Quem Tem Medo Do Bicho-Papão?

História do Morcego Vermelho, de 1978.

Como toda boa trama de terror (e de “terrir” também), esta história começa com uma paz enganadora. O nosso herói conseguiu vencer e mandar para a cadeia todos os bandidos de Patópolis. Isso é uma coisa boa, é claro, mas também deixa o personagem principal sem ter muito o que fazer.

Mas como esta não é uma história do Pena Kid, quando a paz for quebrada, será em grande estilo. (Eu disse “grande”?) É que “grande”, na verdade, é só o estilo, mesmo. O vilão da vez até que é bem pequeno.

Para o leitor atento vai ficar claro de imediato que não é nenhuma alucinação. Resta tentar adivinhar, então, quem, ou o que, é esse “Bicho Papão”. Pelo tamanho, poderia ser o bruxinho Peralta transformado, ou até mesmo um produto de sua maleta de monstrinhos. Mas qual interesse ele teria no Morcego Vermelho? Ou talvez seja alguma criação robótica de algum dos gênios do mal que o Morcego prendeu? Uma coisa é certa: seres sobrenaturais, como monstros, seres mitológicos e assombrações não existem. Ou será que existem?

Quando a “pulga atrás da orelha” do leitor já está coçando bastante, papai começa a jogar mais pistas nas páginas. A insistência do bicho em sugerir que o herói abandone a carreira é a principal delas. E o fato de na verdade serem três os monstrinhos lembra bastante as histórias do Zorrinho. Só que os sobrinhos do Donald podem ser um pouco levados de vez em quando, mas não cometeriam uma agressão dessas. Assim, quem eles poderiam ser?

A resposta, é claro, será revelada na última página, depois de uma intensa troca de sopapos entre os bons e os maus. Lembrem-se: foram os monstrinhos quem começaram a agressão, e para valer. Mas tenho a impressão de que esta história não seria aceita para publicação nos dias de hoje no formato em que está, justamente por causa da identidade dos vilões.

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A Máquina Talvez

História do Professor Pardal, de 1980.

Inventada por Carl Barks em 1958, a simpática máquina em questão é mais uma daquelas coisas engraçadíssimas que papai adorava “adotar” e usar para mais algumas histórias.

Na história original a máquina lê pensamentos, mas só responde às perguntas que são dirigidas a ela com frases estapafúrdias que começam com “talvez”, sabotando, assim, o próprio propósito, que seria o de dar alguma vantagem ou conhecimento privilegiado ao usuário.

Ela seria usada novamente na edição especial sobre a História dos Computadores, já comentada aqui, ajudando a explicar o tema às crianças de Patópolis. Nos dois casos, o “método” para consertar a máquina (e também para quebrá-la de novo, ou a coisa toda não teria a menor graça) é o mesmo: um forte chute ou outro tipo de pancada. Como se diz por aí, quando o assunto é “computadores”, é aquela coisa: “software” é o que você xinga, e “hardware” é o que você chuta.

Isso é também uma referência a antigas comédias pastelão e filmes mudos, onde amnésias (e outros problemas mentais) eram causadas e também curadas com fortes pancadas na cabeça (crianças, não tentem isso em casa).

Interessante é o modo como papai combina à história principal a “trama paralela” do Lampadinha, também ao estilo Carl Barks, na qual o robozinho luta com várias aranhas enquanto o Professor limpa o depósito de inventos inúteis. Na maioria das histórias, isso é algo que acontece ao fundo, como uma história dentro de outra história.

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Lampadinha Ou Lampiãozinho?

História do Professor Pardal de 1974.

O Professor Gavião, apesar de considerar a si mesmo um gênio tão inspirado quanto o Professor Pardal, não passa de mero copiador de inventos alheios (e roubados).

