O Vale Dos Desaparecidos

História do Pena Kid, de 1975.

As histórias do Pena Kid buscam divertir não apenas pelo humor da comédia do absurdo, mas também pela sátira dos clichês dos filmes de faroeste. Me parece, inclusive, que os quadrinhos e o cinema, que surgiram mais ou menos na mesma época, eram uma inspiração um para o outro, “emprestando” clichês de lado a lado.

O título da história vem de um seriado com temática de faroeste dos EUA dos anos 1940. Ele é tão antigo, na verdade, que naquele tempo era exibido nos cinemas.

Um exemplo de clichê dos filmes e quadrinhos clássicos que tem sido usado até hoje, com poucas variações, é o do medalhão. Em tempos muito anteriores aos exames de DNA, uma joia de família ou outro objeto pessoal passado de uma geração a outra poderia ser uma das poucas evidências que se poderia usar para tentar identificar um suposto parente, com todas as desvantagens que isso acarretava. O problema é que isso foi tão explorado nos melodramas como solução rápida e fácil, que rapidamente ficou cansativo.

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Quanto à interpretação por papai do nome do vale em questão a situação começa bem prosaica, como apenas mais uma desculpa do Peninha para cochilar durante o expediente, e vai ficando cada vez mais elaborada à medida que a insatisfação do Tio Patinhas com a condução do roteiro vai aumentando. Mas isso não quer dizer que as sucessivas soluções encontradas pelo Peninha para os desaparecimentos não vão ser menos clichê (e absurdas) do que o resto.

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As sucessivas reviravoltas ilógicas introduzidas por papai vão deixando a história cada vez mais caótica. A mensagem que ele tenta passar é a de que se, por um lado, um pouco de confusão é algo bom, uma situação absurda demais pode transformar até o mais sério dos filmes de faroeste em uma comédia. Um delicado equilíbrio é necessário para fazer a história “funcionar”, mesmo em situações declaradamente satíricas. Já o uso do “Peninha Quadrinista” dava a ele uma liberdade de brincar com os elementos das histórias em quadrinhos que ele não tinha com outros personagens mais tradicionais.

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No Reino Das Peças de Xadrez

História da Turma da Fofura, de Ely Barbosa, composta em setembro de 1987 e publicada pela Editora Abril na Revista da Fofura número 11 ainda no mesmo ano.

Aqui voltamos mais uma vez ao tema do jogo de Xadrez, o esporte predileto de papai. Como a proposta dos personagens é para crianças bem menores do que os leitores da Disney, a abordagem será também bem mais simplista. Não por acaso, na primeira página nenhum dos personagens sabe jogar, a ponto de interpretarem a palavra “jogar” como “arremessar”, com resultados doloridos para alguns.

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Como sempre, ele faz questão de tentar ensinar alguns rudimentos, como a menção à “oitava casa preta à esquerda”. Essa é a maneira correta, de acordo com as regras, de colocar o tabuleiro sobre a mesa para se iniciar uma partida: a última casa preta da primeira fileira do tabuleiro fica à esquerda do jogador e, consequentemente, a primeira casa branca fica à direita dele.

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E, claro, para deixar as coisas interessantes e evitar passar a impressão de “aula”, papai inventa um desaparecimento dos peões e cavalos brancos com um pequeno mistério para o coelho Escovão resolver. O exercício de imaginação gira em torno da livre associação de ideias com a palavra “peões”. Afinal, no Brasil “peões” são também – e principalmente – os “de boiadeiro”.

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Somente após a resolução do mistério e a volta das peças brancas poderá o jogo de Xadrez começar, para que o Nenê possa finalmente realizar seu desejo de aprender alguma coisa sobre como realmente se joga.

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Duelo Na Cidade-Fantasma

História do Zorro, de 1973.

Parte da graça em ser escritor de histórias em quadrinhos é poder colocar o herói em apuros aparentemente insuperáveis, só para depois inventar uma maneira de fazer com que ele escape espetacularmente.

