O Boneco Da Sorte

Em 1974 papai já “brincava” com a ideia do boneco sobrenatural que dá azar, ou neste caso sorte, dependendo de quem está de posse dele.

Esta é uma história da Família Pato, mais exatamente do Donald e Sobrinhos contra o Gastão. O pato acha a estatueta na rua (ou melhor, é ela que vem voando de encontro à cabeça dele), e bem onde ela cai há uma nota de 500 cruzeiros. Disso, ele conclui que o objeto dá sorte e o leva para casa. Na parede, no primeiro quadrinho, o calendário marca “sexta feira 13”.

sexta 13

No mesmo dia o Gastão, eterno rival do Donald, ganha uma viagem num concurso e não perde a chance de ir se gabar para a Margarida. Quando o Donald recebe do Tio Patinhas a missão de ir à África e vai avisar a namorada, o Gastão já está na casa dela, aboletado numa poltrona. Daí começa uma competição entre os dois, para ver quem vai e volta mais rápido com o melhor presente para a pata.

Num detalhe curioso, a estante que se vê atrás de um dos sobrinhos enquanto ele consulta o Atlas para ver onde fica o tal lugar para onde eles devem ir contém um livro da enciclopédia “Os Bichos” (que foi traduzida por papai em parceria com mamãe), uma cópia do “Cinquentenário Disney”, e um volumoso exemplar da revista “Disney Especial”. É a nossa velha estante na casa de Campinas, que ficava ao lado da mesa de trabalho dele! Isso não é uma coincidência, nem inserção do desenhista. É coisa de papai.

sobrinho estante

Voltando à história, temos aqui pelo menos três linhas de enredo: o aparecimento do misterioso objeto, que precisa de uma explicação, a missão que o Donald recebe de ir cuidar dos negócios do tio rico na África, e a competição com o Gastão pela atenção da Margarida. E isso tudo, no final, vai ser “costurado” junto, numa só solução.

Chegando lá, enquanto o Gastão compra uma cópia da tal estatueta numa loja de badulaques, o Donald está às voltas com os nativos. Eles querem o seu ídolo de volta, que o Patinhas levou a troco de uns cobres anos antes. Por isso, estão em greve até que ele a traga de volta.

E não é que o ídolo sagrado dos nativos é justamente a estatueta que está em poder do Donald? Nesse momento, tudo se explica: o feiticeiro da tribo havia lançado um sortilégio para dar azar a quem o mantivesse longe da tribo, e sorte a quem o trouxesse de volta. É como se o boneco tivesse escolhido o Donald para devolvê-lo.

Numa última curiosidade, o número 13 também aparece na fuselagem do avião que o Gastão toma para tentar chegar antes do Donald a Patópolis.

gastao aviao

A Volta Do Ídolo De Jade

Esta história dos Irmãos Metralha, de 1979, é uma continuação da que eu comentei ontem.

Como vimos na história de terror original, o temível Ídolo de Jade “gosta” de aparecer nos lugares mais inusitados, para melhor atormentar os mortais.

Recentemente libertado da cadeia, o Metralha 761, que não conhece a estatueta e seus poderes malignos porque estava preso em outra cidade na ocasião da primeira história, a encontra jogada num terreno baldio. Ele a recolhe, na esperança de conseguir algum dinheiro por ela, e aí começa o bafafá.

Os irmãos 671 e 167 ficam apavorados ao ver o objeto, e contam ao 761 a história do roubo na loja de artigos orientais. O problema é que o 761 tem o péssimo defeito de não ser supersticioso, e assim ele continua tentando trocar o ídolo por dinheiro. Ele se dirige a vários membros da família, um de cada vez, como o Vovô e o Intelectual 176, e até mesmo ao comerciante de objetos orientais que havia sido assaltado 3 anos antes, só para ser violentamente repelido por todos.

idolo de jade2 chines

Neste ponto, o leitor atento vai se fazer uma pergunta: cadê o Metralha 1313? Em se tratando de uma história de azar, ele não deveria estar presente? Pois é, vocês não vão acreditar em mim, mas esta bagunça toda é obra justamente do 1313, que por azar roubou a estatueta de uma loja de penhores e a abandonou no terreno baldio.

Continuando com a trama, papai então retoma a parte da história de terror original que havia deixado de fora na primeira história adaptada para a Disney: o 761 joga a estatueta longe, com toda a força. Não desloca o ombro nem se afoga num rio, mas se dá mal do mesmo jeito: acerta com ela a cabeça do Coronel Cintra, que o prende por desacato.

idolo de jade2 coronel

Assim chega ao final a saga da estatueta maldita também no universo Disney. Mas cuidado, leitor, ou você ainda pode tropeçar nela no meio da rua… Mwahahahaha!

