Escola De Heróis

História do Zé Carioca, de 1984.

“Quando está muito duro, mas muito duro mesmo, o Zé Carioca resolve dar duro”. As palavras de abertura da história descrevem muito bem a personalidade do Zé, que tem fama de folgado, mas que sabe trabalhar (ou algo parecido) quando precisa muito.

O Inducks nos informa que esta seria a última história de papai pela Editora Abril (provavelmente como contratado), mas já vimos que ele continuou escrevendo com menos frequência até 1988, como freelancer.

A história é bem criativa, e os novos heróis criados, hilários. O mais engraçado deles é o alter Ego do Afonsinho que, fantasiado de “Pato Aranha”, consegue escalar paredes após “tomar aulas” com uma lagartixa. Ao que parece o bobinho do Afonsinho é tão sugestionável que consegue convencer a si mesmo que é capaz de fazer qualquer coisa. Se o Zé Morcego Verde tivesse dito a ele que o ensinaria a voar, ele estaria voando só com o poder da mente. Além disso o Pato Aranha chega, inclusive, a usar o bordão “Bandidos Tremei” do Morcego Vermelho, o que só adiciona mais graça ainda à coisa toda.

Pato Aranha Afonsinho

Os outros heróis criados para esta história são o Robin Nestor, o Rei das Selvas Pedrão e o General América Zé Galo. A confusão fica completa com a presença dos cobradores da ANACOZECA, já que o Zé cobrou dos amigos pelas aulas e está com dinheiro no bolso.

O preço do curso, aliás, cinco mil Cruzeiros, pode soar salgado para os ouvidos atuais. Mas é só quando o Zé se refere ao preço pago pelo Zé Galo (10 mil) como “Dez Barões” que percebemos que não era tanto assim. Naqueles tempos de inflação galopante, 1000 unidades da moeda tinham o poder de compra de uma só. Tudo era precificado aos milhares de Cruzeiros.

Para uma “última” história, esta ainda se parece bastante com um “auge de carreira”, para mim. É uma pena que esses 10 anos de Disney tenham passado tão rápido, e terminado tão bruscamente. Se apenas as coisas tivessem sido diferentes, papai ainda teria décadas de boas histórias para criar.

Em 1993, com a retomada da colaboração, lá de Israel mesmo, papai voltaria ao tema da Escola de Heróis, em uma história ainda inédita:

HG004 (2)

O Grande Jogo

História sobre “como não se joga futebol”, de 1975.

Futebol é o esporte nacional, jogado por todos em todos os lugares do país, desde nos campos profissionais até nas mais amadoras várzeas. Assim, parece natural que se jogue futebol também no pátio das prisões brasileiras, e na prisão de Patópolis não é diferente.

Aqui temos uma partida entre os Irmãos Metralha e a Classe dos Profissionais Sem Classe. Uma vez que todos os personagens principais são vilões, é claro que a coisa toda não pode dar certo. “Escalado” para ser o juiz de um jogo “barra pesada” temos, novamente, o João Bafo de Onça, que já foi árbitro de um jogo do Zé Carioca.

Semelhante às histórias das bruxas, a trama aqui é cheia de inversões de valores, como se a cultura e forma de pensamento dos vilões fossem exatamente o contrário das que nós, pessoas boas, temos. Desse modo, o juiz entra em campo aos gritos de “ladrão” das arquibancadas, crente de que está abafando. Além disso, as regras do jogo lembram as do boxe: pancadas abaixo da linha da cintura são proibidas.

chute 1313

As trapaças abundam, como o juiz comprado (pelos dois times), a bola “roubada” pelo Vovô Metralha, literalmente (que a rouba e depois esquece), a viseira do Primo Cientista e até o “gol de bengala” do Vovô, entre outras maluquices. Cada personagem usa algum atributo ou característica sua para sua vantagem, ou para simplesmente trapacear. Há até quem fique feliz em ser expulso do jogo, e depois desapontado ao ver que está sendo devolvido à cela.

metralha expulso

Já o Vovô lembra com saudades das bolas de capotão, que foram as primeiras bolas de futebol já feitas, com gomos de couro e câmara de ar de bexiga de boi. Certamente, uma lembrança da sua juventude.

vovo bola

É claro que um jogo desses não pode terminar bem. Na verdade, ele nem termina direito. Mas a decisão do campeonato da penitenciária precisa acontecer, e a direção do presídio encontra uma solução criativa, que envolve outra “modalidade” do esporte que apresenta menos risco de dar em confusão.

Interessante é a participação de Metralhas “pouco comuns”, como o Tio Zero, o Supersensível 666 e até mesmo o Primo Cientista, todos eles personagens estrangeiros carinhosamente “resgatados” e “adotados” por papai.

O que Acontece Depois do Anúncio?

Pancada 18

Hoje falaremos de uma participação de papai na Revista Pancada número 18, de 1978, publicada pela Editora Abril. Trata-se de uma página de charges que fazem graça com alguns comerciais populares da TV naquela época. O argumento é de papai, e os desenhos de Rogério de Almeida Nogueira.

