Restaurando O Restaurante

História do Professor Pardal, de 1973.

O inventor maluco de Patópolis tem uma namorada, quem diria! É uma passarinha parecida com ele, criada no exterior em 1966 por Vic Lockman e Tony Strobl e… esquecida até 1973, quando papai a resgatou e adotou para esta história.

Esta é, portanto, a primeira aparição dela em histórias nacionais. Depois disso ainda seria usada quase uma dúzia de vezes ao longo dos anos, por papai e vários outros argumentistas brasileiros, mas nunca mais no exterior. Assim, se a Ermengarda conseguiu “se salvar” de ser uma personagem de uma historia só, o crédito é todo de meu pai.

A trama é de ficção científica, e gira em torno de um velho restaurante herdado de uma velha tia. E “velho” aqui, é o que realmente dá o tom ao local: a começar do garçom, e certamente passando pelo cozinheiro e chegando até à cozinha (embora não se veja esta parte do restaurante), tudo ali é velho, antiquado e demorado. A “missão” do Pardal é modernizar o lugar com alguma engenhoca.

Como eu já disse antes, papai tinha um perfeito pavor de restaurantes demorados. Se ele entrava em algum estabelecimento comercial para comer, ele esperava ser atendido e servido logo, já que estava geralmente com fome. A ideia de ter um prato preparado na hora especialmente para ele por um “Chef” renomado, ainda que compreensivelmente chique, era algo que não o atraía. Essa noção feria seu senso de praticidade.

Desse modo, temos aqui mais um dos lampejos futuristas dele, cuja imaginação estava sempre uns 30 anos à frente: uma “máquina de cozinhar” na qual fosse preciso apenas colocar os ingredientes e esperar um pouquinho (e certamente bem menos do que o tempo gasto pelo cozinheiro) para receber um prato prontinho, cheio de comida apetitosa e quentinha. O que parecia algo impossível naquele tempo, hoje em dia já é uma realidade, ainda que um pouco cara.

Outra “piada” que já virou lugar comum nos dias de hoje, mas que há meros 40 anos também parecia impossível, é o “telefone sem fio” do primeiro quadrinho.

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A Noite Dos Bruxinhos

História de Huguinho, Zezinho e Luisinho, de 1980.

A inspiração vem de uma história de Carl Barks de 1952. Dela papai usou o Dia das Bruxas, as fantasias dos patinhos e a participação da Bruxa Vanda com sua vassoura pensante, a Jezebel.

Para deixar clara a referência, ele usou inclusive um título parecido com o da história de Barks. Mas as semelhanças param por aí. Desta vez não há conflito com o Pato Donald, muito pelo contrário. O conflito será, aliás, completamente indireto, e essa é a principal diferença e o ponto forte desta história.

Fantasiados, os meninos nem estão pedindo doces ou donativos para si mesmos, mas sim para uma festa beneficente dos Escoteiros que, curiosamente, já está prestes a começar. (Papai não explica, mas seria interessante saber que despesa tão urgente é essa que força os garotos a arrecadarem dinheiro assim tão de última hora.)

O interessante é que o Luisinho até chega a ver os bruxinhos que são os vilões da história voando em suas vassouras várias vezes, mas não terá certeza e não haverá nenhum contato direto entre eles. Nem mesmo a Bruxa Vanda, companheira da aventura anterior, eles verão, desta vez.

Somente o Tio Patinhas chega a ver os dois conjuntos de crianças fantasiadas, já que os bruxinhos aproveitam a passagem dos meninos pela Caixa Forte para assumir a aparência deles, enganar o velho pato e assim entrar na fortaleza eles também.

Mas este não é o tema principal da história. É só o “gancho” que vai possibilitar a intervenção da Vanda e a punição dos bruxinhos. O tema da história não é o relacionamento dos meninos com o Donald, que mal participa da coisa toda. Não é exatamente o relacionamento dos patinhos com o tio rico (que hoje aliás está especialmente generoso, coisa rara, mas o tema também não é esse.) E certamente não é a festa beneficente dos Escoteiros.

O tema da história é puramente o Dia das Bruxas, e aquele tipo de magia que está constantemente à nossa volta mas que nós, materialistas e sobrecarregados com as tarefas do dia a dia, simplesmente não conseguimos ver.