O Ídolo De Jade

História dos Irmãos Metralha, publicada pela primeira vez em 1976.

Esta é uma adaptação da história de terror que comentei na sexta feira. Adaptada para o “estilo Disney”, ela ficou mais engraçada e menos violenta, mas a trama é quase a mesma.

O primeiro quadrinho é bastante parecido com o “splash panel” da história original, mas desta vez com a loja vista de dentro. O dono da loja está passando por uma maré de azar, não há dinheiro em caixa, então o Metralha leva a estatueta verde, para a alegria do comerciante. Apesar da arma em punho, nenhum tiro é disparado.

idolo de jade chines

Uma característica marcante dos Metralhas é a completa falta de imaginação: “se disfarçam” todos sempre do mesmo jeito, e “se escondem” sempre na mesma casa. São os ladrões pé de chinelo mais manjados de Patópolis.

A história continua se mantendo bastante fiel ao original: o Metralha inicial é seguido pela polícia até o esconderijo do bando. Aqui papai adiciona uma tentativa de fuga por um túnel secreto que vai dar num bueiro, na rua, mas que por azar tem um carro da polícia estacionado bem em cima.

“Tintureiro” é uma referência aos orientais no Brasil, já que ao que parece um dos negócios preferidos deles em terras tupiniquins eram as tinturarias, e também a um certo tipo de furgão bastante usado pelos tintureiros, e que era semelhante aos carros de presos usados naquele tempo pela polícia.

idolo de jade tintureiro

O comentário do guarda, “fugindo, ein?” vem de uma velha piada de cemitério, e é uma referência à origem da história: um rapaz muito magro resolve um dia cortar caminho atravessando um cemitério. Quando chega do outro lado e vai saindo, um bêbado caído na calçada olha para ele e diz: “fugindo, ein?” (Bela graça…)

Voltando à nossa trama, como na história original, um membro do bando que escapou à prisão (neste caso o Vovô) encontra o ídolo e resolve vendê-lo a um receptador, sendo preso em flagrante. Na delegacia, o ídolo faz desabar o depósito, causando uma grande comoção entre os policiais, o que permite a fuga da quadrilha.

É nesta hora que papai modifica o final. Primeiro, porque no original ele é violento demais para a Disney, e também por causa do número de páginas, já que a história não pode ser muito longa, por causa do formato do gibi.

Assim, ao invés do bombeiro, quem encontra o objeto é mais um Metralha, desta vez o Azarado 1313, que novamente leva o bonequinho azarado para o esconderijo do bando, sendo seguido de perto pela polícia.

idolo de jade 1313

Desse modo, papai encontra uma solução  mais engraçada e não violenta para a trama, e leva a história mais ou menos de volta ao ponto de partida, como gostava de fazer.

O Ídolo de Jade (Terror)

A pedidos, passarei a comentar toda sexta feira (sempre que possível, é claro) uma história que papai escreveu e que não é uma história Disney.

E como sexta feira é dia principalmente de histórias de terror, vou começar com uma que foi, anos depois, “continuada” em duas histórias dos Irmãos Metralha. Histórias essas que comentarei na semana que vem, se Deus quiser.

Trata-se de “O Ídolo de Jade”, publicada na revista Histórias Macabras (Ano III – Número 31, 1961) sob a direção de arte de Jaime Cortez, com argumento de Ivan Saidenberg e desenhos de Flávio Colin. A capa é de Nico Rosso.

historias macabras 31

A história é bem direta: trata-se de uma maldição “assentada” numa suposta antiga estatueta feita de jade, pedra preciosa de cor verde originária principalmente da China.

Começa com o roubo da estatueta de uma casa de artigos orientais. O ladrão, mesmo avisado da maldição que dá um extremo azar a quem a tem sob sua guarda, mata a tiros o dono da loja para poder ficar com ela.

idolo de jade1

O bandido então a leva ao esconderijo de seu bando, mas a polícia o segue e prende a todos menos um, que foge com o objeto maldito e tenta vendê-lo a um comprador de “muambas”, sendo preso em flagrante.

E assim, a estatueta vai trocando de mãos: ela é levada ao depósito da polícia e supostamente causa um incêndio na delegacia. Um bombeiro a encontra entre os escombros e a leva para casa, como um presente à esposa. Em seguida a casa é furtada durante a noite, e o bandido leva, entre dinheiro e outros objetos, o ídolo de jade.

