O Vale-Tudo Em Vale Seco

História do Tio Patinhas, de 1980.

No universo Disney é comum que os membros mais velhos das famílias contem histórias aos mais jovens, especialmente sobre antepassados ou lembranças de suas aventuras da juventude.

Mas o que aconteceria se os membros de diferentes famílias tivessem a mesma história para contar? Afinal, Patópolis é uma cidade relativamente pequena, todo mundo lá se conhece, e alguns personagens já estão dando seus pulinhos pela região há algumas décadas.

O interessante, e essa é a principal sacada de papai, é que toda história tem pelo menos dois lados, dependendo de quem a conta. Na maioria das vezes a versão que fica é a dos mocinhos, ou a dos vencedores.

Também é verdade que, ao contar uma história sobre si mesma, a maioria das pessoas tenta “adaptar” os fatos para aparecer bem na fita. Ninguém vai se acusar de um crime, por exemplo, nem reconhecer que fez algo de que não deveria se orgulhar. Além disso, se alguém já desconfiava de que o Vovô Metralha vai inventando as histórias sobre os antepassados à medida que as vai contando, agora não vai mais ter dúvidas. E, ao que parece, o Patinhas também também não é lá muito santo, nesse quesito.

Hoje temos o relato de um assalto, no qual um jovem “vovô” Metralha, aqui sob seu antigo nome de “Grande Metralha”, tenta roubar uma valiosa carga de água potável que um jovem Patinhas está transportando pelo meio do deserto.

E esta é a segunda grande sacada de papai para esta história, pois o fato é que, durante a corrida do ouro nos EUA e Canadá, nem sempre eram os mineiros que ficavam ricos. Na realidade, a maior parte do ouro extraído ia mesmo parar nas mãos de comerciantes de todos os tipos.

Muita gente que chegou a essas áreas para minerar logo percebeu que valia mais a pena suprir as necessidades dos outros aventureiros do que se esfalfar de sol a sol por alguns gramas do metal precioso. Esse parece ter sido o caso também do Patinhas. Afinal, os mineiros também eram gente e precisavam comer, beber, se vestir, ter boas ferramentas, descansar e se divertir.

Por último, uma curiosidade: eu sei que os personagens Disney são na verdade eternos, mas os dois personagens principais estão muito bem conservados para os seus mais de 100 anos de idade, não? Vai ver, Patópolis tem um toque de “Terra do Nunca”, também.

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O Supermorcego Vermelho

História do Morcego vermelho, de 1983.

Papai gostava de distribuir os superamendoins do Superpateta entre os outros personagens Disney. Todos os anos ele criava uma história ou duas nesse sentido, cada uma com um “premiado” diferente.

Hoje chegou a vez do Morcego Vermelho que, diga-se de passagem, sempre se sentiu frustradíssimo por não ter poderes especiais como os outros heróis de Patópolis. O interessante, como sempre, é a solução que papai encontra para fazer o pato engolir um superamendoim sem sequer entender o que está acontecendo, nem ver com quem trombou logo antes de virar super.

Mas, apesar de tudo, se o Superpateta ainda consegue prender um bandido de vez em quando com o uso de seus poderes, a única coisa que o Morcego vai conseguir fazer com eles é mais confusão ainda. Em todo caso, há quem goste.

Interessante, também, é a maneira como a segunda página da história vai ditar muito do que vai acontecer, e também o final da trama. Afinal, a mulher gorducha de lenço na cabeça combinando com a saia e com o cachorro e o papagaio não é uma dona de casa qualquer. O leitor atento que perceber com quem ela se parece já terá metade do final da história resolvido.

E não, desta vez a coisa não vai terminar bem para o Morcego, decididamente. Talvez seja mesmo melhor para ele não ter superpoderes, no fim das contas.

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Em Briga De Cão E Gato… Não Entra Pato!

História do Pato Donald, de 1981.

Esse encantamento de certos brasileiros com raças de cães grandes e ferozes não é recente. Isso se dá por vários motivos, desde uma real necessidade por segurança, e até pelo Ego inflado de gente que projeta no cão toda a sua frustração e covardia diante da vida, e usa o animal para ameaçar e agredir os vizinhos.

A história (da carochinha, na maioria das vezes) que donos e criadores contam sobre essas feras também é sempre a mesma: eles seriam na verdade até dóceis, muito adaptáveis e amigos de criancinhas. O que os tornaria violentos seria alguma falha no treinamento das feras. O problema é que eu nunca vi um dono de cachorro bravo que seja capaz de reconhecer que não faz ideia de como se treina um cão. Já que contratar um profissional é coisa cara, pessoas comuns se valem de manuais e dicas da internet, e se expõem a riscos.

