mostrar assim, mas na verdade a parte usada da planta são as folhas. Ou pode ser que, na dúvida sobre qual parte da planta usar, muitas avós usassem uma mistura de frutos e folhas. Outra informação correta sobre esse chá é que, como a maioria dos remédios caseiros, ele é muito amargo.

O resto da história é a reação do Zé ao se tornar “super”. Por um lado, a preguiça e a aversão ao trabalho que lhe são características continuam a existir, mas o bom caráter e a consciência do personagem fazem com que ele se sinta culpado em não usar seus novos poderes para ajudar as pessoas e prender bandidos.

Esse será o delicado equilíbrio que ele precisará buscar, mas é claro que tudo tem limite, até mesmo para um “estagiário de super”.

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O João Ratazana é um bandido frequente nas histórias do Zé desde a primeira que papai escreveu para ele. Já o Tião Mãoleve aparece somente nesta história.

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Pateta em “Gelo Seco”

Piada do Pateta, de 1977.

Trata-se de meia página, apenas, mas é uma grande sacada sobre o modo de pensar das crianças. Afinal, qual é a criança que, ao ouvir falar pela primeira vez em “gelo seco“, não fique pelo menos surpresa ou intrigada?

O gelo que a maioria das crianças conhece é feito de água, na geladeira da família, e ao ser manuseado fica molhado muito rápido. Afinal, perguntam-se os mais novos, como se faz para o gelo ficar seco? Será que enxugar com o pano de prato ajuda?

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E há também uma associação com a expressão “enxugar gelo”, justamente, que é sinônimo de “trabalho de Sísifo“, uma tarefa inútil e sem propósito que nunca tem fim nem produz o resultado esperado. Além disso a história é uma advertência contra a ignorância (crianças, estudem e procurem saber mais sobre as coisas) e também segue aquela tradição “patética” (ou seja, do Pateta) de mostrar como *não* se faz algo, seja um esporte, uma tarefa doméstica, um conserto ou reparo de algo, etc.

Na data deste post havia um sinal de interrogação após o nome de papai no registro no Inducks. Mas como a revista está na coleção (papai guardava tudo dele que era publicado), as outras histórias brasileiras na revista já estão todas creditadas e seus nomes não constam na lista de trabalho que tenho aqui, só posso acreditar que esta piada é dele sim.

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