A Escalada

História da turma da Patrícia, de Ely Barbosa, publicada pela Editora Abril na revista da personagem número 5 em dezembro de 1987.

Ela é inspirada em duas histórias Disney do início dos anos 1980: “Escalando a Duras Penas” e “A Montanha Enfeitiçada”, já comentadas aqui.

Da primeira história papai aproveita a noção da “montanha que nunca foi escalada” e da “informação requentada”. Neste caso o problema não é uma reportagem mal feita, mas sim a revista de alpinismo em si, que já é antiga. Da segunda, papai adapta o nome da montanha de “Pico do Rola-Rola” para “Pico do Caio Rolando”.

Mas hoje não veremos bruxarias ou pássaros hostis. O grande obstáculo é mesmo a montanha em si, apesar dos esforços dos meninos e dos engenhosos equipamentos adaptados pelo Sócrates, o inventor da turminha.

E o “crime” que levará os meninos à derrocada final é a insistência em excluir as meninas das brincadeiras sob a premissa de que existiriam “brincadeiras de menino” e “brincadeiras de menina”. O que existe são vários métodos diferentes de se subir e descer de uma montanha. Desde que adaptados às intenções e às capacidades físicas de quem participa da aventura, todos são válidos.

Nem todo mundo precisa fazer as mesmas coisas do mesmo jeito, nem achar que somente um jeito de fazer uma coisa está certo, ou que todos os outros tenham de fazer aquela coisa daquele exato mesmo jeito. O que importa é alcançar o objetivo de maneira honesta, e se divertir.

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Feitiço Caprichado

História do Professor Pardal, de 1974.

Um velho ditado diz que “situações desesperadoras exigem ações desesperadas”. E nessas horas, ao que parece, vale tudo: até mesmo recorrer aos serviços de uma bruxa. E é exatamente o que fará o Professor Gavião, após ser expulso do laboratório do inventor do bem pela enésima vez.

Isso, aliás, é algo muito comum aqui mesmo no Brasil. Muito mais gente do que pode parecer (e não, não tem nada a ver com pobreza ou ignorância), ao primeiro sinal de que alguém não vai fazer suas vontades, ou à menor frustração, corre se consultar com uma cartomante (especialmente aquelas que fazem “trabalhos”) ou encomendar feitiços “cabeludos” a algum feiticeiro ou milagreiro de aluguel.

Mas é claro que, em uma história em quadrinhos Disney, ainda que magias e poderes mágicos possam ser tratados como algo real, nenhum mal pode realmente acontecer aos bons, e nenhum crime poderá ficar impune.

O detalhe que porá os planos do Gavião a perder é uma pequena falha de comunicação, aliada à vontade da Madame Min de “caprichar” para impressionar o comparsa cientista. Na parte da magia, mais um ditado se aplica: “cuidado com o que você pede, você pode conseguir exatamente isso”. E na ciência, como sabemos, “um computador não faz o que você quer, mas sim o que você manda. Nesta história, a bruxa será o veículo de um pouco de cada uma das duas coisas. 

Interessante é a pressuposição de que não se pode simplesmente criar dinheiro por meio de magia, mas que ele precisa ser ganho (ou atraído) de algum modo (de preferência honesto), e que até mesmo bruxas superpoderosas precisam dele de vez em quando. Que poder é esse que tem o dinheiro que o torna “imune” às forças ocultas? Ou será que é a dificuldade que nós, simples mortais, temos em ganhá-lo que nos dá essa impressão? É algo para se pensar.

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O Planeta Dos Autômatos

História do Professor Pardal, de 1975.

Esta história é um resumo de todos os anseios de papai no que diz respeito à existência de vida em outros planetas, à possibilidade de que nossa civilização se encontre com civilizações alienígenas no futuro e às consequências desse encontro.

Ao contrário das visões apocalípticas de muitos, que temem que esses seres sejam hostis e que possam querer nos aniquilar para tomar nosso lugar sobre a Terra, ele acreditava que esse contato poderia ser amigável e trazer grandes avanços tecnológicos a todos os envolvidos.

