Pena Kid, O Bandidão

História do Pena Kid, de 1976.

Todo herói dos quadrinhos que se preze tem seu dia de bandido, e com o Vingador do Oeste não poderia ser diferente. Mas não é só o herói que vai ficar malvadão: todos os habitantes de Pacífica City terão suas personalidades invertidas.

O interessante é que papai nos oferece duas explicações para o fato. Uma advinda da redação de A Patada, e outra contida na história que “o Peninha” está escrevendo, que está mais de acordo com as soluções apresentadas em filmes e HQs: na maioria dos casos mais clássicos ou é fingimento do herói como parte de um plano para infiltrar uma quadrilha de bandidos, ou ele é coagido a agir assim por chantagem e para proteger alguma pessoa inocente que é refém dos vilões, ou é vítima de algum elixir ou raio de controle da mente.

Mas a verdade é que inversões de personalidade em massa, como a que vemos hoje, são bem mais raras de acontecer. Afinal, se o mocinho pode, às vezes, ter um bom motivo para ficar temporariamente mau, os bandidos quase nunca se convertem em bons.

Papai, como sempre, vai distribuindo pistas pelas páginas na esperança de que o leitor atento vá saber identificá-las e solucionar o mistério da inversão de papéis.

Não que isso realmente importe, aqui. Mais importante do que o roteiro da história do Pena Kid em si é mostrar como uma história em quadrinhos é feita ou, mais exatamente, satirizar alguns métodos de criação de quadrinhos, e especialmente os mais espontâneos (quando o escritor inicia uma história sem ter decidido como ela vai terminar e se guia pela livre associação de ideias – o que pode levar a soluções forçadas), ou os que se apoiam demais em clichês e se tornam previsíveis.

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No Território Dos Pés-Chatos

História do Pena Kid, de 1975.

Esta história, na verdade, é menos sobre o que acontece entre o Vingador do Oeste e os índios Pés Chatos (ênfase em “chatos”) do que sobre o “processo criativo” do Peninha na redação de A Patada e como os palpites do Tio Patinhas influenciam na coisa toda.

É também uma crítica aos clichês dos filmes de faroeste “macarrônicos“, produções italianas e espanholas de baixo custo e muitas improvisações que tomaram as telas dos cinemas nos anos 1960, na onda dos grandes Westerns Norte Americanos dos anos 1950.

Assim, além dos panos de fundo mal disfarçados e cidades construídas somente de fachadas, outros elementos que não podiam faltar eram o conflito com os índios, as cenas de luta corpo a corpo das quais o herói sempre começava perdendo mas no final saía vencedor (mesmo que para isso fosse preciso dar uma forçada no roteiro), a presença e o salvamento de uma mocinha em apuros (idem), a ocasional cena melodramática (ibidem) e outras coisas do gênero.

E tudo isso, é claro, era feito na intenção de manter feliz ao público que assistia esses filmes. Os produtores temiam que, se os espectadores saíssem descontentes dos cinemas, eles fossem acabar perdendo dinheiro. Era algo mais ou menos parecido com o que acontece hoje em dia com as novelas de televisão, que vão avançando às vezes de maneira meio errática, mas sempre de acordo com os gostos dos telespectadores.

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Pena Kid Ataca Novamente

História do Pena Kid, de 1974.

Depois das três histórias de apresentação, a saber: “Quadrinhos e Adivinhos”, “Uma Missão Espinhosa” e “Pena Kid e Xaxam”, esta pode ser considerada a primeira aventura propriamente dita do Vingador do Oeste como personagem do Peninha.

Aqui papai começa a trabalhar todos os clichês dos velhos filmes de faroeste, como a cidade cenográfica feita só de fachadas de madeira apoiadas em varas, o forasteiro que chega à cidade (chamada Buracodebala City) e é confundido com um bandido, e acima de tudo os tiroteios intermináveis nos quais ninguém fere ninguém, só os bandidos ficam sem balas no final (as da arma do mocinho não acabam nunca) e o herói sempre vence, apesar de ser só um contra um bando de foras-da-lei.

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O detalhe interessante é que nesta história o Alazão de Pau não apenas pensa as suas falas (como na maioria das histórias seguintes), mas realmente as pronuncia em voz alta, para o espanto de todos. Já que ele é um objeto mágico, feito de um tronco dado ao herói por um velho índio, ele realmente deveria poder fazer muitas coisas.

É uma pena que, ao longo do tempo (e frequentemente por sugestão de chefes e colegas), o Alazão tenha gradativamente perdido suas capacidades mágicas até se tornar um mero cavalo de verdade. Um final melancólico para o que começou como a exaltação mágica de um brinquedo querido, uma ode à felicidade das brincadeiras de infância.