Muitas dessas raças, como o “queridinho” Pit Bull ou o Rottweiler (originalmente criadas para caçar ursos e outros animais selvagens) são banidas em vários lugares do mundo por serem cães perigosos demais para ter em casa. Nessa lista, ailás, está incluído o próprio Cão de Fila, do qual trata esta história.

É uma raça criada no Brasil desde os tempos coloniais pelo cruzamento de outras raças grandes e perigosas, como Mastiffs e Buldogues, e usado para caçar onças e escravos fugidos. Sim, houve um tempo em que gente era caçada como se fosse bicho, por aqui, e isso não pode ser esquecido (para que não aconteça de novo, de preferência).

Outra parte do folclore do Cão Fila no Brasil foi uma série de enigmáticas pichações que começaram a aparecer nos anos 1970 em tudo quanto era lugar no Estado de São Paulo: “Cão Fila Km 26“. Só isso, sem mais nenhuma informação.

Por ser a época da ditadura militar muita gente pensou que poderia haver muita coisa por trás das mensagens, e a notícia (e também as pichações, feitas por todo tipo de gaiato) começou a se espalhar pelo país todo, virando uma verdadeira “febre”. Dizem os pichadores atuais que isso foi o começo do “pixo” no Brasil, e eu diria que foi também precursor dos memes, muitos anos antes da Internet.

Mas hoje a provocação é com o Ronrom que, diga-se de passagem, estava quieto no canto dele quando o Silva chegou com o monstro canino em um caminhão. Papai deixa claro que a intenção do vizinho chato é essa mesma: ao colocar a vida do Ronrom em risco, ele está também intimidando ao Donald e a seus sobrinhos.

Gente, isso não se faz. Mas enfim, pessoas que precisam usar um cão feroz para se afirmar e causar medo (que elas confundem com respeito) nos outros não é realmente gente.

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Escalando A Duras Penas

História do Peninha, de 1980.

Com a participação especial dos Escoteiros Mirins, esta história é precursora de “A Montanha Enfeitiçada”, já comentada aqui e que seria lançada dois anos depois. A expressão “a duras penas” tem a ver com as dificuldades pelas quais as pessoas passam. Mas, no caso da Família Pato, ela assume todo um novo significado, em um pequeno jogo de palavras.

Hoje não há magia envolvida, mas coisas misteriosas estão acontecendo no Pico do Quá-Quá-Quá. Intrépidos, os sobrinhos do Donald resolvem ir lá investigar, juntamente com o tio e o jornalista abilolado. O pico tem esse nome, aliás, por causa de uns pássaros que lá vivem. Treinados por um ermitão local, eles são muito atrevidos e atacam a todos os que tentam escalar a montanha. E os pássaros têm o nome que têm por causa de seu canto, que parece uma rizada de zombaria.

A aventura é toda sobre a escalada e o enfrentamento com os pássaros, até a heroica chegada ao cume. Mas será que eles são, mesmo, os primeiros a chegar lá, como o Donald leu no jornal naquela manhã? A história é uma advertência para que as pessoas não acreditem logo de cara em tudo o que leem no jornal (e, em nossos dias, também na Internet).

Afinal de contas, o conceito de “fake news” é na verdade bem “old news”. É sempre interessante continuar pesquisando mais um pouquinho, nem que seja para confirmar as informações. E lembrem-se: se algo parecer bom demais para ser verdade, provavelmente é mesmo.

Interessantes são duas cenas, dois quadrinhos que serão reconhecidos por qualquer pessoa que já leu com atenção o Manual do Escoteiro Mirim.

A primeira vem da página 189, onde está a ilustração para o verbete intitulado “Se Você Vai à Montanha”, e a segunda está na página 193, acompanhando o verbete chamado “Vocês Estão Servidos?”, que apresenta três receitas de refrescos que os leitores podem preparar. Um deles, inclusive, contém leite.

Não são inserções do desenhista. Isto certamente já fazia parte do rafe, em mais um “aceno” de papai ao Manual e aos Escoteiros. Ele participou como colaborador da preparação da primeira publicação do Manual no Brasil, provavelmente traduzindo e fazendo pesquisas adicionais, mas nunca recebeu os créditos por isso. Na verdade nem ele, e nem outros que possam ter também participado. Esta é uma maneira que ele encontrou de “reivindicar” sua participação na publicação.

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A Noite Dos Bruxinhos

História de Huguinho, Zezinho e Luisinho, de 1980.

A inspiração vem de uma história de Carl Barks de 1952. Dela papai usou o Dia das Bruxas, as fantasias dos patinhos e a participação da Bruxa Vanda com sua vassoura pensante, a Jezebel.

Para deixar clara a referência, ele usou inclusive um título parecido com o da história de Barks. Mas as semelhanças param por aí. Desta vez não há conflito com o Pato Donald, muito pelo contrário. O conflito será, aliás, completamente indireto, e essa é a principal diferença e o ponto forte desta história.

