Um Caso Macabro

História do Zé Carioca, escrita no finalzinho de 1982 e publicada pela primeira vez em 1985.

Trata-se de uma versão “atenuada” de “O Cão Dos Baskervilles”, um macabro romance policial de 1902 escrito por Sir Arthur Conan Doyle para os personagens Sherlock Holmes e Dr. Watson.

Na data da composição deste comentário a história ainda não estava creditada a papai no Inducks (tenho certeza de que alguém pulou uma linha ou esqueceu de apertar algum botão), mas com o nome na lista de trabalho e a revista na coleção, além do tema, é claro, já que fazer adaptações de grandes clássicos da literatura era um dos hábitos dele, não há dúvida da autoria.

Da história original ele usa a ambientação lúgubre, completa com um pântano e terrenos que expelem asfixiantes gases sulfurosos, o sobrenatural “cão dos infernos” (aqui um “cão fantasma” pintado com tinta fosforescente) e o “herdeiro torto” (um velho descontente que acredita ter direitos à herança) obcecado e capaz de tudo por dinheiro. Mas é claro que não poderá haver mortes nem nada de mais grave.

O Zé e o Nestor, chamados a investigar pela Rosinha, farão o papel do detetive famoso e seu ajudante, ainda que relutantemente, como sempre. O papagaio não é exatamente famoso por sua coragem, para se dizer o mínimo. Mas eles se esforçam e até mesmo conseguem resolver o mistério, na tentativa de “marcar pontos” com o Rocha Vaz. Será que desta vez ele conseguirá conquistar a simpatia do “sogrão”? Quem ler, verá.

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Zé Carioca e os 7 Anões Maus – Inédita

História do Zé Carioca, composta em 31 de julho de 1993.

Naqueles tempos, a ordem era “atualizar” o Zé. Colocaram nele um boné, calçados esportivos nos pés, jeans, camisetas coloridas, propuseram que ele falasse mais em gíria… e pediram a papai para continuar na mesma linha.

E ele tentou, sinceramente, fazendo o que podia, apesar de já estar fora do Brasil há muitos anos e não estar mais atualizado com coisas como gírias, por exemplo, que vivem mudando. As notas nas margens desta história evidenciam essa dificuldade. (A gíria “bái”, aliás, na página 9, do inglês “Bye” de Goodbye, é uma gíria mais da criançada israelense do que qualquer outra coisa).

Aqui temos, também, a última e derradeira aparição da Anacozeca em histórias de papai. Eles não levam uma surra, exatamente, como em histórias anteriores desta série, e até (pensam que) conseguem cobrar o Zé, mas acabam se dando mal, como sempre. Hoje temos também a renovada revelação de Rocha Vaz como chefe da turma de cobradores. Isso era algo que papai inventou inspirado em filmes de espionagem, mas de que depois meio que se arrependeu. Em todo caso ele nunca parou, realmente, de usar essa ideia.

A história em si é mais um daqueles cross-overs de personagens de “universos” diferentes. Hoje o tema é magia, e o primeiro quadrinho, à primeira vista, faz com que pareça que o Zé virou algum tipo de aprendiz de feiticeiro, mexendo um grande caldeirão.

Na verdade é bem o contrário: são os feiticeiros (ou, mais acertadamente, ladrões de livros de magia) que se tornam “aprendizes de Zé Carioca”, com todas as hilárias consequências disso.

Por fim, a aparição do Mago Mandrago, como sempre acontece nas histórias dos 7 Anões Maus, vem restaurar a ordem natural das coisas. O Mago pode não ser uma figura lá muito simpática, nem exatamente bondosa, mas ele certamente é justo, e isto basta.

Papai o usou para devolver a trama ao início, como gostava de fazer. Desse modo os personagens voltam à estaca zero, na mesma situação em que estavam no primeiro quadrinho, já que a ética das histórias de magia impede que os personagens ganhem algo permanente ou definitivo por meios “desleais” para com os outros pobres mortais.

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O Fabuloso Anel dos 7 Encantos – Inédita

História do Zé Carioca, composta em 20 de julho de 1993.

Desse dia eu lembro bem: eu estava em férias da universidade, assistindo TV na sala do pequeno apartamento térreo em Yavne, enquanto papai desenhava na mesa da cozinha. De repente, eu ouço a voz dele – “Lu, me empresta seus lápis de cor?”

(“Lápis de cor”? Os meus aquareláveis Staedtler-Karat comprados a preço de ouro como parte da lista de materiais da universidade?) – “Claro, pai! Tá na mão!” (Vocês realmente pensaram que eu negaria um favor desses ao meu próprio pai?) A causa, afinal, era nobre. Papai costumava fazer seus rascunhos a lápis preto puro, mas às vezes caía bem adicionar um pouco de cor para melhor orientar o desenhista.

