O Navio-Fantasma

História do Donald e do Peninha, de 1977.

Enviados pelo Tio Patinhas a uma localidade no litoral para um trabalho, os dois primos se vêm às voltas com o que parece ser um caso de aparição de fantasmas, completo com uma misteriosa caravela que aparece e desaparece aparentemente do nada.

Como sempre fazia quando compunha esse tipo de história, papai faz o mistério e o suspense aumentarem a cada quadrinho que se adiciona aos demais, mas também deixa pistas para que o leitor possa tirar suas próprias conclusões, com uma série de silhuetas escuras à espreita pelos cantos (mesmo que nosso amigo leitor precise, talvez, de uma lente de aumento para perceber do que se trata).

Quem serão essas pessoas, e quais serão as intenções delas? Também como sempre, nada nem ninguém é o que parece ser, e é melhor que o leitor atento desconfie de tudo e de todos, porque tudo é muito misterioso e muito suspeito. Na verdade, nem mesmo a função dos repórteres de A Patada na trama é o que parece ser.

Uma pista bastante óbvia do que pode realmente estar acontecendo é a ausência do pato muquirana do escritório, quando o Donald finalmente consegue encontrar um telefone fixo para tentar falar com o tio. (Pois é, houve um tempo em que nem se sonhava com telefones celulares, e esse tipo de desencontro era algo muito comum.) Se o Patinhas não está onde deveria estar, então onde está ele?

É preciso não esquecer que, na literatura de mistério policial na qual esta história se insere e à qual faz homenagem, nada acontece por acaso e o vilão é geralmente o personagem que menos levanta suspeitas.

Papai tira sua inspiração não apenas das tramas clássicas de estilo policial, de suspense, de terror e de mistério, mas também das histórias de piratas e ilhas do tesouro, completas com mapas antigos e grandes pedras em forma de caveira.

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A Volta Do Conde Cordeiro

História do Mickey, de 1977.

Chefe de uma perigosa organização criminosa e outro dos arqui-inimigos do Mickey e do Esquálidus, o Conde Cordeiro é mais um daqueles personagens promissores mas mal aproveitados criados no exterior e adotados por papai para mais uma aventura, pelo menos.

A inspiração veio da história “Esquálidus Contra O Conde Cordeiro”, com roteiro de Bill Walsh e desenho de Floyd Gottfredson, originalmente publicada em tiras entre 1949 e 1950, que papai provavelmente leu na Edição Extra 67, de 1975.

Esta é uma daquelas batalhas épicas cheias de reviravoltas surpreendentes, grandes sustos e boas risadas, com tentativas de assassinato bem sérias, muito suspense e forte inspiração da história original. Algumas das armas não letais usadas na história são bastante futuristas e muito usadas nas histórias de meu pai, como a arma grudenta, por exemplo, que já existe hoje em dia.

Na companhia do amigo Esquálidus e seu gazecaradraursa Pflip, e apesar dos esforços de proteção por parte da polícia de Patópolis em uma ação comandada pelo próprio Coronel Cintra (para que o leitor sinta a gravidade do drama), o nosso herói se vê sequestrado e levado ao covil dos bandidos, onde ficará cara a cara com um perigoso tigre de bengala e ajudará a libertar alguns cientistas aprisionados.

Um dos cientistas, aliás, de nome Professor Zarrolhos, devido ao destaque que recebe, pode até mesmo ser uma representação do próprio autor, já que papai também gostava de se colocar nas histórias para poder contracenar com os personagens.

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O Jeito É “Dar Chapéu”

História dos Irmãos Metralha, de 1980.

Inspirada nos melhores romances policiais de Agatha Christie, esta história é milimetricamente calculada para dar um baita chapéu também no leitor. Principalmente no leitor. Só mesmo quem passou anos lendo com atenção as histórias de papai vai conseguir decifrar esta de primeira.

Trata-se de mais um embate “do século” entre os metralhas francamente criminosos e os supostamente regenerados Sherlock e Doutor Metralha. A guerra de inteligências será, como sempre, terrível, com reviravoltas constantes. Algumas delas bastante inesperadas.

Mas comecemos do começo:

Logo no primeiro quadrinho temos a menção do “endereço” dos metralhas: “Rua que Sobe e Desce, Número que Não Aparece”. Esta é uma velha brincadeira para significar um endereço genérico ou não sabido. Poderia ficar em qualquer lugar, e ao mesmo tempo não fica em lugar algum. Já no nosso caso, fica em Patópolis.

O endereço do Sherlock Metralha, obviamente, é inspirado no do Sherlock Holmes: “Sobreloja da Rua do Beco, número 17-B”. E se o Sherlock Metralha se inspira no xará britânico, o Doutor Metralha é fã de Agatha Christie e se identifica com Hercule Poirot.

A expressão “dar chapéu”, no título, é tomada do jargão do futebol e significa um tipo de drible. Além disso, sempre que há referência a chapéus em histórias de meu pai é bom lembrar outro velho ditado que ele citava sempre: “(tal coisa) é como comprar um chapéu – ou vai de embrulho, ou fica na mão ou leva na cabeça”. Ou seja, é uma situação que não pode acabar bem.

