A Invasão Dos Piratas

Este é o segundo episódio da História de Patópolis, de 1982.

O herói é um antepassado do Zé Carioca, que em 1789 chega à cidade no navio do “pirata do Caribe” El Borrón, antepassado do Mancha Negra.

O nome “Zé Cariboca” é uma brincadeira com o “Carioca” do Zé do presente: se carioca é como se chama uma pessoa do Rio de Janeiro, “cariboca” deve ser alguém que vem do Caribe. Mas logo no primeiro quadrinho temos um equívoco, talvez do letrista: onde o Prof. Ludovico fala “Carioca”, leia-se “Cariboca”, é claro.

A história, como todas as outras, gira em torno da então Vila de Patópolis e dos esforços de seus habitantes fundadores para consolidar o assentamento e fazer a cidade prosperar contra todas as adversidades. Além disso aqui, também, a “Pedra do Jogo da Velha” terá um papel central na trama: o Zé Cariboca, apaixonado por uma ancestral da Rosinha, a usa para afastar os piratas da Vila com promessas de que ela seria um mapa para tesouros de ouro e prata.

A localização exata de Patópolis, como sempre, não fica clara: papai seguia a linha criativa de Carl Barks, e considerava que ela fica em algum lugar no Hemisfério Norte, nos EUA. Mas o pessoal da Editora Abril queria que se passasse a impressão de a cidade fica no Brasil, para que o leitor brasileiro pudesse se identificar mais facilmente. O fato é que, pela localização do Caribe a meio caminho entre Brasil e EUA, os piratas teriam igual facilidade em atacar ambos. Em todo caso, as roupas dos antigos patopolenses, a arquitetura das casas e a aparência dos índios são, todas elas, típicas da parte Norte do planeta.

Interessante é a placa que aponta para “Patópolis a 1500 Km”. Ora, nós sabemos que o Zé carioca vem do Rio de Janeiro, e sabemos onde a cidade fica. Assim, de duas, uma: ou consideramos que Patópolis fica a 1500 Km de lá, ou que o Zé já estava “a meio caminho” de Patópolis ao passar pela placa. Assim sendo, a essa distância do Rio temos algumas referências interessantes: se formos para o Norte, estaremos passando por algum lugar ao Sul de Salvador, no litoral da Bahia.

Se formos para o Sul do Brasil, chegaremos em Tramandaí, no litoral do Rio Grande do Sul (já que Patópolis é sem dúvida uma cidade de praia). Mais interessantemente ainda, se voltarmos nossa atenção para o próprio mar, a 1500 Km do Rio na direção do mar aberto foi descoberto por geólogos um possível “continente submerso“. Seria Patópolis algum tipo de “Atlântida”? 😉 O certo é que o Zé precisou andar um bocado.

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Os Desabrigados

História dos Irmãos Metralha, de 1979.

Para a população em geral, qualquer pessoa que não seja milionária, ter um lugar para morar sempre foi um problema, no Brasil. E no tempo em que esta história foi escrita, era um problema maior ainda. A trama serve tanto como uma crítica social quanto como uma zoação aos Metralhas.

Ao serem despejados por fiscais da prefeitura de um casebre condenado, os irmãos e o Vovô saem em busca de um novo lugar para se esconder. A crítica social vem na citação da letra de “Saudosa Maloca“, de Adoniran Barbosa.

A zoação fica por conta do encontro dos desabrigados com o igualmente sem-teto bando do Sr. X, o auto-intitulado “Rei do Crime”, que conseguiu nunca cometer crime algum, e muito menos ir preso ou ser fichado pela polícia.

Os Metralhas são tão pés-de-chinelo, mas tão chinfrins, mas tão sem eira nem beira, que conseguem perder a briga até mesmo para os “anti-vilões” mais zero à esquerda da história de Patópolis.

O resto da piada é a tentativa dos desabrigados de irem presos para pelo menos poderem dormir sob um teto em algum lugar seco, mesmo que esse lugar seja a cadeia. Mas ser detido pela polícia é apenas metade do processo de ser recolhido ao xilindró. A outra parte é ser julgado e condenado por um juiz, e às vezes as decisões judiciais podem ser bastante surpreendentes.

Uma coisa é certa: em uma história de papai, não há chance alguma de que algum plano dos Metralhas vá dar certo, não importa qual seja. E se puder dar espetacularmente errado, melhor ainda.

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A Volta Ao Mundo Em 8 Manchas

Aventura épica do Mickey, de 1973.

Publicada em uma revista especial só dela em Edição Extra e contando com nada menos que 100 páginas, a história me parece apropriada para comemorarmos esta que é a milésima postagem deste blog.