(Eu sei que dia é hoje e que tipo de história eu me propus a comentar às sextas-feiras, mas é também meu aniversário e eu gosto do Zorro. Pronto.) 😉

Ao libertar o que parece ser um prisioneiro político e depois tentar fugir (lembrando novamente que, em 1973, em plena ditadura militar, qualquer alusão a presos políticos era uma afronta ao sistema), o Zorro comete um erro de julgamento e vai parar em uma cidade fantasma. Se fosse qualquer outro lugar, especialmente se ele fosse bem povoado, seria mais fácil se misturar aos simpatizantes e sumir na multidão. Mas em um lugar perfeitamente vazio há anos, qualquer presença humana pode ser notada facilmente.

Depois de propor o problema, papai começa então a trabalhar a solução. A premissa, aqui, é que os soldados são tão burros e supersticiosos quanto o herói é astuto e inteligente. Apesar do maior número e do poder das armas, eles não serão páreo para o Zorro, que consegue enganar até mesmo o rastreador indígena que está a serviço dos soldados.

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Certos povos, como os indígenas no continente americano e os nômades do Oriente Médio, especialmente os beduínos em Israel, foram e são parte valiosa de qualquer exército (e também de equipes de arqueólogos e pesquisadores em geral). Eles conhecem com absoluto domínio o terreno, cada pedra, cada árvore, o clima, sabem se guiar pelas estrelas, e sabem notar qualquer distúrbio que possa indicar que alguém tenha passado ou esteja se escondendo por ali.

Mas esta é a única vantagem dos soldados. De resto, para atrapalhar ainda mais, papai trabalha firmemente a noção de que o lugar pode ser assombrado, de que o lugar é realmente assombrado, e de que um fantasma pode aparecer a qualquer momento.

Esse “pânico” todo que ele vai imprimindo aos personagens tem a finalidade de envolver o leitor para que, quando um nada simpático novo personagem for apresentado, até mesmo este último ficará na dúvida sobre o que está vendo. Será que o fantasma apareceu mesmo?

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A Verdurite Aguda

História do Lobão, de 1973.

Este personagem mau e seu filho bonzinho estão sempre em um conflito velado que se expressa em seus hábitos e preferências. Mas mesmo tendo personalidades opostas, os dois não podem realmente brigar e se desentender de forma definitiva, por causa do código de ética Disney que protege sua condição de “família” até às últimas consequências.

Enquanto o Lobinho prefere uma dieta vegetariana, coisa incomum para um lobo, o Lobão não se conforma com a situação e deseja comer costeletas de porco. Para tentar conseguir o que quer ele até mesmo fingirá uma doença e recrutará um velho amigo dos temos de escola, este tão mau quanto ele, para ajudá-lo.

“Verdurite”, no entender do Lobão, seria um mal súbito que acomete seres carnívoros que se alimentam somente de verduras, e em especial de sopa de lentilhas com cenoura, que parece ser tudo o que o Lobinho sabe cozinhar. O sufixo “ite”, em medicina, é uma referência a doenças agudas e passageiras, como uma inflamação, por exemplo. Portanto, o uso que pepei faz dele para sua doença inventada está correto.

O “colega” do Lobão, de nome Lobório, é invenção de papai. Ele não aparece em nenhuma outra história, nem anterior nem posterior. Mas, apesar de tudo, é óbvio que o plano não pode dar certo. Isso o leitor já sabe. O interessante, como sempre, será ver exatamente como.

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As histórias destes dois personagens são uma reflexão sobre os laços que unem pais e filhos, e uma exortação à tolerância e à coexistência entre as pessoas, por mais diferentes que elas possam ser umas das outras. No conceito Disney de ser, o ser humano ideal é aquele que controla seus impulsos e vive uma vida regrada e harmoniosa, evitando a violência a qualquer custo, mesmo que isso signifique ir contra sua própria natureza de “predador”.

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Diário De Um Herói

História do Morcego Vermelho, publicada pela primeira vez em 1977.

