História Pra Boi Não Dormir

História do Biquinho, de 1986.

O título se refere a uma velha expressão popular: “história”, ou melhor, “conversa (mole) para boi dormir” é o mesmo que inventar mentiras em sequência para tentar enganar alguém.

Hoje papai associa o conceito com as histórias noturnas contadas às crianças pequenas pelos pais ou tios com a característica do Biquinho de ser difícil de colocar para dormir e com um antigo conto de fadas chamado “Os Três Cabelos de Ouro do Diabo”, dos Irmãos Grimm.

Há toda uma arte e uma ciência por trás dessa coisa toda de se contar histórias para dormir, na verdade. Mais do que o teor da história em si, especialmente para crianças bem pequenas, o que realmente vale é manter um tom de voz calmo e pausado, para que a pessoinha ali na cama se acalme e durma. Daí a associação com a conversa para boi dormir.

Para crianças mais velhas um pouco, a repetição de uma mesma história, noite após noite (ou várias vezes em seguida em uma mesma noite) também tem um efeito calmante por causa justamente da previsibilidade. Saber a história de memória, poder prever o que vai acontecer e até declamar os diálogos, dá à criança uma sensação de segurança. (Mas, até que a história se torne realmente familiar, alguns “acidentes de percurso” podem acontecer.)

Mas é claro que para toda regra existe uma exceção, e hoje ela se chama Biquinho. E papai “empresta” ao patinho toda a criatividade que ele mesmo tinha quando criança, nos tempos em que inventava finais alternativos (e frequentemente muito mais engraçados) para as histórias que ouvia.

Só que, para o Biquinho (e para a diversão do leitor), isso nem sempre é uma coisa boa.

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A Noite Dos Bruxinhos

História de Huguinho, Zezinho e Luisinho, de 1980.

A inspiração vem de uma história de Carl Barks de 1952. Dela papai usou o Dia das Bruxas, as fantasias dos patinhos e a participação da Bruxa Vanda com sua vassoura pensante, a Jezebel.

Para deixar clara a referência, ele usou inclusive um título parecido com o da história de Barks. Mas as semelhanças param por aí. Desta vez não há conflito com o Pato Donald, muito pelo contrário. O conflito será, aliás, completamente indireto, e essa é a principal diferença e o ponto forte desta história.

Fantasiados, os meninos nem estão pedindo doces ou donativos para si mesmos, mas sim para uma festa beneficente dos Escoteiros que, curiosamente, já está prestes a começar. (Papai não explica, mas seria interessante saber que despesa tão urgente é essa que força os garotos a arrecadarem dinheiro assim tão de última hora.)

O interessante é que o Luisinho até chega a ver os bruxinhos que são os vilões da história voando em suas vassouras várias vezes, mas não terá certeza e não haverá nenhum contato direto entre eles. Nem mesmo a Bruxa Vanda, companheira da aventura anterior, eles verão, desta vez.

Somente o Tio Patinhas chega a ver os dois conjuntos de crianças fantasiadas, já que os bruxinhos aproveitam a passagem dos meninos pela Caixa Forte para assumir a aparência deles, enganar o velho pato e assim entrar na fortaleza eles também.

Mas este não é o tema principal da história. É só o “gancho” que vai possibilitar a intervenção da Vanda e a punição dos bruxinhos. O tema da história não é o relacionamento dos meninos com o Donald, que mal participa da coisa toda. Não é exatamente o relacionamento dos patinhos com o tio rico (que hoje aliás está especialmente generoso, coisa rara, mas o tema também não é esse.) E certamente não é a festa beneficente dos Escoteiros.

O tema da história é puramente o Dia das Bruxas, e aquele tipo de magia que está constantemente à nossa volta mas que nós, materialistas e sobrecarregados com as tarefas do dia a dia, simplesmente não conseguimos ver.

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Também na Amazon, estou lançando um novo projeto: o Sebo Saidenberg, no qual inicialmente estou disponibilizando alguns dos livros de minha coleção particular que podem ser interessantes aos amigos, incluindo alguns poucos exemplares da biografia que estão comigo, e que seguirão autografados a quem os comprar diretamente do meu sebo.

“Pé De Pato, Mangalô Três Vezes”

História do Zé Carioca, de 1975.

O tema de hoje versa sobre as superstições brasileiras sobre sorte e azar, com uma pequena “ajuda” do bruxinho Peralta.

O bico do chapéu do bruxinho, aliás, pode ser visto por detrás das cercas já desde o primeiro quadrinho, e também é possível ver uma mão ou um braço aqui e ali no decorrer das primeiras páginas, mas a presença do vilãozinho só será realmente revelada na quarta página, depois que o leitor já estiver bastante desconfiado.