Para que isso acontecesse, ainda segundo suas teorias, bastaria que a humanidade alcançasse um nível suficiente de capacidade tecnológica que viesse a nos permitir encontrar com eles já no espaço, ou descobri-los antes que eles nos descubram. Essa teoria, aliás, é a base que rege séries de TV de ficção científica como Star Trek, por exemplo.

Isso, mais aliás ainda, difere bastante da tecnofobia exibida em outras histórias de ficção científica criadas por ele, nas quais não há alienígenas envolvidos. O porquê de haver essa confiança tão grande na suposta tecnologia alienígena e tão pequena na tecnologia humana é um paradoxo que eu não sei explicar. Muito provavelmente, é algo que tem mais a ver com os clichês dos quadrinhos do que realmente com as ideias pessoais de meu pai.

Representando a humanidade como um todo, ao fazer o “test drive” de uma nova e revolucionária tecnologia para foguetes, o Professor Pardal acaba encontrando uma civilização de pequenos robôs muito parecidos com o lampadinha. Eles a princípio são hostis, e têm a intenção de invadir o nosso planeta.

Já que, para evitar essa catástrofe, uma guerra está fora de questão, somente a cooperação tecnológica poderá resolver o problema. A grande sacada de papai é a de que, se os seres são artificiais, criados por um inventor alienígena (e nesse ponto temos também um “aceno” às teorias de “Eram os Deuses Astronautas” de Erich Von Daniken), por quê o planeta deles também não pode ser?

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Um Lixo De Armadilha

História do Morcego Vermelho, de 1977.

A Lata de Lixo Morcego é realmente um esconderijo original. Reza a lenda que foi o desenhista Herrero quem sugeriu que o herói usasse esse tipo de objeto como base para suas atividades, mas certamente nem mesmo ele foi capaz de imaginar todos as situações insólitas que papai criaria com ela como tema.

Para começar, o uso do trocadilho entre as palavras “entalado” e “enlatado” se tornou frequente para adicionar graça às histórias, o que faz também o leitor pensar um pouquinho que seja sobre as palavras e seus significados, e perceber que é possível usá-las de maneira criativa.

Além disso ela é um objeto bastante “portátil”, que sai do lugar com facilidade. Isso até é uma coisa boa, pois assim o herói pode colocá-la a cada vez em um beco diferente da cidade, mas também pode ser uma desvantagem, pela facilidade com que ela acaba se envolvendo em acidentes de todos os tipos. Sair rolando ladeira abaixo é o mínimo.

Ela na verdade é uma sátira ao Super Homem, que se troca em uma cabine telefônica. O próprio Morcego já se viu forçado a se trocar em uma, “como um herói comum”, aliás. O interessante é que as cabines telefônicas já se tornaram perfeitamente obsoletas, mas as latas de lixo continuam por aí.

A grande sacada desta história é que o Morcego permanece enlatado, quer dizer, entalado, ou melhor, aprisionado dentro de uma lata de lixo robô do mal inventada pelo Dr. Estigma durante todo o tempo, e ainda assim consegue combater o vilão, mesmo que indiretamente. A mais engraçada cena é certamente o momento em que a criação se volta contra seu criador, com o herói dentro. Ninguém segura o Morcego Vermelho!

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A Máquina Talvez

História do Professor Pardal, de 1980.

Inventada por Carl Barks em 1958, a simpática máquina em questão é mais uma daquelas coisas engraçadíssimas que papai adorava “adotar” e usar para mais algumas histórias.

Na história original a máquina lê pensamentos, mas só responde às perguntas que são dirigidas a ela com frases estapafúrdias que começam com “talvez”, sabotando, assim, o próprio propósito, que seria o de dar alguma vantagem ou conhecimento privilegiado ao usuário.