A brincadeira de hoje inclui um pouco de tudo: primeiramente, tenta desfazer a noção de que diários são coisas apenas para mulheres. Um herói também pode ter o seu, desde que consiga escrever alguma coisa entre uma missão e outra.

De resto a trama explora o talento para o desastre do herói, juntamente com a falta de credibilidade dele junto à população patopolense. Até as crianças preferem outros heróis, pois confiam mais na capacidade deles e não no Morcego. A cada página o menino pede por um herói diferente. Do Superpateta ao Vespa Vermelha (duas vezes), passando até pelo Mickey. O único que não é chamado é o Superpato, de quem papai não gostava muito pois achava que ele competia com o Xaxam.

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Mas como sempre o objetivo de papai não é fazer o mocinho pegar o bandido, mas sim fazer o leitor rir. Para isso, ele usa e abusa das quedas e trombadas. Tudo o que poderia sair errado será um verdadeiro desastre, desde o primeiro quadrinho e até a última página. O herói se acidentará pelo menos uma vez em cada página, e em algumas delas até mais. Mas, mesmo assim, não desiste nunca.

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E por fim, como se não bastasse, todo o esforço será em vão, com um desfecho tão surpreendente (para o leitor) quanto decepcionante (para o personagem). Mas de qualquer maneira, qual outro dos heróis de Patópolis se prestaria, com tamanha boa vontade, a fazer papel de bobo para agradar uma criança?

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A Árvore Assaltante

História dos irmãos Metralha, publicada uma única vez em 1975.

Trata-se de mais um plano para tentar praticar assaltos, já que eles são tão manjados na cidade e tão ineptos no que fazem que já não estão conseguindo nada.

O problema é que eles se consideram descendentes de “grandes” bandidos (embora essa noção seja bastante questionável, pois já vimos que seus antepassados através da História não eram muito diferentes deles) e se sentem na obrigação de praticar grandes assaltos e roubos, coisa que nunca conseguem fazer, obviamente. No fim das contas, não passam de ladrões de galinhas.

Enquanto a maioria dos planos que eles bolam até que são bons e poderiam dar certo se não fosse a execução relapsa, este plano em especial já surpreende, logo de saída, pelo absurdo da ideia.

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Mas isso não quer dizer que a execução não será um verdadeiro desastre, ainda por cima.

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Os metralhas vão sair de mãos abanando, como sempre, e como não poderia deixar de ser. Quem ganha é o leitor, que certamente rolará de rir com a situação positivamente insólita que vai se desenrolando pelas ruas de Patópolis.

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Zé Relâmpago

História do Zé Carioca, de 1978.

Esta é mais uma variação sobre o tema “corrida”, ou “competição”, no mesmo estilo de histórias como as que mostram gincanas, corridas de vassouras de bruxa, competições de aeromodelismo, ou corridas de tartarugas. No caso de hoje temos o resgate de um brinquedo bem brasileiro, mas que já estava caindo em desuso: os carrinhos de rolimã.

Nos tempos áureos das brincadeiras com esses veículos improvisados os meninos (principalmente) tinham orgulho em fazer, com muito capricho e os melhores rolamentos que conseguissem encontrar, seus próprios carrinhos para competir com os amigos. Alguns não passavam de tábuas com rodinhas, mas outros chegavam a ser bastante elaborados.

No afã de vencer a competição e ganhar mil cruzeiros o Zé não medirá esforços. Mas acaba se traindo por falar antes de pensar, e arranjando a vizinhança inteira como adversários.

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Outra coisa importante para que haja uma corrida de carrinhos de rolimã é a existência de uma ladeira no local da competição. O problema é que, no morro, existem ladeiras de todos os tipos, e nem todas são lá muito seguras. E agora, José?

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Se o Zé vai ou não ganhar a corrida nem é tão importante quanto o festival de trapalhadas e trombadas com o qual papai nos brinda nas páginas, até o surpreendente desfecho.

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