Vassoura Ao Molho Pardo

História das bruxas, escrita e publicada em 1974.

Esta é mais uma daquelas histórias geniais que foram, sabe-se lá por quê, publicadas no Brasil uma única vez. Isso é uma pena, mais gente deveria ter a oportunidade de ler esta pequena joia.

A trama se baseia, todinha, desde o início e até o final, em sutilezas. Toda a discussão entre as bruxas na segunda página é cuidadosamente composta para fazer com que as duas percam a aposta. Pois é, isso é possível.

O plano é muito bem bolado, como todos os planos de papai para seus bandidos, e o uso liberal de magia certamente é uma vantagem para eles. Mas, como sempre, haverá uma falha fundamental. Falha essa que, hoje, tem mais a ver com o fato de que não existe honra entre ladrões – e bruxas, também – (não vamos nos esquecer que todos os personagens principais são vilões) do que com qualquer outro fator.

A referência a “molho pardo”, como eu já mencionei neste blog, se dá porque este era o prato mais repugnante que papai conhecia. É a punição suprema às bruxas.

Já os Metralhas, desta vez, vão ficar sem uma punição mais séria porque eles afinal foram, para todos os efeitos, sequestrados e usados pelas bruxas para um plano que nem era deles.

Aviso aos navegantes:

Não, este blog não lida com autocríticas. Muito pelo contrário, e isto é intencional, como vocês já devem ter percebido. Já existe gente de alma pequena o suficiente para tentar criticar, colocar para baixo e esquecer, algumas vezes intencionalmente, o trabalho de um artista genial (e de seus colegas desenhistas e outros argumentistas, tão geniais quanto), como se não bastasse o fato de que eram todos anônimos no início por força de contrato.

Então poupem os pomposos e arrogantes dedinhos de digitar abobrinhas rebuscadas. Eu sei o que eu estou fazendo, e as reações positivas dos fãs da Disney em geral nas redes sociais certamente não me deixam esquecer de que este blog é, sim, necessário e que estamos, todos nós, fãs de quadrinhos, no caminho certo.

Os cães ladram e a caravana passa. Tenho dito.

***************

Já leste o meu livro? Quem ainda não leu está convidado a conhecer minha biografia de papai, à sua espera nas melhores livrarias: Marsupial – Comix – Cultura 

A História dos Quadrinhos no Brasil, e-book de autoria de papai, pode ser encontrado na Amazon 

O Presidente Das Bruxas

História das bruxas, de 1975.

Que não há honra entre ladrões, nós já sabemos. O que vamos aprender hoje é que, ao que parece, também não há honra entre as bruxas. Mas o pior, nós veremos, acontece quando misturamos bruxas com ladrões.

A Madame Min teve a ideia de fundar um Clube das Bruxas. A sede do clube, onde acontece a primeira reunião, fica na casa da Madame Min. Mas, mesmo assim, a Min não se sagrará presidente do clube sem antes haver muita discussão.

Para piorar, o Mancha Negra chega de repente e acaba se aproveitando da situação (e da paixonite que a Min tem por ele) para usurpar a presidência do clube e obrigar as bruxas a participarem de assaltos a joalherias. Elas podem até ser más, mas não são ladras, e isso acabará sendo a ruína do Mancha.

min-presidente

Em meio ao androcentrismo da maioria das histórias Disney da época, que às vezes chegava às raias do machismo (essa era a cultura daqueles tempos, infelizmente), esta pode ser considerada até mesmo uma fábula “feminística”: é isso o que acontece quando as mulheres se desunem e dão um poder que deveria ser só delas ao homem errado. Afinal, nem mesmo bruxo ele é. Somente unidas elas poderão reverter a situação e usar as caprichosas “leis da magia” para destituir o “presidento”.

min-presidente1

O interessante, novamente, é ver a velha e boa intuição de papai em ação no comentário sobre se ter “um maluco” como presidente. Como sempre, ele estava 30 ou 40 anos à frente de seu tempo.

