O Circo Voador

História do Zé Carioca, de 1984.

Inaugurado em outubro de 1982 no bairro da Lapa, na cidade do Rio de Janeiro, o “Circo Voador” é um daqueles espaços culturais tão importantes e benéficos para a população em geral que chegou a ser fechado por vários anos por um prefeito de Ego frágil.

Mas, me adianto. Voltando um pouco no tempo, na época em que esta história foi escrita ele havia acabado de abrir as portas, atiçando a curiosidade e a imaginação de todas as pessoas que se interessavam por espetáculos de circo, dança e música de todos os estilos em nosso País.

Mas acima de tudo, o nome do espaço cultural era o que mais intrigava as pessoas. Afinal, por quê “Circo Voador”? Papai, é claro, oferecerá sua própria explicação, que certamente causará muitas risadas ao leitor.

Outra definição com a qual ele brinca é a de “trapézio voador“, uma popular atração de qualquer circo que se preze. Quando bem executadas, as acrobacias desta modalidade podem ser realmente emocionantes. Mas não será este o caso, hoje.

Seria de admirar bastante se uma construção de fundo de quintal, feita por duas crianças com os aparatos de cama, mesa e banho da família para uma brincadeira, tivesse uma atração dessas.

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A Quadrilha Da Ameaça

História do Zé carioca, de 1981.

Este é um bom exemplo de como criar uma história que, no final, volta ao início, como papai gostava de fazer. É também uma clássica história de “terrir”, um gênero do qual ele era muito adepto, e que misturava terror com humor (de preferência negro).

A coisa toda começa com um filme de terror na TV na casa do Pedrão. Sugestionáveis, os amigos ficam com muito medo e resolvem ficar todos para dormir por ali mesmo.

Mas a principal preocupação, que será mencionada frequentemente durante toda a história, é a banda musical que eles criaram para tocar em uma festa mais tarde. Este é o elemento que “costura” a trama, o “fio condutor” que permitirá um desfecho perfeitamente encaixado para a história.

O resto da história mostra como uma brincadeira quase inocente do Zé para acordar os amigos dorminhocos e finalmente conseguir ensaiar a banda sai totalmente do controle, criando uma completa histeria coletiva pelo bairro e quase virando caso de polícia no processo.

Mas, de qualquer maneira, apesar de resolver ficar quieto para não apanhar, o Zé não escapará ao castigo pelo susto que deu nos amigos. É justamente para esse propósito, aliás, que papai devolve a história ao início.

Mas nesse meio tempo o leitor já riu da confusão até ficar com a barriga doendo, e isso é o que realmente importa.

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O Afonsinho Da Vila

História do Zé Carioca, de 1983.

Na “nova” Vila Xurupita (depois da passagem do Gênio Eugênio), os membros da turma podem até ter casas novas de alvenaria para morar, mas continuam desempregados e sem dinheiro.

Mas uma turma alegre dessas, ao invés de ficar pelos cantos se lamuriando e com vergonha por estar sem trabalho, resolveu fazer uma roda de samba. Era uma cena comum, em bairros da periferia naqueles tempos: juntavam-se os amigos, principalmente os desempregados, e passavam o dia em um quintal, batucando.

É claro que essas reuniões logo ficavam mal faladas, com os vizinhos passando na rua e apontando os “desocupados”. Assim, para não sofrerem críticas, os batuqueiros logo inventavam um “importante e urgente ensaio da escola de samba”, ou algo “sério” do gênero. Do mesmo modo, o Zé e sua turma têm a criativa ideia de fazer uma roda de samba “beneficente” em prol dos desempregados da Vila que, no final das contas, são eles mesmos.

Como a Rosinha deixa claro em sua indignação ao saber do detalhe, fazer festa beneficente em causa própria não vale. A desaprovação da namorada do Zé é a “deixa” que papai usa para mudar de assunto: já que o plano dos desempregados da Vila não “colou”, e de qualquer maneira eles estão precisando de um cantor, entra em cena o Afonsinho.

Quer dizer: a “cena” vai até ele, que está cantando paródias de antigas marchinhas de carnaval em casa, dentro de uma banheira cheia de água e sabão. E não é que o pato canta bem? O problema, como veremos adiante, é que ele só canta bem quando está na banheira.