O primeiro é bastante significativo, pois é uma brincadeira não apenas com o famoso comercial do célebre Fiat 147, mas também com o meu tio Luiz Saidenberg, que é o criador do anúncio e ganhador com ele do Leão de Bronze no Festival de Veneza de 1978. O vídeo (qualidade meio ruim, mas é o que temos para hoje) do anúncio pode ser visto aqui.

Em seguida papai fez uma piada em cima de um comercial de cigarros, e por fim uma gozação com um comercial de pilhas protagonizado pelo jogador de futebol Pelé, que já então fazia muitos comerciais e estava se especializando em falar abobrinhas.

Pancada 18 depois anuncio

Robin Pardal

História do Professor Pardal, de 1985.

Às voltas com uma grande e complicada encomenda, o nosso inventor predileto resolve dar uma voltinha no tempo, para espairecer. Assim, ele vai com o Lampadinha aos tempos de Robin Hood para uma visita, e também para pesquisar ideias para o seu projeto.

Esta é mais uma mistura de personagens de universos diferentes, daquelas que papai gostava tanto de fazer. E eu tenho a nítida impressão que as histórias que papai fez após passar de contratado a freelancer da Abril, de 1985 a 1988, têm uma atmosfera de “finalização”, onde papai (sabendo que essas seriam suas últimas histórias por um longo tempo, talvez até para sempre) tenta ver terminadas algumas histórias Disney que aparentemente não tem um final definido.

Por exemplo, na história do Biquinho na Terra do Nunca que comentei outro dia, o patinho chega a retirar o relógio da barriga do crocodilo, alterando seriamente a “tradição” daquele reino encantado. Até mesmo porque Peter Pan e os Meninos Perdidos estão aparentemente “parados no tempo”, numa eterna situação de luta com os piratas, que não acaba nunca. Mas depois da passagem do Biquinho por lá, aquela Terra nunca mais será a mesma.

Do mesmo modo, a história tradicional do Robin Hood está sempre parada num tempo em que o Rei Ricardo Coração de Leão está lutando nas Cruzadas, e a Inglaterra está entregue a um governo “do mal”. Nesta história que comento hoje, o Rei Ricardo finalmente volta da Terra Santa para reivindicar seu trono, efetivamente pondo um fim nos desmandos do Príncipe João. Desse modo, o final que todos passaram décadas esperando acontece, e a história dos Verdes da Floresta pode chegar à sua conclusão.

Robin Hood Pardal Rei

Mas antes que isso possa acontecer, o Pardal ainda tem que enfrentar os soldados do Príncipe João, e ajudar os amigos do Robin a libertá-lo das masmorras no castelo. O Pardal então elabora um caprichado plano, mas tomando o cuidado de usar apenas tecnologias da época, nada mirabolante demais, mas certamente criativo e eficiente. A única “tecnologia mirabolante” presente é o Lampadinha, a quem os habitantes da Inglaterra medieval têm uma certa dificuldade de compreender, chamando-o de “coisinha”, “brinquedo” e até de “rato estranho”, para a extrema irritação do robozinho.

Robin Hood Lampadinha

O plano dá certo, é claro, mas com a chegada do Rei Ricardo o Pardal se vê forçado a voltar sem ser visto ao século XX onde, com as ideias que coletou em sua aventura, consegue finalmente terminar o seu projeto de um modo bastante curioso.

Duelo Ao Pôr Do Sol

História do Pena Kid, de 1975.

O título desta história se refere a um filme de faroeste americano de 1946 (Duelo ao Sol), mas a trama em si é meio vagamente inspirada na história do Duelo de O.K. Corral, na cidade de Tombstone, Arizona, um acontecimento verídico do ano de 1881 que ficou famoso nos anos 1930 e virou filme em 1957.

No plano da história do Pena Kid o motivo para o duelo é bem fútil, só mesmo porque os bandidos (os irmãos Clanton) queriam provocar um a qualquer custo, para encobrir um plano secundário, o de chamar os irmãos Metraltons (Metralhas) para roubar o banco da cidade, de propriedade do Banqueiro Patatinhas (Tio Patinhas), enquanto todos assistem ao “espetáculo”.

No plano da história do Peninha, que é quem está criando e desenhando a história do Pena Kid na redação de A Patada sob os palpites do Tio Patinhas, esta é uma verdadeira aula de quadrinhos. Para começar, o autor é o “deus” da história, e pode fazer acontecer o que ele bem entender.

Uma característica das histórias do Pena Kid é que todos sempre estão armados, há muitas provocações e disputas, mas quase nunca é disparado tiro nenhum. Aqui não é diferente. O “autor” chega inclusive a sumir com as armas de todos, para a surpresa geral de seus próprios personagens, aliás. E a bomba que deveria explodir o banco também falha. A ideia é que Pacifica City seja realmente fiel ao seu nome, mesmo que para isso alguns absurdos precisem acontecer.

Pena Kid duelo

Desta vez os palpites do Patinhas não estão descabidos demais. Primeiro, ele pede que a situação da história “Pena Kid e Xaxam”, onde ninguém queria sacar primeiro e mandava o outro sacar, não se repita. Depois pede um duelo “diferente”, algo incomum para histórias de faroeste, e por fim exige um final criativo para a história. O Peninha atende os três pedidos, mas do seu jeito, é claro, como sempre.