A coisa toda pode aliás ser comparada com os diversos tipos de artistas que existem por aí: há os verdadeiramente inspirados, que fazem coisas admiráveis, e há os que dominam a técnica, são até bons no que fazem, mas não sabem se soltar e realmente fluir com sua arte. (Há piores, é claro, os copiadores da arte alheia, e é entre o medíocre e a fraude que o Gavião gravita.)

O problema é que, se o artista “menos genial” não souber relaxar e se cobrar um pouco menos, ele pode realmente se tornar amargo e invejoso do trabalho alheio, sabotando a si mesmo no processo e se impedindo de mostrar o seu verdadeiro potencial.

O Gavião é como o cozinheiro que sabe seguir um livro de receitas e, com algum esforço, cozinhar perfeitamente um belo jantar. Mas ele também sabe que o resultado não é exatamente dele, mas sim de quem compôs aquela receita, coisa que ele não saberia fazer (ou não teria coragem de tentar).

É exatamente por isso que o plano do vilão é perfeito. Na verdade, é um pouco “perfeito demais”, e é por isso mesmo que o feitiço vai acabar virando contra o feiticeiro. O leitor atento perceberá imediatamente que o Gavião vai perder a parada de novo assim que vir os dois robozinhos juntos.

O tema das cópias malvadas/imperfeitas e defeitos do Lampadinha foi algo que papai usou várias vezes nas histórias do personagem, sempre de maneiras levemente diferentes mas igualmente hilárias.

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O Rei Dos Ladrões

História dos Irmãos Metralha, de 1976.

A inspiração vem de uma parte menos conhecida do livro “O Corcunda de Notre-Dame”, escrito por Victor Hugo nos anos 1830. Na passagem em questão a escória de Paris, seus cidadãos mais excluídos, aqueles que vivem de todo tipo de tramoia, de pequenos furtos e mendicância a grandes roubos e até assassinatos, se reúne no chamado “Pátio dos Milagres”.

Lá, vivem como uma sociedade à parte e inclusive “usurpam” os títulos da nobreza parisiense em um misto de complexo de inferioridade, desafio, sátira e desdém pela sociedade “de bem”. Há um “rei” de nome Clopin Trouillefou, e toda uma “corte” de ladrões, prostitutas e escroques.

Papai aqui retrata os conflitos entre esses bandidos, já que não existe mesmo honra entre ladrões e o trono é do mais forte, e não derivado de um “direito divino”, como reza a tradição das famílias reais legítimas da Europa.

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Como sempre a história é contada pelo Vovô Metralha, com o Azarado como personagem principal, e o 1313 da atualidade sempre torcendo por seu “antepassado”. Além disso, papai faz um “afrancesamento” de todos os nomes dos vilões: o Mancha Negra vira “Manchá”, o João Bafo de Onça vira “Jean Bafô-D’onçá” e o Gavião é o “Gavion”, para citar uns poucos.

O personagem do “Rei dos Ladrões” é interpretado pelo Metralha Intelectual, sob o nome de “Clopin Metralhá”, e o Pátio dos Milagres é agora o “Pátio dos Pilantras”.

Dessa parte menos lembrada do livro, a passagem que mais marcou papai foi o “treinamento” para batedores de carteiras: um boneco de pano ficava pendurado em uma armação, e a roupa dele era cheia de guizos e pequenos sinos. No bolso, uma sacolinha com moedas. Para ser aceito no bando o candidato a ladrão precisava provar sua habilidade tirando a sacolinha do bolso do boneco sem deixar tocar nenhum guizo. Se não conseguisse, seria espancado e expulso.

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A história corre mais ou menos fiel ao livro até mais ou menos a metade, quando papai chega à conclusão de que já é o suficiente. Em seguida, ele dá uma dramática reviravolta na trama e termina a desventura do antepassado do Azarado à sua hilária maneira, com direito até mesmo a uma participação especial dos Três Mosqueteiros (que eram quatro, nunca se esqueçam disso).

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…Fica Assim De Gavião!