Mas afinal, passar por baixo de escadas ou atravessar o caminho de um gato preto dá mesmo azar? E será mesmo que repetir certas frases “mágicas”, ou carregar todo tipo de objeto, como pés de coelho e outros amuletos, ou jogar coisas como sal e ferraduras por cima do ombro dá mesmo sorte? De onde vêm todas essas superstições e crendices?

As origens de algumas dessas crendices são bem conhecidas: por exemplo, a crença de que quebrar um espelho dá azar vem da Veneza da Renascença. Naqueles tempos, quando os espelhos de vidro ou cristal eram uma novidade rara e cara, ai do empregado de uma rica mansão que quebrasse um deles. Certamente nunca mais conseguiria emprego na cidade.

A crença na boa sorte trazida por pés de coelhos, geralmente embalsamados e levados junto ao corpo, remonta à China do século VII a.C. A “sorte” que eles davam, originalmente, era relacionada à grande capacidade reprodutiva desses animais. A vitalidade da economia das sociedades antigas dependia fortemente da fertilidade dos animais e das pessoas, também.

E não nos esqueçamos do pobrezinho Gato Preto, esse bichinho historicamente injustiçado: por ser um animal noturno, durante a Idade Média o gato foi associado com as “trevas” e com a capacidade de ver espíritos. Além disso, por causa da amizade natural entre mulheres (especialmente as mais velhas, naqueles tempos) e gatos, eles acabaram sendo também associados à imagem das “Bruxas”. E se fossem pretos, então… coitados!

Mas toda essa perseguição implacável aos bichanos, motivada pelo medo e pela desconfiança, e sua quase extinção na Europa, não ficaria impune: foi por falta de gatos para caçar os ratos que infestavam ruas e casas que a Peste negra se espalhou pelo Velho Continente, levando com ela algo como metade da população.

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O Presidente Das Bruxas

História das bruxas, de 1975.

Que não há honra entre ladrões, nós já sabemos. O que vamos aprender hoje é que, ao que parece, também não há honra entre as bruxas. Mas o pior, nós veremos, acontece quando misturamos bruxas com ladrões.

A Madame Min teve a ideia de fundar um Clube das Bruxas. A sede do clube, onde acontece a primeira reunião, fica na casa da Madame Min. Mas, mesmo assim, a Min não se sagrará presidente do clube sem antes haver muita discussão.

Para piorar, o Mancha Negra chega de repente e acaba se aproveitando da situação (e da paixonite que a Min tem por ele) para usurpar a presidência do clube e obrigar as bruxas a participarem de assaltos a joalherias. Elas podem até ser más, mas não são ladras, e isso acabará sendo a ruína do Mancha.

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Em meio ao androcentrismo da maioria das histórias Disney da época, que às vezes chegava às raias do machismo (essa era a cultura daqueles tempos, infelizmente), esta pode ser considerada até mesmo uma fábula “feminística”: é isso o que acontece quando as mulheres se desunem e dão um poder que deveria ser só delas ao homem errado. Afinal, nem mesmo bruxo ele é. Somente unidas elas poderão reverter a situação e usar as caprichosas “leis da magia” para destituir o “presidento”.

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O interessante, novamente, é ver a velha e boa intuição de papai em ação no comentário sobre se ter “um maluco” como presidente. Como sempre, ele estava 30 ou 40 anos à frente de seu tempo.

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O Pequeno Grande Ladrão

História do Morcego Vermelho, de 1975.

Esta é mais uma daquelas histórias onde nada é o que parece ser. O objetivo de papai aqui é confundir o leitor ao máximo para depois arrancar dele belas gargalhadas.

A inspiração para o nome da história vem de alusões que se costuma fazer a crianças ou a pessoas que são baixinhas: “fulana pode ser pequena, mas (já) é uma grande pessoa”.

Já o Pequeno ladrão e o Grande ladrão são inspirados naqueles espelhos de parques de diversão que distorcem a imagem da gente. Se bem que o herói (e o leitor) não vai ter certeza se são dois ou só um até o final da história.

A trama é caracterizada por repetidas reviravoltas, e até de calúnias o Morcego vai ser vítima.

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Mas o ponto alto da história, em minha humilde opinião, é a participação especial da Bruxa Vanda, que aparece somente em dois quadrinhos e não tem mais nenhuma participação na trama, no que talvez seja uma das situações mais insólitas já inventadas nos quadrinhos. Afinal, espera-se tudo de uma bruxa de histórias em quadrinhos. Pelo menos, espera-se que ela esteja por trás da coisa toda, manipulando tudo por magia para algum propósito maligno. Hoje, decididamente, não é o caso.