Acontece que esse bandido é o mesmo que matou no início da história o comerciante pelo objeto, e assim o círculo maldito se fecha: a estátua do mal voltou para atormentar quem a roubou, em primeiro lugar. Assustado, o bandido tenta atirá-la longe, mas desloca o ombro. Tenta atirá-la num rio, mas cai na água juntamente com ela e morre afogado. Olho por olho, dente por dente. O comerciante de artigos orientais está vingado.

A maldição da estátua poderia terminar aí, mas ela parece ter vida própria, e achar que sua “missão” é continuar trocando de mãos para melhor aterrorizar os mortais. A draga do rio recolhe o corpo morto com a estatueta ainda presa a ele, e os operadores do barco decidem ficar com ela para vendê-la, perpetuando a maldição.

A história termina em tom ameaçador, no estilo “lenda urbana”:

idolo de jade2

Esta história é muito provavelmente baseada  na lenda do Diamante Hope, que teria sido retirado do olho de uma Deusa hindu, levado à Europa por um mercador e vendido aos reis da França. Sua última dona na casa real francesa, Maria Antonieta, morreu guilhotinada na Revolução Francesa. Seus proprietários subsequentes também teriam passado por várias tragédias, até que a pedra foi finalmente doada a um museu e retornou à sua função original, a de pertencer a uma comunidade e ser admirada pelo que ela é, e não como símbolo de ostentação de algum ricaço de Ego inflado. Sua maldição estaria, assim, neutralizada.

A Astúcia Do Zorrinho

História de Huguinho, Zezinho e Luisinho, de 1979.

Lalá, Lelé e Lili estão indo pescar, os Metralhinhas 1, 2 e 3 estão indo atrás para atrapalhar, e os sobrinhos do Donald vão atrás dos moleques para proteger as meninas.

A história toda segue mais ou menos nessa mesma ordem de eventos: as meninas fazem algo, os Metralhinhas as sabotam, e o Zorrinho (no singular, porque os três patinhos fingem ser um só herói de capa e espada para melhor confundir o inimigo) faz algo para punir os bandidinhos e reparar o mal feito às garotas.

Depois de muita confusão, jogos de esconde-esconde e armadilhas entre as moitas da floresta, os patinhos conseguem botar os moleques para correr e assim garantir a segurança das meninas, que passam o tempo todo bastante alheias à “batalha entre o bem e o mal” que se desenrola ao redor delas, e se dedicam pacificamente a pescar alguns peixinhos do lago para fritar para o lanche. O mais engraçado é que o “lago” não é muito maior do que uma poça d’água, não é alimentado nem por um riacho, e ainda assim está cheio de peixes pululantes.

Zorrinho meninas metralhinhas

O título da história é uma referência ao Zorro original, o adulto da Califórnia, mas o lema do Zorrinho, “um é todos e todos são um”, lembra mais os Três Mosqueteiros do que outra coisa. É claro que isso não é um lapso de papai. Muito pelo contrário: era comum, quando brincando de herói de faz de conta, que as crianças de outros tempos misturassem características de vários heróis diferentes para “compor o seu personagem”.

Já a pescaria de peixinhos das meninas me lembra um episódio nas “aventuras” de nossa família, quando fomos passar um fim de semana num hotel em Poços de Caldas, um ano ou dois antes da publicação desta história.

O hotel onde nos hospedamos ficava às margens de um lago, e uma das diversões era pescar. A maioria das pessoas só conseguia “dar banho em minhoca”, mas mamãe, que é filha de um pescador, conseguiu fisgar muitos peixinhos, nenhum deles maior do que 15 centímetros. Naquela noite o hotel serviu peixinho frito como uma das opções do jantar, nós comemos até nos fartar, e ainda sobrou para jogar aos gatos.

A Volta Do Aranha

História do Morcego Vermelho, de 1983.

Esta é mais uma história de estilo policial que papai gostava de escrever inspirado por romances de mistério como os de Agatha Christie.

Novamente, ele espera que o leitor preste atenção e resolva o mistério por si mesmo. E a primeira, e talvez principal, pista está logo no primeiro quadrinho: uma silhueta negra ao fundo, observando a ação. Essa mesma figura voltará a aparecer várias vezes ao longo da história, cada vez mais de perto, e com mais detalhes.