História do Professor Pardal, de 1973.

A inspiração para o título vem da letra de um antigo samba de Pedrinho Rodrigues, chamado “Ninguém Tasca (o Gavião)”. Mas as semelhanças com a canção (muito machista, por sinal) param por aí. A brincadeira, aqui, será bem mais literal e vai girar em torno do grande número de robôs com a aparência do Professor Gavião que vão circular por Patópolis. (Se um elefante incomoda muita gente…)

Outras noções interessantes que podemos ver são coisas como uma “entressafra” de superamendoins (o que impedirá o Pateta de se transformar e salvar a cidade, no que seria uma solução fácil demais), uma alusão à Cornucópia da Fartura (reza a lenda que quanto mais se tira coisas dela, mais ela produz) na máquina multiplicadora de robôs, e o comportamento limitado e repetitivo característico dos robôs de papai que seria usado novamente pouco tempo depois em “O Invencível Mancha Negra”, já comentada aqui.

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Por fim temos, como em “A Guerra dos Mundos”, outra referência bastante usada por papai, um “monstro” que contém em si a chave para sua própria destruição. Essa é realmente uma solução útil para se lidar com um problema dessas proporções sem precisar recorrer à obviedade de um super herói.

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De todas as referências, para mim a mais original é a da falta de superamendoins. Aqui descobrimos um ponto fraco do Superpateta que é tão óbvio quanto surpreendente. Papai já deixou o Super sem seus amendoins mágicos de muitas maneiras diferentes, mas uma entressafra é coisa que pouca gente imagina, na quase absoluta segurança alimentar deste nosso (quase primeiro) mundo pós-moderno.

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Se formos pensar em termos de amendoins comuns, no estado de São Paulo temos duas safras anuais. Uma de janeiro a fevereiro, e outra de junho a julho. Assim, é preciso ser realmente muito “pateta” para ficar completamente sem eles. Mas talvez os pés de superamendoins sejam diferentes, e produzam uma vez só por ano (ou nem isso, ou não seriam assim tão raros e especiais).

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A Cidade Aérea

História do Superpateta, de 1975.

Esta história parece ser uma versão anterior de outra, dos agentes secretos 00-ZÉro e Pata Hari, já comentada aqui, na qual eles perseguem a Bronka nas estrelas.

A estação espacial que vemos nas páginas da história de hoje se parece bastante com a dos agentes secretos, caracterizada por seu formato circular. Estas estações representadas por papai, e também a do filme “2001: Uma Odisseia no Espaço”, são todas inspiradas nos designs de Werner Von Braun (o cientista alemão que durante a Segunda Guerra trabalhou para os Nazistas, mas depois foi “adotado” pelos EUA para o programa espacial da NASA) que aparecem na série de filmes da Disney chamada “O Homem no Espaço”.

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O roteiro é bastante simples: trata-se de mais um plano maligno do Professor Gavião para derrotar o Superpateta. Ele quase consegue, como sempre, mas é desmascarado no último minuto, também como sempre.

Mais interessante do que a história em si são as projeções futuristas de papai, baseadas naquele “futurismo retrô” dos anos 1970, com especial atenção aos carros dirigidos “por ninguém”. Antes uma completa ficção, eles estão prestes a se tornar realidade nos próximos anos.

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Mancha no Espaço

Trata-se da Edição Extra número 66, publicada em 1975.

Esta é mais uma daquelas “sagas”, como os especiais de lançamento do Morcego Vermelho ou o Professor Pardal na Atlântida, nas quais papai levava algum personagem para uma aventura épica.

Hoje o tema é o espaço sideral, com uma “voltinha” pelo nosso sistema solar. A série de histórias se inicia com o roubo de um foguete ultrassecreto e segue em uma perseguição desenfreada e acidentada, “pulando” de um planeta a outro até a captura final dos bandidos e volta à Terra.