Os Sete Gênios do “Anel dos 7 Encantos” foram criados em 1973, vinte anos antes, para atormentar o Tio Patinhas e seus sobrinhos. Essa única história foi publicada em 1977, e será comentada amanhã. Depois disso, os gênios nunca mais foram usados por ninguém.

Mas são realmente personagens difíceis. Para começar, quem compra o anel não pode saber o que ele é, ou grande parte da graça se perde. Isso quer dizer que é difícil fazer duas histórias com os mesmos personagens e o anel, sendo preciso colocá-lo sempre nas mãos de um personagem diferente a cada história (se bem que papai conseguiu usar o “Pássaro Vo-Du” com o Tio Patinhas e o Donald uma segunda vez). Em seguida, é difícil fazer a história não ficar repetitiva, afinal, cada gênio tem um poder mágico fixo e bem definido, e o resultado do uso desse poder deve sempre resultar em confusão.

O Anel em si obedece às caprichosas “leis da magia” e, apesar da aparência glamourosa, não serve realmente para nenhum propósito lá muito prático. Em todo caso o Zé não é alheio a anéis mágicos, como vimos em “Zé Carioca Invisível”, já comentada aqui. Talvez seja também por isso que ele até que não vai se dar assim tão mal com os gênios. Amanhã explico melhor as leis que o regem, e o significado dos nomes dos gênios.

Alguns detalhes interessantes são a “doca 7” no “cais 7” no porto, referência ao anel e seus gênios, e a breve passagem dos Anacozecos por alguns quadrinhos, aparecendo na história só para apanhar dos gênios. Nesta última fase de papai, sempre que eles aparecem é para levar uma surra. Hoje, aliás, sobra sopapo até para o Rocha Vaz.

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Zezi E Rosi

História do Zé Carioca, de 1984.

Em mais uma produção do tio cineasta da Rosinha, Cecilio B. de Milho, hoje temos uma filmagem baseada no livro “O Guarani” de José de Alencar. Este clássico da literatura brasileira teve tanto sucesso em seu tempo que virou ópera ainda no século XIX, pela batuta do maestro Carlos Gomes, além de ser realmente adaptado para o cinema e a TV em várias ocasiões ao longo do século XX.

Por tudo isso é claro que não poderia faltar uma adaptação para os quadrinhos, e é também claro que várias delas foram feitas ao longo dos anos. Se bem que, como papai sempre fazia, este não é um retrabalho rigorosamente fiel do clássico, mas uma variação sobre o tema. É um convite para que o leitor pesquise mais. Ele aproveita aqui alguns dos personagens e cenas do livro, mas a história, na verdade, é outra.

O que temos aqui é mais um dos mistérios “policiais” de papai, que o leitor atento é sutilmente convidado a investigar. Uma série de acidentes estranhos está acontecendo no set de filmagem. Enquanto isso, e como se não bastasse, o Zé Galo está sendo chato como sempre, se intrometendo e querendo tomar o lugar do Zé no filme só para poder beijar a Rosinha, que está fazendo o papel de mocinha.

Será o Zé Galo o vilão que está sabotando as filmagens? Quem está acostumado com as histórias de papai não vai ter dificuldade nenhuma em descobrir a verdade, apesar das investigações atrapalhadas do Zé.

E temos também mais algumas referências. O braço do sabotador é mostrado lançando uma lata de biscoitos da marca “Aymoré“, popular nos anos 1970, na cena do “ataque dos índios”, que faz parte do livro.

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Já a menção a uma fictícia empresa chamada “Xanxada Filmes” é referência a uma filmagem de O Guarani, ainda recente naquela época, feita em 1979 por um cineasta especializado em filmes eróticos, as chamadas “Pornochanchadas”. A “Chanchada” é um estilo cinematográfico genuinamente brasileiro, caracterizado por um humor às vezes ingênuo, às vezes até de mau gosto, e em estilo de paródia ou sátira de outras produções.

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Minha Vida Tá No Gibi! – Inédita

História do Zé Carioca, escrita em 26 de maio de 1993, e nunca comprada pela Abril.

Lápis na mão direita, esquadro no papel sob a mão esquerda, a borracha do lado, ao alcance da mão… Eu conheço bem a imagem no “splash pannel”. Era papai em ação.

Esta é a primeira de três “histórias-testamento”, por assim dizer, que ele escreveu nesta série de inéditas, talvez já pressentindo que não teria mais muitas chances de trabalhar com os personagens Disney. A condição de freelancer era bastante incômoda para ele. A ideia de que a qualquer momento as encomendas poderiam cessar o contrariava bastante. Assim, ele acabou colocando nessa última série muitas das coisas que ele sempre quis ver em suas histórias, mas nunca pode fazer antes.