É uma aventura complexa e bastante ambiciosa do ponto de vista do roteiro, comparável a outros clássicos como “O Professor Pardal na Atlântida” e “Mancha no Espaço”, já comentadas aqui. A inspiração vem, expressamente, de livros como “Cinco Semanas em um Balão” de 1863 e “Volta ao Mundo em 80 Dias” de 1873, ambos de Júlio Verne.

A  viagem de volta ao mundo começa como uma bravata do Mancha Negra. Não era intenção do vilão sair pelo mundo mas apenas despistar o Mickey para poder praticar seus assaltos sem ser preso, em Patópolis mesmo. A coisa toda começa quando, por acidente, o Mancha é forçado a viajar e se vê obrigado a tentar cumprir o que prometeu, aos trancos e barrancos.

São nomes demais para citar, mas nomes como “Buga-Buga”, a primeira parada da odisseia, lembra algo que poderia ficar na África tribal. A parada seguinte, “El Arak”, soa com algo em árabe (Arak é o nome de uma bebida alcoólica, e é também dessa palavra que vem a expressão “de araque”, significando “de mentira”) Daí eles passam pelo “Rio Nulo” (Rio Nilo), o que só vem para reforçar essa sensação de que estão no Norte da África.

Já a região de Bengala existe de verdade, e fica na Índia. Seguindo sempre para Leste, a turma acaba indo parar em locais como a China (na localidade fictícia Ling-Ling-Lé) e Pago Pago, no Oceano Pacífico. Daí para o “Faroeste”, em território dos EUA, é realmente um pulo (e pelo menos um dos nomes de cidades citados, Buracodebala City, seria usado novamente em “Pena Kid Ataca Novamente”, publicada no ano seguinte).

Em cada lugar há um tesouro a ser roubado, uma perseguição, uma aventura a ser vivida e dificuldades a superar. O trajeto é bastante lógico, baseado nos vastos conhecimentos gerais de papai, e uma verdadeira aula de geografia para quem se dispuser a pesquisar mais a fundo.

Se considerarmos que Patópolis fica no Brasil (para os propósitos da produção nacional), o mapa abaixo, publicado no final da revista, dá um traçado bastante exato da rota da viagem.

Há muitos nomes com cacófatos engraçados, tanto de pessoas como de lugares, e alguns personagens de uma história só na companhia de outros que seriam usados mais de uma vez, como o Zerildo, o robô calculadora falante inventado pelo Professor Pardal e usado também em “Mancha no Espaço” e na “História do Computador”.

E temos também a primeira menção a “Copabacana” como anagrama de Copacabana, no Rio de Janeiro, que seria usada mais tarde no mesmo ano em uma história do Morcego Vermelho.

Assim, papai vai lançando as bases para toda a sua criação futura, já que ele frequentemente voltava a histórias anteriores em busca de inspiração para mais tramas.

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O Poderoso Metralhão

Esta é a última história da série A História de Patópolis, publicada pela primeira vez em 1982.

A saga da Pedra do Jogo da Velha chega ao fim nos anos 1930, em uma Patópolis muito parecida com a Chicago da mesma época, tomada por gangsteres e pelo crime organizado.

Apesar da semelhança com a quadrilha Metralha, o vilão chamado Al Metralhone não é um antepassado do Vovô Metralha. Como vimos em outra história de mesmo nome da série Metralhas Históricos que já trata desse personagem, ele é um tio dos Metralhas atuais.

O nome dele é uma referência a Al Capone e, como ele, o Metralhone andava sempre na tênue linha entre legalidade e ilegalidade, entre roubos e a exploração do jogo (e principalmente o da velha, é claro). Como ele, também, será preso por algo que não tem lá muito a ver com o atos de violência que comete pela cidade.

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Papai “costura” a história de uma maneira inusitada: ela começa com uma ação dos bandidos para roubar uma banca de frutas. Em seguida ficamos sabendo que o Metralhone está atrás de jabuticabas (fruta que era, aliás, a predileta de papai). Na continuação, vemos um alambique ao fundo, e por fim ficamos sabendo o que é produzido ali: licor de jabuticaba!

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Em nenhum momento papai fala explicitamente sobre a Lei Seca nos EUA, mas quem conhece um mínimo de História vai finalmente conseguir unir os pontos.

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Um Natal Do Passado

Publicada pela primeira vez em dezembro de 1982, a história mescla acontecimentos do tempo presente com as lembranças de Natais passados da Vovó Donalda.

Assim, temos os personagens que já conhecemos, juntamente com suas versões mais jovens e outros, apresentados hoje ao leitor, que são antepassados dos atuais, mais ou menos como aconteceu na saga da História de Patópolis (que foi publicada, aliás, no mesmo ano). Seria esta uma história de Natal não oficial da série?