Isso também é algo muito comum: o momento do banho diário é de relaxamento, e a pessoa, sozinha por trás da porta fechada (essa é, frequentemente, a única chance que algumas pessoas têm de passar alguns momentos sem ninguém por perto observando e julgando), se descontrai e se permite até cantar um pouco.

A acústica de certos banheiros, com bastante eco, também ajuda, e a pessoa chega até a se convencer de que canta bem. Mas depois, ao sair, a timidez e a insegurança tomam conta, o eco desaparece, e o cantor de chuveiro volta a ser o desafinado de sempre.

Mais importante, para a história, do que a bagunça criada em volta do Afonsinho nas páginas seguintes, é a solução que o Zé vai encontrar para conciliar o “cantor de banheira” com a roda de samba.

“Afonsinho da Vila” é uma referência clara a Martinho da Vila, de Vila Isabel (e da Escola da Samba Unidos de Vila Isabel) no Rio de Janeiro.

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A Chegada Da Prima Vera

História do Zé Carioca, de 1982.

Esta é a primeira história (de duas) que papai compôs para a personagem Vera, uma adição à turma da Vila Xurupita que era inspirada em uma prima dele na vida real. Aqui, ela é parente do Nestor. A outra história, chamada “A Paixão do Pedrão”, já foi comentada neste blog.

A “Prima Vera” é uma garota muito bonita, e por isso mesmo atrai a atenção (algumas vezes indesejada) dos rapazes, e os ciúmes (frequentemente injustificados) das outras moças. A crise de ciúmes da Rosinha (e como o Zé lidará com isso) será uma parte central da trama.

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Mas além de ser uma celebração da estação do ano Primavera (muito apropriadamente, ela foi publicada pela primeira vez no mês de setembro) a história serve para mostrar que a Vila Xurupita está progredindo: ao time (e estádio!) de futebol e à escola de samba é adicionado um clube, onde a turma do agora bairro (que deixou de ser favela no ano anterior sob os auspícios do Gênio Eugênio), pode se reunir e fazer suas festas.

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Mais detalhes sobre de onde veio a ideia para a criação da personagem Prima Vera podem ser lidos na postagem “Pedrão, o fim do mistério” aqui neste mesmo Blog.

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Um Agente Pouco Secreto

História do Zé Carioca, de 1974.

Histórias de espiões, como esta série do Barão de Bazófia, são um bom pretexto para trocas de identidade, raptos, perseguições, explosões, e todos os outros clichês comuns do gênero, com a inspiração advinda de filmes de espionagem como os do Agente Secreto 007, como a referência no primeiro quadrinho deixa bem claro.

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Esta é a terceira das quatro histórias que papai fez para o Barão, e eu creio que é a melhor delas, a mais autêntica e fiel ao tema “espionagem”. Hoje somos lembrados, inclusive, de que o Barão está a serviço “de sua majestade” o Rei da Pipocolândia, no melhor estilo 007.

Interessante de se ver são as trocas de roupa do Zé, que quase nunca é visto vestindo algo que não seja a calça azul e a camiseta branca. Hoje ele vai trocar de roupa várias vezes, primeiro com o próprio Barão, e depois até mesmo com o Nestor.

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Mas talvez a coisa mais legal de hoje seja a Rosinha no papel de “Bond Girl”: ela é certamente a mocinha da história, mas de “frágil e indefesa” ela não tem nada.

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Outra boa sacada é a “running gag” com o Nestor, que passa a história inteira, do primeiro ao último quadrinho, tentando entender o que é essa confusão toda.

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Juiz Sem Juízo

História do Zé Carioca, de 1977.

Bem ao estilo de papai, a história trata dos jogos e brincadeiras de infância dos brasileiros que já estavam caindo em desuso. Um desses era o futebol de botão, que pelo jeito teve um novo impulso ao longo das décadas, e hoje é tido como “esporte sério” e “de gente grande”.

Mas isso é apenas o testemunho do fascínio que o também chamado “futebol de mesa” suscita em crianças de todas as idades, e até mesmo aquelas que já têm mais de 45 anos de idade.

Nos tempos de criança de papai a coisa era bem mais simples, para crianças mesmo. Uma caixa de fósforos com uma pedrinha dentro servia de goleiro, e qualquer botão maiorzinho para roupas corria sério risco de sumir das caixas de costura das mamães para “ser promovido a jogador”.