O nome do diamante a ser roubado, Kuly-Náryo, é inspirado no do Diamante Cullinan, um dos maiores e mais famosos do mundo.

Mas o mais interessante de tudo, e que vai colocar a pulga atrás da orelha do leitor atento para pular loucamente é a guinada na trama que começa quando o Sherlock telefonar ao Inspetor Joca para denunciar o plano maléfico:

Se o Intelectual está preso, então alguém está se fazendo passar por ele. Mas, quem?? É neste momento que papai nos apresenta mais um Metralha obscuro. Tão obscuro, na verdade, que aparentemente só aparece nesta história. Em todo caso, mais do que considerá-lo uma criação de papai, eu não posso deixar de notar uma grande semelhança do “Veterano 002”, como é visto aqui, com algumas versões estrangeiras (principalmente italianas) de ninguém menos que o Vovô Metralha. É papai, mais uma vez, resgatando personagens e “dando um alô” (ou um chapéu, como queiram) na direção de Carl Barks, sua grande inspiração.

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Perdidos No Vale Do Eco

História do Mickey, publicada uma vez só em 1975.

Trata-se de um bom mistério policial. Ao mesmo tempo em que vai armando uma armadilha quase perfeita para o herói (eu já avisei que não existe crime perfeito?), papai vai deixando todas as pistas possíveis para que o leitor o solucione.

Logo no último quadrinho da primeira página nosso leitor atento já terá a certeza de que há algo muito errado acontecendo. Mesmo com o mapa e as placas aparentemente apontando o caminho certo para uma suposta “Estância Azul” (o Google me mostra vários equipamentos turísticos com esse nome pelo Brasil afora, mas eu não me lembro de ter visitado nenhum deles), será que a placa de advertência caiu sozinha ou foi retirada?

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Com a progressão dos quadrinhos, um sofisticado plano maléfico vai se revelando: mapas adulterados, placas trocadas, sabotagem no carro do Mickey, e finalmente a “cereja do bolo” – o bandido deu o telefone do próprio esconderijo ao herói para poder falar com ele como se fosse o dono da tal estância. Tudo isso para tirar o rato do caminho, levando-o para longe no meio do deserto, e poder praticar um crime.

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Por fim, o mapa adulterado contém em si a solução para o problema, e o leitor que souber lê-lo poderá ficar tranquilo na certeza de que o Mickey vai conseguir dar a volta por cima e prender os bandidos. Afinal, é mais fácil trocar alguns detalhes em um mapa já existente, do que desenhar algo completamente falso. Sendo assim, caberá ao leitor decidir quais elementos no mapa são falsos, e quais são os verdadeiros.

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O Sumiço Dos Herdeiros

História do Zé Carioca, de 1975.

Estamos novamente na ilha-fortaleza do Coronel Zé Do Engenho, para mais uma “sessão mistério” inspirada em antigas histórias de terror e clássicos da literatura do gênero policial. Esta é a continuação da história chamada “Herdeiros Trapaceiros”, já comentada neste blog.

Como já foi explicado, e vemos novamente aqui, o acesso à casa é restrito e perigoso. O rio que cerca a ilha é infestado de piranhas e jacarés, e o acesso se dá por avião e barco. É impossível sair ou entrar sem permissão ou sem ser percebido.

Esse tipo de fortaleza tem uma grande desvantagem, que reside justamente no acesso difícil. Se o ocupante do lugar é realmente quem de direito, então tudo bem. Mas se inimigos ardilosos conseguirem se infiltrar, o local acaba se transformando em uma perigosa armadilha.

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O interessante é ver que papai imprime a cada um dos primos do Zé uma personalidade diferente. Assim, além de “especialista em café”, o Zé Paulista é o certinho da turma, sempre querendo fazer as coisas direito, como usar o telefone para chamar a polícia, o que não será possível, é claro. Outro primo de personalidade forte é o corajoso Zé Pampeiro, que é quem vai acabar bancando o detetive e descobrindo a solução do mistério.

Já o Zé Carioca, personagem principal da trama, vai passar a história inteira “desaparecido”. À medida que o mistério se aprofunda todos os que não estão na sala no primeiro quadrinho se tornam suspeitos, a começar com a Dona Currupaca, que logo na primeira página serve um café “esquisito” e em seguida some. Será que ela colocou alguma coisa na bebida? E será mesmo que todos os presentes na primeira cena são mesmo inocentes? Será que todo mundo ali é mesmo quem diz ser?

E cadê o Zé, afinal? Terá ele sido a primeira vítima dos vilões, fugido de medo (todo mundo sabe que ele não é nada destemido), ou será ele mesmo o vilão? Será que ele realmente teria a coragem de se voltar contra a própria família? E quem está dentro da armadura medieval, em nome de tudo o que é mais sagrado??? (Lembrando que a armadura já aparece logo no primeiro quadrinho, o que poderia livrar o personagem oculto de culpa, mas a atitude furtiva de seu ocupante não o isentará lá muito aos olhos do leitor transformado em detetive.)