Aqui também vemos a continuação da tradição dos palpites do Tio Patinhas, que seria um elo de ligação entre as várias histórias até o personagem ser “desligado” da redação de A Patada na história chamada “A Conquista do Oeste”, e o começo das “indiretas” e piadas internas dirigidas aos colegas e chefes na redação da Editora Abril que papai distribuiria pelas páginas de muitas de suas histórias, especialmente as do Pena Kid e as do Morcego Vermelho ao longo dos anos.

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E hoje pela primeira vez, o mocinho vem cantando uma versão mais tradicional de “Oh, Suzana”, no quadrinho de abertura da história. Se, como eu calculei em meu comentário sobre “O Norte Contra o Sul”, Pacífica City fica no Arizona, e se (como diz a música) o Pena Kid vem do Alabama (a quase um continente inteiro de distância, olhem no mapa), então Buracodebala City provavelmente ficaria em algum ponto entre esses dois estados, no sul dos EUA.

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O Vale Dos Desaparecidos

História do Pena Kid, de 1975.

As histórias do Pena Kid buscam divertir não apenas pelo humor da comédia do absurdo, mas também pela sátira dos clichês dos filmes de faroeste. Me parece, inclusive, que os quadrinhos e o cinema, que surgiram mais ou menos na mesma época, eram uma inspiração um para o outro, “emprestando” clichês de lado a lado.

O título da história vem de um seriado com temática de faroeste dos EUA dos anos 1940. Ele é tão antigo, na verdade, que naquele tempo era exibido nos cinemas.

Um exemplo de clichê dos filmes e quadrinhos clássicos que tem sido usado até hoje, com poucas variações, é o do medalhão. Em tempos muito anteriores aos exames de DNA, uma joia de família ou outro objeto pessoal passado de uma geração a outra poderia ser uma das poucas evidências que se poderia usar para tentar identificar um suposto parente, com todas as desvantagens que isso acarretava. O problema é que isso foi tão explorado nos melodramas como solução rápida e fácil, que rapidamente ficou cansativo.

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Quanto à interpretação por papai do nome do vale em questão a situação começa bem prosaica, como apenas mais uma desculpa do Peninha para cochilar durante o expediente, e vai ficando cada vez mais elaborada à medida que a insatisfação do Tio Patinhas com a condução do roteiro vai aumentando. Mas isso não quer dizer que as sucessivas soluções encontradas pelo Peninha para os desaparecimentos não vão ser menos clichê (e absurdas) do que o resto.

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As sucessivas reviravoltas ilógicas introduzidas por papai vão deixando a história cada vez mais caótica. A mensagem que ele tenta passar é a de que se, por um lado, um pouco de confusão é algo bom, uma situação absurda demais pode transformar até o mais sério dos filmes de faroeste em uma comédia. Um delicado equilíbrio é necessário para fazer a história “funcionar”, mesmo em situações declaradamente satíricas. Já o uso do “Peninha Quadrinista” dava a ele uma liberdade de brincar com os elementos das histórias em quadrinhos que ele não tinha com outros personagens mais tradicionais.

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O Roubo Da Diligência

História do Pena Kid, de 1975.

A proposta é fazer uma grande sátira dos antigos filmes de faroeste, apontando de maneira bem humorada todos os clichês do gênero.

São aquelas cenas que “não podem faltar” em um filme de bangue-bangue, por mais batidas que sejam, desde a cena da emboscada dos bandidos, na primeira página, passando pelos mal disfarçados panos de fundo que imitam paisagens do “oeste selvagem”, o mocinho amarrado em uma estaca pelos índios que dançam à sua volta e até os truques baratos de câmera e de edição que foram os precursores dos atuais efeitos especiais.

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Como sempre o Peninha escreve e desenha e o Tio Patinhas dá palpites, que o quadrinista de A Patada vai tentando adaptar à história para satisfazer o tio e chefe, desde que isso não o obrigue a redesenhar a história toda, para poupar trabalho (primeira lição ao quadrinista iniciante: nunca tenha medo de rasgar tudo e começar novamente desde que, é claro, o resultado inicial esteja realmente ruim. Pois é, criar dá trabalho).

Isso, aliás, se relaciona com a história que comentei ontem, do Zé Carioca, que foi originalmente publicada na mesma revista que esta: tem a ver com a presença dos personagens principais na trama desde o início, para evitar que personagens “caiam de paraquedas” no meio da ação e confundam o leitor (e esta é a segunda lição de hoje ao quadrinista iniciante, além, é claro, de fugir dos clichês como o Diabo foge da Cruz 😉 ).

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Se a Min estava na história desde o primeiro quadrinho, mesmo que na forma de um siri ou caranguejo (mas ainda reconhecível para o leitor atento), onde é que está o Pena Kid na diligência do Banqueiro Patatinhas no primeiro quadrinho? E será que o leitor, atento ou não, terá alguma chance de identificar o personagem desde o início? E essa solução é mesmo válida, ou só vale para uma sátira?