Já no meu tempo começaram a aparecer os jogos de luxo, com botões de bom acrílico e campos de madeira compensada de primeira qualidade. Esses botões eram guardados com todo o cuidado, polidos regularmente com um paninho macio e retirados da caixa apenas para jogos importantes, como o de hoje.

A briga dos meninos no primeiro quadrinho, aliás, vem de uma brincadeira usada em casa para desencorajar brigas entre nós crianças, para que não discutíssemos por qualquer “foi-não-foi, é-não-é”.

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Em todo caso, se o problema fosse só uma briga dos sobrinhos do Zé por causa de uma partida entre eles, a história não seria tão engraçada. Divertido é ver como a coisa toda vai atingindo proporções cada vez maiores e mais graves, com torcidas exaltadas de ambos os lados. A coisa toda chega às raias da briga, até que, em um momento decisivo, o Zé pisca por um segundo, não vê uma jogada, e o caldo entorna de vez. E agora, José?

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A revista está na coleção, é a única história nacional que ela contém, o nome da história está na lista de trabalho, mas, por causa de uma mudança no nome da história feita pelo editor algum tempo depois, os rapazes do Inducks ainda não a creditaram a papai. Aparentemente, resolveram esperar até terem certeza. Podem creditar, é dele sim. 🙂

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Esse Cara É Um Gênio

História do Zé Carioca, de 1981.

Quando as histórias do Zé produzidas no Brasil começaram a ser republicadas no exterior, de repente alguém aqui na redação da Editora Abril teve uma crise de desconforto em mostrar “ao mundo” favelas e mais favelas no Rio de Janeiro.

Assim, foi resolvido que a turma do Morro do Papagaio deveria passar a morar em um bairro popular, um conjunto de casinhas simples, humildes, mas “arrumadinhas”. O problema é que uma mudança radical dessas não poderia ser feita sem uma boa explicação, por mais mirabolante que fosse.

É aqui que entram papai e um seu personagem de 1978, o “Eugênio, o Gênio”. Apesar da confusão na primeira história da turma com o personagem, o Zé é tão gente boa que acaba libertando o ser sobrenatural de sua condição de servir a amos e realizar desejos. Eles se separam como amigos, agora é a hora de o Gênio voltar e retribuir o supremo favor.

Mas é claro que ele não vai simplesmente “chegar chegando”, mesmo na hora de maior “aperto” da turma, que está toda morando em baixo de uma ponte. Para começar, a “demolição” do Morro do Papagaio mencionada pelo Zé para a construção de um espigão é uma referência a uma música de Adoniran Barbosa, chamada “Saudosa Maloca“.

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De resto, aqui haverá uma espécie de rompimento com as “regras da magia” dos quadrinhos que proíbem que os personagens tenham algum ganho material com o uso de poderes sobrenaturais de qualquer natureza. Desta vez a coisa é séria, a situação é crítica, e os personagens são merecedores. Mas há também outro problema: eles já gastaram todos os seus desejos, e não podem pedir mais nada. Se algo for acontecer, terá de partir do gênio, e de mais ninguém.

Eles são pessoas tão boas que, mesmo em seu pior momento, alegremente dividem o pouco que têm com o velho gênio, que parece ter perdido os seus poderes.

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Isso, é claro, é um teste, como no conto de fadas da velhinha que aparece mendigando um pouco de água na beira de um poço, somente para cobrir de bênçãos a quem a atender, e de maldições aos que a maltratarem.

Assim que o gênio se certifica da situação difícil na qual a turma se encontra, uma série de boas coincidências começa a acontecer. Elas vão se repetindo em uma espiral crescente, que culmina com a aparição de um bilhete de loteria premiado que vem boiando na água de um córrego próximo.

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De acordo com a Lista de Trabalho, uma história de uma página chamada “Zé Da Loteca“, publicada na mesma revista, também parece ser de papai. O título de trabalho era “Zé e a Loteca”, e no Inducks não há mais nada de uma página remotamente parecido com algo do tema creditado a ele, nem a ninguém. Então, pela lógica, esta é mais uma “história perdida” que está sendo reencontrada agora.

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