***************

Já leste o meu livro? Quem ainda não leu está convidado a conhecer minha biografia de papai, à sua espera nas melhores livrarias: Marsupial – Comix – Cultura 

A História dos Quadrinhos no Brasil, e-book de autoria de papai, pode ser encontrado na Amazon 

O Rei Dos Ladrões

História dos Irmãos Metralha, de 1976.

A inspiração vem de uma parte menos conhecida do livro “O Corcunda de Notre-Dame”, escrito por Victor Hugo nos anos 1830. Na passagem em questão a escória de Paris, seus cidadãos mais excluídos, aqueles que vivem de todo tipo de tramoia, de pequenos furtos e mendicância a grandes roubos e até assassinatos, se reúne no chamado “Pátio dos Milagres”.

Lá, vivem como uma sociedade à parte e inclusive “usurpam” os títulos da nobreza parisiense em um misto de complexo de inferioridade, desafio, sátira e desdém pela sociedade “de bem”. Há um “rei” de nome Clopin Trouillefou, e toda uma “corte” de ladrões, prostitutas e escroques.

Papai aqui retrata os conflitos entre esses bandidos, já que não existe mesmo honra entre ladrões e o trono é do mais forte, e não derivado de um “direito divino”, como reza a tradição das famílias reais legítimas da Europa.

metralhas-rei

Como sempre a história é contada pelo Vovô Metralha, com o Azarado como personagem principal, e o 1313 da atualidade sempre torcendo por seu “antepassado”. Além disso, papai faz um “afrancesamento” de todos os nomes dos vilões: o Mancha Negra vira “Manchá”, o João Bafo de Onça vira “Jean Bafô-D’onçá” e o Gavião é o “Gavion”, para citar uns poucos.

O personagem do “Rei dos Ladrões” é interpretado pelo Metralha Intelectual, sob o nome de “Clopin Metralhá”, e o Pátio dos Milagres é agora o “Pátio dos Pilantras”.

Dessa parte menos lembrada do livro, a passagem que mais marcou papai foi o “treinamento” para batedores de carteiras: um boneco de pano ficava pendurado em uma armação, e a roupa dele era cheia de guizos e pequenos sinos. No bolso, uma sacolinha com moedas. Para ser aceito no bando o candidato a ladrão precisava provar sua habilidade tirando a sacolinha do bolso do boneco sem deixar tocar nenhum guizo. Se não conseguisse, seria espancado e expulso.

metralhas-rei1

A história corre mais ou menos fiel ao livro até mais ou menos a metade, quando papai chega à conclusão de que já é o suficiente. Em seguida, ele dá uma dramática reviravolta na trama e termina a desventura do antepassado do Azarado à sua hilária maneira, com direito até mesmo a uma participação especial dos Três Mosqueteiros (que eram quatro, nunca se esqueçam disso).

****************

Já leste o meu livro? Quem ainda não leu está convidado a conhecer minha biografia de papai, à sua espera nas melhores livrarias: Marsupial – Comix – Cultura 

A História dos Quadrinhos no Brasil, e-book de autoria de papai, pode ser encontrado na Amazon 

Os Espiões Que Entraram Em Fria

História do Zé Carioca, de 1975.

Trata-se de mais um “encontro” de “turmas” diferentes, ainda que os integrantes desses dois universos mal se encontrem.

A Maga Patalójika resolve se mudar do Vesúvio para o Rio de Janeiro (com casa e tudo, diga-se de passagem), mas não consegue despistar os dois detetives (criados em 1963 por Carl Barks) que o Tio Patinhas contratou para vigiá-la. Esta é, aliás, a primeira história brasileira na qual esses dois aparecem. A segunda (e última) história nacional na qual eles são usados data de 1981, mas não é de papai.

Enquanto isso, a Rosinha cismou que o Zé precisa arrumar um emprego imediatamente. Isso, é claro, vai acabar levando a uma situação na qual ele e o Nestor vão substituir os detetives por algum tempo, mesmo sem saber a quem estão vigiando, nem quem é o “patrão” que está pagando pelo serviço. O mais importante, aqui, é “mostrar serviço” para a Rosinha, só isso.