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Essa cena é inspirada em uma antiga piada de espionagem que papai costumava contar: era uma vez um espião italiano que precisava fazer contato com outro espião por meio de uma senha especial, para manter segredo, porque ninguém podia saber de nada. Então ele foi até o endereço que ele achava que era do contato dele, bateu na porta, e quando a pessoa abriu, declamou: “i campi sono pieni di fiore” (os campos estão cheios de flores).

A princípio o cidadão não entende do que se trata, para desespero do espião, e após uma conversa que pode ser tão breve ou tão longa e atrapalhada quanto a pessoa que está contando a piada quiser, ele entende e diz: “Ah! Você está procurando pelo meu vizinho! (e gritando para a porta do apartamento ao lado) Josepe espione! Visita para você!”

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O Gato De Botas

História do Morcego Vermelho, de 1977.

O título é uma referência ao conto infantil de mesmo nome, de autoria de Charles Perrault.

Como sempre, papai não reconta a história na qual se inspirou em todos os detalhes, mas usa alguns de seus elementos para compor algo totalmente novo. Neste caso, o principal elemento usado é o das botas mágicas que fazem quem as calça percorrer 7 léguas com um só passo.

Em 1697, ano em que o conto de fadas foi escrito e publicado pela primeira vez, esse provavelmente era um sonho comum, já que ainda não existiam as grandes máquinas que hoje rapidamente nos levam a todo lugar. Os mais ricos andavam a cavalo ou de carruagem, e os mais pobres iam a pé, mesmo. Essa era a tecnologia da época, e qualquer coisa mais rápida era muito provavelmente considerada impossível.

Estranhos gatos com capas e calçando as prodigiosas botas aparecem em Patópolis aprontando todas, e será tarefa do Morcego Vermelho prendê-los (do jeito dele, é claro) e acabar com a farra.

MOV Gato

O interessante é que o Morcego não é somente um pato fantasiado. O que começou como uma fantasia de carnaval para que o repórter Peninha pudesse entrar em uma festa a fantasia foi, com o tempo, se tornando algo quase mágico por si só. Ao vestir a roupa de herói o primo do Donald realmente se transforma, senão somente em nível psicológico, mas realmente muda até mesmo de personalidade. Apesar de conservar a qualidade desastrada, o Morcego é bem mais esperto e sabe raciocinar com mais clareza do que o Peninha.

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Mas a história não é só isso. Papai vai deixando pistas pelas páginas sobre a possível real identidade dos gatos, na esperança que o leitor adivinhe. E o Morcego, apesar de acabar prendendo os bandidos, infelizmente também vai se dar mal. É a vida: às vezes a gente perde, até mesmo quando a gente ganha.

Hoje entre as curiosidades temos um cinema chamado “Cine Lândia”, uma referência tanto à praça chamada Cinelândia, no Rio de Janeiro, quanto à distribuidora de filmes de mesmo nome.

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Um Convidado Bem Trapalhão

História do Pateta, de 1975.

O tema é um que já foi muito usado em filmes de terror tipo B e em histórias em quadrinhos do mesmo gênero, daquelas que papai escrevia nos anos 1960, antes de começar a trabalhar com quadrinhos infantis: o carro de um incauto qualquer tem uma pane mecânica no meio de uma noite escura e tempestuosa, próximo a um castelo aparentemente abandonado e de aparência lúgubre. Sem muita escolha, ele busca lá mesmo um abrigo para passar a noite e acaba se deparando com uma festa de monstros. A partir daí, muita coisa pode acontecer, e de fato acontece.

Nesta história em particular, o que vemos é uma espécie de embate entre o bruxinho Peralta, que quer assustar o Pateta a qualquer custo, e o bruxinho Tantã, que estudou magia branca e não faz maldades. Assim, o segundo bruxinho toma para si a tarefa de proteger o Pateta, sem ninguém saber. Já o próprio Pateta, protegido pela própria inocência e por seu “amigo secreto”, passa a história toda sem fazer ideia do que está realmente acontecendo, e é claro que isso torna a coisa toda ainda mais engraçada.

Pateta convidado

“Um Convidado Bem Trapalhão” é também o título de um filme de Peter Sellers, de 1968, no qual o igualmente patético e trapalhão personagem principal é convidado por engano para uma festa esnobe e acaba fazendo a maior confusão.

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