Não há menção à Pedra do Jogo da Velha, mas temos um mapa das minas de ouro da cidade, encontrado e muito bem oculto pelo jovem Patinhas que, na época, era apenas um patinho, assim como a Donalda. Outros personagens são tios avós dos metralhas atuais, e alguns parentes da Vovó, como sua própria avó, de nome Hortênsia, e um tio chamado Donaldo.

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O trunfo da história, o detalhe central que denota a esperteza precoce do Patinhas e leva à derrota dos bandidos, gira em torno do boneco de neve que a jovem Donalda, na época com 5 anos de idade, está fazendo quando a história começa. Papai confia na atenção do leitor para que ele perceba o que está acontecendo.

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O resto é a história da luta de uma família desarmada contra bandidos ferozes, com o uso de um engraçado detalhe, que é o que vai finalmente colocar os vilões para correr sem que os patos precisem recorrer à violência. Uma vez derrotados os bandidos, a história pode então terminar enquanto começa a festa de Natal da Família Pato, com direito a votos de Boas Festas aos leitores.

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O Banquete De Natal

História de Natal “perdida”, de 1977.

Começo hoje uma pequena “maratona de Natal”, com todas as histórias sobre o tema que ainda não foram comentadas. Esta, em especial, está na lista de trabalho de papai, e as duas revistas nas quais ela foi publicada estão aqui na coleção. Neste momento o credito ainda não foi confirmado no Inducks, mas eu acredito que agora é só uma questão de tempo.

Todo mundo sabe que o Tio Patinhas é um muquirana que não abre a carteira nem mesmo no Natal. Aliás, esta é justamente a origem do personagem, que nasceu de uma adaptação da história “Um Conto de Natal” de 1843, de Charles Dickens. Esta é a natureza do personagem.

Mas o que aconteceria se ele resolvesse, em um arroubo de “quase generosidade” (ainda que não desinteressada: o objetivo é ganhar um concurso) abrir (só um pouquinho) a carteira e oferecer um banquete de Natal à fina nata da sociedade patopolense?

O problema é justamente esse “só um pouquinho”: para não gastar demais, o pato quaquilionário deixa a improvisação do almoço a cargo dos desastrados Peninha e Donald, que não irão desapontar no quesito trapalhadas. Destaque para o nome do Peru de estimação do Urtigão, o Guglielmo.

(Esta parte é inspirada em uma velha piada de caipiras, na qual a esposa do anfitrião passa a história toda perguntando se já pode levar o peru, e ele sempre dizendo que não. Quando finalmente acaba a sopa de nabos com pão que fora servida e o convidado pensa que finalmente vai colocar os dentes em um peru assado, o anfitrião manda trazer o pásaro, que sobe na mesa, vivinho da silva, para comer as migalhas.)

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Mas como é Natal, ninguém está ligando muito para certos “detalhes”. O que importa, de verdade, é o espírito natalino e o esforço do Patinhas para agradar. Papai também parte da premissa de que os ricos são “gente como a gente” e que também sabem apreciar as coisas simples da vida.

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A Repórter Mais Simpática

História da Margarida, de 1974.

Toda profissão tem seus “ossos do ofício”, e o jornalismo não é diferente. A competição entre os profissionais pode ser acirrada, e nem todos jogam limpo.

A isto papai adiciona o mito da rivalidade entre mulheres, uma fantasia machista que estava muito arraigada na cultura brasileira da época, e que é, até hoje, encorajada como mais uma das maneiras que existem de se tentar controlar o comportamento das mulheres para benefício dos homens. (Lembrem-se, mulherada: isso não precisa ser assim, e nós ganhamos muito mais unidas do que separadas.)

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Há também o problema da competição que é organizada de propósito para que apenas o participante “da casa” tenha chance de ganhar, de preferência humilhando os adversários no processo. A tarefa do pessoal do bem da história será conseguir ter uma chance justa, usando de alguma engenhosidade e astúcia, mas de preferência sem trapacear também. Papai usou isso várias vezes, mais notoriamente em histórias como “A Copa do Morro é Nossa”, e outras semelhantes.

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O desafio principal da competição será fazer uma entrevista agradável com “a pessoa mais antipática de Patópolis”. Por sorte da Margarida, a definição de antipatia é algo um pouco subjetivo, e é a chance que ela terá de “virar o jogo” com sutileza e elegância.

São os “truques” do jornalismo para se conseguir informações, algumas vezes até mesmo não deixando que o objeto da entrevista perceba que está sendo entrevistado.

O editor J. Rata Zana e a repórter Malu Tadora (ambos de A Patranha) aparecem apenas nesta história e são, portanto, criações de papai.

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