Furos Em Reportagem

História do Peninha, de 1982.

Em jornalismo, um “furo de reportagem” é aquela notícia “quente” que uma única equipe de jornalistas tem em absoluta primeira mão e dá antes que todas as outras.

Só que a guerrinha particular entre Urtigão e Juca Piau já deixou de ser novidade faz tempo. Essa notícia é, aliás, mais velha do que andar para a frente. É uma verdadeira “furada”. Já o verdadeiro “furo”, aqui, vai ser mais nos repórteres do que realmente em qualquer outra coisa, e por isso o “em” no lugar de “de” no título. Mas nem por isso os nossos intrépidos jornalistas vão deixar passar a chance de bancar os “correspondentes de guerra” por um dia.

Além disso, esta é uma pequena parábola sobre a futilidade de todas as guerras. Os dois turrões estão brigando há tanto tempo que até já esqueceram o motivo, ou quem começou a briga, ou quem é que está brigando com quem.

  

Outro problema de todas as guerras é que, uma vez que alguém se envolve, é muito difícil se manter isento ou até mesmo evitar cair vítima delas. Assim, os dois jornalistas passarão rapidamente à condição de “espiões” e logo em seguida “prisioneiros” de guerra, enquanto ao Tio Patinhas caberá a “missão de resgate” e a “negociação” para a libertação deles.

E desse modo papai nos dará mais uma última lição nesta pequena “aula de guerra”: a de que, quando se pensa mais em dinheiro do que no valor das vidas humanas, é “mais barato” (e até mesmo mais lucrativo) se envolver nela e deixar rolar até que ela se defina sozinha do que tentar negociar a paz.

Qualquer semelhança com as políticas externas de alguns países por aí não terá sido mera coincidência.

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Um Tremendo Furo

História do Peninha, de 1977.

A palavra “furo”, como quase todas elas, tem mais de um significado. Tudo depende do contexto, é claro. Em jornalismo, um “furo” é uma notícia inédita e exclusiva, aquela que ninguém mais tem para dar. Já em outros contextos ela pode significar um rasgo, buraco ou orifício, uma depressão que atravessa de um lado a outro de um objeto. Hoje, papai brincará com todas estas acepções da palavra.

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Além disso, para engrossar um pouco mais esse caldo, ele usará a noção dos sonhos proféticos que “emprestou” ao Peninha. Por ser totalmente “lado direito” do cérebro, o pato abilolado tem também, na visão de papai, uma intuição bastante desenvolvida expressada em sincronicidades e sonhos no mínimo curiosos que acabam se manifestando na realidade desperta. Esse, aliás, é um talento que ele próprio tinha e que associou também a outros dos seus personagens prediletos, como o Zé Carioca.

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A minha teoria quanto a esse assunto é a de que, em uma noite bem dormida, as pessoas que se lembram dos seus sonhos com facilidade (todo mundo sonha, mas nem todos se lembram deles ao acordar) imaginarão quase todos os desfechos possíveis para algum problema ou preocupação que esteja ocupando suas mentes. Isso acontece por causa da capacidade analítica do cérebro humano, que nunca para de funcionar, mesmo quando adormecido.

Assim, quando um dos desfechos imaginados acaba se realizando a pessoa pode se convencer de que previu os acontecimentos antecipadamente, e na maioria dos casos foi isso mesmo o que aconteceu, mas não por causa de algum fenômeno sobrenatural. A coisa só se complica quando aparecem, nos sonhos, informações das quais a pessoa não poderia ter conhecimento por vias normais. Mas esse é assunto para um outro dia.

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A Repórter Mais Simpática

História da Margarida, de 1974.

Toda profissão tem seus “ossos do ofício”, e o jornalismo não é diferente. A competição entre os profissionais pode ser acirrada, e nem todos jogam limpo.