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A História Do Alazão-de-Pau

História do Peninha na redação de A Patada, de 1976.

Hoje veremos as origens do Alazão de Pau, o cavalinho de brinquedo animado que é o companheiro de aventuras do Pena Kid. Pois é, cada personagem principal tem o assistente que merece. Isso, aliás, vale também para o Tio Patinhas, chefe do Peninha no jornal patopolense.

É provável que algum amigo, colega ou mesmo chefe tenha perguntado a papai como é que ele explicaria a existência do Alazão de Pau, e ele então resolveu “dar ao Peninha” a incumbência de contar. (A verdade é que ele é inspirado nos brinquedos de infância prediletos de papai, mas essa explicação não “cabe” em uma história em quadrinhos).

O Peninha como sempre vai inventando a história de acordo com as circunstâncias, mais ou menos “ao redor” das implicâncias e sugestões do Tio Patinhas. A primeira ideia é a mais óbvia, sempre com o objetivo de explicar e se desincumbir o mais rapidamente possível para poder voltar a cochilar em serviço: um cavalinho de madeira só pode ter sido feito em uma serraria.

Mas é claro que só isso não é o suficiente, e é preciso explicar por que é que um brinquedo pode pensar e até mesmo se locomover sozinho e tomar as próprias decisões. No caso do Lampadinha, por exemplo, é a “magia da tecnologia” em ação. Já no Velho Oeste só nos resta a velha e boa magia, mesmo.

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Além disso, alguns quadrinhos são também um valioso vislumbre de como papai compunha suas histórias. Enquanto alguns criadores não encostam o lápis no papel até terem toda a história esquematizada e planejada, papai muitas vezes começava a rascunhar sem ter ideia nenhuma, ou com apenas uma vaga ideia de como ela terminaria. Esse livre fluxo de ideias algumas vezes podia se complicar e exigir várias correções em uma história, mas na maior parte do tempo dava às tramas essa característica de humor espontâneo que é tão apreciada no estilo de papai.

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Mas a história não é só isso. Ela tem vilões, e um conflito por causa de uma valiosa mercadoria que chegará na diligência das cinco da tarde. O nome do vilão principal, Matt Rindo, é um jogo de palavras bastante óbvio que alude à capacidade de alguns homens maus de matarem pessoas com um sorriso no rosto. Temos também uma pequena menção do lendário xerife Wyatt Earp, que existiu de verdade, e uma brincadeira com o próprio nome do Pena Kid, que passa todo o resto da história sendo chamado só de “Kid” após ter a pena de seu chapéu arrancada a bala pelo vilão.

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O Disfarce Mais Rápido Do Oeste

História do Pena Kid desenhado pelo Peninha na redação de A Patada, de 1976.

Vamos, primeiro, aos trocadilhos e demais referências recorrentes nas histórias de papai para este personagem: ele tentava sempre citar mais ou menos os mesmos lugares como sendo a região onde as histórias acontecem. Assim, o “Desfiladeiro do Grande Canhão” é mencionado mais uma vez, como local de esconderijo do vilão.

Além disso, se o leitor olhar bem, poderá ver as estacas que escoram algumas das construções menos importantes da cidade, que na verdade são apenas fachadas, como em um set de cinema. (Seria interessante, aliás, se alguém tentasse fazer um mapa de Pacífica City e seus arredores, semelhante aos que existem para Patópolis).

Já o nome do vilão mestre em disfarces, “Kid Sfarce” é, obviamente, um jogo de palavras com “que disfarce”. Nos cartazes nas paredes da delegacia, mais piadas do mesmo tipo. Temos um “Kid Bananeira”, cujo cartaz faz o leitor até querer virar a revista de ponta cabeça, e um certo “Juan, El Horrible”, cujo nome pode ser traduzido do “portunhol” para “Ivan, o Terrível”. Além de ser o nome e alcunha de um antigo imperador russo, é também uma maneira velada que papai encontrou para “assinar” esta história que é, decididamente, uma obra prima.

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É nela que aparece a famosa cena do “tire esse lago daí”, que cito em meu livro, por exemplo.

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Enquanto isso o Peninha, em sua função de desenhista de quadrinhos, está especialmente “atacado” hoje, alfinetando a todos na redação. Primeiro faz o banqueiro Patatinhas perder todo o seu rico dinheirinho, para desgosto do tio e patrão Patinhas, e depois começa a pegar no pé do primo Donald. Só que, aqui, a história tem uma reviravolta inesperada, e o comportamento do “grande quadrinista” Peninha muda de acordo.

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O interessante é que a suposta trama principal, uma bastante óbvia perseguição a um bandido também bastante óbvio, é o que menos importa no meio de toda essa sátira sobre o processo de criação de uma história em quadrinhos. Mas isso não quer dizer que o desfecho não será tão hilário quanto surpreendente.

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