A inspiração vem de filmes para cinema e séries de TV como “Uma Odisseia No Espaço” e “Perdidos No Espaço”, entre outros, com a adição de todo o folclore que cerca coisas como alienígenas e discos voadores.

São seis histórias, uma a continuação da outra, a saber:

Mancha No Espaço

Aqui temos a apresentação do “projeto secreto”, o interesse dos bandidos, e uma inicial falha em roubar o invento. Essa falha leva à adição de novos bandidos à trama, o que leva finalmente ao sucesso do roubo e sequestro do foguete. Mas como o Pardal sempre tem uma carta na manga (neste caso, um foguete reserva), uma verdadeira perseguição espacial se inicia.

Esta história inicial tem muitas boas piadas, mas uma “referência interna” interessante é a etiqueta no telescópio do Pardal. A maioria dos seus inventos têm etiquetas semelhantes, indicando se a patente está pendente, foi recusada, ou coisa parecida. Mas esta ensina algo ao leitor:

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Mancha Em Marte

A partir daqui teremos outro tema recorrente, que é a existência, em cada local visitado, de um ou dois povos inteligentes. No caso de dois povos, eles são iguais entre si, ou levemente diferentes, e invariavelmente estão em guerra por um motivo bobo e com armas estapafúrdias. Assim, além de tentar capturar os bandidos, a turma do bem terá a missão de pacificar o planeta.

Os habitantes de Marte são os Tarugos e os Tatugos, tartarugas e tatus, respectivamente. É uma civilização avançada, contando inclusive com obras públicas como as da Terra:

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Mancha Nos Asteroides

Surpreendentemente, os alienígenas habitantes dos asteroides já são conhecidos do leitor: são os Astéricos e os Asterísticos, vistos antes em “Os Robôs-Roubões”, história do Morcego vermelho já comentada aqui. Haviam sido pacificados, mas estão em guerra novamente, só para complicar.

Mancha Em Titã

Talvez a mais interessante da série, onde a civilização de Titã (uma das luas de Saturno) é mostrada como uma perfeita inversão da realidade de Patópolis. Nomes e papéis são literalmente invertidos, com efeitos hilários que também fazem pensar: se o Tio Patinhas é visto mendigando nas ruas, quem será o ocupante da Caixa Forte?

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Mancha Em Vênus

Ok, sendo Vênus um planeta com nome de deusa, eu entendo o tema inspirado na lenda das Amazonas. Mas me dói um pouco ver uma repetição um pouco insistente de todos os velhos clichês sobre o gênero feminino… (Menos, papai, bem menos…) Enfim, eram os tempos, e ainda não havia a consciência que temos hoje. Aqui não há guerra entre os habitantes, pelo menos. O conflito é trazido pelos terráqueos, e levado embora com eles, também.

Mancha Em Mercúrio

Por fim, o confronto derradeiro. Novamente, dois povos similares se enfrentam pelos escassos recursos do planeta e precisarão ser pacificados. São, significativamente, os Rotos e os Rasgados. A inspiração vem da lenda da guerra de Troia, com os Rotos atacando a cidadela dos Rasgados, de nome “Trólha” (Como é que isso passou pelo código de ética???) A princípio, sem o acento, “trolha” significa “colher de pedreiro”, ou quem a usa. Mas em sentido pejorativo pode ser um xingamento com conotações bem baixas, e certamente era, naquela época.

Mas o detalhe interessante da história fica por conta da ficção científica “profética” (pois é, não foi só a Jornada Nas Estrelas / Star Trek que previu avanços tecnológicos reais). Aqui vemos uma previsão de um sistema de pouso com airbags que seria usado décadas depois pelas sondas em Marte:

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A cena da batalha final entre o Mickey e o Mancha, aliás, tem uma semelhança muito intencional com a capa do Manual do Mickey, de 1973, que está sendo relançado por esses dias. Isto não é inserção do desenhista, é coisa de papai:

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