A isto papai adiciona o mito da rivalidade entre mulheres, uma fantasia machista que estava muito arraigada na cultura brasileira da época, e que é, até hoje, encorajada como mais uma das maneiras que existem de se tentar controlar o comportamento das mulheres para benefício dos homens. (Lembrem-se, mulherada: isso não precisa ser assim, e nós ganhamos muito mais unidas do que separadas.)

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Há também o problema da competição que é organizada de propósito para que apenas o participante “da casa” tenha chance de ganhar, de preferência humilhando os adversários no processo. A tarefa do pessoal do bem da história será conseguir ter uma chance justa, usando de alguma engenhosidade e astúcia, mas de preferência sem trapacear também. Papai usou isso várias vezes, mais notoriamente em histórias como “A Copa do Morro é Nossa”, e outras semelhantes.

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O desafio principal da competição será fazer uma entrevista agradável com “a pessoa mais antipática de Patópolis”. Por sorte da Margarida, a definição de antipatia é algo um pouco subjetivo, e é a chance que ela terá de “virar o jogo” com sutileza e elegância.

São os “truques” do jornalismo para se conseguir informações, algumas vezes até mesmo não deixando que o objeto da entrevista perceba que está sendo entrevistado.

O editor J. Rata Zana e a repórter Malu Tadora (ambos de A Patranha) aparecem apenas nesta história e são, portanto, criações de papai.

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Quem Inventa É Inventor

História do Professor Pardal, publicada pela primeira vez em 1972.

Esta é uma peça promocional para a primeira publicação do Manual do Professor Pardal que, aliás, está sendo republicado por estes dias.

A trama parece simples: entrevistado para o jornal A Patada pela Margarida, ele começa a relembrar muitos de seus inventos passados, a maioria deles citados de histórias estrangeiras, e das de Carl Barks em especial.

Mas ao longo das páginas uma série de pequenos conflitos começa a se desenrolar. O primeiro é a insistência do Lampadinha em não se deixar esquecer. E não sem motivo, afinal, ele pode ser considerado ao mesmo tempo a maior e a mais tomada por óbvia invenção do Pardal. O genial robozinho, exatamente por estar sempre presente, meio que passa despercebido.

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O segundo conflito está na insistência do inventor em não responder diretamente às perguntas da repórter Margarida. Ela quer saber especificamente sobre inventos na área da culinária, atividade tida como tipicamente feminina. Mas em nenhum momento ele se pergunta o motivo do interesse dela especialmente em inventos culinários e, demonstrando um forte machismo, simplesmente prefere comentar coisas “mais importantes” (para ele, é claro), como se “coisas de mulher” fossem irrelevantes.

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Assim, ele não deveria ficar tão surpreso quando a matéria sobre ele e suas invenções é publicada em duas ou três linhas na seção de Arte Culinária do jornal. A lição que fica é nunca subestimar o jornalista, mesmo quando ela for uma mulher. Geralmente há uma pauta específica a respeitar, um tema a ser explorado, e um espaço limitado para publicação na página do jornal de papel.

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A Ocasião “faiz” O Ladrão

História do Urtigão, publicada pela primeira vez em 1983.

Esta história é uma variação sobre o tema de “Os Ladrões de Terras”, já comentada aqui. Novamente temos os repórteres Donald e Peninha bisbilhotando as terras próximas ao sítio para fazer uma reportagem para o jornal A Patada, de seu tio Patinhas.

E mais uma vez o Urtigão (pensa que) está às voltas com um ladrão, passando a atirar em tudo o que se move com seu trabuco. Para piorar o vizinho enxerido vem bisbilhotar, fornecendo o clássico suspeito óbvio demais que é usado em histórias policiais para desviar a atenção do leitor.

Urtigao ocasiao

Pistas falsas estão por todos os lados. Avidamente em busca de uma boa reportagem para justificar a demora em voltar para Patópolis os dois jornalistas que antes estavam pesquisando plantas medicinais, agora transformados em repórteres investigativos, vão chegando às suas próprias conclusões sobre os acontecimentos.

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O desfecho da história é feito mais engraçado justamente por causa da disparidade entre o que os “detetives” acham que deduziram e a realidade das coisas.

