O Conto Da Cascata

História do Sr. X, o “Rei do Crime”, de 1976.

O chamado “Golpe da Cascata” existe de verdade, e é mais uma das modalidades dos chamados “contos do vigário”, nos quais um ou mais golpistas exploram a ingenuidade, ganância ou até mesmo desonestidade de uma vítima incauta para ficar com o dinheiro dela.

Os quadrinhos desfiam, em todos os detalhes, o modo como um golpe desses se desenrola. Disfarçado, o chefe do bando inicia a encenação e o resto da quadrilha continua com o plano.

A coisa toda transcorre de modo bastante fácil. Na verdade, parece até mesmo um pouco fácil demais. O leitor que estiver esperando para ver o momento em que a vítima vai reagir, ou a polícia vai aparecer, ou algo no gênero, vai se sentir realmente frustrado. Será que, desta vez, a pretensa quadrilha conseguirá, finalmente, cometer um crime? E se conseguir, será mesmo que os bandidos vão sair impunes?

De certo modo, quem está aplicando um “golpe” é papai, com seu hábito de espalhar pistas falsas e apresentar situações que não são o que parecem ser. Seja como for, esta história serve como uma ferramenta educacional, ensinando o leitor a reconhecer o conto do vigário para que tenha uma chance de não cair nele, caso se veja na mesma situação no futuro.

E sim, os vilões vão se dar mal no final, como não poderia deixar de ser. O problema é que, como eu já disse no passado, “para cada idiota que se faz de monstro, existe um monstro que se faz de idiota”. Quem ler, verá.

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Os Desabrigados

História dos Irmãos Metralha, de 1979.

Para a população em geral, qualquer pessoa que não seja milionária, ter um lugar para morar sempre foi um problema, no Brasil. E no tempo em que esta história foi escrita, era um problema maior ainda. A trama serve tanto como uma crítica social quanto como uma zoação aos Metralhas.

Ao serem despejados por fiscais da prefeitura de um casebre condenado, os irmãos e o Vovô saem em busca de um novo lugar para se esconder. A crítica social vem na citação da letra de “Saudosa Maloca“, de Adoniran Barbosa.

A zoação fica por conta do encontro dos desabrigados com o igualmente sem-teto bando do Sr. X, o auto-intitulado “Rei do Crime”, que conseguiu nunca cometer crime algum, e muito menos ir preso ou ser fichado pela polícia.

Os Metralhas são tão pés-de-chinelo, mas tão chinfrins, mas tão sem eira nem beira, que conseguem perder a briga até mesmo para os “anti-vilões” mais zero à esquerda da história de Patópolis.

O resto da piada é a tentativa dos desabrigados de irem presos para pelo menos poderem dormir sob um teto em algum lugar seco, mesmo que esse lugar seja a cadeia. Mas ser detido pela polícia é apenas metade do processo de ser recolhido ao xilindró. A outra parte é ser julgado e condenado por um juiz, e às vezes as decisões judiciais podem ser bastante surpreendentes.

Uma coisa é certa: em uma história de papai, não há chance alguma de que algum plano dos Metralhas vá dar certo, não importa qual seja. E se puder dar espetacularmente errado, melhor ainda.

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Reunião Anual Dos Metralhas

História da Família Metralha, de 1975.

A sorte dos Metralhas é que o Superpateta costuma ser mais “pateta” do que “super”, na maior parte do tempo, o que dá a eles algum espaço para manobras. O azar deles é que, mais cedo ou mais tarde, os dois neurônios do herói acabam chegando a um acordo.

Hoje os malfeitores têm uma ideia para sair às ruas sem despertar a suspeita do Super, mas não têm um plano definido. Se, mesmo com um plano pensado nos mínimos detalhes eles conseguem fazer confusão, imagine só a bagunça causada por um “arrastão” a esmo de roubos do tipo “pé-de-chinelo”.