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O Comprido, O Gordo E O Tapado

História dos Irmãos Metralha, de 1981.

Esta história é inspirada em um antigo conto de fadas chamado “O Tesouro dos Três Irmãos” (que pode ser lido no link). Como o conto não é exatamente conhecido do grande público, papai se deu liberdade para ser mais ou menos fiel a ele, mas sempre com as modificações de praxe por conta das características dos personagens.

Uma das modificações que papai fez ao conto original foi fazer os poderes dos objetos desaparecerem depois de algum tempo, para que os Metralhas não possam se beneficiar deles para sempre, já que não merecem.

Além disso, essa é uma característica da magia em histórias Disney: com raras exceções, os usuários de poderes e objetos mágicos não devem se beneficiar indefinidamente deles. E se, no final, o feitiço puder ser virado contra o feiticeiro, tanto melhor.

Os Metralhas da vez não têm números, mas são antepassados dos atuais. Assim sendo, há também um Azarado entre eles, associado com o irmão Tapado. E, como sempre, o Azarado atual passa a história toda torcendo pelo sucesso de seu antepassado.

Será mesmo que desta vez o Azarado vai se dar bem? Quem ler, verá.

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Peninha e Donald Enfrentam Mortrambique, A Fera Do Mar

História dos supracitados, de 1984.

Continuando a série de sátiras de grandes clássicos da literatura, a obra “zoada” da vez é Moby Dick. De autoria de Herman Melville, o livro foi originalmente lançado em 1851.

A adaptação, como sempre, é fiel ao original “até a metade do caminho”. Uma vez apresentados os personagens e o cenário geral da história, são introduzidas várias alterações por vários motivos. Para começar, não era intenção de papai copiar a história do livro em todos os detalhes. Mais importante, para ele, era apresentar o tema aos leitores para que eles fossem pesquisar e, quem sabe, até mesmo ler o livro em si.

Outras alterações foram feitas para acomodar o “estilo Disney”, que desde sempre (ou pelo menos a partir da criação do personagem Capitão Mobidique em 1967) tem sido contra a caça de baleias e proíbe a representação da captura desses animais. Elas devem sempre vencer a parada, e escapar para a liberdade.

E há as alterações nos nomes dos personagens, é claro, em uma mistura dos nomes da Disney com os do livro. Assim, Ismael, o narrador da história, é representado pelo Donald e tem o nome trocado para “Donaldel”. O Capitão Ahab, representado pelo Patacôncio, vira “Capitão Pathab”. A alteração no nome da baleia branca é, talvez, a mais engraçada, fazendo referência aos termos “maior” e “trambique”, ou seja, uma encrenca completa.

O interessante é que o nome do personagem representado pelo Peninha não muda muito: hoje papai resolve não usar o prefixo “Pen”, ou “Pena”, de costume, e simplesmente coloca um hífen no lugar do segundo “e” em Queequeg (Qué-Queg). É a clássica piada pronta, e certamente foi a partir da semelhança do nome do habitante dos mares do sul com o grasnar de um pato que surgiu a inspiração para esta história.

O caixão no nome da estalagem na primeira página também não é coincidência, sendo mais uma referência ao personagem Queequeg. Aliás, nada mais justo que o Pato Donald participe de uma história sobre marinheiros como personagem principal, não é mesmo?

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O Primo Meio-Quilo

História dos Irmãos Metralha, de 1977.

E temos aqui mais um adotado: criado no ano anterior por Mark Evanier e Pete Alvarado, o Metralha Meio Quilo é um baixinho muito chato que se acha esperto e quer se arvorar a líder do bando, especialmente quando o Intelectual e o Vovô não estão por perto. Mas não podemos nos esquecer, como sempre, de que toda maldade é burra.

Não que ele não tenha seus momentos de lucidez (seus planos de roubo são certamente melhores do que os planos de seus primos mais altos), mas o Patinhas, como sempre, é mais esperto (e infinitamente mais sutil) ao lidar com possíveis ameaças. Ele não ficou quaquilionário à toa, e sabe, como ninguém, se fazer de bobo à espera da hora certa de agir.