Fantasiados, os meninos nem estão pedindo doces ou donativos para si mesmos, mas sim para uma festa beneficente dos Escoteiros que, curiosamente, já está prestes a começar. (Papai não explica, mas seria interessante saber que despesa tão urgente é essa que força os garotos a arrecadarem dinheiro assim tão de última hora.)

O interessante é que o Luisinho até chega a ver os bruxinhos que são os vilões da história voando em suas vassouras várias vezes, mas não terá certeza e não haverá nenhum contato direto entre eles. Nem mesmo a Bruxa Vanda, companheira da aventura anterior, eles verão, desta vez.

Somente o Tio Patinhas chega a ver os dois conjuntos de crianças fantasiadas, já que os bruxinhos aproveitam a passagem dos meninos pela Caixa Forte para assumir a aparência deles, enganar o velho pato e assim entrar na fortaleza eles também.

Mas este não é o tema principal da história. É só o “gancho” que vai possibilitar a intervenção da Vanda e a punição dos bruxinhos. O tema da história não é o relacionamento dos meninos com o Donald, que mal participa da coisa toda. Não é exatamente o relacionamento dos patinhos com o tio rico (que hoje aliás está especialmente generoso, coisa rara, mas o tema também não é esse.) E certamente não é a festa beneficente dos Escoteiros.

O tema da história é puramente o Dia das Bruxas, e aquele tipo de magia que está constantemente à nossa volta mas que nós, materialistas e sobrecarregados com as tarefas do dia a dia, simplesmente não conseguimos ver.

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Também na Amazon, estou lançando um novo projeto: o Sebo Saidenberg, no qual inicialmente estou disponibilizando alguns dos livros de minha coleção particular que podem ser interessantes aos amigos, incluindo alguns poucos exemplares da biografia que estão comigo, e que seguirão autografados a quem os comprar diretamente do meu sebo.

O Poderoso Metralhão

Esta é a última história da série A História de Patópolis, publicada pela primeira vez em 1982.

A saga da Pedra do Jogo da Velha chega ao fim nos anos 1930, em uma Patópolis muito parecida com a Chicago da mesma época, tomada por gangsteres e pelo crime organizado.

Apesar da semelhança com a quadrilha Metralha, o vilão chamado Al Metralhone não é um antepassado do Vovô Metralha. Como vimos em outra história de mesmo nome da série Metralhas Históricos que já trata desse personagem, ele é um tio dos Metralhas atuais.

O nome dele é uma referência a Al Capone e, como ele, o Metralhone andava sempre na tênue linha entre legalidade e ilegalidade, entre roubos e a exploração do jogo (e principalmente o da velha, é claro). Como ele, também, será preso por algo que não tem lá muito a ver com o atos de violência que comete pela cidade.

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Papai “costura” a história de uma maneira inusitada: ela começa com uma ação dos bandidos para roubar uma banca de frutas. Em seguida ficamos sabendo que o Metralhone está atrás de jabuticabas (fruta que era, aliás, a predileta de papai). Na continuação, vemos um alambique ao fundo, e por fim ficamos sabendo o que é produzido ali: licor de jabuticaba!

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Em nenhum momento papai fala explicitamente sobre a Lei Seca nos EUA, mas quem conhece um mínimo de História vai finalmente conseguir unir os pontos.

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Oh, Que Saudades Que Eu Tenho…

História do Donald e do Peninha, de 1982.

Com o tema “infância”, a história gira em torno das reminiscências dos dois primos que, com a ajuda de um antigo álbum de fotos vão contando, primeiro ao Biquinho, e depois aos sobrinhos Huguinho, Zezinho e Luisinho, “causos” engraçados sobre seus tempos de criança: como se conheceram, os tempos de escola, e até mesmo uma passagem dos dois pelo batalhão dos Escoteiros Mirins de Patópolis, onde conheceram o Silva.

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A cada uma das histórias é um deles que se dá mal, e os outros que dão risada. (O leitor, é claro, rirá de todas, já que a intenção é essa.) Casos de família são assim mesmo: algumas das coisas pelas quais as crianças passam podem parecer quase trágicas, ou pelo menos muito embaraçosas na hora em que acontecem mas, décadas depois, viram motivo para riso.

O título é inspirado em um poema de Casimiro de Abreu chamado “Meus Oito Anos” (Oh! que saudades que tenho / Da aurora da minha vida, / Da minha infância querida / Que os anos não trazem mais!), que papai aprendeu na escola e que sabia declamar inteirinha de memória, assim como vários outros textos literários. Naqueles tempos do início do Século XX era preciso ensinar às crianças a memorizar com eficiência, já que não se podia ficar consultando livros o tempo todo.

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