Ela seria usada novamente na edição especial sobre a História dos Computadores, já comentada aqui, ajudando a explicar o tema às crianças de Patópolis. Nos dois casos, o “método” para consertar a máquina (e também para quebrá-la de novo, ou a coisa toda não teria a menor graça) é o mesmo: um forte chute ou outro tipo de pancada. Como se diz por aí, quando o assunto é “computadores”, é aquela coisa: “software” é o que você xinga, e “hardware” é o que você chuta.

Isso é também uma referência a antigas comédias pastelão e filmes mudos, onde amnésias (e outros problemas mentais) eram causadas e também curadas com fortes pancadas na cabeça (crianças, não tentem isso em casa).

Interessante é o modo como papai combina à história principal a “trama paralela” do Lampadinha, também ao estilo Carl Barks, na qual o robozinho luta com várias aranhas enquanto o Professor limpa o depósito de inventos inúteis. Na maioria das histórias, isso é algo que acontece ao fundo, como uma história dentro de outra história.

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Lampadinha Ou Lampiãozinho?

História do Professor Pardal de 1974.

O Professor Gavião, apesar de considerar a si mesmo um gênio tão inspirado quanto o Professor Pardal, não passa de mero copiador de inventos alheios (e roubados).

A coisa toda pode aliás ser comparada com os diversos tipos de artistas que existem por aí: há os verdadeiramente inspirados, que fazem coisas admiráveis, e há os que dominam a técnica, são até bons no que fazem, mas não sabem se soltar e realmente fluir com sua arte. (Há piores, é claro, os copiadores da arte alheia, e é entre o medíocre e a fraude que o Gavião gravita.)

O problema é que, se o artista “menos genial” não souber relaxar e se cobrar um pouco menos, ele pode realmente se tornar amargo e invejoso do trabalho alheio, sabotando a si mesmo no processo e se impedindo de mostrar o seu verdadeiro potencial.

O Gavião é como o cozinheiro que sabe seguir um livro de receitas e, com algum esforço, cozinhar perfeitamente um belo jantar. Mas ele também sabe que o resultado não é exatamente dele, mas sim de quem compôs aquela receita, coisa que ele não saberia fazer (ou não teria coragem de tentar).

É exatamente por isso que o plano do vilão é perfeito. Na verdade, é um pouco “perfeito demais”, e é por isso mesmo que o feitiço vai acabar virando contra o feiticeiro. O leitor atento perceberá imediatamente que o Gavião vai perder a parada de novo assim que vir os dois robozinhos juntos.

O tema das cópias malvadas/imperfeitas e defeitos do Lampadinha foi algo que papai usou várias vezes nas histórias do personagem, sempre de maneiras levemente diferentes mas igualmente hilárias.

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A Praia das Surpresas

História da Turma da Patrícia de Ely Barbosa, publicada pela Editora Abril em revista própria, número 12, em 1987.

Esta é uma variação sobre o tema da história do Zé Carioca intitulada “O Salva Vidas Boa Vida”, já comentada aqui. A turminha vai à praia mas o mar não está para peixe, começando com a violência das ondas, que insistem em jogar o Terremoto de volta à areia a cada vez que ele tenta surfar. É papai novamente revisitando a aventura traumática que teve no Rio de Janeiro, décadas antes.

Na verdade, tudo o que poderia dar errado acaba acontecendo. Por um lado, se fosse somente um dia agradável ao ar livre não haveria história. É preciso que haja algum problema para desafiar os personagens. Por outro, a trama representa um aviso às crianças para que tomem cuidado: por mais próxima de uma cidade que fique a praia, ela sempre será um ambiente potencialmente selvagem e cheio de perigos.

Finalmente, quando a turminha já está quase desistindo da aventura, um temporal chega de repente para acabar de vez com a festa. Está certo que sempre pode haver um contratempo ou dois em passeios desse tipo, mas será que não foi um pouco de azar demais?

A “surpresa” do título se justifica no desfecho, com a revelação do Sapo Urucubaca na cesta de piquenique.

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