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Com o passar das páginas essas perguntas todas serão respondidas, enquanto a perseguição dos vilões à família de papagaios vai se tornando cada vez mais explícita e o embate entre os bons e os maus cada vez mais direto, até o confronto final.

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A Ameaça Dos Monstros

História do Morcego Vermelho, de 1975.

É noite de lua cheia! (Talvez seja até uma sexta 13) Monstros e mais monstros estão brotando do solo! (E desaparecendo misteriosamente logo em seguida) Nada é o que parece ser e vemos personagens mascarados, polícia ineficiente, uma empresa de fachada, um plano maléfico, um chefe misterioso, e um herói completamente confuso.

Poderia ser uma descrição da atual conjuntura política no Brasil (ou mesmo da que víamos 40 anos atrás, não há muita diferença, mesmo), mas é só uma história em quadrinhos.

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Papai estava inspirado quando compôs esta história, e a zoação reina solta: a principal vítima da gozação é mesmo o Morcego, mas o leitor também vai acabar meio zonzo, especialmente se começar a tentar descobrir o que está acontecendo.

Será que é coisa do Bruxinho Peralta e sua maleta de monstrinhos? Mas se é coisa das bruxas, para quê os vilões precisam usar máscaras para se disfarçar? Vai ser somente na quinta página, com o aparecimento dos Irmãos Metralha, que o leitor começará a entender o que está acontecendo.

Mas este plano está bem bolado (e – surpresa! – bem executado) demais para ser coisa só dos Metralhas. Quem é, afinal, o chefe misterioso que está dirigindo o caminhão da suposta empresa de sondagem de terreno (e supervisionando a tudo de muito perto)?

Se o leitor atento conseguir se recuperar do choque inicial, ele poderá finalmente ver uma pista importante sobre a identidade do “chefe”. Afinal, joalherias não são o alvo predileto dos Metralhas.

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A verdade é que este é mais um plano para “sutilmente” convencer o herói a tirar longas férias e assim poder roubar sem grandes impedimentos. Ele é tão bem sucedido que até o Coronel Cintra se convence de que o Morcego está vendo coisas e recomenda que ele vá ao cinema para se distrair. Não que o Morcego/Peninha não esteja realmente precisando de férias, ou pelo menos de pegar um cineminha, mas o tema dos filmes em cartaz realmente não ajuda.

Esta é uma história tão boa, tão engraçada, e com um mistério tão bem bolado, que papai sentiu a necessidade de “assinar” a obra. Assim, em uma época na qual isso não era permitido, pelo menos não oficialmente, ele se saiu com esta: sutil como uma tijolada na orelha.

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Um Guia Em Apuros

História do Zé Carioca, de 1974.

Como diz o velho ditado, “não importa o que você faça e o quanto cobre, sempre vai haver alguém para fazer a mesma coisa mais barato e um pouco pior”.

Assim, o Zé passa a história toda enfrentando a concorrência desleal de um bando de gatos que montou uma banca de turismo igual à dele e parece ter prazer em roubar seus clientes em potencial.

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Ênfase na palavra “roubar”, aliás. Quando a concorrência começa a oferecer seus passeios de graça, única e exclusivamente para não dar chance ao papagaio, ele e o Nestor começam a desconfiar de que pode haver algo de muito errado acontecendo.

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É uma clássica história do tipo policial, com um mistério e pistas espalhadas ao longo das páginas, a começar da caracterização como gatos da turma rival. Infelizmente, são raros os heróis de quadrinhos representados como esse animal, por causa do preconceito das pessoas e da injusta má fama que os felinos têm.

Mas os quadrinhos muitas vezes são feitos de clichês, que acabam sendo usados para facilitar a compreensão de certas situações, poupando descrições mais longas que podem atrapalhar o bom andamento da história. Assim, o leitor atento vai sacar logo de cara que essa turma não pode estar com boas intenções

Mas para além da trama e da solução do mistério, temos hoje aqui mais uma pista sobre as origens do Afonsinho. De figurante em uma história do Canini no ano anterior, papai o transforma em personagem nesta história, em sua primeira aparição oficial, com o nome de “Dentinho”. O que talvez nunca saibamos é como e por quê o personagem passou de “Dentinho” a “Afonsinho”, perdendo os dentes no processo e ganhando sua peculiar personalidade.

Pode ser que, ao ver seu figurante “promovido”, o Canini tenha desejado ajudar a desenvolvê-lo, para não “dar” simplesmente a ideia a papai. Ainda assim, considerando que o que era um mero figurante para o Canini tenha passado a personagem com papai, eu ainda acho que, se não fosse pelo Said, o Afonsinho, por qualquer nome ou figura que tenha vindo a ter, não existiria. Isso tem de valer alguma coisa.

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