A Gota Que Faltava

História do Professor Pardal, de 1975.

Papai não gostava de barulhos altos e repentinos, como os de um telefone alto ou campainha de porta estridente. Ele também não tinha muita paciência para esperar ser atendido, e depois até a comida chegar, em restaurantes “à la carte”. Junte-se a isso uma fantasia altruísta, como erradicar a fome no mundo, e uma “running gag”, e temos uma história engraçada.

O inventor patopolense (a quem papai emprestou, de forma consciente ou não, o seu horror a barulhos fortes e demoras) está inventando algo que ele chama de “gota maravilhosa”. O problema é que qualquer vibração mais forte faz a fórmula explodir e mandar tudo pelos ares. E é justamente neste dia que o telefone e a campainha não param de tocar no laboratório, com explosões frequentes e resultados hilários.

Mas para que serve a “gota maravilhosa”? Ora, para aumentar o tamanho de alimentos, é claro. Assim, com um tomate que alimentaria talvez uma pessoa, é possível alimentar 10. Parece a solução perfeita. Mas será mesmo que essa fórmula vai solucionar o problema do restaurante da Ermengarda e satisfazer os clientes?

Pardal gota

Bem, quem conhece o Pardal e seus inventos sabe que não é tão simples assim. Mas até aí tudo bem, porque a existência da fórmula (e das fortes vibrações) não passa de um pretexto para encher as páginas de explosões. Essas, sim, e o riso que elas causam no leitor, são a verdadeira razão de existir da história. E no processo, como em todo tipo de “composição”, o autor vai revelando (até mesmo sem querer) um pouquinho de sua personalidade ao leitor.

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Uma Missão Espinhosa

História do Pena Kid, de 1974.

Nesta aventura do Vingador do Oeste temos mais um vislumbre do amalucado processo criativo do Peninha, e vemos que a história que ele escreve é publicada em “capítulos”, um pouco todos os dias, mais ou menos como uma novela na televisão.

O Peninha começa a história com uma situação, e depois vai desenvolvendo por associação livre de ideias (um pouco livre demais, na maioria das vezes). Como ele não planeja a trama de antemão, as soluções que ele vai encontrando para o roteiro à medida que o Tio Patinhas vai dando os seus palpites às vezes ficam meio forçadas, mas isso não quer dizer que elas não sejam engraçadas.

E como na TV, às vezes o autor fica tentado a “enrolar” um pouco. Naquele tempo isso era muito comum com as novelas. Chegava uma hora em que a trama começava a não ir para lugar algum. Os personagens passavam capítulos inteiros em longas conversas que procuravam prolongar ao máximo uma situação de conflito ou suspense, e por muitos e muitos capítulos, nada de importante ou decisivo acontecia.

No início os telespectadores “engoliram” essa situação, mas aos poucos começaram a cansar. No final dos anos 1970 se dizia que bastava assistir a primeira e a última semanas de uma novela, que era quando as coisas realmente aconteciam. O resto era enrolação.

Também a exemplo dos argumentistas da TV, o Peninha espera a reação do público, mais do que pelos palpites do editor, para dar continuidade à sua “vibrante” história.

Ele começa com um duelo entre o Pena Kid e Zé Cejames (Jesse James) por causa de um copo de leite (que é o que se pode pedir pelo nome num bar em uma história Disney, já que o código de ética da empresa não permite que os personagens sejam vistos tomando bebidas alcoólicas).

É nesse momento que o argumentista resolve fazer um suspense bobo: termina o capítulo do dia com os dois, herói e bandido, insistindo para que o outro saque primeiro suas armas. (E como trocas de tiros muito intensas também não são vistas com bons olhos pelo código de ética Disney, o leitor sabe que dificilmente verá um tiroteio numa história do Pena Kid).

Mas isso é algo que o Patopolense médio, que acompanha as histórias do Peninha em A Patada, não sabe. A população de Patópolis “compra” o suspense do pato (e os jornais do tio dele), a ponto de se emocionarem e se estapearem pela oportunidade de comprar um exemplar do jornal nas bancas. (Danem-se as notícias, aliás. Para que serve um jornal sem a página de quadrinhos, afinal?)

PK espinhosa

Ao contrário de todas as previsões do velho muquirana, a história se torna um sucesso, e o Peninha vai se vendo com uma responsabilidade cada vez maior de manter os leitores interessados no suspense. Mas ainda falta atar uns fios soltos, como por exemplo, por quê a história se chama “Missão Espinhosa”?

A solução encontrada pelo Peninha é tão capenga quanto hilária, mas a verdade é que o Peninha se desviou um bocado de alguma possível ideia original que possa ter dado ensejo a esse título. Ou será que “espinhosa” é a missão diária de um quadrinista, para entreter seu público?