O interessante é como alguns símbolos (e ideias preconcebidas) parecem ser universais: desde sua história de criação, feita no exterior, o personagem leva nos lábios um charuto. Isso, é claro, não é coincidência. O símbolo fálico relacionado a certas crenças comuns sobre homens de baixa estatura é uma referência mais “adulta” que papai conhecia e também usou, de diversas maneiras, em seus personagens baixinhos.

Isso demonstra, aliás, que havia uma preocupação quase universal dos autores Disney da época em fazer quadrinhos a princípio infantis, mas que pudessem ser lidos de maneiras diferentes por pessoas de idades diferentes.

E novamente, se não fosse pelas quatro histórias que papai fez para o Meio Quilo ao longo de quase uma década, ele teria sido mais um “personagem de uma história só”. Ao que parece, criar personagens é mais fácil do que encontrar maneiras de usá-los mais de uma vez.

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Os Novos Chapéus Voadores

História dos Irmãos Metralha, de 1975.

Como sempre, o plano maligno de fuga e assalto é bom. Na verdade, é quase perfeito. E o problema, é claro, é esse “quase”.

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O chapéu voador é invenção de papai para o Professor Pardal, e não é por acaso que os planos para a invenção estavam na gaveta dos “inventos recusados”. Quem realmente acompanhou as histórias onde ele aparece e conhece o aparelho (com seus usos e suas limitações) logo vai adivinhar qual será o final da história.

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E o melhor de tudo é que não será preciso acionar nem a polícia, nem o inventor, e muito menos algum herói para fazê-los fracassar em mais este plano. Os Metralhas farão tudo sozinhos, da fuga à própria recaptura.

A presença do Azarado 1313 é meramente uma garantia de que tudo dará errado, é claro. Mas os vilões são tão burros, na verdade, que o resultado seria o mesmo de qualquer maneira.

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Pena Kid Ataca Novamente

História do Pena Kid, de 1974.

Depois das três histórias de apresentação, a saber: “Quadrinhos e Adivinhos”, “Uma Missão Espinhosa” e “Pena Kid e Xaxam”, esta pode ser considerada a primeira aventura propriamente dita do Vingador do Oeste como personagem do Peninha.

Aqui papai começa a trabalhar todos os clichês dos velhos filmes de faroeste, como a cidade cenográfica feita só de fachadas de madeira apoiadas em varas, o forasteiro que chega à cidade (chamada Buracodebala City) e é confundido com um bandido, e acima de tudo os tiroteios intermináveis nos quais ninguém fere ninguém, só os bandidos ficam sem balas no final (as da arma do mocinho não acabam nunca) e o herói sempre vence, apesar de ser só um contra um bando de foras-da-lei.

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O detalhe interessante é que nesta história o Alazão de Pau não apenas pensa as suas falas (como na maioria das histórias seguintes), mas realmente as pronuncia em voz alta, para o espanto de todos. Já que ele é um objeto mágico, feito de um tronco dado ao herói por um velho índio, ele realmente deveria poder fazer muitas coisas.

É uma pena que, ao longo do tempo (e frequentemente por sugestão de chefes e colegas), o Alazão tenha gradativamente perdido suas capacidades mágicas até se tornar um mero cavalo de verdade. Um final melancólico para o que começou como a exaltação mágica de um brinquedo querido, uma ode à felicidade das brincadeiras de infância.

Aqui também vemos a continuação da tradição dos palpites do Tio Patinhas, que seria um elo de ligação entre as várias histórias até o personagem ser “desligado” da redação de A Patada na história chamada “A Conquista do Oeste”, e o começo das “indiretas” e piadas internas dirigidas aos colegas e chefes na redação da Editora Abril que papai distribuiria pelas páginas de muitas de suas histórias, especialmente as do Pena Kid e as do Morcego Vermelho ao longo dos anos.

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E hoje pela primeira vez, o mocinho vem cantando uma versão mais tradicional de “Oh, Suzana”, no quadrinho de abertura da história. Se, como eu calculei em meu comentário sobre “O Norte Contra o Sul”, Pacífica City fica no Arizona, e se (como diz a música) o Pena Kid vem do Alabama (a quase um continente inteiro de distância, olhem no mapa), então Buracodebala City provavelmente ficaria em algum ponto entre esses dois estados, no sul dos EUA.

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