O jogo de palavras “tá no gibi, não tá no gibi”, usado em pelo menos duas das histórias desta série, é uma referência a uma antiga gravação dos Originais do Samba cujo refrão é: “Herói sou eu, irmão / Herói sou eu, aqui / Dou um duro danado / E não saio no gibi”. A canção é uma brincadeira com os heróis dos quadrinhos e também uma ode ao homem comum, que trabalha muito, mas nem sempre recebe o reconhecimento merecido.

Em algumas das margens tempos algumas anotações de papai ao desenhista, onde ele pedia que os quadrinhos que representavam as memórias do Zé fossem desenhados “sem cores”, para tornar mais clara a distinção entre “passado” e “presente”.

A história toda é uma homenagem aos amigos e colegas Carlos Herrero, Roberto Fukue e Júlio de Andrade Filho, além de ser uma retrospectiva dos momentos marcantes da “vida” do personagem. Assim, temos referências a histórias anteriores, como “A Infância Do Zé Carioca”, já comentada aqui, à cena na qual o Zé conhece a Rosinha, e até uma menção à Anacozeca.

O final da história é uma maneira que papai encontrou de “castigar a si mesmo” por ter revelado um dia que o próprio Rocha Vaz era o chefão da Anacozeca, coisa da qual ele se arrependeu depois. O problema é que talvez pegue um pouco mal pro Júlio… Peço desculpas desde já.

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Depenados em Santos

Esta história é minha, e não de meu pai. É uma história Disney inédita, que provavelmente vai ficar sem chance de publicação por algum tempo.

A ideia é do Paulo Maffia, que uma vez disse que gostaria de ver uma história do Zé Carioca passada em Santos, no litoral de São Paulo. Como eu também moro por aqui, achei que poderia escrevê-la com autenticidade suficiente. As piadas da “média” e do canal são sugestão dele, aliás.

Já outras coisas, como o Leão da Praia, vêm das minhas lembranças de infância. Alguns amigos meus do litoral também são mencionados ao longo dos quadrinhos. Alguns são mais óbvios, outros menos, mas não vou explicar demais esta parte. Vocês sabem quem vocês são.

Meu muito obrigada (mais uma vez) a Primaggio Mantovi, que teve a delicadeza de ler e comentar o meu texto, me ajudando a identificar e corrigir alguns erros e aperfeiçoar a trama.

É só texto, sem desenhos, mas é uma amostra de como se faz uma história em quadrinhos quando não é preciso (ou o autor não sabe direito, como eu) desenhar. Apesar de saber desenhar, papai muitas vezes também escreveu HQs desta maneira.

 

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Zé Carioca Invisível

História do Zé Carioca de 1984.

Anéis mágicos e seus poderes são o tema de muitas histórias de ficção e fantasia, desde antigas fábulas árabes e africanas e até clássicos da literatura ocidental, como “O Senhor dos Anéis” de J. R. R. Tolkien.

Aqui temos uma história que logo de cara se inicia com um estrondo, literalmente. Alguma coisa cai do céu sobre o topo do Morro do Cochilo, perto de onde o Zé costuma passar tardes inteiras dormindo. Todos, incluindo o nosso amigo dorminhoco, passam a história inteira achando que o estrondo foi causado pela queda de um meteorito (e não meteoro, como aparece nas páginas). Mas a verdade é que, se papai tivesse usado o termo correto, poderia ter alienado o leitor, já que não é todo mundo que realmente sabe a diferença.

Em todo caso, a teoria do meteorito pode até explicar a muito real queda de um objeto bastante sólido, mas não explica o aparecimento do anel, que em um primeiro momento vem voando e acerta o Zé em cheio na cabeça. Estariam os dois acontecimentos relacionados? Que anel é esse? De onde veio? Será uma joia, valerá alguma coisa? Para não chamar a atenção o Zé resolve virar a pedra do anel para o lado de dentro da mão, fora da vista dos amigos, e é nesse momento que ele descobre o poder “mágico” do objeto.

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E ele até consegue se divertir um pouco com sua invisibilidade e fazer algumas das coisas que uma pessoa poderia pensar em fazer se tivesse esse tipo de poder, como passar rasteiras e dar empurrões em seus desafetos. É claro que ele precisará ser castigado por isso, no final. Mas mais do que ser desmascarado, ter de confessar e se arrepender, como aconteceria em uma clássica história Disney como as do Pato Donald, por exemplo, aqui o castigo do Zé está intimamente ligado à revelação final sobre a verdadeira natureza do anel.

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