E outro problema, que vai crescendo, é quem vencerá o duelo. Com o passar dos dias, a cidade se dividiu em dois grupos de “torcedores”, um a favor do Pena Kid, e outro a favor de Zé Cejames. Cria-se uma situação na qual se um deles ganhar o duelo, os fãs do outro ficarão enfurecidos.

PK espinhosa1

Mas nosso argumentista fictício, com sua criatividade, vai encontrando soluções arrevesadas para tudo, enquanto papai vai nos dando mais uma de suas aulas sobre como (não) se faz quadrinhos, e nos revelando um pouco dos bastidores da produção e do dia-a-dia de um quadrinista. Desta vez, aprendemos principalmente que é preciso escolher cuidadosamente o nome da história, para que ele faça algum sentido. Aprendemos também que o leitor (como todo bom cliente) sempre tem razão.

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A Arca Do Zé Noé

História do Zé Carioca, de 1974.

Esta história foge um pouco ao “lugar comum” da Vila Xurupita, enquanto vai dando uma generosa “esticada” nos limites do plausível, até praticamente as raias do absurdo. Mas a coisa é feita de um modo tão hábil que o leitor vai na onda, movido talvez pela curiosidade de ver o que mais vai acontecer, à medida que as coisas vão ficando cada vez mais surreais com o passar das páginas.

Papai faz a trama começar simples, com o Zé refugiado no alto do ponto mais alto da Vila Xurupita de uma forte chuva que causou uma enchente, até que uma represa próxima cede e ele é arrastado pela água juntamente com o Nestor. (A primeira coisa insólita desta história é que a Vila Xurupita fica no alto do Morro do Papagaio. Se lá em cima está desse jeito, o que se pode dizer do resto do Rio?)

Um alívio temporário vem na forma de um velho baú que está flutuando, e que o Zé resolve usar como barco. E o que começou simples vai se complicando, já que a cada quadrinho aparece mais alguém em perigo e precisando de uma carona na embarcação improvisada. O mais engraçado é que, mesmo com seis pessoas dentro, o baú não afunda.

ZC Noe

Mas a coisa não para por aí. A exemplo do Noé no título, o Zé ainda enfrentará o “dilúvio” em grande estilo. Quando a enxurrada leva a turma até o mar, eles então encontram um velho barco a vapor à deriva e animais de um zoológico próximo para recolher. Depois de ver meia dúzia de personagens navegando um baú sem afundar, o leitor já nem estranha mais este novo desenvolvimento na direção do insólito

ZC Noe1

E para quem começou a história preparado para esperar a chuva passar deitado sob um guarda chuva, o Zé terá de se esforçar bastante para não desapontar a Rosinha, o que explica o “splash panel”. É a clássica expressão do ditado “amor, a quanto me obrigas”.

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Ali Bobão E Os 40 Metralhas

História dos Irmãos Metralha, de 1977.

Esta é mais uma da série “metralhas históricos”, nas quais o Vovô conta uma aventura dos antepassados. Como (quase) sempre, o Metralha Azarado é um dos personagens principais, e sua falta de sorte dará o tom à trama.

Estamos na época das Mil e Uma Noites, e a história é inspirada no conto de Ali Babá e os Quarenta Ladrões. Algumas adaptações foram feitas, com o Ali Bobão (antepassado do 1313) fazendo, ao mesmo tempo, os papéis de Ali Babá e de seu irmão ganancioso, Cassim.

Assim como o primeiro, ele ouve por acaso as palavras mágicas sendo proferidas à entrada da caverna, e assim como o segundo, ele as esquece assim que se depara com o fabuloso tesouro do Xeque Mustafá Lido (brincadeira com a palavra “falido”), guardado dentro dela pelos ladrões, que são primos do Azarado.

Ora, que tesouro pode ter um Xeque com um nome desses, afinal? Em todo caso, há bastante o que carregar. Papai usa aqui o expediente dos potes de azeite da história original, mas de um modo um pouco diferente: ao invés de esconder ladrões, eles esconderão o produto do roubo.

Metralhas Bobao

Para adicionar mais um toque de graça, tentar enriquecer o vocabulário do leitor, e também fugir do óbvio, um sinônimo de “sésamo” é usado na frase mágica. Assim, ela se transforma em “abre-te, semente de gergelim“. Com isso, as tentativas do Azarado de lembrar a frase mágica ficam realmente hilárias.

Metralhas Bobao1

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A Marca Do Zorrinho

Primeira história dos sobrinhos do Donald como “O Zorrinho”, de 1974.