MOV Aranha silhueta

“O Aranha” é um vilão que ele usou pela primeira vez em 1975, em outro mistério policial do Morcego Vermelho. O problema é que, mesmo depois de oito anos, os vilões da primeira história ainda estão presos. Fica a pergunta: se o “Aranha” original está preso, quem é que está roubando as joalherias de Patópolis? E pior, dessa vez são três deles!

Como sempre, papai vai espalhando pistas pelos quadrinhos, enquanto esconde outros fatos do leitor e promove a maior confusão nas ruas da cidade dos patos. Mais uma pista é dada quando um dos bandidos aranhas tira um nariz postiço para falar com seu chefe ao “telefone aranha”. O focinho de porco é uma pista forte, e o leitor inteligente provavelmente matará a charada neste momento.

MOV Aranha nariz

Interessantes são esses “telefones”, tanto o do Morcego, que fica em seu cinturão, quanto o do “Aranha”: numa época na qual os celulares não existiam, esses telefones sem fio são pura ficção científica.

Enquanto isso, o Peninha perdeu, num encontrão com o Donald, a sacola onde leva as roupas do Morcego Vermelho. Só que isso não impede o Morcego de aparecer e perseguir os bandidos (e ser perseguido por eles). Mas se não é o Peninha quem está vestido de Morcego Vermelho, então quem está? Assim, temos três “Aranhas” que não são o Aranha original, lutando contra um Morcego Vermelho que não é o Peninha.

MOV Aranha peninha

No final os bandidos são presos, e tudo se revela como um plano do Sr. X e seu bando para tentar descobrir a identidade secreta do Morcego Vermelho.

Nosso herói venceu, sua identidade secreta foi preservada, mas apesar da ajuda do Donald, que é o único em Patópolis que sabe quem é o Morcego e faz tudo o que pode para ajudar seu primo, inclusive ajudando a manter o segredo, o Peninha termina a história mais confuso do que começou.

Se ele é o Morcego Vermelho, e se o Morcego Vermelho que solucionou o mistério não era ele, então quem é ele? Quem é o Morcego? Será o Morcego Vermelho apenas uma fantasia vestida por um pato?

As Urtigas Da Ira

História do Urtigão contra a Madame Min, publicada em 1983.

Acontece que o Urtigão pode até ser rabugento, mas não é mau.. não é mau não. Tudo o que ele quer é paz e sossego para tirar suas sonecas na cadeira de balanço que fica na varanda do seu casebre, e seu único impedimento nessa empreitada é (ou era até agora) o seu vizinho e inimigo Juca Piau.

O nome do vizinho, aliás, é um jogo de palavras com “capiau”, que é o nome que se dá ao caipira em Minas Gerais.

E por falar em jogos de palavras, o título da história é uma brincadeira com “As Vinhas da Ira”, nome de um filme dos EUA, de 1940. Com atores de renome no elenco, o filme, que é uma adaptação para o cinema de um livro de mesmo nome, ganhou o Oscar e se tornou famoso.

Voltando à história, o tema recorrente aqui são “urtigas”. O nome do personagem é Urtigão, (que é outro nome da planta urtiga) e a “erva daninha” predileta da Madame Min é a urtiga, que, ao que parece, cresce aos montes no sítio do nosso amigo. Daí que ela, se acreditando dona das terras, resolve fazer lá uma plantação dessa erva, e talvez até de outros “matos”, como a Barba de Bode, que também aliás é até medicinal.

Nessa mesma linha, a própria urtiga tem muito pouco de “daninha”. Apesar dos seus efeitos irritantes da pele, a injustamente mal afamada planta (que perde esse efeito após ser escaldada em água fervente) serve até para comer, e é muito nutritiva. Dizem que quem come espinafre não deveria torcer o nariz para uma urtiguinha refogada.

Afinal, ela é rica em sais minerais, cálcio, potássio, silício, ácido fólico, ferro, aminas, rutina, quercetina, ácido málico, ácido fórmico e clorofila. Sua única exigência para crescer viçosa é um solo úmido e muito adubado, de preferência com compostagem orgânica.

A bruxa, como é de seu feitio, “chega chegando” e tocando o terror no sítio do Urtigão: faz o cão ficar duro como uma estátua, transforma o Urtigão em bode, depois transforma o cão em burro, faz do casebre de madeira um castelo, também de madeira, e ameaça botar todo mundo para correr.

Min Urtigao

Mas mesmo transformado em bode o Urtigão tem seus truques, e tanto faz que acaba virado em gente de novo, e fazendo um acordo com a bruxa para que ela possa plantar suas urtigas enquanto ele descansa. Tudo está bem quando acaba bééé… quer dizer, bem.