O título da história é uma alusão ao filme de 1965 de nome “O Espião Que Saiu do Frio”, inspirado no livro homônimo de 1963. Além disso é também uma referência aos poderes da Maga, que costuma conjurar tempestades e nevascas quando quer atacar “discretamente” a quem a incomoda.

zc-fria1

Por fim, o detalhe interessante é o curioso telefone sem fio dentro da maleta, um “futurismo retrô” que me parece ser também coisa do Barks mas que, como bons brasileiros trabalhando para uma grande empresa, o Zé e o Nestor vão usar para fins pessoais.

zc-fria

****************

Já leste o meu livro? Quem ainda não leu está convidado a conhecer minha biografia de papai, à sua espera nas melhores livrarias: Marsupial – Comix – Cultura 

A História dos Quadrinhos no Brasil, e-book de autoria de papai, pode ser encontrado na Amazon 

Hotel Meio Assombrado

História da Maga e da Min, de 1974.

Quando alguém começa um grande empreendimento, duas das primeiras regras são definir quem é seu público alvo e o que o novo negócio irá oferecer aos clientes. Além disso, é muito recomendável ter uma boa política de contratação e gestão de RH, para que o negócio tenha alguma chance de sucesso.

Mas, obviamente, a Maga Patalójika e a Madame Min, como bruxas que são, não entendem nada disso. O “Hotel Assombrado”, um casarão caindo aos pedaços no alto de um monte, fica realmente mais próximo da rota das vassouras voadoras do que da trilha dos turistas humanos, mas, a princípio, são estes últimos que a Maga quer atrair.

maga-hotel1

Assim, quando o estabelecimento começa a atrair uma clientela mista de bruxos e humanos, cada grupo com suas próprias ideias sobre o que esperar da experiência, o leitor já vai perceber que a coisa toda não pode dar lá muito certo. Junte-se a isso a insatisfação dos “funcionários” Perereca e Peralta, e temos a receita certa para uma grande confusão.

maga-hotel

O “Primo Felizardo” (ou Cousin Lucky), é um personagem criado em 1964 no exterior para ser, no mundo das bruxas, o equivalente ao que é o Primo 1313 dos Metralhas em Patópolis. Foi usado em apenas três histórias, duas delas brasileiras: a de criação, esta, e outra de Arthur Faria Jr.

Realmente, parece que este personagem não tem mesmo muita sorte… apesar de fazer uma curta participação aqui, não conseguiu “emplacar” nem mesmo como “adotado”, ao contrário do que aconteceu com o Metralha Azarado, que passou de obscuro a “estrela” sob o lápis de papai.

****************

Já leste o meu livro? Quem ainda não leu está convidado a conhecer minha biografia de papai, à sua espera nas melhores livrarias: Marsupial – Comix – Cultura 

A História dos Quadrinhos no Brasil, e-book de autoria de papai, pode ser encontrado na Amazon 

O Circo Dos Horrores

História do Tio Patinhas, de 1976.

Os assim chamados “shows de horrores” ou circos de horrores eram uma forma de entretenimento que foi muito popular nos EUA do século XIX, mas eu desconfio que é algo que vem desde a Idade Média, ou até antes na História.

Nas cortes dos reis medievais e renascentistas europeus eram muitos os contratados para entreter os nobres, entre palhaços, mágicos, músicos e pessoas portadoras de deficiências, como o nanismo, por exemplo.

O fato é que, por falta total de tecnologia médica para ajudá-las e pelo forte preconceito que essas pessoas sofriam, os deficientes físicos em geral não teriam outra condição de trabalhar e se sustentar, a não ser que se juntassem a algum tipo de “circo” ou se colocassem sob a “proteção” de algum explorador inescrupuloso.