Além disso, papai também nos apresenta mais uma das festividades oficiais do calendário anual de Patópolis: a “Grande Festa”. Marcada por fantasias, desfiles em blocos, pandeiros e tambores, ela se assemelha bastante ao Carnaval. Assim, temos mais uma festa além do Natal (que não poderia faltar), o desfile do Dia do Aniversário da Cidade, e o dia do “Adivinhe quem vem para jantar” (uma espécie de Dia de Ação de Graças).

Interessante é a “participação especial” do Sr. X e sua quadrilha, em um quadrinho apenas. Seria muito fácil colocar meros figurantes desconhecidos para fazer este papel mas, convenhamos, é muito mais engraçado quando eles são conhecidos do leitor. E ainda mais se também forem bandidos. “Parece” que esse bairro não é lá muito bem frequentado.

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O Rei Dos Ladrões

História dos Irmãos Metralha, de 1976.

A inspiração vem de uma parte menos conhecida do livro “O Corcunda de Notre-Dame”, escrito por Victor Hugo nos anos 1830. Na passagem em questão a escória de Paris, seus cidadãos mais excluídos, aqueles que vivem de todo tipo de tramoia, de pequenos furtos e mendicância a grandes roubos e até assassinatos, se reúne no chamado “Pátio dos Milagres”.

Lá, vivem como uma sociedade à parte e inclusive “usurpam” os títulos da nobreza parisiense em um misto de complexo de inferioridade, desafio, sátira e desdém pela sociedade “de bem”. Há um “rei” de nome Clopin Trouillefou, e toda uma “corte” de ladrões, prostitutas e escroques.

Papai aqui retrata os conflitos entre esses bandidos, já que não existe mesmo honra entre ladrões e o trono é do mais forte, e não derivado de um “direito divino”, como reza a tradição das famílias reais legítimas da Europa.

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Como sempre a história é contada pelo Vovô Metralha, com o Azarado como personagem principal, e o 1313 da atualidade sempre torcendo por seu “antepassado”. Além disso, papai faz um “afrancesamento” de todos os nomes dos vilões: o Mancha Negra vira “Manchá”, o João Bafo de Onça vira “Jean Bafô-D’onçá” e o Gavião é o “Gavion”, para citar uns poucos.

O personagem do “Rei dos Ladrões” é interpretado pelo Metralha Intelectual, sob o nome de “Clopin Metralhá”, e o Pátio dos Milagres é agora o “Pátio dos Pilantras”.

Dessa parte menos lembrada do livro, a passagem que mais marcou papai foi o “treinamento” para batedores de carteiras: um boneco de pano ficava pendurado em uma armação, e a roupa dele era cheia de guizos e pequenos sinos. No bolso, uma sacolinha com moedas. Para ser aceito no bando o candidato a ladrão precisava provar sua habilidade tirando a sacolinha do bolso do boneco sem deixar tocar nenhum guizo. Se não conseguisse, seria espancado e expulso.

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A história corre mais ou menos fiel ao livro até mais ou menos a metade, quando papai chega à conclusão de que já é o suficiente. Em seguida, ele dá uma dramática reviravolta na trama e termina a desventura do antepassado do Azarado à sua hilária maneira, com direito até mesmo a uma participação especial dos Três Mosqueteiros (que eram quatro, nunca se esqueçam disso).

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O Roubo Do Carro Elástico

História do Sr. X de 1975.

Realmente, não é por falta de tentar. O plano da vez é muito bom, os disfarces são muito criativos (mil vezes melhores do que os dos Metralhas, por exemplo), mas ainda não será hoje que os “candidatos a bandidos” terão sucesso em suas maléficas pretensões.

Como eu disse, o plano é perfeito, exceto por um detalhe (ou dois, na verdade): os vilões investiram tanto tempo e esforço para bolar os disfarces perfeitos que se esqueceram de decidir justamente o que seria roubado. Aqui começa o problema dos bandidos, e a diversão do leitor.