Ao que parece, mais ou menos como aconteceu com o Morcego Vermelho, papai viu em algum lugar um desenho de um dos sobrinhos fantasiado de Zorro, e resolveu criar um personagem de acordo com a ideia. E, como os meninos são trigêmeos, ele certamente achou que seria engraçado fazer parecer que seja um só, mas sempre em três lugares ao mesmo tempo.

E assim como o Zorro tem o Tornado, seu cavalo negro, os Zorrinhos têm o “Torneado”, cavalinhos de madeira quase ao estilo “Pena Kid”. O nome é uma referência à maneira como se fazia os brinquedos de madeira antigamente, em máquinas chamadas tornos. Mas esses são brinquedos comuns, sem poderes mágicos. Nesta primeira história papai ainda não havia criado o famoso grito de guerra dos personagens (“Um é todos e todos são um”), mas pega emprestado o brado dos três mosqueteiros, no qual ele se inspiraria depois.

Zorrinho marca

O próprio nome da história é inspirada no filme de 1940, intitulado “A Marca do Zorro”. Na trama propriamente dita temos um set de filmagem no bairro dos meninos, bem onde eles costumam brincar. Parece ser um filme de faroeste, completo com uma cidadezinha de papelão que, após terminadas as filmagens a cada dia, fica com cara de “cidade fantasma” durante a noite. É o ambiente perfeito para muitos sustos e correrias entre os patinhos, os Metralhinhas e o vigia noturno, rendendo muitas risadas ao leitor.

Zorrinho marca1

Mas é só no final, quando percebem que os moleques não se deram conta de que eles são três, que os meninos resolvem esconder esse fato e criar a “identidade secreta”. Nasce “O Zorrinho”, terror dos Metralhinhas e demais pestinhas.

Pelo que vi no índice no Inducks, foram feitas exatas 11 histórias para este personagem entre 1974 e 1985 (além de mais algumas participações em histórias de outros personagens, onde eles não eram os principais). Dessas, nove são de autoria de papai, e todas foram escritas aqui no Brasil. As outras duas são de Julio de Andrade e Gerson Teixeira.

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Os Visitantes

História do Zé Carioca, de 1974.

Volta e meia, os primos do Zé vão visitá-lo no morro, no Rio de Janeiro. Até aí, tudo bem, se eles não calhassem de aparecer, na maioria das vezes, quando o Zé está desempregado (o que é bem comum, diga-se de passagem).

ZC Visitantes

Isso, aliado à presença de certos “animais de estimação”, como o Bode Cheiroso e a Cabra Gabriela, que comem literalmente tudo o que lhes aparece à frente do focinho, sempre é receita certa para uma boa confusão.

ZC Visitantes1

Como ele terá de hospedar o Zé Queijinho por alguns dias e como sempre está com a despensa vazia, ele sugere que o primo arranje um emprego (quem sabe assim ele desanima de ficar por muito tempo?), um plano que de um modo ou de outro acaba dando até certo.

Interessante é que o Zé, apesar das calúnias de que ele “não gosta de trabalhar” e apesar de a ideia original dele nesta história ter sido arranjar um emprego para o primo (e não exatamente para si próprio), não é totalmente contra ter um emprego de vez em quando, e acaba ele também arranjando um, de vigilante numa escola, durante as férias. Ou seja, é um trabalho fácil e sem muita complicação, bem ao gosto do papagaio.

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Zorro, O Bandido

História do Zorro, de 1974.

O paradoxo do Zorro, basicamente, é o de que o herói de alguns pode ser o bandido de outros. Dedicado a defender o povo de Los Angeles contra os desmandos dos agentes da coroa espanhola, ele é bem visto e querido pelos mais humildes, e justamente por esse motivo, odiado pelos poderosos, que o consideram um “fora da lei” e portanto um “bandido”.

O fato é que um mascarado, alguém que usa o anonimato para agir como bem quiser, é um perigo potencial, exatamente pela incógnita que representa. O que o impediria (além de seu elevado caráter moral e nobreza de espírito, é claro) de se voltar contra a população que até agora defendia, se fosse do interesse dele? O povo confia no Zorro, mas a verdade é que ninguém sabe quem ele é, nem do que ele é realmente capaz.

É essa a “lição” que os poderosos decidem dar ao povo, para mostrar a eles como são ingênuos, minar sua confiança no herói, sabotar sua influência e, de quebra, tentar desmascará-lo de uma vez por todas. Mas é claro que o verdadeiro Zorro (porque o “Zorro bandido” é um impostor, sem sombra de dúvida) não pode ficar omisso a esse disparate e logo sai em busca dele e de seus mentores, o que rende cenas insólitas como esta:

Zorro bandido

É neste dia que o Sargento Garcia vai poder finalmente realizar seu sonho, e prender o Zorro, o que só adiciona à confusão e humilhação dos maus, mais uma vez.

Zorro bandido1

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