No Novo Mundo, os shows itinerantes que viajavam pelos EUA eram um misto de zoológico humano e museu de bizarrices: pessoas deformadas, objetos estranhos usados em shows de mágica, e animais mitológicos empalhados. Desses bichos empalhados, as mais famosas talvez sejam as Sereias de Fiji, que nada mais eram do que carcaças de macacos costuradas em rabos de grandes peixes.

(Aliás, se você ainda não clicou nos links, eu recomendo cautela: algumas das imagens são um pouco fortes.)

Com o início do Século XX e os avanços da medicina e da cultura esses espetáculos deploráveis foram caindo em desuso. Mas algo inspirado nisso que ainda circula por todo o Brasil em circos e parques de diversões itinerantes é o show da “Monga, a Mulher Gorila“.

Na história de hoje, os monstros bizarros que povoam o circo “Gorlando, O Feio” (mais uma brincadeira com o famoso Circo Orlando Orfei) são na verdade bruxos vindos de Bruxópolis para ajudar a Maga Patalójika em mais um plano para tentar roubar a Moedinha Número Um.

tp-horrores

****************

Já leste o meu livro? Quem ainda não leu está convidado a conhecer minha biografia de papai, à sua espera nas melhores livrarias: Marsupial – Comix – Cultura – Monkix 

A História dos Quadrinhos no Brasil, e-book de autoria de papai, pode ser encontrado na Amazon 

 

A Vassoura Doida Varrida

História da Maga Patalójika, de 1978.

O título é uma associação de ideias entre o conceito de vassouras e a expressão “doido varrido“. Essa é uma daquelas expressões que usamos há tanto tempo (mais precisamente, desde os tempos do “Santo Ofício” – ou Inquisição, mesmo – no Brasil) que até já esquecemos o porquê, ou o que quer dizer exatamente. Mais precisamente, “varrido do juízo” é alguém cuja sanidade parece ter se esfarelado e sido removida, como que por uma vassoura ou ventania.

Assim, temos aqui uma vassoura mecânica “muito louca” criada pelo Bruxinho Peralta e “envenenada” (hoje em dia se diz “tunado”) como se fosse um carro ou uma motocicleta. A diferença é que aqui o “veneno” vem de poções de plantas venenosas, como na história “A Corrida de Vassouras” já comentada neste blog. Aliás, a intenção hoje é a mesma: ter algo poderoso com o qual participar da corrida de vassouras da grande gincana de Bruxópolis e vencê-la, de preferência.

O problema começa quando o bruxinho se choca em pleno ar com a Maga durante o voo de testes. Para não virar sapo, ele faz para ela uma vassoura a jato igual à dele, que ela vai usar, obviamente, para ir à Caixa Forte e tentar roubar a Moedinha Número Um pela enésima vez. É claro que, como sempre, o plano que parece infalível será frustrado. O interessante será ver exatamente como.

maga-vassoura

E no final papai ainda consegue devolver a trama à gincana de Bruxópolis, com um final inusitado. Afinal, depois de tantas peraltagens, troças e trapaças, seria impensável que o Peralta tivesse permissão para vencer a corrida de vassouras.

(E por falar no Peralta, sou só eu ou a JK Rowling andou lendo quadrinhos Disney quando criança? Ou isso, ou então é realmente muito fácil imaginar vassouras “modernosas” e associá-las aos carros, por exemplo. Agora, a autora que me perdoe, mas a “mala cheia de monstros” da trama de “Animais Fantásticos” é uma coisa que foi criada juntamente com o Bruxinho Peralta nos EUA em 1964, desenhada pela primeira vez por Tony Strobl e muito usada por papai nos anos 1970/80. É óbvio que não é impossível que ela tenha chegado a essa noção por esforço de imaginação próprio, mas que é curioso, isso lá é.)

****************

Já leste o meu livro? Quem ainda não leu está convidado a conhecer minha biografia de papai, à sua espera nas melhores livrarias: Marsupial – Comix – Cultura – Monkix 

A História dos Quadrinhos no Brasil, e-book de autoria de papai, pode ser encontrado na Amazon