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Revista Vivere 26

Dois textos da Revista Vivere número 26, de fevereiro/março de 1983. Esta era uma revista local de Campinas, onde morávamos na época, publicada pela Class Serviços Editoriais, Publicidade e Gráfica Ltda.

Na década de 1980 papai escrevia sobre política para jornais e revistas da cidade, sempre com um tom crítico e irônico. Era o começo do fim da ditadura, e (apesar da “abertura” de 1979) a atividade não deixava de ser uma ousadia um tanto perigosa. Nunca se sabia se e quando um militarista mais exaltado se sentiria ofendido o suficiente para jogar um coquetel molotov em uma banca de revistas, ou até mesmo atentar contra a vida de algum jornalista.

Vivere 26

Um belo dia, meu pai me chamou e perguntou: “Lu, você gostaria de entrevistar a Vera Mossa, do Vôlei?”. (Na verdade, Vôlei nunca foi o meu esporte predileto, e eu vivia ensacando dedos, torcendo tornozelos e abrindo pulsos nas aulas de educação física da escola, mas eu nunca diria não a ele, ainda mais se era para ajudar no trabalho dele.) Assim, sentamos e decidimos juntos o que eu gostaria de perguntar, e o que eu deveria perguntar, e lá fui eu, papel, caneta e gravador, entrevistar a moça. Eu havia acabado de completar 15 anos de idade, e já estava entrevistando gente. Depois ele fez a transcrição e editou a entrevista, e o resultado é esse aí abaixo.

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Furos E Mais Furos

História de Donald e Peninha na redação de A Patada, escrita e publicada uma única vez em 1972.

Quer dizer, não exatamente os dois na redação de A Patada. O Peninha acaba de ser demitido, enquanto o Donald continua no emprego. Mas depois de um pouquinho de drama, eis que o Peninha encontra trabalho num novo jornal que apareceu na cidade, chamado “A Patolice”. Com a ajuda do Peninha, “tolice” é o que não vai faltar para publicar, certamente.

O interessante é que ele já tem uma certa fama no jornalismo da cidade, e o novo editor, que pode estar começando, mas conhece o mercado e tem tino para negócios, fica entusiasmadíssimo com ele. E não importa se a matéria que levou à demissão do jornalista abilolado não era verídica. O fato é que vendeu jornais, e para o novo chefe, é isso que importa.

Furos

Ao se esforçar para encontrar uma pauta sobre a qual escrever, o repórter acaba encontrando com o Donald que, inadvertidamente, dá a ele o “furo” no qual estava trabalhando. O fato é que o Donald está tão acostumado em ter o primo por perto, trabalhando com ele, que nem desconfia que está dando a dica para a concorrência. Nem mesmo quando A Patolice começa a dar furos e mais furos antes de A Patada, ele se toca. Donald e Patinhas só vão se dar conta do que está acontecendo depois de muito prejuízo para o jornal, o que força o velho muquirana a contratar o Peninha novamente.

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Esta é uma história que trata de coisas como ética e concorrência no jornalismo, e é também a primeira que papai escreveu sobre o tema. Ela ainda carrega uma marcada influência das histórias estrangeiras escritas sobre o Peninha Jornalista até aquele momento, e serve para estabelecer a identidade inicial do Peninha na profissão (e no imaginário de papai), inclusive justificando sua presença na redação de A Patada: além de ser criativo (mesmo que escreva tolices de vez em quando), o que ele escreve vende exemplares nas ruas e (na opinião de seu sempre supersticioso Tio Patinhas), “dá sorte” a ele e ao seu jornal.

E por falar em um milhão de exemplares vendidos, eu alegremente aceito a sua ajuda para tentar chegar lá. 😉 Meu livro pode ser encontrado no site da Editora Marsupial (http://www.lojamarsupial.com.br/ivan-saidenberg-o-homem-que-rabiscava) ou na Comix (http://www.comix.com.br/product_info.php?products_id=23238)