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É aí que entra o novo carro inventado pelo Professor Pardal que, como mencionado no título, é um curioso “carro elástico”. Sabe-se que já se fabricaram carrocerias de carros e demais veículos automotores com todos os tipos de materiais, desde o aço inoxidável, como o famoso DeLorean, até materiais menos nobres e mais amigáveis ao meio ambiente como plásticos, fibra de vidro, madeira, fibras de bambu e até mesmo de cânhamo.

Mas apesar de a borracha ser um componente que está presente em muitas das peças de um carro comum, dos pneus à vedação das portas, nos anos 1970 ninguém ainda havia pensado em usá-la para moldar a carroceria em si.

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Acredito que a ideia para esta história veio dos vídeos de testes de colisão que as montadoras passaram a divulgar mais ou menos naquela mesma época na TV, como propaganda da qualidade de seus produtos e vídeos educativos para a segurança no trânsito. (Crianças, usem sempre o cinto de segurança). Além disso, há também a associação com carrinhos de brinquedo, frequentemente feitos de plástico, borracha, ou mesmo pano.

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O Golpe Do Sumiço

História do Superpateta, de 1976.

Trata-se de mais um plano do Sr. X para ver se consegue, finalmente, cometer um crime e se transformar no “Rei do Crime” que ele tanto quer ser.

O interessante é que o Superpateta é tão bobo, que bastaria gritar por socorro e ele viria acudir do mesmo jeito. Mas aí, é claro, a coisa toda não seria assim tão engraçada. Além disso, esse é o laço que vai unir as pontas da trama, a primeira e a última página. Fazer o Super pensar que está ouvindo mal pode ajudar a confundi-lo o suficiente para que ele sirva de inocente útil no início, mas no final vai ser prejudicial aos maus da história.

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O nome do inventor maluco da vez, um tal de “Professor Sumidus”, é mais um daqueles pensado sob medida para um personagem que apareceria apenas uma vez: é, obviamente, uma brincadeira com a palavra “sumido”, no sentido de “desaparecido”. O fato é que ele é inventor de uma fórmula da invisibilidade, e passa a maior parte da história presente, mas sem ser visto.

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É a famosa luta do bem contra o mal, desta vez ao redor de uma fórmula tecnologicamente avançada, mas potencialmente perigosa. Nada é inerentemente bom ou mau, tudo são apenas ferramentas. A diferença está no uso que se faz dessas coisas.

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A Caixa-Forte Camuflada

História do Mancha Negra, de 1975.

O bando do Sr. X, composto por pretensos criminosos, nunca conseguiu praticar crime nenhum, e nem mesmo ser fichado na polícia. Mas seu chefe não é assim tão bobo, e desta vez resolve contratar um profissional para “dar consultoria” a eles. Ele pode até ser um eterno fracasso como bandido, mas ninguém pode dizer que ele não tem determinação.

SrX Caixa

Só que o Mancha tem seus próprios planos para essa consultoria do mal, e leva os amadores até uma fábrica que ele descreve como o novo local, disfarçado, da Caixa Forte do Patinhas. Quem conhece o personagem logo vai desconfiar que há alguma coisa errada aí: atacar a Caixa Forte é coisa dos Metralhas. O Mancha é ladrão de jóias e outras coisas de valor, mas não exatamente o vil metal puro e simples. Ele é mais “sofisticado” do que isso.

Mas isso não quer dizer que vai ser fácil entrar. Mesmo não sendo este o novo local da fortaleza do pato quaquilionário, nem tendo ele as sofisticadas armadilhas anti-ladrões que tradicionalmente o cercam (e isso também é algo que o leitor atento deveria perceber), o lugar não está abandonado nem desprotegido, e realmente contém algo de valor.

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Será que desta vez o bando do Sr. X conseguirá praticar um crime e ficar famigerado? Conseguirão eles a suprema glória (no entender deles, é claro), de irem presos? Quem ler, verá.

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