E há, também, as piadas internas com o pessoal da redação. Alguns deles aparecem como figurantes (sempre lembrando que as construções da cidade têm um quê de cenário de cinema, e algumas delas são apenas fachadas escoradas por varas de madeira), e nesta história em particular podemos ver a caricatura Izomar Guilherme, de roupa de couro com franjas. O porquinho ao seu lado pode muito bem ser o Carlos Herrero, desenhista desta história, e o loirinho baixinho também não me é estranho, e já apareceu em outras histórias que eu inclusive já comentei aqui.

Pena Kid Izomar

A série de histórias do Pena Kid ilustra bem, também, como na maior parte do tempo era papai que “mandava” no trabalho do desenhista. Tudo já estava no “rafe” que o Mestre Said fazia a lápis, incluindo os detalhes que caracterizam o conceito da história como algo passado num “set” de cinema (como as fachadas escoradas e os remendos no “céu”), e até mesmo a maioria das caricaturas dos colegas. Pouco restava ao desenhista além de “passar a limpo e a tinta” o rafe original, com pouca coisa a adicionar, e não era só o caso do Herrero, mas também do Canini e de todos os outros desenhistas que finalizavam as histórias do meu pai.

O Rocambole Que Deu Bolo

História do Morcego vermelho, de 1974.

O Peninha, quer dizer, o Morcego, isto é…(às vezes ele mesmo se confunde), está às voltas com um misterioso ladrão de rocamboles que está atacando as padarias e docerias de Patópolis.

Depois de conseguir causar mais confusão que o bandido, com seus pulos errados, o nosso herói vai ver o Coronel Cintra, que também está preocupado com um roubo. Só que este não é de doces, mas sim de um valioso diamante, o “Estrela Matutina”.

Esse diamante não existe no mundo real, mas o nome é bastante sugestivo. No antigo testamento da bíblia, a “Estrela Matutina” (um outro nome para o planeta Vênus, que costuma brilhar mais forte no céu logo antes do nascer do Sol) é uma referência ao antigo império da Babilônia. Após o advento do Cristianismo, essa passagem passou a se referir também ao Diabo, pois Lúcifer (o Portador da Luz) é o nome da estrela nessa passagem da Bíblia como foi traduzida para o Latim.

Mas essas são considerações minhas, e não creio que papai tenha pensado em tudo isso ao dar nome ao diamante da história. Ele só queria um nome sugestivo, algo que soasse familiar aos ouvidos dos leitores, e como vários dos grandes diamantes famosos têm “estrela” no nome (por exemplo, Estrela da África e Estrela do Sul), ele então se saiu com este.

Em todo caso, no momento em que o “caldo” do enredo engrossa, o leitor atento se sente convidado a solucionar o mistério por si mesmo. A pista principal (e o elo de ligação) é a descrição do ladrão, que é a mesma nos dois casos de roubo. À exceção da risada, o bandido alto e magro se parece bastante com o Mancha negra fantasiado de pirata. O personagem, na história, pode ser um mestre dos disfarces e despistar a todos com eles, mas o nosso leitor que é fã das histórias de papai não se deixou enganar por um minuto sequer.

ladrao de rocamboles

Resta entender, é claro, qual é a ligação do diamante roubado com os rocamboles, e por quê o Mancha está se dando a esse trabalho todo. Esse é o ponto que “costura” a história toda, unindo os dois casos misteriosos de roubo e solucionando o mistério, mas se eu contar, perde a graça.

A Laranjada Mecânica

História do Professor Pardal, de 1974.

Esta história é um exemplo de como se faz comédia com elementos de livros e filmes de terror. O título da história é uma referência a “A Laranja Mecânica”, filme de 1971 de Stanley Kubrick, adaptado do romance de Anthony Burgess de 1962. Já a máquina em si tem qualquer coisa do Frankenstein de Mary Shelley, de 1818, da lenda do Golem de Praga, ou até mesmo da fábula do Aprendiz de Feiticeiro, no sentido que a engenhoca criada para ser útil e produzir laranjada (sem, aliás, espremer uma única laranja que se possa ver) acaba se voltando contra o seu criador e inundando a cidade.

Como, exatamente, uma máquina relativamente pequena consegue produzir todo esse mar de suco permanece um mistério.

laranjada mecanica gaviao

Mas mais do que tudo, a máquina se volta mais contra o ladrão que a roubou, do que realmente contra o seu criador, que sabe como desligá-la. Neste caso, o Professor Gavião estaria então “fazendo o papel” de Aprendiz de Feiticeiro, mesmo, com a inundação e tudo.

Detalhes interessantes são a “sala das pequenas preocupações”, onde o Lampadinha se preocupa andando em círculos até fazer um buraco no chão, no estilo Tio Patinhas, e as camas flutuantes. A do Pardal se mantém no ar por meio do que parece ser jatos de ar comprimido, enquanto que a do Lampadinha é sustentada por bexigas de hélio, do tipo usado em festas de aniversário de criança.

laranjada mecanica lampadinha